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INSCRIÇÕES DIDÁTICAS ADAPTADAS PARA ESTUDANTES CEGOS: EXEMPLO EM UMA UNIDADE DIDÁTICA DE CIRCUITOS ELÉTRICOS

Lucas Mateus De Andrade, Helena Libardi, Ulisses Azevedo Leitão, Lucas Mateus De Andrade

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXII
Ano
2017
Data
26/01/2017
Linha de pesquisa
Equidade, Inclusão Social E Estudos Culturais E O Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## INSCRIÇÕES DIDÁTICAS ADAPTADAS PARA ESTUDANTES CEGOS: EXEMPLO EM UMA UNIDADE DIDÁTICA DE CIRCUITOS ELÉTRICOS

Lucas Mateus de Andrade 1 , Helena Libardi , Ulisses Azevedo Leitão 2 3

1 UFLA/MNPEF-SBF/E. E. Zilda Arns Neumann, lucasandrade.fisica@gmail.com

2 UFLA/DEX, hlibardi@dex.ufla.br 3 UFLA/DEX, ulisses@dex.ufla.br

## Resumo

As adaptações de representações visuais usadas no ensino de ciências para estudantes cegos têm sido objeto de estudo para alguns pesquisadores nos últimos anos. Iniciamos este artigo apresentando o enfoque de alguns trabalhos, em ordem cronológica, que foram publicados nas atas dos eventos de pesquisa em ensino de ciências, mostrando quais as representações visuais foram adaptadas. Nossa intenção, entretanto, não é fazer uma análise dos métodos de adaptação usados em cada investigação, mas apenas mostrar o caminho percorrido durante a construção do referencial teórico para este trabalho e a motivação para denominar as representações visuais como inscrições didáticas. Após dedicar uma seção para o conceito de inscrições didáticas, nós apresentaremos uma inscrição didática e sua adaptação. Esta inscrição didática foi retirada de uma unidade didática sobre circuitos elétricos para estudantes cegos, elaborada no Mestrado Profissional em Ensino de Física. As adaptações das inscrições didáticas da unidade didática foram feitas em um software gratuito, que oferece ferramentas que possibilitam desenhar figuras em pontos e escrever as palavras em braile. Posteriormente, as representações feitas no software podem ser reproduzidas em uma impressora braile. As considerações finais apresentam algumas observações que podem servir como contribuição para aqueles que pretendem desenvolver atividades com estudantes cegos que contenham inscrições didáticas.

Palavras-chave : Ensino de Física; Estudantes cegos; Inscrições didáticas.

## Introdução

O Ensino das Ciências Naturais se apoia fortemente no uso de representações visuais. Na sala de aula, o professor dificilmente consegue dissociar a explicação de um fenômeno físico de uma representação no quadro. Nas aulas de Física, em especial, uma característica muito comum é o uso desenhos, diagramas, gráficos, tabelas, além de outras representações visuais. São recursos não verbais que aparecem junto a textos para potencializar a compreensão e assimilação do estudante. Esses elementos de texto não verbal estarão identificados neste trabalho como inscrições didáticas. Assim, desenhos, diagramas, gráficos e tabelas ou qualquer tipo de representação visual serão identificados, daqui em diante, como inscrições didáticas (ALVES, 2011).

A utilização conjunta desses recursos da comunicação em texto verbal e não verbal está presente em situações problema de várias disciplinas, como Física, Biologia, Química, Matemática e também nas avaliações em sala de aula, em provas de concursos e no Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), sendo este último um

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23 a 27 de janeiro de 2017

dos principais acessos para um curso de nível superior (ANDRADE e colaboradores, 2012).

Alguns tipos de inscrições didáticas usadas nas questões do ENEM já estão sendo adaptadas em figuras de alto relevo, utilizando pontos semelhantes aos usados no sistema braile, sendo entregues aos estudantes para ser interpretadas com a ajuda de um ledor. Entretanto, são poucas escolas em que esse tipo recurso não verbal é ensinado para os estudantes cegos. Apesar de ser um recurso muito escasso no ensino de estudantes cegos, os Parâmetros Curriculares Nacionais (BRASIL, 1998; CAMARGO, 2005) informam que adaptações curriculares e didáticas devem ser feitas segundo as necessidades do estudante deficiente visual, sugerindo que os textos sejam transcritos para o braile e que, quando possível, haja ilustrações táteis para melhorar a compreensão dos estudantes.

Nos últimos anos, alguns pesquisadores têm se dedicado a estudar questões relacionadas às adaptações das inscrições didáticas utilizadas no ensino de ciências para estudantes cegos, fazendo importantes apontamentos para pesquisas futuras, que vão desde montagens em alto relevo, análise de relevância das representações para a compreensão do texto nos livros didáticos e avaliações, até uma possível padronização na adaptação de figuras. Algumas pesquisas relacionadas às representações visuais são apresentadas a seguir.

Além desta revisão bibliográfica, apresentamos uma inscrição didática que utilizamos em uma unidade didática sobre circuitos elétricos para estudantes cegos, quando destacamos a importância da adaptação de representações visuais para o ensino de estudantes cegos. Esta unidade didática foi elaborada no Mestrado Profissional em Ensino de Física e desenvolvida em um estabelecimento público especializado no atendimento de pessoas deficientes visuais, localizado em Belo Horizonte.

## Representações visuais para estudantes cegos

A seguir apresentamos alguns trabalhos de pesquisadores brasileiros que foram publicados nas atas dos eventos de pesquisa em ensino de ciências entre 2008 e 2013 sobre o Ensino das Ciências Naturais que fizeram adaptações de inscrições didáticas para de estudantes deficientes visuais.

Camargo e colaboradores (2008) sugerem maneiras de ensinar Óptica para estudantes cegos e com baixa visão. Os autores descrevem como inscrições didáticas e montagens tátil-visuais de fenômenos ópticos, construídos em alto relevo com materiais de baixo custo, podem ser utilizados com alunos cegos e videntes, para uma aula interativa e inclusiva.

Silva e colaboradores (2010) contribuíram com o ensino de Química orgânica através da construção de uma série de maquetes dos compostos moleculares. As inscrições didáticas utilizadas como referência para construir as maquetes estavam contidas em um livro didático de Química.

Agora para o Ensino de Física, Silva e colaboradores (2011) propuseram, após analisar alguns livros didáticos de Física em braile, que as representações visuais fossem descritas para os estudantes cegos e que a descrição tivesse a contribuição dos próprios estudantes. Dessa forma, os aspectos mais relevantes para uma descrição eficaz seriam levados em consideração.

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Andrade e colaboradores (2012) apontam em seu trabalho que a elaboração de um método que contribua para a descrição de inscrições didáticas para estudantes cegos é muito relevante, devido a dificuldade relatada pelos estudantes cegos nas entrevistas. Segundo os autores, a dificuldade para compreender as representações visuais contidas nos livros didáticos e avaliações ficava evidente devido a precariedade de acesso a elas ou da inexistência das mesmas, que era o que ocorria na maioria das vezes.

Do ano de 2013 destacamos três artigos. Páscoa e Dickman (2013) apresentam uma maneira de adaptar inscrições didáticas de física ondulatória para estudantes cegos utilizando massinha de modelar e filetes de madeira. As inscrições didáticas utilizadas como referência para construir as adaptações usando massinha estavam contidas em um livro didático de Física. Manske e Dickman (2013), que apresentaram resultados de uma pesquisa acerca da formação dos professores de Física em relação à inclusão de estudantes cegos e da utilização de materiais em alto relevo produzidos através da thermoformagem . Segundo os autores, nenhum i dos professores entrevistados conhecia materiais didáticos em thermoform. Por fim, Martins e colaboradores (2013), que tiveram como objetivo a padronização na representação de figuras em braile, elaborando e testando um conjunto de objetos e seus respectivos símbolos, utilizados frequentemente no ensino de Mecânica.

Diniz e colaboradores (2015) investigaram o uso de adaptações de inscrições didáticas em questões de biologia do ENEM para possibilitar a inclusão do estudante cego. As adaptações foram produzidas no Instituto Benjamin Constant utilizando a técnica de thermoform e a técnica de alto relevo e diferenciação de texturas.

## Inscrições didáticas

As atividades e avaliações em sala de aula, provas de concurso e vestibular podem conter diferentes tipos textos não verbais, como fotografias, desenhos, diagramas, gráficos e tabelas. Segundo Alves (2011), 'tais recursos vêm sendo denominados na literatura como inscrições didáticas, um termo que remete ao conceito de inscrições e aparelhos inscritores de Bruno Latour'.

A leitura da dissertação de Alves (2011) permitiu um primeiro contato com a terminologia de inscrições didáticas. A grande dependência de nosso trabalho desses elementos não verbais nos levou a usar essa terminologia. Segundo Latour e Woolgar, (1997, apud Alves, 2011, p.29), uma inscrição é definida,

inicialmente, como um registro sintético de informações e conhecimentos produzidos em um laboratório de pesquisa, que pode se apresentar na forma de fluxogramas, números de registro, espectros ou gráficos, por exemplo.

Para Paula (2004, apud PAULA e ALVES, 2009), uma inscrição não deve ser compreendida simplesmente como uma maneira de transferir informação. As inscrições tratam-se,

de um conjunto de ações por meio das quais se dá a criação de ordem em um universo caótico de acontecimentos que não passariam de um amontoado de sensações desordenadas e desprovidas de significado, sem o auxílio dos conceitos e teorias que dão sentido às inscrições e aos conhecimentos gerados a partir delas.

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Segundo Paula e Alves (2009), assim como as inscrições desempenham seu papel nas ciências, as inscrições didáticas têm a função de

de recriar uma ordem diretamente derivada dos mundos concebidos pelas ciências, de modo a permitir o acesso dos estudantes a esses mundos. Trata-se de uma ferramenta cultural criada e utilizada nas ciências naturais e adaptada para promover a educação em ciências.

Sabendo da importância das inscrições didáticas no ensino de ciências e da decorrente dificuldade do acesso deste recurso para os estudantes cegos, procuramos estratégias para ajudar estes estudantes a transitar entre alguns tipos de inscrições, que podem ser encontradas nas aulas de Física, livros didáticos, nas provas de vestibulares e concursos e no ENEM.

## Inscrição didática adaptada

Apresentamos a seguir uma adaptação de inscrição didática elaborada que faz parte de uma unidade didática sobre circuitos elétricos para estudantes cegos e analisamos a interação do estudante deficiente visual com a adaptação elaborada. A adaptação foi feita em um software gratuito que permite desenhar em pontos e escrever as palavras em braile. Esta adaptação é de um tipo de inscrição didática muito usada no ensino de Ciências.

O desenvolvimento da unidade didática adaptada para estudantes cegos foi no Instituto São Rafael, um estabelecimento público estadual especializado no atendimento de pessoas deficientes visuais, que está localizado em Belo Horizonte. Além de oferecer o ensino especial para estudantes cegos até o 9º ano do ensino fundamental regular e na modalidade de EJA, o instituto proporciona o atendimento educacional especializado para estudantes cegos de outras escolas em uma sala de recursos. Essa instituição é uma referência na transcrição e adaptações de materiais didáticos para estudantes cegos e com baixa visão, atendendo várias escolas públicas e privadas que necessitam desse serviço.

Mostramos como exemplo a Tabela 1, reproduzida a seguir, que é um tipo de inscrição didática que deve ser completada usando as palavras maior ou menor. Ela compõe uma atividade cujo objetivo é analisar o chuveiro elétrico, comparando situações de aquecimento da água de acordo com as posições da chave que permite regular a temperatura: verão e inverno, com a potência elétrica, a corrente elétrica e a resistência elétrica, tendo esta última seu valor alterando pela variação no comprimento do resistor.

Tabela 01: Inscrição didática retirada de uma unidade didática sobre circuitos elétricos para estudantes cegos. Fonte: Apostila de circuitos elétricos da Coordenação de Ciências - CEFET MG.

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Essa inscrição foi retirada de uma apostila de atividades investigativas sobre circuitos elétricos da Coordenação de Ciências do Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais e a adaptação é mostrada na Figura 1. As primeiras adaptações das inscrições didáticas foram feitas por um profissional revisor braile no Instituto São Rafael, usando o software QuickTac ™, que possui ferramentas que possibilitam desenhar figuras em pontos e escrever as palavras em braile ii . A inscrição didática feita no software pode ser reproduzida em braile por impressoras do tipo embosser. A adaptação apresentada na Figura 1, foi feita pelos autores.

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Figura 01: Exemplo de uma inscrição didática adaptada. Fonte: Elaborada pelos autores.

A adaptação da inscrição didática mostrada na Figura 1 manteve a fidelidade com inscrição original. Todas as palavras nas linhas e colunas foram escritas em braile, com espaço suficiente para o estudante perceber a representação das linhas que definem o formato da tabela. Assim, o estudante pode fazer a leitura. Em primeiro lugar, a leitura da representação da tabela de três colunas e cinco linhas. Após a identificação da tabela, o estudante pode ler as palavras escritas em braile e, por último, fazer a relação entre linha e coluna. Dessa forma, foi possível escrever as palavras maior e menor em cada espaço.

Esta adaptação é apenas uma das utilizadas na unidade didática. Para elaborar um modelo semiótico para analisar os atos de significação feitos pelos estudantes cegos em inscrições didáticas adaptadas, usaremos como base o trabalho de Paula e Alves (2009).

## Considerações Finais

Através da pesquisa bibliográfica foi possível observar a necessidade e importância da adaptação de inscrições didáticas para garantir a inclusão de estudantes cegos em todos os níveis de ensino. Com nosso exemplo verificamos que o uso do software gratuito QuickTac atendeu as expectativas para adaptar as inscrições didáticas em nossa unidade didática.

É importante enfatizar a necessidade de planejar bem o tempo de aula, com atividades curtas, de modo a adequar a aula à realidade dos estudantes cegos, pois

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esses estudantes requerem um tempo maior para a aquisição das informações necessárias para a construção do conhecimento, em acordo com Medeiros et al (2007). Constamos também a necessidade de uma pesquisa mais sistemática acerca dos símbolos a ser utilizados no Ensino de Física para estudantes cegos, corroborando o trabalho de Martins e colaboradores (2013).

Como continuidade deste trabalho, estamos desenvolvendo uma adaptação de um modelo semiótico para analisar os atos de significação feitos pelos estudantes cegos em inscrições didáticas adaptadas. Um estudo para adaptar esse modelo para os estudantes cegos contribuiria no avanço da utilização de vários tipos de inscrições didáticas para estudantes cegos.

## Referências

ALVES, E. G. Um estudo multimodal de textos didáticos sobre o efeito fotoelétrico. Belo Horizonte. 2011. Dissertação. Faculdade de Educação Universidade Federal de Minas Gerais.

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Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.