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O QUE PENSO SOBRE A DISCIPLINA FÍSICA E A ESCOLHA DA CARREIRA PROFISSIONAL: RECORTE DE GÊNERO E ÉTNICO-RACIAL

Milena De Souza, Carolina Rodrigues Souza

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXII
Ano
2017
Data
26/01/2017
Linha de pesquisa
Equidade, Inclusão Social E Estudos Culturais E O Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## O QUE PENSO SOBRE A DISCIPLINA FÍSICA E A ESCOLHA DA CARREIRA PROFISSIONAL: RECORTE DE GÊNERO E E ÉTNICO-RACIAL

## Milena de Souza 1 , Carolina Rodrigues Souza 2

1 Governo do Estado de São Paulo/Escola Estadual Gabriel Félix do Amaral,

ds.milena@yahoo.com.br

carolinasouza@ufscar.br

## Resumo

O presente trabalho apresenta uma pesquisa feita com alunos do Ensino Médio do Estado de São Paulo da Escola Estadual Gabriel Félix do Amaral, com o objetivo de analisar as escolhas profissionais dos participantes e suas relações com a disciplina de física, levandose em conta duas categorias: o recorte de gênero e étnico-racial. Para isso foi utilizado como instrumento metodológico para coleta de dados um questionário estruturado, contendo perguntas abertas e fechadas. A análise dos dados foi realizada por meio da verificação dos questionários e da literatura de base, que discute o interesse pela área de ciências exatas e tecnológica e o recorte racial e de gênero. Como resultado, notou-se claramente a situação descrita na literatura, onde homens brancos aparecem como maioria nas carreiras científicas e tecnológicas, nos fazendo questionar sobre a desigualdade e a falta de representatividade de negros e mulheres nas carreiras científicas. Estaria a falta ou perda de interesse diretamente ligada à falta de representatividade na área?

Palavras-chave: Física, étnico-racial, gênero e carreira

## A falta de representatividade de mulheres e negros nas carreiras científicas e tecnológicas

Atualmente no Brasil, um país com grande histórico de miscigenação, a população negra ultrapassa os 50%. E embora compreenda grande número, dados estatísticos mostram que a participação de negros nas carreiras científicas e tecnológicas ainda é muito baixa se comparado aos indivíduos autodeclarados brancos (BELTRÃO; TEIXEIRA, 2004). O mesmo acontece com o gênero feminino, que possui baixa presença em carreiras científicas (BARBOSA, 2015; QUEIROZ; CARVALHO; MOREIRA, 2014).

A questão sobre a falta de representatividade desses grupos nas carreiras vem sendo discutida no meio acadêmico como consequência das lutas por igualdade do movimento negro e do movimento feminista. Para Artes (2015), a quantificação das diferenças entre os grupos é um fator importante para a discussão sobre a desigualdade que os permeia.

Nos últimos anos, a presença reduzida de negros no ensino superior tem ocupado um espaço cada vez mais expressivo nas discussões das agendas de políticas públicas, do movimento social e da academia. A partir de 2004, as políticas de ação afirmativa, predominantemente as cotas (no setor público) e as bolsas de estudo (no setor privado, em parte financiadas pelo Prouni) têm alterado, mesmo que de forma lenta, o perfil de cor/raça do

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23 a 27 de janeiro de 2017

público que acessa, frequenta e completa o ensino superior. (ARTES, A. C. A; 2015, p.2)

Como consequência das discussões, em 2013 no Brasil criou-se uma chamada pública para ampliar o número de estudantes do gênero feminino nas carreiras de Ciências Exatas, Engenharias e Computação:

Em outubro de 2013, o Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), a Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República (SPM-PR) e a Petrobras lançaram uma chamada pública meninas e Jovens fazendo Ciências Exatas, Engenharias e Computação (Nº 18/2013 MCTI/CNPq/SPM-PR/Petrobras), com o objetivo de ampliar o número de estudantes do sexo feminino nas carreiras de Ciências Exatas, Engenharias e Computação, através do fomento de projetos que pudessem contribuir de fora significativa para o desenvolvimento científico e tecnológico e para a inovação no País. (QUEIROZ; CARVALHO; MOREIRA, 2014)

De acordo com Beltrão e Teixeira (2004), o aumento do acesso ao ensino superior nos últimos dez anos de mulheres e negros, ocorre em determinadas carreiras de menor prestígio na hierarquia das profissões. Fundamentados em Bordieau, os autores apresentam tais carreiras, ditas femininas, como profissões que sugerem o prolongamento das funções domésticas (BELTRÃO; TEIXEIRA, 2004).

A escolha da carreira pode estar associada à diversos fatores. Coutrim e Cunha (2011) retratam que o meio social em que os jovens vivem representam importante fonte de conhecimento e informação, e desse modo poderiam influenciar também a escolha profissional.

Diante desses aspectos, vale atentar para os cursos de física, que possuem no geral uma relação candidato/vaga baixa, um histórico de dificuldade intrínseco ao curso e indivíduos do gênero masculino como público majoritário (AGRELLO; GARG, 2009; RODRIGUES; TEIXEIRA, 2009; BARBOSA; LIMA, 2013).

Assim, a presente pesquisa tem como objetivo analisar as escolhas profissionais de jovens do Ensino Médio da Escola Estadual Gabriel Félix do Amaral e suas relações com a disciplina de física, levando-se em conta duas categoias: o recorte de gênero e étnico racial. Justificando-se na necessidade de evidenciar e compreender a falta de representatividade desses grupos nos cursos de ciências exatas, em especial nos cursos de física.

A motivação para o estudo dessa temática possui ressonância com minha vivência pessoal enquanto mulher negra, recém formada no curso de Licenciatura em Física pela Universidade Federal de São Carlos e professora da rede pública do Estado de São Paulo, assim como pelos estudos que discutem a igualdade de gênero e étnico-racial nas ciências exatas (BARBOSA; LIMA, 2013; ARTES, 2015; ROSA, 2015).

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## Metodologia

Para alcançar os objetivos citados utilizou-se uma abordagem de pesquisa qualitativa, que segundo Chizzotti (2003), se fundamenta na interpretação da relação entre fatos, pessoas e locais que constituem objetos de pesquisa.

Procurou-se elaborar um recorte metodológico, no qual os participantes pudessem refletir sobre a sua relação com o ensino de física e sua possível escolha profissional, resgatando possíveis influências nessa escolha, como por exemplo gosto pessoal ou condição socioeconômica.

Dessa forma, foi utilizado como instrumentos metodológicos para coleta de dados um questionário estruturado, contendo 8 questões, 5 fechadas e 3 questões abertas, além de um espaço destinado às informações pessoais.

O questionário foi aplicado com alunos do Ensino Médio da rede pública da Escola Estadual Gabriel Félix do Amaral. E junto ao questionário, foi anexado um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) no qual o aluno e seu responsável autorizavam a utilização dos dados da pesquisa.

Para selecionar os participantes que responderam os questionários optou-se pela abordagem direta. Em uma semana de trabalho a pesquisadora, que leciona física e matemática nessa mesma escola, passou nas séries do ensino médio convidando os alunos a participarem da pesquisa, deixando claro os objetivos e métodos utilizados. Para aqueles que aceitaram foi combinada uma data para sua devolução. Essa abordagem ocorreu durante 10 dias, no período da manhã.

A coleta de dados, para essa pesquisa, com alunos do ensino médio não ocorreu de forma simples e linear. Do total de 90 questionários entregues, somente 32 entregaram na data combinada. Muitos questionários acabaram sendo perdidos ou deixados em casa, mesmo por aqueles que se comprometeram a participar.

A análise dos dados foi realizada a partir da verificação dos questionários e da literatura de base, que discute o interesse pela área de ciências exatas e tecnológica e o recorte racial e de gênero. A partir da leitura detalhada dos questionários, foram agrupadas as respostas dos participantes do gênero masculino: autodeclarados brancos e autodeclarados negros e pardos e as respostas dos participantes do gênero feminino: autodeclaradas brancas e autodeclaradas negras e pardas.

## Levantamento e Análise de Dados

A pesquisa foi realizada durante um período de 10 dias, no ano de 2016, com alunos do ensino médio da Escola Estadual Professor Félix do Amaral.

No total, foram coletados 32 questionários, sendo estes numerados entre A1 e A32 para facilitar a análise e compreensão dos dados.

Na primeira seção do questionário, o aluno deveria informar dados pessoais, como idade, série, número de irmãos e declaração de gênero e étnico-racial.

Aqui optou-se por utilizar o termo étnico-racial, favorecendo uma abordagem que remete ao social e ao cultural, diferente do termo raça que faz alusão ao conceito biológico (GOMES, 2005). Pela mesma razão, o termo gênero foi escolhido, priorizando uma condição construída culturalmente (BUTLER, 2005).

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Dos 32 questionários, 15 foram respondidos por indivíduos autodeclarados pardos, 2 autodeclarados negros e 15 autodeclarados brancos. Sendo 21 participantes do gênero feminino, 10 do gênero masculino e 1 sem identificação de gênero.

A média de irmãos entre os brancos foi de aproximadamente 1, enquanto que dos participantes negros e pardos foi de aproximadamente 2.

Na segunda seção, foi questionado ao aluno sobre sua relação com a disciplina de física e seu interesse pela mesma. Dos 6 participantes brancos do gênero masculino, 3 responderam gostar de física e 3 responderam gostar muito, onde 3 possuem interesse apenas por curiosidade e 3 possuem muito interesse e pretendem trabalhar em uma profissão na qual a física seja indispensável.

Para os participantes negros e pardos do gênero masculino, 2 gostam muito, 1 se sente indiferente e 1 assinalou a opção 'outro' mencionando gostar um pouco. Em relação ao interesse desses participantes, 3 possuem interesse apenas por curiosidade, e 1 possui muito interesse e pretende trabalhar em uma profissão na qual a física seja indispensável.

Gráfico1: Participantes do gênero masculino e sua relação com a disciplina física

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Entre os participantes brancos do gênero feminino, 7 dizem gostar e 2 gostam muito, sendo que desses 9 todos possuem interesse apenas por curiosidade.

Para os participantes negros do mesmo gênero 3 responderam gostar, 6 responderam não gostar, 2 se sentem indiferentes e 1 assinalou a opção 'outros' mencionando ter dificuldades para entender a matéria. Quanto ao interesse, 5 responderam ter interesse apenas por curiosisdade e 7 responderam não ter interesse.

Gráfico 02: Participantes do gênero feminino e sua relação com a disciplina física

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A terceira seção do questionário, tratava sobre a intenção profissional dos alunos participantes. Dos 32 alunos, todos pretendem continuar estudando.

Em relação a opção de carreira a seguir, entre os participantes brancos do gênero masculino, aparecem como resposta os seguintes cursos: física (1), professor (1), música (1), engenharia civil (1), engenharia da computação (1), medicina (1), audiovisual (1), engenharia mecânica (1) e engenharia elétrica (1). E entre os participantes negros do mesmo gênero aparecem os seguintes cursos: psicologia (1), engenharia mecânica (1), desenho industrial (1), pedagogia (1) e ator (1).

Já entre os participantes do gênero feminino autodeclarados brancos, aparecem como resposta como possível carreira a seguir os cursos: medicina (2), medicina veterinária (2), relações internacionais (1), enfermagem (1), psicologia (2), biologia (1), bioquímica (1), fisioterapia (1), artes cênicas (1) e pedagogia (1). Como resposta para a mesma pergunta, os participantes autodeclarados negros, do gênero feminino, indicaram: enfermagem (1), psicologia (1), publicidade (1), ciências biológicas (1), medicina veterinária (3), medicina (3), nutricionista, direito (1) e fisioterapia (1).

- O participante que não declarou gênero pretende seguir carreira na gestão de recursos humanos.
- É importante observar que dos 21 participantes do gênero feminino apenas um tem como opção seguir carreira na área de exatas (bioquímica). Na quinta pergunta, quando questionados sobre a quais fatores atribuem sua intenção profissional, dos participantes autodeclarados brancos, 12 responderam gosto pessoal, 2 responderam gosto pessoal e aptidão e 1 respondeu condição socioeconômica, gosto pessoal e aptidão. Dos participantes autodeclarados negros, 15 atribuem sua intenção profissional ao gosto pessoal, e 1 à sua condição socioeconômica.
- A sexta pergunta tratava sobre a profissão dos responsáveis. Entre os participantes autodeclarados brancos, as respostas de maior frequência foram,'do lar' (4), vendedor (3) e motorista (3) e entre os participantes autodeclarados negros, 'do lar' (4) foi a resposta de maior frequência.

Na sétima pergunta, foi questionado aos alunos se alguém na família faz curso superior, os alunos autodeclarados brancos responderam 47% sim e 53 % responderam não. Entre os participantes autodeclarados negros 38% responderam sim e 62% não.

- A pergunta 8 pretendeu resgatar o sonho de criança dos alunos participantes quanto a escolha da profissão: ' Quando você era criança, você sonhava em ser o que?' . As profissões que mais apareceram, segundo recorte de gênero e étnico-racial foram:
- -Autodeclarados masculinos e brancos: Advogado (1), Enfermeiro(1), Físico(1), Músico (1), Poeta (1), Arqueólogo (1), Mecânico (1), Presidente do Brasil (1), Arquiteto (1) e Médico (1).
- -Autodeclarados masculinos e negros e pardos: Ator (1), Professor (1), Advogado (1), Bombeiro (1).
- -Autodeclaradas femininas e brancas: Médica (2), Veterinária (3), Professora (2) e Estilista (2).

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- -Autodeclaradas femininas e negras e pardas: Veterinária (3), Médica (4) e Policial (3).

Alguns comentários acompanharam as respostas nessa questão:

(A2): 'Não lembro. Na verdade, acho que nunca pensei sobre o que eu queria ser no futuro. Sempre fui apaixonada por astronomia, mas a falta de investimento, por parte do governo, nesta área me desanima muito.' Profissão desejada: Relações Internacionais. Autodeclaração: feminino, branca.

(A4): 'Quando criança eu queria ser professora ou até mesmo veterinária, mas tudo mudou quando entrei no colegial.' Profissões desejadas: Biologia, bioquímica, psicologia, fisioterapia ou artes cênicas. Autodeclaração: feminino, branca.

(A5): 'Sempre sonhei e ser uma pessoa com um bom aprendizado que seja capaz de alcançar meus objetivos.' Profissão desejada: Não especificou. Autodeclaração: feminino, negra.

## Considerações Finais

A presente pesquisa teve como objetivo analisar as escolhas profissionais de jovens do Ensino Médio e suas relações com a área disciplina de física levandose em conta duas categorias: o recorte de gênero e de raça.

A partir do levantamento dos dados obtidos nos questionários, foi possível verificar que todos os participantes da pesquisa pretendem continuar estudando, e desses, 84% atribuem influência ao gosto pessoal sobre suas intenções profissionais.

Quando se trata dos participantes brancos do gênero feminino nota-se um distanciamento entre essa informação e suas possíveis escolhas profissionais. Em um total de 9 participantes, 7 gostam da disciplina de física e 2 gostam muito, porém desses, apenas 1 pretende seguir carreira científica (bioquímica). Ou seja, o gosto e o bom desempenho na dsiciplina física não implica na escolha profissional.

No que se refere aos participantes brancos do gênero masculino, 3 gostam de física e os outros 3 gostam muito, essa informação fica mais evidente ao relacioná-la com suas opções de carreira, onde engenharia é a opção de maior frequência.

Esse dado é notável quando se trata dos participantes negros, tanto do gênero feminino quanto do gênero masculino. Dos 16 participantes, 3 gostam da disciplina, 2 gostam muito, 6 não gostam e 3 se mantiveram indiferentes. Quanto a escolha profissional apenas dois pretende seguir carreira de exatas, engenharia mecânica e desenho industrial.

Diante dos resultados podemos dizer que apesar do gosto pessoal aparecer como a influência profissional de maior frequência, diversos outros fatores podem ter influência sobre as intenções na escolha profissional, como por exemplo, família,

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amigos e representatividades influentes. Essa possível relação fica visível tabém nas respostas em relação aos sonhos profissionais na infância, em que, já é possível notar a influência de carreiras usualmente femininas nos desejos apontados pelos participantes do gênero feminino (ex: veterinária, Professora, Estilista e Médica). O mesmo se aplica aos sonhos dos participantes do gênero masculino (Professor, Advogado, Físico, Etc.) Se associarmos o processo de descoberta de mundo realizado pela criança, como um processo que dialoga com a relação e representação da cultura posta, podemos dizer que a questão da representatividade já influencia a visão e as escolhas da infância.

Nesse trabalho notou-se claramente a situação descrita nas referências, onde homens brancos aparecem como maioria nas carreiras científicas e tecnológicas. Esses fatores somados, podem reforçar e nos fazer refletir sobre os problemas encontrados na literatura em relação à desigualdade e a falta de representatividade dos negros e das mulheres nas carreiras científicas. Estaria a falta ou perda de interesse dos jovens, diretamente ligada à falta de representatividade? Acreditamos que esse é um problema superável para a comunidade científica caso esta tenha realmente interesses em mudar.

## Referências Bibliográficas

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