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As pessoas surdas no ensino de ciências - Uma Revisão Bibliográfica

Heloísa Almeida Galdino Barbosa, Katemari Rosa

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXII
Ano
2017
Data
26/01/2017
Linha de pesquisa
Equidade, Inclusão Social E Estudos Culturais E O Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

XXII Simpósio Nacional de Ensino de Física - SNEF 2017

## AS PESSOAS SURDAS NO ENSINO DE CIÊNCIAS - UMA REVISÃO BIBLIOGRÁFICA

## Heloísa Almeida Galdino Barbosa 1 , Katemari Rosa 2

1 Universidade Federal de Campina Grande/Unidade Acadêmica de Física/heloisa.agb@gmail.com 2 Universidade Federal de Campina Grande/Unidade Acadêmica de Física/katemari@gmail.com

## Resumo

A temática das pessoas surdas levanta alguns discursos que apontam a surdez como defeito ou deficiência que deve ser reparada. Entretanto, pessoas surdas possuem língua e cultura diferente das pessoas ouvintes, o que faz com que esses discursos se apresentem de maneira equivocada. Este trabalho tem como objetivo fazer uma análise, através de revisão bibliográfica sistemática, sobre como a surdez e a presença de estudantes surdas nas aulas de Física vem sendo discutida na área do Ensino de Ciências, mais especificamente no Ensino de Física. Para isso foram consultados os periódicos nacionais com Qualis A1, A2 e B1 para a área de Ensino, dos últimos 15 anos. A busca resultou num total de 130 artigos que trabalhavam a temática da pessoa surda e da surdez. Desse total, oito artigos estavam relacionados a área de ensino de ciências sendo apenas dois relacionados ao ensino de Física. A maior parte dos artigos encontrados está relacionada à aquisição de linguagem. Os artigos encontrados sobre Ensino de Ciências abordam a dificuldade de pessoas surdas com a Língua Portuguesa na modalidade escrita como uma barreira para o aprendizado de conhecimentos científicos; a necessidade do estreitamento da relação entre intérpretes de LIBRAS, professoras e professores, e da melhoria das condições mínimas relativas às diferenças culturais e linguísticas de estudantes surdos, para que não só intérpretes estabeleçam relações com eles. Entre os achados está também um artigo que discute a necessidade de criação e utilização de sinais para terminologias especificas. Com este trabalho pretendemos mostrar as tendências e lacunas das pesquisas sobre inclusão no ensino de física e apontar perspectivas para a comunidade de pesquisa.

Palavras-chave : Surdez, Ensino de ciências, Revisão de Literatura.

## Introdução

As discussões sobre educação de surdos no Brasil sempre estiveram pautadas em questões linguísticas, com ênfase no desenvolvimento do português em sua modalidade escrita e/ou oral e na aquisição e uso da Língua de Sinais.

Um marco negativo na história dos surdos foi a proibição do uso das Línguas de Sinais no Congresso de Milão em 1880, o que comprometeu a educação desses sujeitos, pois impediu a possibilidade de um desenvolvimento linguístico efetivo. Grupos de surdos e estudiosos desses sujeitos lutaram pela liberação das Línguas de Sinais durante anos, mas só agora a sua importância para o desenvolvimento das potencialidades da cultura surda está começando a ser vista pela sociedade. (SACKS, 1998)

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23 a 27 de janeiro de 2017

A situação linguística atual dos surdos é um reflexo das filosofias educacionais presentes em sua história, essas filosofias são oralista, de comunicação total (SACKS, 1998) e do bilinguismo. Retrataremos de forma sucinta cada uma delas.

A filosofia oralista é pautada numa visão clínica, e tem como objetivo a reabilitação da pessoa surda em busca da normalização, de acordo com essa filosofia só a fala possibilitaria a integração dessas pessoas à vida social. A comunicação total, a partir do desenvolvimento da linguagem oral, tenta reverter o quadro de baixo rendimento cognitivo apresentado pelas pessoas surdas recorrendo a alguns artifícios como gestos naturais, linguagem oral, aparelhos de amplificação sonora, leitura orofacial, expressão facial, entre outros artifícios que facilitem a comunicação. Apesar de ter sido a principal divulgadora da língua de sinais, a comunicação total não apresentou significância na aquisição de uma segunda língua, restringindo-se a artificialização do português (SACKS, 1998). O bilinguismo foi uma filosofia proposta pela Declaração de Salamanca (BRASIL, 1994), que propõe que todas as pessoas surdas devem ter acesso à educação em sua Língua de Sinais.

Hoje a Língua Brasileira de Sinais - LIBRAS - é reconhecida como língua oficial de uma grande parcela de surdos do Brasil através da Lei 10.436 de 24 de Abril de 2002 e do decreto nº 5.626 de 22 de dezembro de 2005, que a regulamenta. Além de instituir a LIBRAS como língua essa lei ainda regulamenta a inserção da LIBRAS nos currículos de Ensino Básico para surdos em escolas inclusivas. As escolas inclusivas são, também, resultados da Declaração de Salamanca que assegura que

[...] as crianças e jovens com necessidades educativas especiais devem ter acesso às escolas regulares, que a elas devem se adequar [...] elas constituem os meios mais capazes para combater as atitudes discriminatórias, construindo uma sociedade inclusiva e atingindo a educação para todos. (BRASIL, 1994)

Nessas escolas a filosofia adotada deve ser a do ensino bilíngue, que deve garantir aos alunos surdos acesso a sua língua materna (Língua de Sinais), e deve oferecer meios de se desenvolver e aprender a língua portuguesa.

Tendo em vista os desafios e conquistas das pessoas surdas durante a história (STROBEL, 2008), as filosofias que regeram a educação desses sujeitos e as propostas atuais de inclusão no ambiente escolar, realizamos uma revisão bibliográfica com o intuito de ver como a questão das pessoas surdas e da surdez vem sendo discutida na área de Ensino voltando a nossa atenção para o Ensino de Ciências, mais especificamente o ensino de Física.

## Metodologia

A nossa pesquisa foi realizada em duas etapas que consistiram na coleta dos dados e na análise e interpretação dos resultados obtidos.

Os dados foram obtidos através de consulta aos periódicos nacionais com Qualis A1, A2 e B1 para a área de Ensino, dos últimos 15 anos, a partir da busca

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pelas seguintes palavras: surdo, surdez e auditivo. Ao fazer a busca utilizando os termos citados, encontramos publicações de algumas áreas do conhecimento, como Português e Psicologia. Das publicações encontradas, fizemos uma leitura integral das que estavam relacionadas ao Ensino de Ciências, objeto de nossa pesquisa.

A leitura dos artigos foi guiada pelos seguintes questionamentos:

- 1) Em que perspectiva os autores trabalham? Numa perspectiva de inclusão ou de reafirmação da pessoa surda como sujeitos?
- 2) A pessoa surda assumem papel atuante na ciência (cientistas, estudiosas da área, professoras, professores) ou só aparecem como espectadores (estudantes)?

Em relação ao ensino de ciências para a pessoa surda:

- 1) A escola está preparada para receber estudantes surdas e surdos?
- 2) A proposta de Ensino Bilíngue é cumprida nas escolas?
- 3) Professoras e professores de ciências têm preparação para receber estudantes surdas e surdos em sala de aula?
- 4) Há uma metodologia, ou recurso didático criado para o ensino de ciências para pessoas surdas?
- 5) Como são tratadas as terminologias cientificas?

## Resultados e Discussões

A busca resultou num total de 130 artigos que trabalhavam a temática da pessoa surda e da surdez, desse total oito artigos estavam relacionados à área de ensino de ciências, sendo dois relacionados ao ensino de Física e um deles com foco na relação entre intérpretes e professores. A maior parte dos artigos encontrados estavam relacionados ao desenvolvimento linguístico dos surdos e aos aspectos de aquisição de linguagem desses sujeitos.

A Figura 1 mostra a percentagem dos temas dos artigos. Encontramos três artigos que tratam do tema Química (36%), um artigo na área de Física (13%), um artigo na área de Biologia (13%), um artigo sobre o tema Ciências e Matemática (13%), e dois artigos sobre Intérpretes e professores de Ciências (25%). Nesse último tema, há um artigo da área de Física que foi classificado nessa categoria porque o foco do trabalho é a relação entre intérpretes e professores e não conteúdos ou aulas de Física em si.

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Figura 1:

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Percentagem dos temas dos artigos encontrados. Fonte: as autoras

Apesar das questões relativas a pessoa surda e a surdez serem pouco abordadas na área de Ensino de Ciências, as publicações que analisamos puderam ser classificadas em quatro categorias, sendo elas: discursos sobre o Ensino de Ciências e educação bilíngue, onde se enquadraram quatro artigos; ferramentas de ensino, onde encaixaram-se dois artigos; tratamento de terminologias especificas, com um artigo; e metanálise, também com um artigo. O Quadro 1 mostra a categorização dos periódicos selecionados.

Quadro 1: Categorização dos periódicos

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Fonte: as autoras

Na categoria de Discursos (BORGES &amp; COSTA, 2010; OLIVEIRA &amp; BENITE, 2015; PEREIRA, BENITE &amp; BENITE, 2011; VARGAS &amp; GOBARA, 2014) os artigos focam na análise de discursos feitos por professoras, professores e intérpretes sobre a educação de estudantes surdas e surdos, além de levar em consideração observações feitas por pesquisadoras e pesquisadores em sala de aula. Em todos os artigos dessa categoria as falas convergem para os seguintes pontos:

- ● A formação inicial de professoras e professores não contempla o preparo para atuar com as diferenças de estudantes, sendo ausente abordagens do tema Educação Especial em sua formação inicial;
- ● Uma das principais barreiras encontradas pelos professores e pelas professoras é a dificuldade na comunicação com estudantes surdas e surdos;
- ● O sistema de ensino não está capacitado para receber estudantes com necessidades especiais;
- ● Há um despreparo de intérprete e confusão do seu papel em sala de aula, além da necessidade de ação conjunta entre intérpretes, professoras e professores.

Na categoria Ferramentas de Ensino (QUEIROZ et al ., 2012; BOTAN &amp; PAULO, 2014) os artigos mostram o planejamento, criação e aplicação de ferramentas didáticas para auxílio no ensino de conceitos específicos. Nesses trabalhos, observamos que as autoras e os autores tendem a explorar nos materiais construídos a capacidade visuo-espacial de estudantes surdas e surdos, tornando essa experiência a base para introdução de conceitos.

Na categoria Tratamento de Terminologias Específicas (FERREIRA &amp; NASCIMENTO, 2014) o artigo retrata a dificuldade dos intérpretes na tradução das falas dos professores, por não haver correspondentes em LIBRAS para termos específicos da Química. Os autores relatam que os sinais encontrados no dicionário enciclopédico ilustrado trilíngue de Capovilla e Raphael (2001) não são suficientes, o que leva os intérpretes a criarem sinais para facilitar a tradução em sala.

Na categoria Metanálise (FERREIRA, NASCIMENTO &amp; PITANGA, 2014) o artigo trata de uma análise de resumos publicados no período de dez anos de RASBQs (Reuniões Anuais da Sociedade Brasileira de Química). Os autores puderam aferir que são poucos os estudos relacionados a LIBRAS na área da

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Química, que de 1930 resumos encontrados apenas 11 estavam relacionados ao objetivo da pesquisa.

Sobre o ensino de ciências para pessoas surdas, observamos que a escola regular comum não está preparada para receber estudantes surdas e suros por falta de infraestrutura e materiais adequados para recepção dessa população. As professoras e os professores também não têm preparação para receber estudantes surdas e surdos pois, na maioria dos casos analisados, encontramos discursos de docentes afirmando não terem recebido uma formação adequada para trabalhar com esses casos, quando não havia desconhecimento total do tema Educação Especial. Pudemos observar também que há um despreparo de interpretes como educadores, tendo em vista que, na maioria dos casos analisados, interpretes possuíam apenas o Ensino Médio completo e o curso de interpretes de LIBRAS, não tendo nenhum conhecimento aprofundado do tema a ser trabalhado pela professora ou pelo professor da disciplina. Além da falta de familiaridade com o tema das aulas, não havia interação entre intérpretes, professoras e professores para o planejamento das aulas. A falta de recursos didáticos apropriados para o ensino de pessoas surdas também foi observada como um ponto negativo.

Na leitura dos artigos constatamos que apenas três autores trabalham numa perspectiva de reafirmação do sujeito surdo, trazendo questões que valorizam a cultura surda e a língua de sinais e apresentando a pessoa surda como ser capaz de se construir como sujeito e construir sua identidade através de interações com seus pares. Em dois trabalhos a perspectiva das autoras e dos autores não ficou clara, nos três restantes, autoras e autores trabalham sob uma perspectiva de inclusão.

Apenas um trabalho apresenta uma pesquisadora surda, nos outros as pessoas surdas aparecem apenas como estudantes do Ensino Básico, o que mostra que as pessoas surdas assumem, na maioria das vezes, papel de espectadoras, não sendo sujeitos ativos nas ciências. Essa sub-representação pode ser objeto de estudos suplementares.

## Considerações Finais

Esta pesquisa nos permitiu observar que, em periódicos nacionais na área de Ensino, são poucos os trabalhos relacionados ao ensino de ciências para pessoas surdas. Assim, a partir desse recorte, não podemos afirmar quais são as tendências na área, como pretendíamos inicialmente. Entretanto, nossos resultados apontam para uma carência de publicações em periódicos que discutam sobre Ensino de Ciências, de modo geral e de Física, em particular, para pessoas surdas. É possível que, em se tratando de uma temática relativamente nova, encontremos mais publicações em anais de eventos, monografias e dissertações. De qualquer forma, nossa revisão mostra que os trabalhos existentes têm apontado várias dificuldades nas questões relacionadas ao Ensino de Ciências para a população surda.

Cabe aqui ressaltar que a comunidade de pesquisadoras e pesquisadores da Química, área das ciências em que encontramos o maior número de trabalhos sobre educação para pessoas surdas, parece ter um maior interesse pela temática

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do que o restante da comunidade de educação científica e pode servir de referencial para estudos em outros campos como a Biologia e a Física.

Finalmente, para trabalhos futuros, sugerimos para que se busquem outras fontes de publicação (e.g. anais de eventos, dissertações) para analisar como a comunidade de Ensino de Ciências, e Ensino de Física, tem trabalhado na educação para pessoas surdas e quais respostas nossa comunidade oferece para questões como a sub-representação de pessoas surdas nas ciências, a falta de sinais correspondentes na LIBRAS de terminologias especificas da física e a formação de professoras e professores para a Educação Especial.

## Referências

BORGES, F. A.; COSTA, L. G. Um estudo de possíveis correlações entre representações docentes e ensino de ciências e matemática para surdos. Ciência &amp; Educação , Bauru, v. 16, n. 3, p. 567-583, 2010.

BOTAN, E.; PAULO, I. J. C.; Ensino de física para surdos: Três estudos de casos da implementação de uma ferramenta didática para o ensino de cinemática. Experiências em Ensino de ciências , v.19, n. 1, p. 1-27, 2014.

BRASIL, Declaração de Salamanca 1994. Fev. 2011.

CAPOVILLA,F.C;RAPHAEL,W.D. Dicionário enciclopédico ilustrado trilíngüe da língua de sinais brasileira . São Paulo, EDUSP,2001.

FERREIRA, W. M.; NASCIMENTO, S. P. F.; PITANGA, A. F. Dez anos da Lei da Libras: Um conspecto dos estudos publicados nos últimos 10 anos nos anais das Reuniões da Sociedade Brasileira de Química. Química Nova na Escola , São Paulo, v. 36, n. 3, p. 185-193, Ago. 2014.

OLIVEIRA, W. D; BENITE, A. M. C. Aulas de ciências para surdos: estudos sobre a produção do discurso de intérpretes de LIBRAS e professores de ciências. Ciência &amp; Educação , Bauru, v.21, n. 2, p. 457-472, 2015.

PEREIRA, L. L. S.; BENITE, C. R. M.; BENITE, A. M. C. Aulas de química e surdez: Sobre interações pedagógica mediadas pela visão. Química nova na escola , São Paulo, v. 33, n. 1, p.47 - 56 , Fev. 2011.

QUEIROZ. T. G. B. et al. Estudo de planejamento e design de um módulo instrucional sobre o sistema respiratório: O ensino de ciências para surdos. Ciência &amp; Educação , Bauru, v. 18, n. 4, p. 913-930, 2012.

SACKS, O.W. Vendo vozes: uma viagem ao mundo dos surdos. 1 edição. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

SOUSA, S. F.; SILVEIRA, H. E.; Terminologias Químicas em Libras: A utilização de sinais na aprendizagem de alunos surdos. Química Nova na Escola , São Paulo, v. 33, n. 1, p. 37-46, Fev. 2011.

STROBEL, K. As imagens do outro sobre a cultura surda. Florianópolis: Editora da UFSC, 2008.

VARGAS, J. S.; GOBARA, S. T. Interações entre aluno com surdez, professor eo intérprete em aulas de física: Perspectiva Vygotskyana. Rev. Bra. Ed. Esp. Marília, v. 20, n. 3, p. 449 - 460, Jul. - Set., 2014.

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