ENSINO DE ASTRONOMIA PARA A EDUCAÇÃO DE CRIANÇAS SURDAS E DEFICIENTES AUDITIVOS NA PERSPECTIVA DE UM INTÉRPRETE DE LIBRAS
Ellen Cristine Vivian Mendes Marques Bolzan, André Ary Leonel
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXII
- Ano
- 2017
- Data
- 26/01/2017
- Linha de pesquisa
- Equidade, Inclusão Social E Estudos Culturais E O Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## ENSINO DE ASTRONOMIA PARA A EDUCAÇÃO DE CRIANÇAS SURDAS E DEFICIENTES AUDITIVOS NA PERSPECTIVA DE UM INTÉRPRETE DE LIBRAS
## Ellen Cristine Vivian Mendes Marques Bolzan , André Ary Leonel 1 2
1 Secretaria Municipal de Educação de São Sepé/Escola Municipal de Ensino Fundamental Professora Maria José Valmarath, ellencristinevmmb@hotmail.com
- 2 Universidade Federal de Santa Maria/Departamento de Física, aryfsc@gmail.com
## Resumo
Este trabalho foi desenvolvido em uma escola da rede municipal de São Sepé com três alunas usuárias da Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS), implementado pela Intérprete de Libras com o apoio da Educadora Especial que orientaram as ações durante encontros realizados em grupos de estudos na sala de Atendimento Educacional Especializado (AEE). A proposta envolveu estudos de tópicos sobre Astronomia com alguns conceitos fundamentais como a diferença e reconhecimento entre os corpos celestes e suas localizações no espaço, desde nossa Galáxia, Estrelas, Sistema Solar, Planetas, Satélites e o sistema Terra e Lua. O estudo contou com o apoio de Tecnologias Digitais da Informação e Comunicação (TDIC), tais como: imagens em slides no PowerPoint, simulações em vídeos, o programa de Astronomia Stellarium e ainda com material impresso, todos seguidos de diálogos reflexivos interpretados em LIBRAS. Como ferramenta de registros foram elaborados trabalhos artísticos para que as alunas expressassem seus conhecimentos em desenhos, pois ainda não possuem o domínio da língua portuguesa escrita. Muitos conceitos astronômicos não possuem sinais oficiais em LIBRAS e variam conforme a regionalização, por isso, após todas as discussões, foram criados juntamente com as alunas sinais específicos que identificassem cada objeto astronômico estudado, baseados em suas características mais singulares. As alunas apresentaram compreensão da distância entre os planetas, perceberam a diferença entre a Lua e o Sol bem como da Terra dos demais planetas, encontraram nossa localização no globo Terrestre e, principalmente, conseguiram articular os conceitos em seus desenhos e posteriormente na criação de novos sinais que expressassem um elemento ou definição intrínseca do astro em LIBRAS.
Palavras-chave : Astronomia, Libras, Surdos, Cultura Surda, Educação Especial
## Contextualização Inicial
Pretendendo contribuir com as pesquisas relacionadas ao ensino de Física para pessoas surdas e com deficiência auditiva na educação básica este trabalho traz o relato de uma investigação de ensino de Astronomia para este público, com apoio nas TDIC. Nesta perspectiva, considerando os principais aspectos sociais, culturais e políticos pedagógicos vigentes, consolidados e em construção nesse contexto, primeiramente se faz necessário trazer pontos e discussões que balizam as concepções de educação inclusiva Brasileira.
Por muito tempo, a sociedade acreditou que uma pessoa com deficiência estaria melhor se mantida em um ambiente segregado (GOLDFELD, 1997). Além disso, a história sobre os indivíduos surdos retrata como essas pessoas eram consideradas pela sociedade como sujeitos não educáveis, primitivos de pouco intelecto em comparação aos ouvintes (ARANHA, 1995). Essa concepção
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excludente se perpetuou por vários períodos históricos, gerando movimentos de lutas contra esse sistema preconceituoso e insatisfatório, cabendo destaca o movimento mundial de inclusão surgido no final da década de 80. Este movimento tinha como base o princípio de igualdade de oportunidades sociais e educacionais mais abrangentes. Também na Constituição Federal de 1988 é assegurado o princípio de igualdade, garantindo, em seu Artigo 206, Inciso I, que 'o ensino será ministrado com base nos seguintes princípios: igualdade de condições para o acesso e permanência na escola' (BRASIL, 1988). Além disso, cabe ressaltar que o compromisso com a Educação para todos, com atenção ao atendimento as necessidades socioeducacionais, foi reforçado em 1994, com a implementação da Declaração de Salamanca, que trata dos 'Princípios, Políticas e Práticas na Área das Necessidades Educativas Especiais' (BRASIL DECLARAÇÃO, 1994).
Na mesma direção as Diretrizes Nacionais de Educação Especial para a Educação Básica aliada a Política Nacional de Educação Especial, na perspectiva da Educação Inclusiva preveem a garantia da oferta de atendimento em salas de recursos multifuncionais, que deve ser realizado por professores especializados, em um espaço da escola onde se efetiva o Atendimento Educacional Especializado (AEE) para alunos com necessidades educacionais especiais (BRASIL, 2001), tendo como finalidade estimular e consolidar a aprendizagem suplementando ou complementando o processo de escolarização (SILUK, 2012).
Outro direito conquistado ocorreu com a regulamentação da Lei 12.319/10 em 2010, que assegura a presença de tradutores e intérprete de Libras principalmente nas escolas (BRASIL, 2010). Sendo o intérprete um instrumento para acessibilidade linguística e cultural do surdo, ou seja, incentivador da permanência destes alunos no meio escolar (QUADROS, 2007).
Considerando essa discussão com o objetivo de reconhecer sobre as potencialidades e dificuldades enfrentadas na educação inclusiva para estudantes surdos, esta pesquisa apresenta um trabalho proposto e implementado por uma Intérprete de Libras com a colaboração de uma Educadora Especial, atuantes em uma escola municipal de São Sepé. As atividades foram realizadas na sala de AEE durante encontros com um grupo de duas alunas surdas e uma deficiente auditiva, dos anos iniciais e uma dos anos finais, ambas ainda em alfabetização. As ações foram baseadas no estudo de tópicos de Astronomia básica através de Libras, com o apoio de Tecnologias Digitais da Informação e Comunicação (TDIC) como facilitadoras do processo do ensino e aprendizagem.
Considerar a cultura surda, requer uma escola capaz de promover um ambiente profícuo para o diálogo, ensino e aprendizagem, isto é, além de professores diferenciados e a presença permanente de Tradutores e Intérpretes de Libras, a escola e esses profissionais devem estar apropriados de conhecimentos, competências e recursos didáticos e tecnológicos que promovam práticas pedagógicas significativas para esse público. Quanto ao Ensino de Física para surdos, podemos mencionar que sua modelização abstrata, torna-se irrelevante quando imersa em uma cultura que transita no mundo visual e gestual em meio ao oralismo dos ouvintes. Por isso, o uso das TDIC, com material didático visual, apropriados a condição linguística do surdo oferecem maiores subsídios no processo da construção dos conhecimentos Físicos, especificamente neste caso para o ensino de Astronomia.
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## Educação para surdos
A educação dos surdos passou por diferentes épocas, desde a imposição da oralidade, a criação e aprendizagem de gestos mímicos, a primeira escola para surdos, as escolas inclusivas, chegando a construção de um novo olhar centrado nos aspectos antropológicos que norteia a cultura surda (SKLIAR, 1997).
Apenas em 2002, a regulamentação da Lingua Brasileira de Sinais tornou-se língua oficial aqui no Brasil, com aparo da Lei 10.436/2002 (BRASIL, 2002) que dispõe sobre a Libras no Decreto 5.626/2005 (BRASIL, 2005), atualmente, significa um avanço político e social das comunidades surdas marcado, pela luta por igualdade de direitos, acessibilidade e principalmente para fins educacionais. No Art.2º do mesmo, especifica que como 'pessoa surda aquela que, por ter perda auditiva compreende e interage com o mundo por meio de experiências visuais, manifestando sua cultura principalmente pelo uso da Língua Brasileira de Sinais Libras' (BRASIL, 2005).
Perlin (2004) aborda a cultura surda como uma questão de diferença e de identidade própria. Neste sentido se constitui como uma atividade criadora de símbolos e práticas distintas da cultura ouvinte. Uma forma de ação e atuação efetivamente visual e não auditiva. Mesmo com a ausência de audição e do som, o surdo percebe o mundo através de seus olhos e da expressão corpóreo-facial-bruta, isto é movimentos, vibrações, sensações, por exemplo, o estouro de um trovão, ou a fumaça de um incêndio. Essa peculiaridade de percepção do mundo, envolve a forma como se comunicam, suas expressões corporais, faciais, todos os meios que usam para se comunicar e interagirem. (STROBEL, 2008). Suas relações mentais e o processo cognitivo acontecem através de experiências do espaço, mediadas pelo seu instrumento natural de comunicação a Língua de Sinais, como sua primeira Língua, posteriormente a língua escrita e constitui o 'símbolo da surdez' (BRITO, 1993).
Todas essas considerações são fundamentais quando nos dirigimos para o espaço escolar e pensamos a sala de aula para alunos surdos, melhores recursos de acessibilidade, materiais didáticos e tecnológicos a serem potencializados e adaptados no trabalho pedagógico nesse contexto (SILUK, 2012). A evolução tecnológica, possui um sentido de facilitadora de tarefas cotidianas e agilizar nosso desempenho em determinadas ações. Para uma pessoa com deficiência, as TDIC, não só facilitam, mas auxiliam no desenvolvimento da autonomia e promoção da dignidade dessas pessoas, permitindo a execução de atividades desejadas, possibilitando melhor mobilidade, novos meios de acesso e construção do conhecimento, bem como novas formas de comunicação e interação.
Foi neste sentido que na década de 90, as atenções direcionaram-se para as barreiras de comunicação e transporte, incluindo um universo de sujeitos, diferente dos que apresentam limitações motoras, instituindo, um novo campo do saber dentro das TDIC, o da Tecnologia Assistiva (TA), este termo é utilizado como identificador de um arsenal de recursos e serviços didáticos e pedagógicos que contribuem para potencializar as habilidades funcionais de pessoas com deficiência e, consequentemente, promover vida independente e inclusão. Para educação de surdos, pode-se mencionar que as TDIC dispõem de softwares educativos, vídeos, fotos, simuladores, dispositivos luminosos (SILUK, 2012).
## Ensino de Astronomia no Ensino Fundamental
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As Ciências Naturais abrangem ramos da Astronomia, da Biologia, da Física, da Química e das Geociências, estudam diversos conjuntos de fenômenos naturais e geram representações do mundo ao buscar compreensão sobre o Universo, o espaço, o tempo, a matéria, o ser humano, a vida, seus processos e transformações. (BRASIL PCN, 1998). A escolha para o ensino de tópicos de Astronomia partiu da compreensão da sua concepção e constituição como Ciência, através do seu contexto histórico e relevância social que esse estudo permite, mesmo que muitas vezes de forma sutil.
- O espaço sempre foi muito movimentado, mas inspirava uma noção de ordem e de mecanicismo. Foi neste sentido que os antigos puderam construir seu primeiro contato com a noção de ciência. Ainda que de maneira primitiva, esse processo exigia a combinação de observação e criação de hipóteses, fornecendo as bases para o desenvolvimento científico moderno. A astronomia instigou a percepção de que o mundo podia evoluir a partir de certas regras pré-determinadas, acontecimentos padrões e leis da natureza(NOGUEIRA, 2009).
- A Astronomia no Brasil surgiu de maneira semelhante ao restante do planeta, mas os registros oficiais de observações no país datam 1500, entretanto, pesquisas mais aprofundadas nas origens desse estudo em território Brasileiro exigiriam uma busca em tribos indígenas, que provavelmente possuíam conhecimentos astronômicos (FARIA, 1987).
Segundo Bizzo (2014) há mais de 30 anos trabalhos acadêmicos publicados sobre Astronomia, que trazem uma abordagem sobre a compreensão desse tema por estudantes, apresentam um conjunto de resultados que alertam para a necessidade de um cuidado ao apresentar modelos e explicações conceituais, pois muitas vezes não são percebidos com clareza por jovens aprendizes (BIZZO, 2014). Desse fato, é relevante que os professores alertem seus alunos quanto aos erros de proporções que são apresentados em livros didáticos e do caráter artístico empregado em imagens gráficas de sistemas astronômicos.
De acordo com o PCN para o ensino fundamental, ao contrário da tecnologia, grande parte do conhecimento científico não é produzido com finalidade prática (BRASIL PCN, 1998). No entanto, colocando a Astronomia como base da ciência, pode-se sentir sua influência em praticamente todos os ramos do conhecimento científico. Mas, com a repartição do saber em formato disciplinar, as noções astronômicas acabaram diluídas, e sua presença no ensino perdeu a importância (NOGUEIRA, 2009). Os PCNs ainda sugerem que o Ensino de Astronomia deveria aparecer durante todo o Ensino Fundamental e em parte do Ensino Médio (BRASIL PCN, 2000), mas seu estudo apenas é percebido nas aulas de geografia com as noções básicas sobre o Sistema Solar (NOGUEIRA, 2009).
No Ensino de Física em especial de Astronomia, pode-se avaliar que a apropriação do conhecimento científico contempla um importante fator na construção da autonomia das pessoas e da sua modificação cognitiva e atitudinal através do pensar reflexivo. Para os surdos não é diferente, o que se distingue, neste caso, é a relevância que a mediação pedagógica e o uso das TDIC para o ensino e aprendizagem com base em diálogos e representações visuais podem contribuir nesse sentido.
Considerando todos os fatores já apresentados e discutidos, o ensino e aprendizagem de Astronomia, para crianças surdas como seu primeiro contato com a ciência pode indicar promissoras perspectivas que contribuam para o estimulo da
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reflexão, do reconhecimento de posição e localização no espaço e de sua participação questionadora no universo, abrindo as portas para a imaginação e para a construção do pensamento científico.
## Contexto da Pesquisa
Conforme já apresentado a escola onde as intervenções foram desenvolvidas encontra-se no centro da cidade de São Sepé, RS, pertencendo a rede municipal de Ensino Fundamental, desde os anos iniciais até os finais. Conta com 36 professores, incluindo duas Educadoras Especiais e uma Intérprete de Libras. São recebidos em média 400 alunos, sendo que destes, 30 pertence a modalidade de Educação Especial e são atendidos na sala de AEE, sendo essa a única sala com esta finalidade, equipada com diversos recursos didáticos e tecnológicos necessários. A escola também possui um laboratório de informática, uma biblioteca e repartições comuns como salas de aulas, uma sala de professores, secretaria, direção e coordenação pedagógica.
A instituição é referência de escola inclusiva no município, no entanto apresenta algumas carências como a necessidade de um Intérprete de Libras em tempo integral, um Instrutor de Libras e um Brailista, e não possui um laboratório de Ciências, fato comum a todas escolas deste município.
As atividades propostas foram realizadas e implementadas pela Intérprete de Libras junto a Educadora Especial da escola com três estudantes, sendo duas surdas e uma deficiente auditiva dos anos iniciais e uma dos anos finais, mas que estão em processo de alfabetização em Libras.
Os trabalhos aconteceram durante encontros quinzenais em grupos de estudo na sala de AEE, desde maio de 2016 e está em andamento. Em cada encontro foram introduzidos tópicos de Astronomia, com caráter demonstrativo, pois foi o primeiro contato das alunas com o assunto, incluiu-se desde representações de Galáxia, Estrelas, Sistema Solar, Planetas, Satélites até o sistema Terra e Lua através de apresentações de imagens em slides no PowerPoint, simulações em vídeos, o programa de Astronomia Stellarium e material impresso, tudo dialogado e interpretado em LIBRAS. As produções foram intituladas 'Astronomia em Libras' e seguiram com o objetivo da divulgação pelas alunas, em uma feira de ciências oferecida pela Universidade Federal do Pampa em Caçapava do Sul.
A análise dessa pesquisa acorreu de forma qualitativa, segundo Lüdke e André (1986), através da exploração, ou seja do reconhecimento dos principais aspectos; definição, que implica em uma análise sistemática, buscando interpretar os dados e a descoberta, que caracteriza a verificação e reflexão das hipóteses levantadas.
As atividades começaram com a apresentação da proposta pela intérprete de Libras as alunas, do estudo sobre os astros e seus sinais em Libras com objetivo de produzir um trabalho para uma Feira de Ciências, com tema 'Astronomia em Libras'. Nesse primeiro momento, foi utilizado uma sessão de fotos em slides ilustrando a Terra, em seguida sua localização no sistema solar, expandindo para a Via Lactea, com a intenção que as alunas tivessem pela primeira vez uma noção do espaço e da sua localização no mesmo. Seguindo essa perspectiva, partimos para a demonstração no Google Earth, da localização da cidade em que as alunas residem, onde seria a Feira de Ciências e lugares que já visitaram, como Santa Maria, Porto
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Alegre e Região Litorânea, alterando o zoom para que percebessem as dimensões do globo terrestre e as posições desses ambientes.
Com isso, partimos para o estudo do Sistema Solar, apresentamos um vídeo que simulava uma câmera se afastando lentamente de uma pessoa deitada sobre o solo Terrestre, passando pelo sistema solar até sumir na galáxia. Com isto, foram discutidas as diferentes posições espaciais de cada objeto astronômico e a sua estruturação. Em seguida, mostramos outro vídeo com a simulação do movimento dos planetas em torno do Sol, discutindo o fenômeno, as alunas demonstraram compreender a imensidão do espaço, afirmando que uma pessoa era extremante pequena em relação a Terra, ainda alertaram que os planetas próximos do Sol completavam o ciclo mais rápido do que os planetas mais afastados.
Posteriormente retomando as ilustrações do Sistema Solar analisamos cada planeta e algumas peculiaridades, como a vida Terrestre, onde as alunas foram desafiadas a pensar sobre a existência de seres vivos nos demais planetas estudados do nosso sistema, esse questionamento permitiu uma reflexão sobre as condições climáticas e geográfica do nosso planeta e sua distinção dos outros, como as altas temperaturas próximo do Sol, o diferente número de satélites que os planetas possuem, a vegetação entre outras características. Complementando o assunto, utilizando fotos impressas, também analisamos diferentes aspectos entre os planetas, satélites, Sol, estrelas e a existência de diversas galáxias.
Com o programa Stellarium, foram realizadas observações de vários astros, tomando a Terra como referencial e posteriormente a Lua, para que as alunas pensassem sobre as duas perspectivas. Após, foi permitido que as mesmas manipulassem o programa, e viajassem virtualmente pelos planetas e foi neste instante, que ao tentar aproximar a visualização dos mesmos que uma das estudantes relatou que 'levaria muitos meses para chegar naquele planeta com uma nave', ou seja, ela conseguiu perceber que quanto mais longe o planeta observado estivesse da Terra, mais tempo levaria para se alcançar o mesmo, levando a uma relação não só espacial, mas também temporal.
Para concretizar todas as intervenções, as alunas representaram em desenhos os aspectos mais significativos, optamos por esse método como melhor instrumento de exploração de suas ideias, lembrando que a língua portuguesa escrita ainda não é uma propriedade linguística em fase de alfabetização, essa é uma etapa mais difícil para os surdos. Ao chegar nesse estágio, passamos a retomar todos os conceitos e objetos estudados construindo suas representações em Libras, conforme suas respectivas particularidades. Foram atribuídos sinais para os objetos estudados, a saber: para a Via Láctea, Sistema Solar, Planeta, Satélite Natural, Mercúrio, Venus, Marte, Júpter, Saturno, Urano, Netuno, Stellarium; exceto para a Astronomia, Terra, Lua, Sol e Estrela que já possuem sinais em LIBRAS.
Destaca-se também que o trabalho ocorreu a princípio de forma mais demonstrativa do que conceitual, pois tratando-se de alunas incluídas, que não possuíam intérprete de Libras até então, este deve ser considerado o processo de iniciação com o mundo das ciências, em que estas estudantes puderam participar ativamente, questionando, dialogando e refletindo, não apenas assistindo. É importante alertar que sempre foi esclarecido as alunas que as imagens e representações utilizadas eram apenas exemplificações e não se encontravam em proporções reais, para evitar a construção erronia dos conceitos.
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## Considerações
É evidente que a educação inclusiva proporcionou relevantes avanços no ensino e aprendizagem de pessoas com deficiência, principalmente no que diz respeito ao acesso e permanência destes sujeitos na escola. No entanto, há muito a se construir para que essa educação seja de fato para todos. Diversos problemas precisam ser superados, desde uma melhor qualificação de professores até maiores investimentos dos governos em valorização do trabalho docente, melhores condições de trabalho e em infraestrutura física e tecnológica. Para alunos surdos e deficientes auditivos, a escola inclusiva nem sempre é o melhor lugar para efetivação do seu aprendizado na totalidade, pois além da predominante falta de intérpretes nas escolas, com poucas exceções, os professores dificilmente conseguem atender as necessidades desses alunos, por não possuírem formação e/ou por não se sentirem a vontade com a situação.
Por isso é indispensável à presença do Intérprete de LIBRAS, embora o seu papel ainda esteja em constantes reflexões, sua atuação em ambiente escolar não está bem definido e isso abre margens para que sua participação seja um diferencial na educação dos surdos. Neste caso, a intérprete pode elaborar atividades e intervir no processo de ensino e aprendizagem de suas alunas, indo além do papel de mediadora da comunicação.
Para alunos surdos a visualização é parte marcante no seu processo de interação com o meio, pensando na abordagem de Astronomia como um contato inicial dessas crianças com o universo científico, esse é um caminho que necessita ser explorado, com os devidos cuidados, tanto com relação a linguagem utilizada, quanto com os recursos selecionados, evitando a formação de concepções inadequadas; mas sobretudo, instigando o pensamento crítico e científico, já no ensino fundamental.
A educação de surdos exige à manipulação de material didático visual, com isso a apropriação das tecnologias possibilitam que os professores dialoguem conceitos que independem da oralidade e possuem grande potencial na aprendizagem desses estudantes. Pois, viabilizam a comunicação com mesma intensidade reflexiva e questionadora, que são propriedades essenciais nas áreas das ciências, entre outras. Então é possível afirmar que a linguagem e a interpretação visual, estimulam as relações cognitivas de alunos surdos semelhantemente à linguagem oral para alunos ouvintes. O contexto educacional atual requer que os professores sejam conhecedores das TDIC e do seu potencial transformador que afetam positivamente a prática pedagógica quando manipuladas com coerência e objetivos bem estruturados.
## Referências
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