OS ESTUDOS SOBRE O ENSINO DE FÍSICA PARA DEFICIENTES VISUAIS E AUDITIVOS PUBLICADOS NAS ATAS DO ``SIMPÓSIO NACIONAL DE ENSINO DE FÍSICA''
Jefferson Felipe Candido Perez, Leandro Londero
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXII
- Ano
- 2017
- Data
- 26/01/2017
- Linha de pesquisa
- Equidade, Inclusão Social E Estudos Culturais E O Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## OS ESTUDOS SOBRE O ENSINO DE FÍSICA PARA DEFICIENTES VISUAIS E AUDITIVOS PUBLICADOS NAS ATAS DO 'SIMPÓSIO NACIONAL DE ENSINO DE FÍSICA'
Jefferson Felipe Candido Perez , Leandro Londero 1 1
1 Universidade Estadual Paulista 'Júlio de Mesquita Filho' - UNESP/Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas - IBILCE/Departamento de Educação, jeffeliperez@gmail.com, llondero@ibilce.unesp.br
## Resumo
Apresentamos os resultados de uma pesquisa do tipo 'Estado do conhecimento' sobre o Ensino de Física para deficientes visuais e auditivos, com foco nos trabalhos publicados nas atas do Simpósio Nacional de Ensino de Física (SNEF). Para tanto, revisamos as atas de todos as edições do SNEF, identificamos a frequência de produções por edição e década, as abordagens teóricas e metodológicas, os focos dominantes e as lacunas existentes. Identificamos um conjunto de 57 produções, distribuídas ao longo de 07 edições. Baseado nos dados obtidos verificamos que houve um crescimento no número de trabalhos durante as décadas, mostrando que o ensino de física para deficientes visuais e auditivos é um tema de interesse entre os educadores. A maioria dos trabalhos relacionados ao assunto ainda são de grande número para a inclusão de deficientes visuais e poucos para deficientes auditivos. Dentre eles, a maioria dos trabalhos são propostas para o ensino de física com enfoque no ensino de física mecânica, ótica e ensino de astronomia. Outro tema relevante entre os autores é a preocupação na formação de professores e sua prática docente. Os trabalhos em grande parte são destinados para o ensino médio, sendo trabalhos desenvolvidos por PET (Programa de Educação tutorial), PIBID ( Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência) e demais trabalhos de IC (iniciação científica).
Palavras-chave : Estado do Conhecimento, deficiência visual, deficiência auditiva.
## O Ensino de Física para deficientes visuais e auditivos
Atualmente, percebemos um crescimento nas pesquisas relacionadas a inclusão. A educação inclusiva permite que todos os alunos, incluindo aqueles que possuem algum tipo de deficiência, frequentem as escolas comuns, da rede pública ou privada, permitindo sua convivência com os demais.
Essa educação está prevista pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB - Lei N 9.394/96), que o asseguram que os alunos com necessidades de atenções especiais tenham o direito à educação comum. Segundo o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA, Lei n.º 8.069), por meio de seu artigo 53, é assegurado a todos o direito à igualdade de condições para o acesso e permanência na escola e atendimento educacional especializado, preferencialmente na rede regular de ensino.
Especificamente a deficiência visual abrange desde a cegueira até a visão subnormal (ou baixa visão), que é uma diminuição significativa da capacidade de enxergar, com redução importante do campo visual e da sensibilidade aos contrastes e limitação de outras capacidades. Podemos classificar a pessoas com deficiência visual da seguinte maneira: a pessoa cega é aquela que possui perda total ou resíduo mínimo de visão, necessitando do método Braille como meio de
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23 a 27 de janeiro de 2017
leitura e escrita e/ou outros métodos, recursos didáticos e equipamentos especiais para o processo ensino-aprendizagem (NUNES e RODRIGUES, 2011, p. 49).
Concordamos com Alves (2012) quando afirma que a presença do aluno surdo em sala de aula no ensino regular é uma realidade. Segundo o autor, a escola tem o dever de promover um ambiente de ensino e aprendizagem estabelecendo o rico diálogo entre os alunos surdos, ouvintes, professores e agentes escolares. Com o Decreto Federal n° 5.626/2005 que determina a presença de tradutores e interpretes em sala de aula um novo cenário para a educação dos surdos começa a surgir. O Decreto passa a determinar que esse tradutor/interprete da Língua de Sinais (TILS) esteja presente nas escolas que possuam alunos surdos cuja função é auxiliar o aluno na compreensão dos conteúdos escolares e o professor na tarefa de ensinar e na comunicação entre os sujeitos na escola, transformando a escola em uma escola bilíngue (ALVES, 2012, p. 6).
## Objetivo, Problema, Questões de Estudo e Justificativa
Objetivamos realizar uma revisão bibliográfica analisando aspectos quantitativos e qualitativos referentes a produção acadêmica sobre o ensino de física para deficientes visuais e auditivos, tomando como fonte de informação as atas do Simpósio Nacional de Ensino de Física (SNEF). Procuramos responder o seguinte problema: Qual é o panorama das produções sobre o ensino de física para deficientes visuais e auditivos? Várias questões que parecem relevantes permearam este estudo, são elas: Qual a frequência de produções identificadas por edição e década? Quais são as abordagens teóricas e metodológicas? Quais são os focos dominantes e as lacunas existentes?
Justificamos nosso trabalho apresentando os argumentos de Figueiredo (1990), que considera a Revisão de Literatura como 'material dos mais úteis e mais amplamente utilizados, desempenhando um papel importante na transferência da informação entre cientistas e os seus pares, bem como facilitando a transferência da informação para os não especialistas'. Além disso, a autora defende que 'o autor do artigo de revisão tem que coletar a literatura, assimilar os dados e fazer uso coerente do material, propiciando uma compreensão aprofundada do assunto - tarefa na qual também muito acrescenta ao seu próprio conhecimento' (FIGUEIREDO, 1990).
## Desenvolvimento do estudo
O SNEF é um evento bianual organizado pela Sociedade Brasileira de Física (SBF) que reúne alunos e professores de diferentes graus de formação com o intuito de promover o debate sobre questões ligadas ao ensino de física nos distintos níveis de educação. Realizamos a revisão nas atas do SNEF pelo fato dele ser destinado especificamente para a comunidade de Ensino de Física e por possuirmos os anais/atas da maioria das edições realizadas. Revisamos as atas de todas as edições exceto as VIII e IV. A busca das produções foi realizada por meio da procura, no título, resumo ou palavras-chave, de um dos seguintes termos: deficiência visual, deficiência auditiva, ensino de física para deficientes visuais, ensino de física para deficientes auditivos. As produções identificadas foram registradas em tabelas nas quais anotamos a edição e ano de realização, o título do estudo e nome do(s) autor(es).
Finalizada a etapa de identificação das produções mapeadas, realizamos a leitura cuidadosa de cada uma delas, na integra. Consideramos fundamental, para a
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leitura, dividirmos as produções mapeadas em categorias de levantamento relativas ao tipo de estudo. Ao final, analisamos o conteúdo das produções e tabulamos os dados com a elaboração de registros em quadros e tabelas, construídas especificamente para este estudo, nas quais sintetizamos as frequências, região geográfica de origem da instituição que o autor pertence, instância administrativa, os temas, os objetivos, as problemáticas, abordagens, quadros teóricos, metodologias, focos dominantes, resultados, conclusões, lacunas existentes, sugestões e proposições apresentadas e contribuições para mudanças e inovações da prática pedagógica, com o objetivo de respondermos nossas questões norteadoras. Destacamos que os trabalhos identificados podem ser enquadrados em mais de um foco dominante.
## Frequências dos trabalhos mapeados
Identificamos um conjunto de 57 produções, distribuídas ao longo de 7 edições, conforme podemos observar no quadro 1.
Quadro 01: Frequência de trabalhos identificados por edição do SNEF
Não foram encontrados trabalhos com o tema em edições anteriores ao ano de 2003. Tendo em vista que o primeiro SNEF data de 1970, podemos inferir que a área demorou 33 anos para dedicar esforços aos ensino para deficientes visuais e auditivos. Vale a pena destacar que a maior quantidade de trabalhos apresentados (17) ocorreu na XIX edição. Consideramos apropriado analisarmos a evolução temporal de publicação por ano/edição. O gráfico 1 apresenta a evolução temporal.
Gráfico 1 - Distribuição temporal de trabalhos identificados a partir da primeira publicação.
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Percebemos que o número total de trabalhos publicados cresceu nas últimas décadas. O crescimento maior ocorre para os trabalhos com foco na deficiência
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visual. Apenas nas duas primeiras edições mapeadas (XV e XVI), os trabalhos com foco na deficiência auditiva foi maior que aqueles com foco da deficiência visual.
O aumento de trabalhos ao longo dos último anos talvez possa ser justificado pelo crescimento considerável da área de Ensino de Física e de pesquisadores interessados na temática em questão, fato que obrigou as comissões organizadoras a inserirem uma área temática específica para a classificação dos trabalhos de pesquisas e de relatos de experiências submetidos ao evento que versam sobre inclusão na XXII edição (2016), intitulada 'Equidade, inclusão social e estudos culturais e o ensino de Física'.
## Focos dominantes
Classificamos os estudos mapeados em um ou mais focos de pesquisa. As categorias utilizadas foram aquelas utilizadas por Teixeira e Megid Neto (2012).
Formação de Professores : estudos que abordam a questão da formação docente. Nesta categoria estão os estudos de Silva et al. (2015), Grossi e Liardi. (2015), Conzendey et Al. (2013), Lima et al. (2011) e, Lima e Alves (2011).
Elaboração e/ou aplicação de propostas de ensino e Recursos Didáticos utilizados : os autores destacaram vários recursos utilizados para o ensino de física para deficientes visuais e auditivos. Listamos a seguir os principais recursos citados: textos de divulgação científica, as simulações computacionais, mapas conceituais, vídeos, debates, animações e imagens, debates em grupo e explicações orais do professor. Nesta categoria encontram-se os estudos de Pessanha et al. (2013), Camargo et al. (2009), Tagliati et al. (2009), Santos e Freitas (2005), Barros et al. (2003) e, Silva et al. (2003b).
Pesquisa bibliográfica : trabalhos que busquem a problematização de um projeto de pesquisa a partir de referências publicadas, analisando e discutindo as contribuições culturais e científicas . Nesta categoria encontram-se os estudos dirigidos por Azevedo et al. (2015), Anjos e Camargo (2011) e, Cozendey et al. (2011b).
Concepção de Professores e/ou estudantes : trabalhos dedicados a explicitar e examinar múltiplos aspectos envolvendo os professores e alunos, com destaque para o estudo de duas concepções, crenças e representações. Nesta categoria encontram-se os estudos dirigidos por Oliveira et al. (2013), Lima e Alves (2011), Silva e Lima (2011) e, Amaral et al. (2009).
Análise dos conteúdos em livros e/ou materiais impressos: são estudos que se preocupam com o modo como a teoria é apresentada nos livros didáticos, tanto do ensino médio, quanto do ensino superior. Nesta categoria encontram-se os estudos dirigidos por Camargo et al. (2013), Silva at al. (2011), Nogueira at al. (2005) e, Silva et al. (2003a).
Astronomia: trabalhos apresentam uma ciência natural que estuda corpos celestes (como estrelas, planetas, cometas, nebulosas, estrelas, galáxias) e fenômenos que se originam fora da atmosfera da Terra. Nesta categoria encontramse os estudos dirigidos por Ferreira et al. (2015), Camargo et al. (2015), Santos et al. (2013), Cozendey e Pessanha (2011a), Siqueira e Langhi (2011), Bernardes e Souza (2011), Menezes e Cardoso (2011) e, Bernardes e Souza (2009).
Consideramos importante classificar os estudos, que se dedicam ao ensino de conteúdos conceituais para deficientes visuais ou auditivos, por tópico conceitual. A seguir, pontuamos os trabalhos identificados por tópico conceitual.
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Termodinâmica: estudos sobre relações entre calor, temperatura, trabalho e energia. Abrange o comportamento geral dos sistemas físicos em condições de equilíbrio ou próximas dele. Nesta categoria encontram-se os estudos dirigidos por Schmidt e Araujo (2015).
Eletrodinâmica trabalhos que abordam o comportamento das cargas elétricas em movimento. Nesta categoria encontram-se os estudos dirigidos por Abreu e Oliveira (2015), Silva e Pierson (2013), Medeiros et al. (2011), Camargo et al. (2011c), Marrone et al. (2009), Camargo et al. (2009) e, Medeiros e Junior (2007).
Ondulatória: estudos que abrangem os conceitos de ondas, ou seja, qualquer perturbação (pulso) que se propaga em um meio. Nesta categoria encontram-se os estudos dirigidos por Castro e Libardi (2015), Andrade e Lima (2013), Dickman et al. (2013), Pazeto (2005) e Fontes e Pires (2003).
Mecânica: estudos sobre o movimento e o repouso dos corpos que abrangem cinemática, dinâmica e estática. Nesta categoria encontram-se os estudos dirigidos por Vargas e Cobara (2015), Junior et al. (2013), Cozendey et al. (2011c), Libardi et al. (2011), Botan e Cardoso (2009), Camargo e Nardi (2007b) e, Camargo e Silva (2003).
Ótica: trabalhos que abordem o conceito de luz e os fenômenos luminosos. Nesta categoria encontram-se os estudos dirigidos por Azevedo et al. (2013), Camargo et al. (2011a), Almeida et al. (2011) e, Paranhos e Garcia (2009).
Física Moderna e Contemporânea: estudos que abordem o conjunto de teorias surgidas no começo do século XX, principiando com a Mecânica Quântica e a Teoria da Relatividade e as alterações no entendimento científico daí decorrente, bem como todas as teorias posteriores. Nesta categoria encontram-se os estudos dirigidos por Camargo et al. (2013), Camargo et al. (2011b) e, Camargo e Nardi (2007a).
Existem estudos que apresentam mais de um enfoque. Ao mesmo tempo em que avaliam uma proposta de ensino, eles analisam a aprendizagem dos alunos, a formação de conceitos, o conteúdo de materiais impressos ou os recursos didáticos utilizados.
## Principais resultados
Os autores apresentaram diversas dificuldades, problemas, sugestões e melhorias no ensino de física para deficientes visuais e auditivos, entre elas: a) ensinar física para deficientes visuais no ensino médio regular é uma tarefa difícil, uma vez que professores não estão preparados; b) o uso de experimentos táteis facilitam o ensino para deficientes visuais, principalmente na área de astronomia; c) ausência de sinais de libras para ensino de física; d) constasse que cada vez mais estudantes com deficiência auditiva e visual tem ingressado no ensino regular; e) o ensino de física para deficientes ainda é algo ignorado pelos docentes; f) necessidade de reestruturação dos cursos de licenciatura em física para abordar o ensino de inclusão; h) aulas expositivas acabam excluindo os alunos com deficiência.
## Sugestões e recomendações dos autores
Os autores apresentam inúmeras sugestões para o ensino de física para deficientes visuais e auditivos. Dentre elas, as mais relevantes são: a) criação de um modelo tátil para ensino de astronomia para deficientes visuais; b) criação de um circuito elétrico misto para deficientes visuais; c) criações de maquetes de espelho para ensino de ótica para deficientes visuais; d) discussão ou preparação para inclusão nos cursos de licenciatura em física; e) transformar a física teórica em algo palpável para os alunos com deficiência; f) utilização de um software para o ensino
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de física de acústica para deficientes auditivos; g) elaboração de sinais de libras para o ensino de massa e aceleração; h) o papel do intérprete em sala para o ensino de física para deficientes auditivos.
## Considerações Finais
Em conclusão, destacamos a necessidade de investimento na formação inicial e contínua dos professores, a fim de fazer com que eles se sintam confiantes ao ensinar Física para alunos com algum tipo de limitação.
Observamos que a maioria dos trabalhos elaboram uma proposta para o ensino de física tanto para deficientes visuais quanto para deficientes auditivos. Dentre os trabalhos citados, a grande maioria tem enfoque no ensino de mecânica, astronomia e ótica, que são temas mais difíceis de ser trabalhados na inclusão.
Por fim, a grande parte dos trabalhos são destinados ao ensino médio, sendo propostas de ensino para os alunos e professores em formação.
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