EDUCAÇÃO EM CIÊNCIAS NOS ANOS INICIAIS DO ENSINO FUNDAMENTAL: RELATO DE UMA BRINCADEIRA DE FAZ DE CONTA
Wagner Da Cruz Seabra Eiras, Heliane Aparecida Petrocino, Paulo Henrique Dias De Menezes, Guilherme Brockington, Ana Paula Moreira
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXII
- Ano
- 2017
- Data
- 26/01/2017
- Linha de pesquisa
- A Física Nos Anos Iniciais Do Ensino Fundamental
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## EDUCAÇÃO EM CIÊNCIAS NOS ANOS INICIAIS DO ENSINO FUNDAMENTAL: RELATO DE UMA BRINCADEIRA DE FAZ DE CONTA
Wagner da Cruz Seabra Eiras 1 , Heliane Aparecida Petrocino , Paulo Henrique 2 Dias de Menezes 3 , Guilherme Brockington , Ana Paula Moreira 4 5
1 Instituto Federal do Sudeste de Minas Gerais, wagner.seabra@ifsudestemg.edu.br
2 Escola Municipal Murilo Mendes, helianepetrocino@gmail.com
3 Universidade Federal de Juiz de Fora, paulo.menezes@ufjf.edu.br
4 Universidade Federal de São Paulo, ensinodefisica@gmail.com
5 Universidade de Mogi das Cruzes, anapaulaa.moreira@gmail.com
## Resumo
Este trabalho apresenta o relato de alguns episódios iniciais de uma brincadeira de faz de conta que está sendo realizada nas aulas de Ciências de uma turma de alunos do 5º ano do Ensino Fundamental de uma escola pública municipal de uma cidade do interior de Minas Gerais. O objetivo dessa brincadeira é servir como metodologia para o ensino de ciências compatível com a formação acadêmica e com as práticas pedagógicas de professoras e professores que lecionam nos anos iniciais do Ensino Fundamental. Além disso, pretendemos apontar o potencial da brincadeira na Educação em Ciências nesse nível de ensino. Numa primeira etapa, aconteceu a imersão do pesquisador no campo investigado com o objetivo de conhecer as características da escola, da professora de Ciências e dos alunos da turma, a fim de desenvolver e estruturar a brincadeira de faz de conta de acordo com o tema de Ciências abordado pela professora. Com isso, foi possível a proposição de uma atividade estimulante, que despertasse o interesse dos alunos por meio de uma linguagem acessível e compatível com as peculiaridades da realidade escolar nesse nível de ensino. A aplicação e a análise parcial da brincadeira, que ainda se encontra em processo, indica que esta tem sido uma atividade enriquecedora e estimulante para os alunos com grande potencial para ser utilizada na Educação em Ciências nos anos iniciais do Ensino Fundamental. Esperamos que o relato aqui apresentado possa incentivar e servir de estímulo para outras pesquisas sobre a utilização desse tipo de brincadeira na Educação em Ciências.
Palavras-chave : Educação em Ciências, Ensino Fundamental, Brincadeira de faz de conta.
## Introdução
A sociedade atual, imersa na era do conhecimento, da informação e da tecnologia, necessita cada vez mais de cidadãos que tenham um conjunto de ferramentas e habilidades que incluam colaboração, conteúdo, comunicação, criatividade e confiança. Segundo Hirsh-Pasek e Golinkoff (2008), cada um desses 'Cinco Cs' é alimentado na aprendizagem lúdica e esta pode ser desenvolvida por meio de jogos ou brincadeiras no ambiente escolar, preparando as crianças para um mundo globalizado e em constante transformação.
Os documentos oficiais da educação brasileira enfatizam a importância da ludicidade na Educação Básica. No Ensino Infantil, a criança deve ter a possibilidade de ' [...] envolver-se em explorações e brincadeiras com objetos e materiais
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diversificados que contemplem as particularidades das diferentes idades [...] ' (BRASIL, 2013, p.93).
Enfatizando a necessidade de assegurar aos alunos um percurso contínuo de aprendizagem, as orientações curriculares para a Educação Básica afirmam que
[...] o Ensino Fundamental terá muito a ganhar se absorver da Educação Infantil a necessidade de recuperar o caráter lúdico da aprendizagem, particularmente entre as crianças de 6 (seis) a 10 (dez) anos que frequentam as suas classes, tornando as aulas menos repetitivas, mais prazerosas e desafiadoras e levando à participação ativa dos alunos. (Ibid., p. 121).
Apesar do estímulo para realização das atividades lúdicas na Educação Básica, a potencialidade das brincadeiras ainda é pouco explorada na Educação em Ciências no Ensino Fundamental. As razões são várias, dentre as quais destacamos a precária formação em Ciências dos professores que lecionam nos anos iniciais do Ensino Fundamental em relação ao domínio dos diferentes conteúdos que integram a disciplina escolar de Ciências Naturais nessa fase da educação. Não estamos defendendo aqui que esses professores devam possuir tais domínios, o que consideramos impossível e desnecessário, mas, queremos alertar que, no geral, a falta desse domínio afasta os professores dessa disciplina e, com isso, perdem a capacidade de explorar o potencial da formação marcadamente generalista dos cursos de pedagogia, cuja grade curricular possibilita a articulação de inúmeras possibilidades metodológicas e práticas didáticas diferenciadas. .
Com o objetivo de aproveitar a formação acadêmica e as práticas pedagógicas dos professores de Ciências dos anos iniciais do Ensino Fundamental, o trabalho aqui apresentado relata a realização de uma brincadeira de faz de conta que está sendo desenvolvida nas aulas de Ciências de uma turma de alunos do 5º ano do Ensino Fundamental de uma escola pública municipal de uma cidade do interior de Minas Gerais.
Os nomes apresentados nesse trabalho são fictícios, preservando assim a identidade dos participantes.
## Contexto teórico
Kishimoto (2011) estudou a natureza conceitual do significado do jogo ao longo da história e a polêmica que acompanha a apropriação desse termo no campo da educação. Essa autora considera jogos, brinquedos e brincadeiras como materiais pedagógicos utilizados no trabalho docente em que a ludicidade se faz presente.
Segundo Huizinga (2014), lúdico tem origem na palavra latina ludus que significa jogo e abrange '[...] os jogos infantis, a recreação [brinquedos e brincadeiras], as competições, as representações litúrgicas e teatrais e os jogos de azar.' (Ibid., 2014, p.41).
Apesar de os jogos e as brincadeiras terem a ludicidade como característica comum, Kishimoto (2011) afirma que 'diferindo do jogo, o brinquedo supõe uma relação íntima com a criança e uma indeterminação quanto ao uso, ou seja, a ausência de um sistema de regras que organizam a sua utilização.' (Ibid., p.20).
Portanto, podemos considerar que o jogo é uma atividade lúdica baseada em regras bem definidas e preexistentes no próprio objeto, enquanto que o
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brinquedo permite uma atividade lúdica estimuladora da imaginação e da liberdade de ação daquele que brinca, com regras implícitas, que são flexíveis e elaboradas pelo sujeito que brinca, cuja imaginação somente é limitada pelo desejo de até onde sonhar.
- O desejo da criança de fazer coisas que os adultos fazem no cotidiano possibilita a invenção de situações imaginárias para brincadeiras de faz de conta, como, por exemplo, cuidar de um recém-nascido com sua boneca de pano ou dirigir um automóvel com o seu carrinho de plástico. Assim, 'impedida de vivenciar a situação real, a criança inventa o faz-de-conta [...] que, a partir dos dois anos, vai guiar o desenvolvimento psicológico infantil.' (PRESTES, 2011, p.3-4).
## Segundo Vigotski (2008, p.15),
a brincadeira cria uma zona de desenvolvimento iminente na criança. Na brincadeira, a criança está sempre acima da média da sua idade, acima de seu comportamento cotidiano; na brincadeira, é como se a criança estivesse numa altura equivalente a uma cabeça acima da sua própria altura. A brincadeira em forma condensada contém em si, como na mágica de uma lente de aumento, todas as tendências do desenvolvimento; ela parece tentar dar um salto acima do seu comportamento comum.
Nesse sentido, corroboramos com a ideia de Prestes (2011, p.4) de que 'A brincadeira de faz-de-conta é uma atividade séria em que a criança aprende e se desenvolve. Ao criar uma situação imaginária, desenvolve seu pensamento abstrato, aprende regras sociais, educa sua vontade'.
A seguir, relatamos o primeiro episódio da brincadeira de faz de conta que estamos realizando nas quatro aulas geminadas de Ciências. 1
## Desenvolvimento
## Os participantes da brincadeira de faz de conta
Com o objetivo de conhecer o contexto da escola onde seria realizada a brincadeira de faz de conta, um dos autores deste trabalho apresentou-se aos alunos como um professor e pesquisador, cujo objetivo era observar as aulas de Ciências para o desenvolvimento de um estudo de doutoramento em Educação. Nesta fase inicial não foi relatada aos alunos a atividade que seria desenvolvida posteriormente.
A etapa de imersão no campo de estudo aconteceu durante três meses, com a observação de 48 aulas de Ciências, e teve por objetivo conhecer as características e peculiaridades da escola, da professora de Ciências e dos alunos da turma, a fim de desenvolver e estruturar a brincadeira de faz de conta, relacionada ao tema de Ciências abordado pela professora, que seria aplicada posteriormente. Conhecer esse contexto foi de fundamental importância para a proposição de uma atividade estimulante, utilizando uma linguagem acessível e compatível com os alunos e com as peculiaridades da realidade escolar desse nível de ensino, pois, de acordo como Lüdke e André (1986, p.26) 'na medida em que o observador acompanha in loco as experiências diárias dos sujeitos, pode tentar apreender a sua visão de mundo, isto é, o significado que eles atribuem à realidade que os cerca e às suas próprias ações.'
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A escola municipal em questão atende a uma clientela de 343 alunos, distribuídos em turmas do 2º ao 5º ano do Ensino Fundamental no período matutino, do 6º ao 9º ano no período vespertino e de Educação de Jovens e Adultos no período noturno. Todos os alunos são moradores do bairro e adjacências.
A professora de Ciências da turma que acompanhamos é coautora deste trabalho. Ela cursou Magistério, é graduada em Pedagogia, possui especialização em Psicopegagogia e tem sete anos de experiência docente. Este ano tem sido sua primeira experiência como professora de Ciências, pois, até então, só havia trabalhado na Educação Infantil e nos anos iniciais do Ensino Fundamental com aulas de Português, Matemática, História e Geografia.
A turma em questão é constituída por 21 crianças do 5º ano do Ensino Fundamental, com faixa etária entre 10 e 12 anos. As dificuldades de escrita, de leitura e de argumentação de ideias ficaram evidentes no período de observação. Além disso, a maioria das crianças da turma mostrou ter grande dificuldade de engajamento na aula e pouco interesse para o estudo das Ciências. Tais características configurou um ambiente onde a professora teve certa dificuldade de atuação, frente às ações de várias crianças que interagiam entre si de forma aleatória e descontextualizada.
## Relato do primeiro episódio da brincadeira de faz de conta
## Motivação Inicial
Inicialmente, o pesquisador relatou aos alunos algumas brincadeiras de faz de conta que ele realizava na sua infância, tal como brincar de piloto de corridas sentado em uma poltrona com um capacete de plástico de cor laranja de viseira esverdeada e transparente verbalizando os sons de uma emocionante corrida de automóveis.
A partir desse relato, vários alunos acenaram a cabeça afirmativamente, parecendo relembrar algumas brincadeiras de faz de conta que eles já haviam participado.
Carlos, por exemplo, com bastante desenvoltura, verbalizou a brincadeira que realizava quando jogava futebol, imaginando-se o craque responsável pelo gol vitorioso nos últimos instantes de um jogo na decisão de um campeonato imaginário.
Beatriz, por sua vez, sorrindo, descreveu a brincadeira que fazia com sua boneca imaginando-a como sua filha, parecendo se transportar saudosamente para uma ação não muito distante, mas cada vez menos explorada em suas brincadeiras.
A partir deste ponto, o pesquisador propôs à turma uma brincadeira de faz de conta. Todos os alunos responderam afirmativamente.
## Introdução
- O pesquisador iniciou a brincadeira de faz de conta, apresentando o seguinte enredo (em fase de elaboração) : 2
'Estamos no ano 2025. No ano 2023, o nosso planeta Terra foi invadido por alienígenas do planeta (?)'
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Neste instante, foi solicitado que os alunos escolhessem o nome do planeta para que se sentissem produtores do enredo da brincadeira. Foram sugeridos vários nomes de planetas já conhecidos e outros inventados, a maioria escolheu o nome Marte para o planeta dos alienígenas.
Continuando a narrativa:
'Os alienígenas eram chamados de (?)'.
Novamente a participação das crianças foi evocada para a escolha do nome que seria dado aos alienígenas. Após uma rápida discussão, as crianças decidiram chamar os alienígenas de marcianos. Neste momento percebeu-se que os alunos já se mostravam envolvidos pelo enredo.
## O pesquisador continuou a sua exposição:
'Os alienígenas eram chamados de marcianos e eles estavam interessados na água, no ar e nas fontes de energia do nosso planeta. Após várias batalhas, vencemos a guerra. Entretanto, com a guerra intergalática a Terra ficou com pouca água, com o ar poluído e contaminado e com poucas fontes de energia. Além disso, os livros, os computadores e a internet foram destruídos. Mas o grande problema da guerra intergalática foi à contaminação do ar com o vírus (?).'
Novamente, com o intuito de manter a atenção dos alunos e fazê-los imergir ainda mais no enredo da brincadeira, o pesquisador solicitou que eles sugerissem um nome para o vírus. Foi escolhido o nome Intergalático.
## Desenvolvimento
## O pesquisador continuou sua narrativa:
'O vírus Intergalático não fez nenhum mal para os jovens, mas afetou profundamente os adultos. O vírus Intergalático destruiu todo o conhecimento dos adultos sobre ciências. E agora? Pouca água, ar poluído e contaminado com o vírus Intergalático, poucas fontes de energia e os adultos sem conhecimento sobre Ciências. Quem vai usar o conhecimento científico para tentar resolver os problemas da Terra?'
Ao apresentar a pergunta, após um momento de silêncio, Clarice respondeu, chamando a atenção dos outros de que a resposta era óbvia:
'Nós, claro!!!! Nós somos jovens e não fomos infectados.'
A frase exclamativa de Clarice e a reação dos alunos evidenciou o envolvimento de todos na brincadeira de faz de conta.
## O pesquisador concluiu:
'Então, como vocês são jovens e não foram infectados pelo vírus, podem aprender a usar o conhecimento científico para tentar salvar a vida na Terra. Vocês aceitam ser jovens cientistas?'
Todos responderam que sim, demonstrando certa ansiedade em relação ao que iria acontecer a partir dali. Aproveitando o cenário, o pesquisador continuou:
'Para serem jovens cientistas, vocês receberão um jaleco e um crachá de cientista'.
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Quando o pesquisador disse que iriam receber um jaleco e um crachá de cientista , as crianças mostraram-se surpresas, valorizadas e estimuladas ainda 3 mais a participar da brincadeira. No crachá de cada um havia um espaço para colocar o nome, uma foto ou algum desenho personalizado de identificação.
Enquanto as crianças recebiam e experimentavam o jaleco e o crachá foi evidente o aumento da autoestima de todos. Alguns alunos já combinavam de saírem vestidos com o jaleco e com crachá preso ao bolso ao final da aula.
Entretanto, uma criança chamou a atenção do pesquisador. Paula, com os olhos marejados, sentada em sua carteira, olhava para o seu jaleco ainda dobrado. Ao ser perguntada se havia experimentado o jaleco, Paula disse que não iria servir nela, mesmo antes de ter experimentado. O pesquisador e a professora da turma já haviam percebido que as medidas corporais de Paula e de outras duas crianças eram maiores que da maioria da turma e, por isso, já haviam adquirido três jalecos um pouco maiores para esses alunos.
Com cuidado para não enfatizar o que parecia incomodar Paula, a professora motivou-a a experimentar o jaleco. Depois de experimentá-lo, Paula ficou feliz e ansiosa para continuar a brincadeira.
## O pesquisador continuou o desenvolvimento da atividade:
'Como já falei para vocês, o ar de nosso planeta está poluído e contaminado com o vírus Intergalático. Alguém sabe explicar como respiramos?"
Algumas crianças tentaram explicar pronunciando palavras soltas: boca, nariz, pulmão, ar, árvore, entre outras. Nenhuma criança pareceu saber descrever o processo de respiração.
Neste momento o pesquisador tentou atrair os alunos falando da relação entre a respiração e a pressão atmosférica descrevendo a dificuldade dos jogadores de futebol ao jogarem em uma região situada numa grande altitude. Entretanto, nenhuma criança demonstrou interesse na sua explanação. O que eles desejavam era brincar com o jaleco e com o crachá de cientista.
Rapidamente, o pesquisador retornou para a brincadeira de faz de conta, afastando-se da postura do professor explicador:
'Depois da guerra e da expulsão dos alienígenas, encontrei uma folha rasgada de um antigo livro de Ciências. Observem a figura. Será possível que um pedaço de papel mantenha a água dentro do copo virado conforme a figura abaixo?'
Figura 01: copo cheio de água tampado com uma folha de papel
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Lúcia, entusiasmada, afirmou que sim, pois já havia feito aquilo. Ricardo, por sua vez, enfatizou que era impossível, pois a água iria cair quando o copo fosse virado. Várias outras crianças concordaram com a afirmação de Ricardo.
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Em meio aquele alvoroço pedagógico, propus fazer a atividade na sala e os alunos ficaram entusiasmados.
Com o objetivo de fortalecer a ideia apresentada por Ricardo, o pesquisador virou o copo com água, tampado com uma folha de papel, mas o fez de tal forma que a água caísse.
Ricardo, ao perceber que sua ideia foi confirmada, bradou de satisfação. Lúcia, ao ver aquilo, rapidamente dirigiu-se à frente da sala , solicitando que ela fizesse a atividade. Lúcia realizou a atividade e a água não caiu. Todos os alunos ficaram entusiasmados. Ricardo, perplexo, ainda tentava explicar a incoerência do observado, chegando a afirmar que se o papel fosse mais fino, aquilo não aconteceria. Então, o pesquisador propôs que Ricardo utilizasse um papel mais fino. Meio temeroso, Ricardo realizou a atividade com papel mais fino e a água não caiu, levando-o à estagnação momentânea e interrogativa.
A partir daí, todos os alunos quiseram virar o copo com água para ver quem conseguiria mantê-lo cheio.
Neste episódio, foi interessante observar a motivação dos alunos ao realizarem a atividade. O pesquisador ficou em segundo plano, pois as crianças assumiram a situação, organizando elas próprias o momento de cada uma virar o copo com água.
Após todos os alunos fazerem a atividade com muito entusiasmo, o pesquisador, tentou novamente assumir a postura de professor explicador, chamando a atenção das crianças para entender o porquê da água não cair, mesmo com o copo virado. Entretanto, a maioria das crianças parecia não estar interessada naquela explicação. O que elas queriam mesmo era brincar e planejar como iriam mostrar aquela experiência para seus amigos e familiares. Roberta, por exemplo, verbalizou a sua ansiedade em mostrar a atividade para a sua irmã, prevendo que ela deveria ficar bastante assustada ao observar aquela situação.
Nesse cenário, as crianças voltaram a combinar que deixariam a escola vestidos com o jaleco e com o crachá de cientista preso ao bolso, já que era a última aula do dia. Algumas crianças dirigiram-se ao pesquisador, ansiosos para saber do próximo encontro, demonstrando bastante alegria e satisfação com a atividade.
## Considerações finais
No transcorrer da brincadeira de faz de conta, percebemos, desde o início, o grande envolvimento dos alunos como sujeitos da brincadeira e como produtores de algumas cenas do enredo, quando acionados. O envolvimento de alguns alunos foi tão significativo que eles relataram, na aula seguinte, que filmaram a atividade em suas casas para mostrar a seus familiares e também para marcar o tempo que o copo virado permanecia cheio de água.
- O episódio em que Paula não queria experimentar o seu jaleco foi marcante no sentido de indicar a importância de se conhecer os alunos antes da aplicação da atividade e mostra também que a brincadeira pode ter significados diferentes para cada criança, podendo provocar outros sentimentos além da satisfação e da alegria, normalmente esperados quando da realização de atividades lúdicas.
Para a maioria dos professores, a principal função da prática docente é explicar algo que o aluno ainda não sabe. Entretanto, no episódio relatado, ficou
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evidente que as crianças, naquele momento, não queriam saber da explicação do porquê de a água não cair do copo virado. O estímulo da brincadeira de faz de conta despertou o interesse das crianças para brincar, manusear os objetos, imaginar e testar outras ações. Enfim, o que elas queriam era explorar a atividade proposta sem muitas regras ou roteiros previamente definidos. Talvez, esteja aí a principal constatação desse primeiro evento: apesar de a brincadeira ter sido pensada para um propósito educacional, esta deve ser adaptável ao contexto e ao momento em que é aplicada, a fim de que se possa explorar o seu potencial no desenvolvimento de competências procedimentais e atitudinais não previstas inicialmente.
Neste trabalho estamos enfatizando a importância de investigar o processo em que a brincadeira ocorre, pois entendemos que nesse processo são colhidas informações que não seriam passíveis de serem observadas a partir da simples análise do produto resultante da atividade lúdica ou de resultados de testes aplicados para saber o que os alunos aprenderam com a atividade. Por isso, estamos dando continuidade a este estudo e esperamos que o relato aqui apresentado possa incentivar outras pesquisas sobre a utilização das brincadeiras em de Ciências.
## Referências
BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Básica. Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais da Educação Básica. Brasília: MEC, 2013. 562p. Disponivel em:
<http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com\_docman&view=download&alias=15 548-d-c-n-educacao-basica-nova-pdf&category\_slug=abril-2014-pdf&Itemid=30192> Acesso em 10 ago. 2015.
HIRSH-PASEK K, GOLINKOFF RM. Why play=learning. In: Tremblay RE, Boivin M, Peters RDeV, eds. Encyclopedia on Early Childhood Development [online]. Montreal, Quebec: Centre of Excellence for Early Childhood Development and Strategic Knowledge Cluster on Early Child Development; 2008:1-6. Disponível em: <http://www.child-encyclopedia.com/documents/Hirsh-Pasek-GolinkoffANGxp.pdf> Acesso em 19/02/2013
HUIZINGA, J. Homo Ludens: o jogo como elemento da cultura.8.ed. São Paulo: Perspectiva, 2014. 243p.
KISHIMOTO, T. M. Jogo e a educação infantil. In: \_\_\_\_\_\_ (Org.). Jogo, brinquedo, brincadeira e a educação . 14.ed. São Paulo: Cortez Editora, 2011. p. 15-48.
LÜDKE, M.; ANDRÉ, M. E. D. A. Pesquisa em Educação: abordagens qualitativas. São Paulo: E.P.U., 1986. 100p.
PRESTES, Zoia. A brincadeira de faz de conta como atividade guia. Prefeitura Municipal de Florianópolis, 2011. Disponível em:
<http://portal.pmf.sc.gov.br/arquivos/arquivos/pdf/14\_02\_2011\_11.23.25.5523439fc3 22d424a19c109abd2d2bb9.pdf> Acesso em: 20 jun. 2016.
VIGOTSKI, L. S. A brincadeira e o desenvolvimento psíquico da criança. Trad. Zoia Prestes. Rio de Janeiro: UFRJ. Revista GIS n.11, 2008, pp. 23-36. Disponível em:<http://www.Itds.ufrj.br/gis/anteriores/rvgis11.pdf > Acesso em: 10 mar. 2016.
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