MEMÓRIAS SOBRE O SENTIDO DA ESCOLA BRASILEIRA
Adolfo Forti
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXII
- Ano
- 2017
- Data
- 26/01/2017
- Linha de pesquisa
- Educação Científica, Política E Sociedade
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## MEMÓRIAS SOBRE O SENTIDO DA ESCOLA BRASILEIRA
## Adolfo Forti
Universidade de São Paulo/Instituto de Física/adolfo.machado@usp.br
## Resumo
Neste trabalho apresentamos uma análise panorâmica das atividades sociais envolvidas na história do Brasil, e seu complexo entrelaçamento com interesses políticos e econômicos para o desenvolvimento do objeto de análise desta pesquisa, a saber: o 'Sentido da Escola Brasileira'. Aqui, 'sentido' significa o papel da escola na sociedade brasileira ao longo dos últimos dois séculos. Ao iniciar este trabalho não admitimos simplificações na análise sociológica em relação a um evento histórico, mas buscamos, antes, compreender um movimento social como um processo amplo, de profunda e sofisticada análise. Dito isto, enunciamos aqui os três momentos da nossa história para os quais esta pesquisa se dedica: a primeira parte é um olhar sobre o Brasil imperial, (~1808 até 1825), a configuração daquela sociedade, e os motivos que estimularam o aparecimento de uma escola à época. A segunda parte do texto é um olhar sobre o momento histórico seguinte ao império, que é o Brasil República (~1889 até 1910), a escola nesse contexto, quais transformações envolvem essa passagem da história e quais elementos cristalizados nas práticas escolares sofrem mudanças. O terceiro ponto da nossa história sobre o qual nos debruçamos é a época chamada de 'corrida espacial' (~1950 até 1970), os seus impactos nas práticas cotidianas, nos anseios da sociedade e no projeto de desenvolvimento nacional de diversos países. Simultaneamente, a escola, como espaço de transmissão de cultura e consequentemente objeto de transformação social, sofre pressão dessas forças sociais externas. Como exemplo, trazemos alguns dos mais importantes projetos de ensino de física no Brasil.
Palavras-chave : Escola Brasileira, Currículos, História do Ensino de Física
## Introdução
Entender a razão pela qual uma sociedade mantém um determinado costume compõe um problema de solução não trivial, e é necessário buscar compreender sua história e as atividades sociais que a envolveram ao longo dos anos. Também é recorrente, ao investigar um fenômeno social complexo, que se façam suposições sobre o comportamento dos indivíduos em grupo e, invariavelmente, sobre a natureza humana. A abrangência de fatores envolvidos nesse sistema nos obriga a fazer uma escolha de 'unidade de análise', elemento por meio do qual realizaremos nossa investigação nas diferentes épocas desejadas. Nesse trabalho, olhamos um objeto de análise abstrato, a saber, 'o sentido da escola brasileira', isto é, queremos compreender a instituição escolar, sua formação, seu currículo, e a evolução desse sistema por meio dos seus projetos de ensino ao longo dos anos. O presente trabalho está dividido em três blocos: No primeiro realizamos um olhar sobre a transição do Brasil de colônia à império, onde o processo de transição entre modelos políticos essencialmente distintos demanda uma transformação social profunda, e o uso que o Império fez da instituição escolar para promover tais mudanças. No segundo bloco estendemos a análise, porém agora com um olhar sobre o Brasil república, um tipo de organização social convicta da inteligência coletiva para a
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23 a 27 de janeiro de 2017
solução das contradições comuns. Tendo a ideia do sufrágio sido fortalecida por esse sistema, pressupôs-se que o progresso era fruto de discussões arejadas, esclarecidas, e a escola novamente desempenhava papel fundamental nessa etapa da nossa história. A escola passa então a afirmar valores republicanos, o estado, a família, a bandeira e o hino nacionais ganham importância significativa nesse ambiente. Finalizamos no terceiro bloco abordando a época conhecida como 'Corrida Espacial'. Após duas guerras mundiais, o mundo assistiu a um embate ideológico importante, que resulta na disputa "pacífica" por saber qual hegemonia política era a mais poderosa. Essa disputa concretizada na então chamada corrida espacial, trás no seu bojo, curiosamente, a escola, que também sofre pressão, justificada por um projeto de desenvolvimento nacional com repercussão ampla, investimentos públicos altíssimos, impacto nos modos de produção e reformulação dos currículos escolares, que indicam a concretização desse projeto de desenvolvimento no país. O Brasil, assim como a maioria dos países, assimila essa ideia de progresso pela expansão tecnológica e formula alguns projetos de ensino de física.
## Metodologia
Escolhemos trabalhar com textos, livros, artigos e teses que interpretem de alguma forma os valores colocados sobre os diferentes níveis hierárquicos da política brasileira buscando entender como a pressão exercida sobre as camadas superiores dessas estruturas chegam até os níveis inferiores na cadeia de atividades da instituição escolar. Priorizamos também os trabalhos que de alguma maneira fazem uso de materiais digitalizados (jornais e revistas), fotografias e vídeos na comprovação dos argumentos colocados. Entendemos a noção de memória humana não só como um fenômeno individual, mas também como um processo coletivo e histórico, e nos interessa resgatar as mídias usadas em diferentes momentos para compreender a narrativa da nossa história. Ademais, usamos trabalhos que nos inspiraram no processo de elaboração da totalidade aqui apresentada.
## Escola no Brasil Império
É de conhecimento geral os fatos da história brasileira que motivaram mudanças na estrutura da nossa sociedade, como, por exemplo, o curioso fato de que o Brasil deixou de ser uma colônia de exploração e passou a ser chamado Império do Brasil, não por um plano estratégico de desenvolvimento nacional, antes porque o Imperador de Portugal, Dom João VI, fugiu para o território colonial após a invasão de Napoleão Bonaparte em Portugal, com fins de guerra. O que geralmente não é de conhecimento geral são os fatos subsequentes, porém não de menor importância, que seguiram movimentos como este primeiro. Por exemplo, com a vinda da família real no começo do século XVIII, com a corte portuguesa e também a biblioteca lusitana contendo mais de 6.000 livros para a então Colônia de exploração, desencadeou-se um processo de transição deste território para um novo Império. Esse fato mudaria fundamentalmente nossa história. Com a instalação da Corte portuguesa no Brasil, não fazia mais sentido continuarmos com o título de colônia, uma vez que o próprio imperador se encontrava em nossas terras. Foi então
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decretado o território como Império do Brasil, tendo D. João VI como imperador. Este, porém, não fica muito tempo nas terras do novo império, sob a ameaça da perda de poder português, devido a um vácuo de representatividade, e volta à Europa, deixando seu filho, Pedro I, em seu lugar.
Seremos breves no relato desses fatos, pois aqui nos interessa analisar as consequências desse movimento nos rumos da educação brasileira. Esse movimento, de transformação do Brasil de colônia em Império, e em mais alguns anos em País independente, foram centrais na nossa história, e vale nos atentarmos aos métodos pensados para transformar a cultura do Brasil em uma cultura com lógica de pais livre. No final das contas, podemos nos perguntar: como se transforma a população de uma colônia de exploração em um povo pertencente a um império, com valores de nação, cultura, arte, como os cultivados na época? Não queremos aqui simplificar a atividade social de uma época a um ou outro ponto específico, porém nos atentaremos à valorização dada ao surgimento da escola, e ao processo de escolarização como resposta para esse problema. Um primeiro elemento para o qual chamamos a atenção é o aparecimento de algumas transformações no ambiente escolar, como, por exemplo, o chamado 'ensino de coisas', ou seja, uso de coleções de insetos, globos terrestres e mapas como recurso didático de ensino (MORAIS, 2010), além do mobiliário. Além disso, a estrutura administrativa da escola, com um inspetor de alunos e diretor, é criada nesse momento nos moldes como a conhecemos até hoje.
Analisaremos essa evolução através do trabalho de mestrado já citado acima, que entre outras coisas investigou um documento produzido na época chamado Almanaque Laemmert . Trata-se de um jornal mercantil onde divulgavam, entre outras coisas, anúncios de serviços oferecidos no Império, e é aí que podemos encontrar anúncios de escolas da época e entender os valores e objetivos colocados como ideais da escola enquanto instituição.
A fim de entender um processo relacionado a uma época que não teve muitos registros que sobreviveram ao tempo, acabamos por extrair informação de algumas mídias preservadas de que dispomos, e esse jornal nos indicará não só a lógica posta no funcionamento da escola, mas também os valores que se esperava que a escola passasse aos estudantes.
Apresentamos abaixo dois anúncios do Almanaque Laemmert. Nota-se os valores atribuídos ao ensino e o que estava no imaginário da sociedade em relação ao processo de escolarização, observando os anúncios das escolas. Fazemos uma projeção do que se esperava do processo educacional uma vez que os professores são, também, Padres, o anúncio ressalta os valores morais do Diretor Cônego José Mendes de Paiva, e promete habilitar os estudantes a passar nos exames de ingresso para academias do Império. Ainda, no fim do anúncio, é dito que o estabelecimento conta, a fim de ter êxito na atribuição dos valores prometidos na formação, com conselhos do Bispo Resignatário do Pará, reforçando a forte influência religiosa cristã na formação dos estudantes.
Mostra-se presente também a questão de ingresso em universidades locais. Nos dois anúncios é possível ler publicidades referentes à preparação para o ingresso nas academias do Império.
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Figura 01 : Almanaque Laemmert (esquerda); Anúncio da Escola São Pedro de Alcântara (direita) (ARQUIVO PÚBLICO - RJ, 2003)
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## Brasil República
Após um período de algumas décadas em que esses valores foram normalizados no ambiente escolar - chamaremos essa normalização da cultura escolar de 'cristalização' - a escola imperial era bem-aceita, seu acesso era exclusivo à classe dominante economicamente, e os valores ensinados na escola eram em suma valores religiosos e de importância cultural europeia, e a noção de família e nobreza era bastante prestigiada.
Vários acontecimentos concorreram de forma dinâmica, algumas vezes por interesses difusos, em outros casos por interesse econômico e/ou político bem definidos, porém de maneira complexa esses movimentos desenharam nossa história e constituíram o sentido do ensino. Em 1822 é proclamada a independência do Brasil e, em 1824, a constituição, inspirada no colonialismo inglês, previu, entre os direitos civis e políticos, a gratuidade da instrução primária para todos os cidadãos e a criação de colégios e universidades. Em 1889 é proclamada a República, o Brasil passa por transformações significativas e o sentido da escola acompanha esse movimento. Sempre presente como lugar de reflexão das ambições nacionais, a escola se mostra um instrumento de formação de indivíduos, transparecendo através de seu currículo e atividades o projeto de desenvolvimento traçado para as gerações seguintes.
O Brasil República não se diferencia disso. A noção de que as crianças vão para a escola aprender os valores republicanos, e a adorar à pátria e ao estado como abstração de algo superior, está claramente presente no formato do currículo escolar. A seguir, apresentamos um conjunto de fotografias da escola na primeira república. As fotos foram obtidas do acervo público do estado de São Paulo.
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Figura 02: Meninas em aula de costura (esquerda); meninos em aula de esgrima (direita)
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Aqui, nota-se claramente uma transição daquela escola imperial, onde predominavam valores religiosos e nobres, para uma escola com valores morais bastante fortes, porém mais voltada para a família, a pátria e a nação. A bandeira e o hino nacional passam a ser partes integrantes do cotidiano da escola.
## Corrida Espacial
A atividade social desenvolvida no período do final dos 1950 até meados de 1970 serve como base para entendermos importantes transformações que influenciaram profundamente o modelo da escola tal qual o vemos hoje. O período que se segue ao pós-guerra marca também uma polarização, porém de natureza diferente daquela primeira. Acontece, nesse segundo momento, uma disputa pela conquista ideológica dos países. Logo, a demonização de ideologias especificas faz parte da prática comum à época, a fim de instituir valores baseados em identidades culturais dominantes. O período então conhecido como guerra fria, e posteriormente a corrida espacial, são centrais para o desenvolvimento dos chamados "Projetos de Ensino", pela primeira vez projetos curriculares de ensino de Física, Química, Biologia e Matemática (p.e. ver Figuras 3 e 4). Tais projetos foram elaborados por equipes com especialistas em diversas esferas sociais, como professores de ciências, cientistas, psicólogos, pedagogos, editores, jornalistas, entre outros, e revelam a formação de grupos interdisciplinares focados em produzir materiais didáticos para a formação básica, pois a época já havia mostrado que, longe da universidade, o conhecimento científico poderia significar dominação e poder (MATTOS et al ., 2016). Aqui, é possível enxergar o mesmo uso da escola como instrumento de transformação cultural a serviço de uma ideologia convicta no progresso como sinônimo de dominação tecnológica. A cristalização desse sentido para o ensino, em alguns anos, é o que estimula, posteriormente, uma supervalorização do tecnicismo, da memorização como forma de aprendizado, e da resolução de exercícios como método formal de aprendizado de conceitos. A seguir, apresentamos alguns dos projetos de ensino de Física desenvolvidos nesse período.
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Figura 03 : PSSC (esquerda); PEF(direita)
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Figura 04 : PROJETO UNESCO, (esquerda); PROJETO HARVARD (direita
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## Conclusão
A elaboração de uma síntese frente a um panorama como o pretendido nesse trabalho é um processo delicado, pois tivemos a intenção de observar diferentes momentos da história brasileira e encontrar um elemento em comum para estes. De fato, esse foi um movimento não linear, dinâmico e complexo; concluímos, porém, após longa reflexão, que as condições de empreender um programa de ensino não são fruto espontâneo do acaso, ou objeto da força de vontade individual dos professores isoladamente. Antes, é resultado de arranjos institucionais que a política detém. Assim, entendemos que só teremos uma escola com sentido existencial claro, lúcido, e bem direcionado, se tivermos antes um plano de desenvolvimento político atrelado aos interesses da população e uma universidade trabalhando no sentido de formar professores engajados em resolver esses mesmos problemas.
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## Referências
NASCIMENTO, M. I. M. O Império e as primeiras tentativas de organização da educação nacional (1822-1889) . CAMPINAS: UNICAMP, FACULDADE DE EDUCAÇÃO, 2006.
RAMOS, F.P. A educação no Brasil Império . IBICT ISSN 2179-4111, 2010.
MORAIS, A. O Comércio da Instrução no Século XIX: Colégios Particulares, Propagandas e Subvenções Públicas . RIO DE JANEIRO: UERJ, FACULDADE DE EDUCAÇÃO, 2010.
SILVA, L.O. Os Sentidos da Escola na atualidade. PORTO ALEGRE: UFRGS, ESCOLA DE EDUCAÇÃO FÍSICA, 2012.
MATTOS, C.; ORTEGA, J. L. N. A.; RODRIGUES, A.M. Revisitando os projetos de ensino de física: uma perspectiva sócio-histórico-cultural . Em preparação. 2016.
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