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Paulo Freire e Ensino de Física: O Caráter Freireano dos Relatos de Experiência Apresentados do I ao XXI SNEF

Igor Lôbo, Guaracira Gouvêa

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXII
Ano
2017
Data
26/01/2017
Linha de pesquisa
Educação Científica, Política E Sociedade
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## PAULO FREIRE E ENSINO DE FÍSICA:

## O CARÁTER FREIREANO DOS RELATOS DE EXPERIÊNCIA APRESENTADOS DO I AO XXI SNEF

## Igor Lôbo , Guaracira Gouvêa 1 2

1 PPGEdu-UNIRIO, igu.lobo@gmail.com

2 PPGEdu-UNIRIO, guaracirag@uol.com.br

## Resumo

Paulo Freire é um intelectual de extrema importância no campo da educação, com sua crítica a uma educação bancária, que enxerga os educandos como seres passivos onde são depositados os conhecimentos alheios a eles. Seu método de educação problematizadora vai além da simples alfabetização dos educandos, passando pela compreensão de que cultura e conhecimento são construções sociais de todas as pessoas, e visando à transformação dessa sociedade como ela é, excludente e injusta. Esse trabalho - que é parte de de um trabalho maior a ser apresentado como dissertação futuramente busca estudar os relatos de experiência apresentados em todas as edições dos Simpósios Nacionais de Ensino de Física, do I ao XXI, atentando para seu caráter freireano. Para tanto, estudamos as atas desses eventos, buscando no título, resumo ou palavras-chave ao menos um dentre os cinco elementos seguintes: 1) referência explícita a Paulo Freire; 2) abordagem a partir de temas geradores; 3) interesse explícito em emancipação ou transformação social; 4) ênfase na problematização; ou 5) na dialogicidade. Apresentamos a quantidade de trabalhos selecionados, quais usam as ideias freireanas como prática, quais usam apenas como referencial ideológico e quantas vezes cada uma dessas categorias aparece, além de pontuarmos as obras de Paulo Freire mais citadas.

Palavras-chave : Paulo Freire, SNEF, prática, ideologia

## Introdução

Os pensamentos de Paulo Freire e a perspectiva de uma educação problematizadora, como Freire idealizava, estão sendo cada vez mais atacados. Em dezembro de 2014, a prefeitura do Rio de Janeiro representa uma escola como uma linha de produção, com os exatos dizeres: 'Nossa linha de produção é simples. Construimos escolas, formamos cidadãos e criamos futuros - Fábrica de Escolas do Amanhã. Mais educação para o Rio de Janeiro', com crianças sentadas em cadeiras sobre uma esteira mecânica (CARTA CAPITAL, 2014), representando uma estrutura mecanizada da educação.

No ano seguinte, em março de 2015, em uma das manifestações contrárias à recém eleita presidenta Dilma Rousseff, entre palavras de ordem que iam desde o pedido de impeachment até o pedido de intervenção militar, um professor de história carregava uma faixa com os dizeres 'Chega de doutrinação marxista. Basta de Paulo Freire' (FóRUM, 2015). Ainda em março do mesmo ano, é apresentado o projeto de lei que inclui 'entre as diretrizes e bases da educação nacional, o 'Programa Escola sem Partido' ' (JURISDIçãO, 2015), que chama de 'doutrinação

23 a 27 de janeiro de 2017

política e ideológica' propostas pedagógicas progressistas, críticas e problematizadoras.

Já em junho de 2016, com o afastamento de Dilma Rousseff e o governo interino de Michel Temer, o artigo na Wikipedia sobre Paulo Freie é alterado por um órgão público federal para dizer que Freire seria o responsável pela origem da 'doutrinação marxista' e por ter participado da 'última grande reforma da legislação educacional que resultou em um ensino 'atrasado, doutrinário e fraco' ' (EBC, 2016).

São, em poucos meses, grandes ataques ao pensamento freiriano. Portanto, em época de luta contra uma escola crítica, se torna ainda mais importante o enfrentamento a esses setores conservadores da sociedade e sua educação bancária, e mais importante a valorização das ideias freireanas e de uma educação problematizadora.

Assim, reconhecemos a importância cada vez mais evidente da aplicação do pensamento educacional freireano na escola brasileira, de forma a buscar a formação de cidadãos críticos e ativos no processo decisório da sociedade em que se encontram, para que possam transformá-la. Buscamos analisar nos relatos de experiência encontrados nos SNEF (do I ao XXI) elementos que apontem a utilização das propostas, pensamentos e práticas freireanos no ensino de física. Para tanto, precisamos conhecer um pouco do histórico dos SNEF e explorar suas atas, buscando encontrar os relatos com os quais trabalhar.

## Breve Histórico do Simpósio Nacional de Ensino de Física

Até a década de 1940, o Brasil carecia de uma entidade que fomentasse a ciência. Foi em 8 de julho de 1948 que um grupo de cientistas, inspirados em sociedades semelhantes em outros países, funda a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Os anos seguintes à criação da SBPC coincidiram 'com o reconhecimento e a institucionalização da ciência no Brasil, com a criação pelo governo federal de organizações como o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq, 1951), e a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes, 1951)' (Ibid.).

Foi em 14 de julho de 1966, na assembleia da Reunião anual da SBPC, em Blumenau, que a Sociedade Brasileira de Física (SBF) foi fundada (SALINAS, 2001). A criação de uma sociedade própria para a física, com demandas e projetos próprios, foi uma etapa da caminhada para o avanço das pesquisas em física e em ensino de física no Brasil. Foi nessa década que foi introduzido no Brasil o PSSC (Physical Studies Science Committee), que levou a treinamentos e traduções e ao consequente início de uma comunidade brasileira de pesquisadores em ensino de física (FREIRE; CARVALHO; SERPA, 2001 apud PENA; FREIRE, 2003).

No final dessa mesma década, a partir da reforma universitária, que criou os primeiros cursos de pós-graduação, dois deles, o mestrado em Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e o doutorado em Educação da Universidade de São Paulo, passaram a aceitar temas ligados ao ensino de física (SBF, 2011).

A ditadura começa a afetar a SBF mais diretamente em 1969, quando o então presidente da SBF, José Leite Lopes, o vice-presidente Jaime Tiomno e o conselheiro Mario Schenberg são aposentados pelo regime militar, seguidos da aposentadoria de vários outros físicos, o que levou ao surgimento do Boletim

número 1 da SBF, em novembro do mesmo ano, com protestos internacionais contra as aposentadorias (SALINAS, op. cit.).

- É no meio dessa situação toda, no ano seguinte, que acontece a primeira edição do Simpósio Nacional de Ensino de Física (SNEF), na cidade universitária da USP, um evento

de caráter amplo, abrangendo todos os níveis de ensino (com apoio de diversas organizações, mas sem o apoio da Capes ou do CNPq). Esta foi a primeira reunião de trabalho regular da SBF, fora do esquema proporcionado pela Reunião Anual da SBPC (SALINAS, 2001, p. 352).

Nessa primeira edição do evento, além de apresentações e debates, ainda foram aprovadas algumas moções, entre elas que a SBF colaborasse com Sociedades de Física de outros países para promover a pesquisa em ensino de física na América Latina, que a SBF fosse consultada sempre quando na elaboração de novos currículos de física e que fosse destinada maior verba para treinamento de professores de física e para aumento do salário dos professores secundários, já naquela época visto como fato fundamental para a melhoria do ensino de ciências no ensino médio (SNEF, 1970).

- O primeiro SNEF foi um marco na produção em ensino de física. Pena e Freire (2003) mostram através de dados e gráficos como a partir de 1970 houve um crescimento bastante significativo da produção na área de ensino de física. Três anos depois de sua realização é criado o Programa de Mestrado em Ensino de Ciências - Modalidade Física, no Instituto de Física e da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (SBF, op. cit.).

Esse evento foi realizado de três em três anos até 1985, quando é feita a mudança para uma periodicidade de dois anos na assembleia do VI SNEF, na Universidade Federal Fluminense, o que se mantém até hoje (MACêDO et al., 2014). Até 2015 foram realizados 21 SNEF e seus locais de realização variaram entre os estados brasileiros, porém se concentrando majoritariamente no sudeste, só acontecendo no nordeste 2 vezes (XIV, em Natal, e XVII, em São Luis), 1 vez no norte (XIX, em Manaus) e 1 vez no sul (XV, em Curitiba).

Nesse evento são apresentados resultados de pesquisas e relatos que discutem, entre outros aspectos, metodologias de ensino-aprendizagem, problematizando (ou não) o ensino tradicional e propondo outras práticas pedagógicas não-hegemônicas. Dentre elas, está o Método freireano, que propõe 1 uma educação libertadora, capaz de transformar o indivíduo e a sociedade onde ele se encontra. É esse Método e ideologia que buscamos nos relatos de experiência estudados, por acreditarmos na importância dos relatos em tratar da realidade concreta em situações pedagógicas, além de dar voz ao professor, por meio desses relatos, para contar suas práticas, dificuldades, angústias e realizações.

## O Pensamento Freireano

Paulo Freire foi um educador de suma importância no Brasil e no mundo, pioneiro no que chamamos de pedagogia crítica. Sua vida foi marcada por intensas atividades no meio educacional e por tensões políticas derivadas de seu interesse pela educação e pela transformação da sociedade. Durante sua carreira ele escreveu uma série de livros que trataram de sua experiência docente e de seu método de ensino-aprendizagem, onde ele desenvolveu conceitos próprios que são utilizados hoje por educadores e pesquisadores em geral.

Durante sua carreira, ele escreveu diversos textos e livros de extrema importância, entre eles Pedagogia do Oprimido , que é o único livro brasileiro na 'lista dos 100 títulos mais pedidos pelas universidades de língua inglesa consideradas pelo projeto Open Syllabus' (G1, 2016). Esse livro carrega conceitos importantes para Freire, de forma mais teórica, com uma leitura um tanto mais acadêmica, e desde o início dessa obra, Freire já deixa claro a quem ele se dirige: 'Aos esfarrapados do mundo e aos que neles se descobrem e, assim descobrindo-se, com eles sofrem, mas, sobretudo, com eles lutam' (FREIRE, 2014). Pelas suas próprias palavras, é um livro para radicais, sejam eles marxistas ou cristãos (Ibid.). Freire, que vinha sendo apoiado pelos educadores de esquerda no Chile, recebeu críticas do Partido Democrata Cristão em 1968 - no momento da escrita do livro, antes de sua publicação -, que afirmavam que essa obra era uma 'um livro 'violentíssimo' contra a Democracia Cristã' (GADOTTI, 1996).

Seu compromisso com os 'esfarrapados do mundo' o leva a se dedicar à educação, sobretudo à alfabetização de jovens e adultos, que ele compreendia como fundamental para a participação das pessoas no processo democrático de decisões e sua emancipação. Assim, ele desenvolve um método de alfabetização pautado na problematização da cultura e em palavras geradoras presentes na realidade dos educandos e educandas.

Sua primeira experiência com o Método foi em Recife, com um grupo de cinco analfabetos, dos quais dois desistiram já no segundo ou terceiro dia. Esses homens totalmente analfabetos, de zonas rurais, mostraram a Freire um fatalismo de suas condições e uma apatia diante dos problemas (FREIRE, 1967). Foi depois, em Angicos-RN - estado onde também influenciou a campanha 'De Pé no Chão Também se Aprende a Ler' -, em 1963, que ele se torna nacionalmente conhecido pela alfabetização de 300 pessoas em 45 dias.

Ele defendia uma educação capaz de transformar os educandos de objeto a sujeito, polarizando de um lado uma educação alienada e alienante (que ele viria a chamar de Educaçao Bancária ), e do outro uma educação para a liberdade (que ele chamaria de Educação Problematizadora ).

A Educação Bancária seria a concepção hegemônica sobre educação, na qual há uma dicotomia entre a posição intelectual e política - no sentido de quem possui poder e que tipo de poder é esse - ocupadas pela educadora ou educador e pela ou pelo estudante. Em outras palavras, mesmo que essa escolha epistemológica não seja feita de forma racional, refletida, ela é feita pela abstenção no processo intelectual, que leva à assimilação irrefletida. Nessa concepção, o educando é um recipiente onde o educador deposita o conhecimento (por isso bancária), enquanto o aquele apenas recebe o que foi dado. É uma concepção de educação hierarquizada na qual o educando assume uma postura passiva.

Por outro lado, a Educação Problematizadora seria uma educação capaz de trazer os educandos para o espaço de produção do conhecimento, valorizando sua postura ativa e uma prática pedagógica dialogada. Portanto, essa educação não se satisfaz em traduzir o mundo; mas baseia sua prática na problematização do mundo e em sua transformação.

- O resultado de tal educação seria a construção de um homem-sujeito, politizado, crítico, capaz de ler as palavras e o mundo e se reconhecer como membro criador dessa realidade que ele vivencia, e não mero espectador, passivo diante da realidade que lhe é exposta. É esse sujeito ativo que é capaz de participar ativamente na construção da emancipação humana.

## O Ensino de Física Freireano

Mas como as propostas freireanas podem ultrapassar a barreira do seu Método? 'Física também é política' (CANDOTTI, 2009), mas como o ensino de física pode ser também político? Freire mostra uma possibilidade de como se trabalhar na alfabetização de adultos. Mas na 'física, o que fazer' (Ibid.)?

Todo processo político é necessariamente pedagógico. Assim, onde se encontram as escolas? As escolas públicas são naturalmente construídas pelo Estado ou suas esferas (estadual e municipal), portanto são aparelhos de hegemonia (GRAMSCI, 2001) ou aparelhos ideológicos do Estado (LINHARES; MESQUITA; SOUZA, 2007). Uma escola sem debate, sem problematização, sem luta contra injustiças sociais somente reproduz a sociedade como ela é: excludente e injusta. Uma educação que se proponha à emancipação, transformação social, libertação não pode deixar de ser problematizadora. Tem que fazer perguntas fundamentais, como 'o que ensinar?', 'como ensinar?' e sobretudo 'por que ensinar?'. Embora a educação sozinha não mude o mundo, sem ela, nada muda (FREIRE, 1992). E como o ensino de física se encaixa nesse processo?

Das grandes dificuldades no aprendizado de física está na maneira como o ensino dessa ciência é feito de uma forma livresca e descontextualizada, produzindo uma ciência morta (DELIZOICOV; ANGOTTI; PERNAMBUCO, 2002). E mesmo na tentativa de desenvolvimento de ações pedagógicas diferenciadas, ainda há dificuldades na aproximação entre a pesquisa em Ensino de Ciências e o ensino de ciências, 'ou seja, a apropriação, a reconstrução e o debate sistemático dos resultados de pesquisa na sala de aula e na prática docente dos professores dos três níveis são sofríveis' (PENA, 2009). Pena (Ibid.) aponta como causas dessa separação problemas referentes 'à formação inicial e continuada dos professores, às condições de trabalho e ao contexto escolar, aos problemas políticos e econômicos, às orientações curriculares instaladas nas escolas e ao teor da pesquisa'.

## As dúvidas e dificuldades existem, mas também existe

Uma certeza: o ensino não pode se limitar a resolver problemas e a preparar para passar no vestibular! Não basta saber manipular as equações e encontrar respostas, é preciso saber formular as perguntas, equacionar os problemas. Sabemos que o 'gato come o rato', precisamos saber também 'qual é a cor do gato'. E isso não se consegue apenas resolvendo centenas de problemas. Apenas (CANDOTTI, 2009, p. 14).

Nessa pesquisa buscamos encontrar relatos de experiência apresentados nos SNEF, desde sua primeira edição até a última (XXI) que mostrassem

explicitamente a preocupação dos seus autores com o pensamento freiriano. Para isso, buscamos encontrar no título, resumo ou palavras-chave desses trabalhos cinco indicações: 1) uma referência direta a Paulo Freire ou suas ideias; 2) a abordagem através de temas geradores; 3) trabalhos que mostrassem o interesse explícito na emancipação ou em transformar a sociedade (e não apenas em compreendê-la); 4) a ênfase na problematização; ou 5) na dialogicidade.

## Resultados e Discussão

A partir das atas dos eventos, procuramos os cinco elementos escolhidos no título, no resumo ou nas palavras-chave do trabalho e estudamos a forma com que a metodologia foi apresentada, separando entre relatos que apresentavam o uso do Método freireano de forma prática ou que apenas apontavam as ideias freireanas, mas a prática pedagógica foi distinta da proposta por Paulo Freire. Dividimos os relatos, pois, respectivamente em relatos que usam a prática e que usam a ideologia .

A consulta às atas foi feita através da internet, visto que a Sociedade Brasileira de Física (organizadora dos SNEF através de comissões de ensino), em seu site, disponibiliza todas as atas publicadas. As únicas atas que não foram publicadas foram as do IV e VII SNEF, realizados respectivamente no Rio de Janeiro e em Niterói. Na ata do V SNEF ainda é feito um indicativo para se publicar a ata do IV SNEF, que estaria 'em esparsas revistas de ensino' (SNEF, 1982), mas que não se concretiza. Também encontramos dificuldade com a ausência de atas no XIV SNEF, cujo link para acesso aos resumos dos artigos leva a outra página que não contém esses resumos.

Pelas nossas buscas, a primeira vez que se usa Paulo Freire explicitamente em um trabalho apresentado no SNEF foi na VI edição, em 1985, em uma pesquisa intitulada 'Ensino de Física e a Concepção Freireana de Educação', apresentado por Demétrio Delizoicov, onde ele se propõe a trabalhar a ideia dos temas geradores no ensino de física. Já o primeiro relato de experiência com caráter freireano vem aparecer só no IX SNEF, em 1991, intitulado 'O Ensino de Ciências em uma Perspectiva Interdisciplinar', apresentado por Pablo Garcia Carrasco, também trabalhando com temas geradores. Daí em diante, os relatos com perspectivas freireanas começam a ficar mais presentes.

Encontramos 40 relatos que se encaixavam nos nossos critérios de busca. Dentre eles, apenas 18 utilizam a prática freireana, partindo da realidade concreta dos educandos, enquanto os outros 22 apresentam as ideias e metodologia freireanas, mas a prática apresentada segue por outro caminho.

Consideramos trabalhos que partem da abordagem temática como dentro da categoria dos temas geradores desde que houvesse referência direta a Paulo Freire no corpo do texto. Percebemos que muitos trabalhos que utilizavam a abordagem temática e os momentos pedagógicos (DELIZOICOV; ANGOTTI; PERNAMBUCO, 2002) não citavam Paulo Freire expressamente, então optamos por não considerálos em nossa pesquisa, apesar de compreendermos que Delizoicov, Angotti e Pernambuco partem de um referencial freireano para suas propostas; nos interessamos em estudar os relatos que tratam da perspectiva freireana de forma explícita.

Ainda encontramos alguns relatos que se encaixam em nossos critérios, mas que não fazem nenhuma referência a Paulo Freire, como é o caso de 'Atividades de Ensino-Aprendizagem na Física do 2º Grau', apresentado no XI SNEF, em 1995, falando de transformação social; do 'Vamos Viajar ao Espaço? Tema Gerador como Motivação na Inserção da Técnica de Projetos', apresentado no XIX SNEF, em 2011, falando de tema gerador; e 'Problematizando Conceitos de Astronomia: Uma Proposta Pedagógica Baseada nos Três Momentos Pedagógicos', apresentado no XX SNEF, em 2013, que trabalha com problematização e dialogicidade.

Quadro 01: Quantificação dos Relatos

A quantidade de relatos que tratam de cada elemento está apresentada no Quadro 01. Como alguns relatos tratam de mais de um elemento, a soma da quantidade de vezes que cada elemento aparece é maior que a quantidade total de relatos.

As obras mais citadas nesses trabalhos foram 'Pedagogia do Oprimido' (citada 25 vezes) e 'Pedagogia da Autonomia' (17 vezes). Ainda foram citadas outras obras, como 'Educação como Prática de Liberdade' (4 vezes), 'Extensão ou Comunicação' (3 vezes), 'Ação Cultural para a Liberdade' (2 vezes), 'Conscientização', 'Medo e Ousadia', 'Educação e Mudança', 'Professora Sim, Tia Não' e 'Pedagogia da Esperança' (cada uma citada apenas 1 vez).

## Considerações Finais

Paulo Freire é um dos intelectuais mais importantes para a educação não só brasileira, mas em contexto internacional. Suas ideias e práticas têm uma forma de ver o mundo e dialogar com ele próprias e radicais - como ele mesmo disse (FREIRE, 2014) -, fundamentadas primeiro na realidade concreta dos educandos para então chegar aos conteúdos e, por fim, buscar uma transformação dessa realidade.

O ensino de física continua em grande parte com os mesmos problemas apontados por João Zanetic em 1989, propedêutico, 'incompleto, desatualizado, desligado da realidade vivencial e que não chega às fronteiras do conhecimento' (ZANETIC, 1989). O Método freireano pode ser uma forma de aproximar o conteúdo de física da realidade dos educandos, ao invés do contrário. É uma forma de significar, através da realidade, a forma com que os conteúdos serão trabalhados, que conteúdos serão trabalhados e sobretudo por quê esses conteúdos serão trabalhados. Num caminho inverso à proposta de contextualizar conteúdos, usando exemplos práticos para a aplicação do conteúdo, Freire propõe um estudo da realidade para aí sim percebermos o que podemos e devemos trabalhar em termos de conteúdo.

Esse trabalho é uma parte de um trabalho maior a ser apresentado como dissertação no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (PPGEdu-UNIRIO), onde aprofundaremos na análise dos relatos e estudaremos também as pesquisas apresentadas nos SNEF com esse tema, no intuito de apresentar as formas como o pensamento freireano já foram trabalhadas, as dificuldades encontradas e estimular futuros trabalhos nessa linha

## Referências

CANDOTTI, E. Prefácio. In: MARTINS, ANDRé FERRER P. Física ainda É Cultura ? São Paulo: Livraria da Física, 2009. p. 13-18.

CARTA CAPITAL. Prefeitura do Rio retrata escola como linha de produção . 2014. Último acesso em: 30/06/2016. Disponível em: <http://www.cartacapital.com.br/blogs/parlatorio/prefeitura-do-rio-retrata-escolacomo-linha-de-producao-7482.html>.

DELIZOICOV, D.; ANGOTTI, J. A. P.; PERNAMBUCO, M. M. C. A. Ensino de Ciências: Fundamentos e Métodos . São Paulo: Cortez, 2002. 364 p.

EBC. Artigo sobre Paulo Freire é Alterado por Rede do Serpro e Critica Pedagogo . 2016. Último acesso em: 03/07/2016. Disponível em: <http://www.ebc.com.br/educacao/2016/06/artigo-sobre-paulo-freire-na-wikipedia-ealterado-por-rede-do-serpro-e-critica>.

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