INTERICONICIDADE, REGULARIDADE E MEMÓRIA EM IMAGENS SOBRE PARTÍCULAS ELEMENTARES
Jonathan Thomas De Jesus Neto, Henrique Cesar Da Silva
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXII
- Ano
- 2017
- Data
- 26/01/2017
- Linha de pesquisa
- Educação Científica, Política E Sociedade
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## INTERICONICIDADE, REGULARIDADE E MEMÓRIA EM IMAGENS SOBRE PARTÍCULAS ELEMENTARES
## Jonathan Thomas de Jesus Neto 1 , Henrique Cesar da Silva 2
1 UFSC/PPGECT-CAPES/Doutorando bolsista CAPES, jonathantjneto@gmail.com
2 UFSC/MEN-CED-PPGECT, henriquecsilva@gmail.com
## Resumo
Este trabalho teve como objetivo investigar os discursos sobre partículas elementares por imagens que circularam em artigos das revistas Scientific American e CERN Courier, entre 1959 e 1980. Analisar as imagens como discursos, a partir de Foucault e Courtine, é pensálas como parte de um dispositivo, considerando um conjunto de instituições, regras, ditos (vistos) e não-ditos (não-vistos). Trata-se de identificar regularidades inscritas na história, como elementos que operam um espaço de memória que elas contribuem para constituir. Foram selecionadas imagens de rastros das partículas deixadas em detectores como o de emulsões fotográficas e câmara de bolhas, experimentos em que se utilizam líquidos sensíveis a partículas carregadas que ionizam. Essas imagens estão inseridas em artigos que explicam as características das partículas elementares e dão a realidade de sua existência. Desdobrando-as em outras, a elas se associam, às vezes, flechas/setas. Ou desdobram-se em desenhos em paralelo à imagem 'fotográfica' evidenciando as linhas de cada rastro, separando as trajetórias das imperfeições (borrões, sombras, ruídos) das imagens experimentais. Com a noção de intericonicidade foi possível trabalhar a memória da produção dessa visibilidade e as tensões epistemológicas que engendra. Articulando as imagens analisadas com outras imagens nesse espaço heterogêneo de memória, a partir de pistas, rastros de imagens de rastros, construímos uma rede de significação que desloca os sentidos da Física Quântica. Imagens evocadas nessa memória/tensão: as que circulam em modelos da Física Clássica (movimentos bidimensionais, trajetória de cargas elétricas num campo magnético); fotografias de rastro de animais ou de rastros deixados na areia da praia; explosão de fogos de artifícios; rastros deixados por meteoros ou Contrails. O trabalho aponta para buscar as relações entre as condições de produção e circulação de imagens no 'interior' e no 'exterior' da cultura da física.
Palavras-chave : Imagens; Física de partículas; Intericonicidade; Circulação de imagens; Memória das imagens.
## Introdução
Nos tempos atuais, não é difícil encontrar textos que relatam sobre os desdobramentos atuais da ciência. Os textos, ou notícias, são publicados quase simultaneamente às produções científicas através da grande rede de internet. Os jornais impressos e televisivos que publicam sobre ciência disponibilizam colunas para comunicar as produções científicas e fazem o mesmo nos seus sites online . As revistas também utilizam essas práticas em espaços impressos, sites e nas redes sociais. Cada jornal, revista ou site traz enunciados diversos e com linguagens diferentes, em textos verbais, infográficos, imagens, animações ou vídeos. Não fica difícil de se observar que diferentes espaços de circulação na sociedade, seja as mídias digitais, livros, museus, filmes, são atravessados por discursos científicos ou que remetem à ciência. A forma e a rapidez com que esses materiais online se propagam, possuem características complexas e próprias da internet que se diferencia muito de outras formas de circulação. As notícias não ficam apenas nos grandes jornais e revistas, elas entram nas redes sociais e são reproduzidas e
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23 a 27 de janeiro de 2017
compartilhadas, são ressignificadas, reformuladas, produzindo outros discursos através de diferentes materialidades textuais. As materialidades também são modificadas nesses movimentos, o que era enunciado em texto verbal pode se transformar em imagem, ou infográfico se transformar em texto verbal, ou vídeo se transformar em animação e vice-versa.
Sabendo desse contexto midiático de circulação atual, ficamos motivados a investigar o contexto atual na sua relação com memórias de outros momentos históricos. Essa forma de circulação atual é muito diferente se for comparada ao contexto da década de 1950, em que os principais meios de comunicação da ciência eram impressos e estavam restritos, principalmente, às revistas científicas, como as revistas Scientific American ou Nature , ou aos periódicos científicos. Os leitores eram, sobretudo, assinantes dessas revistas e periódicos. Com a internet, novos formatos de comunicação são estabelecidos e a rapidez de propagação mostra uma outra dinâmica na circulação da ciência.
As produções da área da física de partículas são comunicadas através dos processos que foram descritos anteriormente, certas vezes com maior, outras vezes com menor repercussão na mídia. No contexto atual parece haver uma maior circulação de imagens. Estas circulam junto aos textos, ora no início do texto, ora no meio, ora ao lado, algumas vezes as imagens aparecem isoladas nas redes sociais, outras vezes cada fragmento de texto é intercalado por imagens . Observa-se que 1 não é raro nessas notícias a circulação de imagens sobre partículas elementares.
Mas quais são essas imagens que circularam? Em que espaços discursivos elas circularam? Quais as relações que essas imagens possuem com outras imagens? Quais imagens são memórias das que sobreviveram no tempo atual? Seriam essas imagens atuais similares à que circulavam em décadas passadas? Certamente, este trabalho ainda não consegue responder todas essas questões, mas fornece pistas iniciais para se compreender a intericonicidade, a história, a memória e a textualidade dos sentidos que elas engendram.
## Referencial teórico
Courtine (2013) nos oferece uma abordagem sobre imagens que valoriza as suas historicidades, compreendendo-as como formas de materializar discursos, pois os discursos, enquanto efeitos de sentido, podem estar imbricados também em práticas não verbais. Ao pensar as imagens como discursos, assume-se que não existem sentidos ocultos, algo que estaria por trás do(a) dito/imagem, ou ainda, supostas ideologias como conteúdos presentes no(a) texto/imagem. Os sentidos não estão nos(as) textos/imagens em si, os quais jamais são únicos(as) ou estáticos(as). Faz-se necessário ler o texto/imagem na sua relação com a exterioridade, constitutiva da produção do discurso, deslocando o desejo de descobrir algo que estaria escondido, por trás daquilo que é lido, visto, falado ou mesmo silenciado (FOUCAULT, 2008). Para Courtine (2013) as imagens vão se inscrever e se constituir em uma cultura visual, uma cultura atrelada a uma memória visual, na qual as imagens apresentam um eco. Em uma perspectiva de valorização da historicidade da cultura visual, Silva (2006, p. 77) afirma que:
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numa rede de imagens já vistas, já produzidas, que compõem a nossa cotidianidade, a nossa sensação de realidade diante do mundo. A leitura (interpretação) de imagens não depende apenas do contexto imediato da relação entre leitor e imagem: para lê-la o leitor se envolve num processo de leitura (interpretação) que já está iniciado.
Silva (2002) já apontava que é importante refletir também sobre o funcionamento discursivo das imagens, considerando que tanto o texto verbal como o não-verbal (imagético) são incompletos do ponto de vista da significação. Assim '(...) toda leitura, seja do texto verbal ou não-verbal, há interpretação (mesmo que não consciente, intencional), na tensão constante entre repetição e deslocamento de sentidos' (SILVA, 2002, p.80). A imagem não possui um sentido único, um sentido universal, imanente, um sentido que o autor intencionalmente teria colocado nela e que supostamente outro alguém iria captar. A significação, do ponto de vista discursivo, se dá pela inscrição da imagem, sua materialidade, na história, numa rede de memórias.
Manguel (2001) também entende a imagem compondo uma memória, segundo ele, só se enxerga na imagem aquilo que já foi visto antes em algum 'feitio ou forma'. Em suas palavras: 'só podemos ver as coisas para as quais já possuímos imagens identificáveis, assim como só podemos ler em uma língua cuja sintaxe, gramática e vocabulário já conhecemos' (MANGUEL, 2001).
Porém, não se pode ir ao extremo nessa comparação de ler imagem e ler em uma língua, pois como Courtine (2013, p.41) já afirmava: 'a imagem não obedece em nada a um modelo da língua'. A imagem supõe dois tipos de memória, segundo Courtine (2013): as memórias das 'imagens externas', aquelas que são percebidas e as memórias das 'imagens internas', aquelas que são sugeridas, que são '(...) 'despertadas' pela percepção exterior de uma imagem'. A noção de intericonicidade, de Courtine (2013), supõe uma relação entre as imagens percebidas (externas) e as imagens sugeridas (internas). Ele sugere que essas imagens internas são as '(...) imagens da lembrança, imagens da rememorização, imagens das impressões visuais estocadas pelo indivíduo' (COURTINE, 2013, p.43). Não existiriam imagens que não nos fizessem relacionar a outras imagens, sejam essas algo que já vimos ou que simplesmente imaginamos. Assim '(...) a memória também exerce o papel de regulador das imagens em circulação, organizando certo campo de enunciação' (CORREIO, 2013).
Neste trabalho, não tratamos a imagem como um conjunto de signos, mas como elementos de práticas que vão formar os objetos de que se fala, conforme Foucault (2008, p.55):
[...] não mais tratar os discursos como um conjunto de signos (elementos significantes que remetem a conteúdos ou representações), mas como práticas que formam sistematicamente os objetos de que falam. Certamente os discursos são feitos de signos; mas o que fazem é mais que utilizar esses signos para designar coisas. É esse mais que os torna irredutíveis à língua e ao ato da fala. É esse 'mais' que é preciso fazer aparecer, que é preciso descrever.
Pode-se afirmar que as imagens de partículas elementares falam na ciência. Se elas existem em textos de ciência, então elas não estão lá apenas para mera ilustração. As imagens constroem significados, assim como o texto, e constituem os objetos de significação. Investigar as imagens na ciência possibilita construir uma genealogia das imagens, através de indícios, pelos rastros que outras imagens ali depositaram, e pela reconstrução, a partir destes rastros (COURTINE, 2013), mostrando-as como integrantes de uma cultura do campo da física de partículas,
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mas que podem, simultaneamente, circular no espaço de uma cultura visual mais ampla. O presente trabalho é apenas parte desse propósito mais amplo.
Analisar as imagens como discursos, a partir de Foucault (2008) e Courtine (2013), é pensá-las como parte de um dispositivo, considerando um conjunto de instituições, regras, ditos (vistos) e não-ditos (não-vistos). Trata-se de identificar regularidades inscritas na história, como elementos que operam um espaço de memória que elas contribuem para constituir.
## As memórias do passado estão constantemente sob tensão
Para analisar a intericonicidade das imagens, foi feito um recorte temporal de um pequeno período em que se deu o desenvolvimento da física de partículas. O período entre 1950 e 1980 foi marcado por diversos trabalhos significativos para essa área de conhecimento. Antes desse período muitos conceitos referentes ao átomo, radioatividade, relatividade e quântica sofreram transformações.
Duas importantes revistas que circularam nesse período e que trouxeram imagens de partículas foram as revistas Scientific American e CERN Courier . Essas duas revistas são totalmente diferentes entre si. A revista Scientific American é uma revista privada criada por Rufus Porter em 1845 no contexto da Revolução Industrial. Foi nela que muitas novas invenções puderam ser divulgadas e explicadas pelos seus inventores. Em pouco tempo a revista passou a ter a participação de muitos cientistas e possibilitou que diversas áreas da ciência pudessem divulgar seus conceitos e teorias. Atualmente a revista publica em 14 idiomas e distribui para mais de 30 países, seu nome é reconhecido pela comunidade científica . Já a revista 2 CERN Courier , foi criada em 1959 por membros da organização do CERN (Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear), por isso ela se consagrou como sendo uma revista da área da Física de Altas Energias . 3
Em 1911 os raios cósmicos foram detectados por Victor Hess, na Áustria. O estudo das propriedades dos raios cósmicos levou ao conhecimento de duas outras partículas na década de 1930, o pósitron e o múon . Apenas em 1930 começam a surgir importantes aceleradores como o da Universidade de Cambridge, na Inglaterra (CARUSO, OGURI e SANTORO, 2012). Mas é a partir da década 1950 que começam a surgir na comunidade científica as imagens de partículas elementares . 4 Essas imagens estão nos trabalhos publicados em revistas acadêmicas e revistas de divulgação científica. Particularmente, apenas imagens de experimentos chegam a esses artigos, como os experimentos com câmera de bolhas e emulsão fotográfica.
As produções dessas imagens são totalmente experimentais, mas o redesenho é realizado pelo cientista. A Figura 01, extraída da Scientific American de 1974, mostra um pouco dessa prática , onde as duas imagens (na parte superior da 5 página) foram desenhadas abaixo. Muito dos fragmentos são deixados de fora, desenhando apenas o que é de interesse. As legendas das imagens remontam o que foi observado pelo cientista, num tom explicativo do fenômeno que foi
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detectado, demonstrando uma dependência imagem/legenda para a leitura dessas imagens. Flechas dão sentido dos movimentos das partículas e ao lado dessas flechas se encontram letras gregas, comumente utilizadas para nomear as partículas, indicando qual trajeto foi realizado por determinada partícula. Nas legendas, além do texto ser explicativo, utilizam-se as letras gregas distribuídas em formato de equações para explicar as transformações que essas câmeras de bolhas detectam. Com mesmos elementos, as imagens da CERN Courier de 1962, Figura 02, e da Scientific American de 1980, Figura 03, também trazem a imagem obtida através do experimento e o desenho abaixo. O sentido de movimento das partículas fica materializado na legenda da imagem da revista da Scientific American de 1980 . 6
Figura 01: O experimento seguido do desenho 7
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Figura 02: O experimento seguido do desenho 8
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Figura 03: O experimento seguido do desenho 9
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A leitura dessas imagens não é trivial. As imagens não são transparentes, os sujeitos que interpretam essas imagens poderão significar de diversas formas, a partir de diferentes memórias: poderia essa imagem ser apenas rabiscos; poderia ela ser a descrição fiel das partículas em que um neutrino se transformou nesse 'jato de partículas'; poderiam todas as partículas estarem separadas e ocupando o mesmo espaço onde foi chamado de neutrino e depois elas se separariam gerando o 'jato de partículas'; neutrino geraria as demais partículas; neutrino seria todas as partículas desse 'jato de partículas'; poderia a imagem debaixo ser exatamente a mesma que a de cima, eliminando apenas os borrões com um corretivo (ou borracha). Mas conforme a legenda da imagem, Figura 03, o próton foi atingido por um neutrino de alta energia que gerou esse 'jato de partículas'.
Além dessas imagens estarem em revistas entre textos de artigos, elas estiveram emolduradas, possivelmente na sala de um cientista (físico) ou no corredor do seu departamento de pesquisa. Ainda não temos fotos que mostrem algo que afirmamos anteriormente, mas a revista CERN Courier de 1960 11 nos trouxe algo curioso: uma fotografia, Figura 04, mostrando um quadro (mosaico) de uma câmera de bolhas que foi redesenhada 14000 vezes maior para estar acima do palco de uma cerimônia de inauguração do PS (ProtonSyncontron) pelo CERN Nuclear Emulsion Group (Grupo de Emulsão Nuclear do CERN). A Figura 05 mostra
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Figura 04: Evento com o Mosaico 10
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alguém retocando o mosaico criado para a cerimônia. Especialmente, essa revista relata exatamente o processo, considerado científico, que foi tomado para criar esse mosaico. Os cientistas organizaram placas fotográficas em que ficaram expostas as partículas, produzidas por ProtonSyncontron, que interagiram com núcleo de bromo ou de prata. Relatou-se que a imagem original tinha apenas 200-300 µm. A ampliação para obter o mosaico gerou uma imagem de 3,5m x 3,7m. Curiosamente, o título desse artigo nessa revista questiona esse processo: 'The biggest enlargement?' (O maior alargamento? 12 ). Sem entrar em mais detalhes sobre a essa cerimônia, o que fazia essa imagem sobre a cabeça do público? Seria o símbolo daquilo que eles pesquisavam? Sendo ou não um símbolo, uma imagem similar teve a honorabilidade de estar na capa da revista CERN Courier de 1963, Figura 06.
Figura 08: Capa da revista 16
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Figura 05 : Desenhando as partículas 13
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Figura 06 : Capa da revista 14
Figura 07: Ases de Zweig 15
Esse pequeno recorte, da década de 1950 a 1980, mostra uma regularidade das imagens que são entrelaçadas nas práticas de produção e comunicação dessa ciência. Não foram encontradas imagens que utilizam de figuras geométricas, como esferas, para significar as partículas, nem mesmo os diagramas de Feynman utilizavam esferas. Porém, é interessante perceber que o físico Zweig, em seu doutoramento, em 1964, já havia desenhado pequenos diagramas das partículas elementares para explicar a relação dos três quarks para formar uma partícula. Ele chamou os quarks de ' Ases ' 17 . Não circulam essas imagens nessas revistas, pois elas, juntamente com suas teorias, não tiveram a mesma repercussão e aceitação que teve a teoria de Gell-Mann com seus quarks .
As imagens que Zweig desenhou, como a Figura 07, utilizava pequenas esferas, triângulos e quadrados ligados por linhas retas contínuas ou linhas retas pontilhadas. Misturava esses pequenos diagramas com símbolos matemáticos. As legendas dessas imagens acompanhavam longas explicações sobre elas. Por exemplo, na legenda da Figura 07, o texto se preocupou em descrever o que entendia ter sido materializado nas imagens (Zweig, 1964):
- a. Os membros do octeto de bárions são construídos a partir de três deste tipo. Os círculos sombreados nos vértices são ases, enquanto as linhas sólidas significam energias de ligação. No limite simétrica unitária os três ases a, b, e c são indistinguíveis, conforme mostrado.
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## As imagens não se calam
Os jatos de partículas que foram observados em câmeras de bolhas e emulsões fotográficas são memórias que sobrevivem nas imagens que são produzidas atualmente. Na mesma revista, CERN Courier de 2015, Figura 08, a capa exibe um jato de partículas tridimensional em cores vibrantes, o centro do jato é mais iluminado que os outros traços e o título da notícia dessa capa de revista diz: 'lançando uma luz brilhante sobre a matéria', metaforizando os conceitos físicos e a própria imagem em palavras.
A imagem de um lançamento de projéteis descritos em forma de um gráfico, imagem do experimento da razão massa e carga de J.J. Thomsom que utiliza um filamento para gerar um feixe luminoso através de um invólucro de vidro com um campo magnético, ou a imagem do experimento de Rutherford em que partículas são dispersadas ao se aproximarem de um núcleo atômico, certamente, são imagens que podem ser estocadas por um indivíduo. Mas na perspectiva do que se entende por discurso, segundo trabalhos de Courtine (2013), essas imagens são estocadas pelo sujeito discursivo que estão/estiveram em contato com a física clássica. As posições desses sujeitos discursivos podem ser de professores ou estudantes de físicas, podem ser de ex estudantes ou profissionais de engenharia. O que todas esses sujeitos discursivos têm em comum são as memórias da física clássica. Em todas essas imagens, tomadas como memórias, os conceitos da mecânica quântica não são predominantemente inseridos, trata-se de memórias de movimentos com trajetórias que são modificadas por forças (gravitacionais ou eletromagnéticas) que a física clássica tem afinidade. São as imagens das câmeras de bolhas e emulsões fotográficas que nos fazem relacionar com essas imagens de trajetórias. E as legendas não contribuem para significarmos diferentemente.
Por outro lado, não menos importante, existem imagens que sujeitos discursivos diversos podem facilmente sugerir, podendo relacionar a outras imagens que já foram vistas ou simplesmente imaginadas (COURTINE, 2013). Durante a leitura de imagens como as Figuras 01 e 02, pode-se facilmente mobilizar imagens externas à Física e se imaginar que elas tratam de fotografias de uma trilha deixada por formigas que saíram de diversos buracos da terra. E mesmo que essa imagem seja lida em um livro de Física, não seria estranho se fosse imaginado um problema cinemático clássico de deslocamento de uma formiga. É possível deslocar os sentidos das Figura 01 e 02 através de outras memórias como as memórias externas à cultura da Física: pegadas humanas na areia; rastro que um pneu de bicicleta deixa na areia; evidências estratigráficas, significando diferentes tipos de impressões do corpo do mesmo animal localizado em icnofósseis na superfície do varvito; explosões de fogos de artifícios; meteoros entrando na atmosfera terrestre; Contrails (fumaça branca) deixados por aviões no céu.
## Considerações finais
As imagens que foram encontradas nas revistas analisadas, demonstram que elas faziam circular imagens que foram produzidas experimentalmente, mas não faziam circular quaisquer outras imagens da mesma forma que ocorre hoje. Encontrou-se uma singela regularidade: imagens de rastros das partículas deixadas em detectores como o de emulsões fotográficas e câmara de bolhas. Essas imagens estiveram inseridas em artigos que explicaram as características das partículas elementares e deram a realidade de sua existência. A elas se associam,
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desdobrando-as em outras. Às vezes surgem flechas/setas ou surgem desenhos em paralelo à imagem 'fotográfica', evidenciando as linhas de cada rastro, separando as trajetórias das imperfeições (borrões, sombras, ruídos) das imagens experimentais.
As imagens atuais são reguladas através desse conjunto de imagens de décadas passadas, gerando um determinado campo de regularidade e memória que tentamos evidenciar nesse trabalho. Observou-se que os materiais mais recentes carregam memórias das imagens das câmeras de bolha e emulsões nucleares que circulavam na década de 1950 a 1980. Com a noção de intericonicidade foi possível apontar a memória dessa visibilidade e as tensões epistemológicas que engendra. Articularam-se as imagens analisadas com outras imagens nesse espaço heterogêneo de memória, a partir de pistas, rastros de imagens de trajetórias, construiu-se uma rede de significação que dispersa os sentidos e desloca sentidos da Física Quântica (dualidade partícula-onda).
Compreender as memórias e as tensões epistemológicas que estão associadas a essas imagens sobre partículas elementares, é relevante para refletirmos sobre o funcionamento do texto e da imagem no âmbito escolar. Como mencionado por Silva (2006, p. 72), o texto e as imagens 'são produzidos históricosocialmente como parte da cultura humana e distribuem-se, circulam e funcionam de formas desiguais', indicando que sua circulação e funcionamento sejam elementos importantes a serem considerados nas reflexões sobre ensino e educação científica. Acreditamos que seja pertinente que professores busquem fazer a leitura das imagens sobre partículas elementares considerando essa rede de significação histórica e cultural que pode deslocar os sentidos da Física Quântica, para sentidos epistemologicamente não aceitáveis dentro da Física. Assim, implicando em um ensino que trabalha, conjuntamente, os sentidos, suas materialidades e sua historicidade.
## Referências
CARUSO, F.; OGURI, V.; SANTORO, A. Partículas elementares: 100 anos de descobertas. São Paulo: Editora Livraria da Física, 2012.
CORREIO, N. M. Intericonicidade: funcionamento discursivo da memória das imagens. Acta Scientiarum. Language and Culture . Maringá, v. 35, n. 4, p. 345355, Oct.-Dec., 2013
COURTINE, J. Decifrar o corpo: pensar com Foucault . Petrópolis, RJ: Vozes, 2013. 174p.
FOUCAULT, M. A Arqueologia do Saber. 7 ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2008.
MANGUEL, A. Lendo imagens: uma história de amor e de ódio . São Paulo: Companhia das Letras, 2001. 358p.
SILVA, H. C. Discursos escolares sobre gravitação newtoniana: textos e imagens na Física do ensino médio . Tese (doutorado em Educação). Campinas, SP: Faculdade de Educação - Unicamp, 2002.
Pro-
\_\_\_\_\_\_\_\_\_. Lendo imagens na educação científica: construção e realidade. Posições (UNICAMP. Impresso), Campinas, SP, v. 17, n.1(49), p. 71-83, 2006.
ZWEIG, G. An SU3 model for strong interaction symmetry and its breaking . CERN-TH-412. 21 Feb 1964. 80 p.
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Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.