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ANÁLISE DAS QUESTÕES DE FÍSICA DO ENEM 2014: DIFERENÇAS DE DESEMPENHO EM RELAÇÃO AO SEXO.

Guilherme Stecca Marcom, Maurício Urban Kleinke

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXII
Ano
2017
Data
26/01/2017
Linha de pesquisa
Educação Científica, Política E Sociedade
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## ANÁLISE DAS QUESTÕES DE FÍSICA DO ENEM 2014: DIFERENÇAS DE DESEMPENHO EM RELAÇÃO AO SEXO.

## Guilherme Stecca Marcom 1 , Maurício Urban Kleinke 2

- 1 Universidade Estadual de Campinas/PECIM/IFGW, gui.marcom@gmail.com
- 2 Universidade Estadual de Campinas/PECIM/IFGW, kleinke@unicamp.br

## Resumo

O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) é atualmente o maior e mais importante exame de larga escala no Brasil, sendo que sua principal função é classificar os alunos as vagas nas universidades públicas do país. Muitos trabalhos sobre o Enem indicam a existência de diferenças de desempenho entre candidatos pertencentes a distintos grupos sociais. O presente trabalho buscou investigar se os rapazes apresentam melhor desempenho que as moças nos itens de física da prova de ciência da natureza. Para tanto, foram analisados os microdados da prova do Enem de 2014, sendo calculada a razão de chance estatística para identificar se candidatos de um determinado sexo teriam mais chances de acertar as questões que os candidatos do sexo oposto. A razão de chance é um indicador estatístico associado à probabilidade de um dos grupos acertar mais que o outro cada item. Nossos resultados apontam que em 67% dos itens de física os rapazes apresentam mais chance de acertar que as moças. Outro resultado observado é que as questões que apresentam maiores chances de acertos dos candidatos do sexo masculino são questões onde a contextualização ocorre a partir de situações problema que podem vir a ser consideradas mais próximas do universo masculino.

Palavras-chave : Itens de física, Enem, desempenho, sexo, razão de chance

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## Introdução

O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) no ano de 2009 passou a ser utilizado como instrumento avaliativo para a seleção de candidatos nas Instituições Federais de Ensino Superior através do Sistema de Seleção Unificado (Sisu). Essa modificação nas finalidades do exame ampliou tanto o número de inscritos para o exame como também sua importância no cenário educacional brasileiro. É impossível negar o impacto que esse exame tem na vida escolar dos alunos, uma vez que os temas presentes em muitas salas de aula se relacionam com a matriz de referência do vestibular mais próximo (KRASILCHIK, 2000). Essa importância que o exame adquiriu nos últimos anos, principalmente ligado ao futuro dos jovens, fez como que uma série de questões fosse levantada sobre a prova, as quais culminaram em diferentes trabalhos (GONSALVES JR. e BARROSO, 2014; KLEIN et al, 2007; KLEINKE e GEBARA, 2008; MARCOM, 2015; MARCOM e KLEINKE, 2016; TRAVITZKI, 2013; VIGGIANO e MATTOS, 2013).

Alguns desses trabalhos relatam como o status social e econômico dos distintos grupos sociais impacta no desempenho dos candidatos no exame (KLEIN et al, 2007; KLEINKE e GEBARA, 2008; MARCOM, 2015), indicando como as variáveis socioeconômicas têm papel fundamental no resultado final da classificação dos indivíduos.

No caso da diferença de desempenho com relação ao sexo dos indivíduos, as pesquisas com exames de larga escala descrevem que os meninos apresentam melhor desempenho que as meninas principalmente em exames com conteúdos das ciências da natureza e matemática (HYDE et. al., 1990, AYLON e LIVEH, 2013; HYDE e LINN, 2013; MARCOM e KLEINKE, 2014; RYAN e DeMARK, 2002). Já as meninas apresentam melhor desempenho que os meninos em exames de conteúdos da área de linguagens e redação. Sendo assim, pode-se supor que essas diferenças de desempenho em áreas diversas afetam o desempenho e o futuro desses meninos e meninas, principalmente em exames como o Enem que decidem a entrada ou não no sistema de ensino superior.

Essa diferenciação no desempenho de meninos e meninas na prova de ciências da natureza, pode estar ligada à dinâmica excludente das mulheres nos contextos associados à área de ciências da natureza. Algumas autoras (LOPES, 1998; LOPES e COSTA, 2005) criticam a não neutralidade nas Ciências da Natureza com relação às questões de gênero. Dentre suas críticas estão as construções identitárias da imagem do cientista como um homem sério, de jaleco branco e que trabalha num laboratório, ou a de um aventureiro que desbrava a natureza, segundo Oreskes (1996 apud LOPES, 1998, p. 359). Essa imagem do cientista como ser masculino provavelmente está presente na sociedade, o que justificaria a existência de uma ênfase da cultura científica nos homens (BOURDIEU, 2007).

Para Bourdieu (2007) esse processo de transmissão e reprodução ocorre através de dois conceitos chaves de sua teoria: o conceito de Capital Cultural e de Habitus . Segundo Valle Silva (1993; 1995) o modelo de reprodução social através do capital cultural é diferente para meninos e meninas, um exemplo disso é uma ênfase na cultura literária por parte das mulheres e a ênfase na cultura científica por parte dos homens (BOURDIEU, 2007). Outros trabalhos como os de Martins e Hoffmann (2007) que mostra como os livros didáticos, também, reproduzem padrões de

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gênero da sociedade como é o caso das ilustrações presentes nos livros onde meninos vestem roupa azul e meninas roupa rosa. Dessa forma, a escola torna-se um dos principais reprodutores dessas desigualdades.

Sendo assim, desde crianças os meninos recebem com maior ênfase certas características culturais e habilidades da área de ciências da natureza e matemática, enquanto as meninas recebem da área de linguagens. Dessa forma, a existência tanto dessa cultura científica para os meninos como também dessa imagem do cientista como sendo um homem podem estar diretamente relacionadas como as diferenças de desempenho observadas nesses exames quando olhamos para o sexo dos indivíduos.

Esse trabalho busca investigar se existe uma diferenciação no desempenho de meninos e meninas nas questões de física do Enem, no ano de 2014, e se essa diferenciação pode estar relacionada às características culturais de meninos e meninas.

## Metodologia

No presente trabalho analisamos um conjunto de questões 15 itens que necessitam de conceitos de física para sua resolução; além de outras características psicométricas, tais como a presença ou não de cálculos matemáticos; a necessidade de estruturar uma resposta conceitual; ou ainda a análise de um gráfico ou imagem. Essa classificação se deu através de um processo conhecido como classificação por pares, onde dois ou mais distintos juízes classificam os itens de forma independente, sendo posteriormente comparados os resultados (OLIVEIRA et al, 2013; GONSALVES JR. e BARROSO, 2014; MARCOM e KLEINKE, 2016). A amostragem apresentou discrepância de um item dentre os quinze itens analisados, com uma confiabilidade próxima de 94%.

Buscando uma taxionomia para auxiliar a compreender os processos de resolução dos itens, classificamos os mesmos utilizando taxionomia de Smith et al (2010). Nessa taxionomia o nível primário, para caracterizar itens mais simples, é constituído por três domínios: definição , algoritmo e conceitual . Os itens associados ao domínio da definição são aqueles onde se espera apenas que os alunos lembrem ou reconheçam uma definição memorizada anteriormente. Já no domínio algoritmo os candidatos necessitam aplicar a informação fornecida no item em um algoritmo de solução, o qual pode ser tanto matemático quanto operacional. Essa categoria é onde se situam os exercícios de fixação. O domínio conceitual está associado aos itens em que os alunos são induzidos a utilizar uma forma de pensamento nãoalgorítmica, aplicando os fundamentos em novas situações problema (SMITH et al, 2010). Na classificação dos quinze itens pela Taxionomia de Smith foi obtido um índice de confiança para essa categorização de 85%.

As análises sobre as diferenças de desempenho com relação ao sexo dos 1 candidatos utilizou a ferramenta estatística razão de chance (RC) ( odds ratio ) que é uma forma estabelecida para medir a oportunidade ou o sucesso de um grupo em relação a outro (MANNOCCI, 2009). Para variáveis dicotômicas, como escola

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pública versus escola privada ou distintos subgrupos (homens e mulheres, brancos e negros) é possível calcular a razão de chance através das probabilidades de acerto do grupo focal (C) e do grupo de referência (A), e da probabilidade de erro dos grupos focal (D) e de referência (B), segundo a expressão a seguir:

Uma razão de chance igual a um implica em igualdade de desempenho entre os grupos, enquanto valores para RC maiores que um indicam melhor desempenho do grupo de referência; enquanto valores para RC menores que um indicam melhor desempenho do grupo focal.

- Os resultados numéricos foram obtidos a partir dos microdados disponibilizados pelo INEP, sendo os arquivos abertos a partir dos programas estatísticos SAS 9.2 e SPSS 22. No caso dos valores para a razão de chance, ambos os programas fornecerem resultados idênticos até a terceira casa decimal.

## Resultados e discussões

A amostra foi formada por todos os candidatos que estavam presentes na prova de ciências da natureza do Enem e que não tiveram a sua redação anulada, no ano de 2014. A Tabela 01 mostra no número total de candidatos analisado e sua porcentagem de homens e mulheres em relação à amostra.

Tabela 1: Descrição da amostra

A Tabela 1 apresenta uma maior porcentagem de mulheres presentes na prova. Com base nos dados referentes a esses candidatos apresentamos a seguir a razão de chance para cada um dos itens de física. O número do item segue a distribuição de itens referente à prova de cor azul.

Já na Tabela 2 apresentamos os resultados para a classificação da taxionomia dos itens, bem como da razão de chance associada a cada um dos quinze itens sobre física. Como grupo de referência nos cálculos da RC forma considerados os indivíduos do sexo masculino, portanto valores de RC maiores que um indicam favorecimento masculino.

Na grande maioria dos itens observamos que os valores de RC são maior que um, o que implica em um melhor desempenho masculino nos itens de física. Esse resultado sugere que os professores da educação básica devem buscar formas de incluir mais as meninas nas discussões sobre física.

No que se refere às características da taxionomia dos itens, temos uma ênfase em itens classificados no domínio conceitual, onde o que se espera do estudante é uma reflexão para a resolução da situação problema proposta que seja mais elaborada que a aplicação de um algoritmo, geralmente aplicado anteriormente em situações similares. Apenas um dentre os quinze itens caracteriza-se como pertencente ao domínio procedimental.

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Tabela 02: Razão de chance dos itens de física na prova de 2014

Apenas no item 64 a RC foi menor que 0,9, indicando um pequeno favorecimento feminino. Já para 53% dos itens os candidatos do sexo masculino apresentam RC superior a 1,2, o que pode ser considerado como um indicador expressivo para diferenças de desempenho. Esses resultados são indicativos da maior chance apresentada pelos rapazes para acertar itens de física.

Se analisarmos apenas as questões que apresentam RC superior a 1,3 notaremos que para esses itens quase sempre a contextualização ocorre no universo masculino, sendo um exemplo dessa situação é apresentado na Figura 1.

Figura 1: Resolvendo um circuito elétrico.

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Esse é um item típico de associação em série e paralelo de resistores, com um valor de razão de chance igual a 1,5 o que sugere alto favorecimento masculino. Para esse valor de RC o desempenho masculino será aproximadamente 50% maior que o feminino. Acreditamos que essa diferença seja um exemplo de como a ênfase da cultura científica na formação dos meninos (BOURDIEU, 2007) pode favorecê-los num exame como o Enem.

Todavia, esse exemplo é importante para refletirmos sobre contextualização das questões de física nessa prova, dada a importância que o Enem no futuro dos jovens brasileiros suas questões não deveriam beneficiar um grupo social. Mas, mais do que isso, questões que apresentam uma contextualização mais próxima do cotidiano masculino podem indicar uma dinâmica excludente que existe nas ciências da natureza e principalmente na física (SOARES, 2001).

## Conclusão

Nesse trabalho buscamos investigar se haveriam diferenças no desempenho de meninos e meninas nas questões de Física do Enem, no ano de 2014. Nessa averiguação utilizamos a razão de chance como forma de averiguar quais dos sexos teriam maiores possibilidades de responder de forma correta os itens. Identificamos que em 67% dos itens a chance dos rapazes acertarem é maior que a das moças, apesar do número total de rapazes ser menor que o das moças.

Esses resultados podem ser explicados pelo processo de transmissão e reprodução de cultura descrito por Bourdieu e Passeron (2008), onde a área do conhecimento das ciências da natureza sempre foi dominada pelos homens. Isso fez com que surgisse uma cultura científica ligada ao homem e como tal transmitida para a sociedade. Desta forma, essa cultura e habitus das ciências da natureza que é transmitido aos meninos pode estar ampliando suas chances de sucesso em questões de física.

Ligado ao processo de transmissão e reprodução dessa cultura nas ciências da natureza, observamos que as questões onde os meninos apresentam maiores possibilidades de acerto são questões onde os contextos produzidos expressam situações cotidianas ligadas ao universo masculino, numa perspectiva do senso comum. Esse resultado, apesar de não ser conclusivo, torna-se um importante indicativo para explicar as diferenças de desempenho em relação ao sexo dos candidatos, como também sobre o processo de contextualização das questões uma vez que a escolha do contexto pode favorecer um determinado grupo social ou gênero.

Esse indicativo possibilita refletir e discutir sobre a contextualização principalmente em sala de aula, já que tal ambiente pode estar reproduzindo uma dinâmica excludente das mulheres nessa área do conhecimento. Desta forma, pensar sobre a contextualização principalmente em sala de aula, possibilita aos professores atuarem como agentes 'desconstrutores' dessa cultura masculina das ciências da natureza, fomentando assim uma cultura mais democrática e igualitária dessa área do conhecimento tão valorizada em nossa sociedade.

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