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ATIVIDADES COM O DOCUMENTÁRIO A CAVERNA DOS SONHOS ESQUECIDOS NA FORMAÇÃO INICIAL DE PROFESSORES DE FÍSICA

Aldo Aoyagui Gomes Pereira, Maria José P. M. De Almeida

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXII
Ano
2017
Data
26/01/2017
Linha de pesquisa
Materiais, Métodos E Estratégias De Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## ATIVIDADES COM O DOCUMENTÁRIO A CAVERNA DOS SONHOS ESQUECIDOS NA FORMAÇÃO INICIAL DE PROFESSORES DE FÍSICA

Aldo Aoyagui Gomes Pereira 1 , Maria José P. M. de Almeida 2

1 Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia - campus Piracicaba, apereira@ifsp.edu.br 2 Universidade Estadual de Campinas/ Faculdade de Educação, mjpma@unicamp.br

## Resumo

Neste trabalho desenvolvemos um conjunto de atividades com quatro licenciandos do 6° semestre de um curso de licenciatura em física de uma Universidade pública do Estado de São Paulo, utilizando o documentário A caverna dos sonhos esquecidos do diretor alemão Werner Herzog, produzido em 2010. Os principais objetivos ao usar o documentário foram: a discussão de aspectos da Física Moderna e Contemporânea (FMC) e a problematização de imagens em movimento e da narrativa documental. A coleta de informações se deu por meio das gravações em vídeo e da produção escrita dos licenciandos. Por meio da análise dos dados investigamos que sentidos são produzidos por futuros professores de física sobre a inserção de aspectos FMC no EM por meio deste documentário. Utilizamos para isso noções e princípios da Análise do Discurso (AD) desenvolvidos por Eni Orlandi em seus textos publicados no Brasil. Pudemos notar que no imaginário dos licenciandos o uso de documentários em sala de aula está associado principalmente à ideia de transmissão de conceitos científicos. No entanto, após a realização das atividades notamos a ampliação deste imaginário pela produção de outros sentidos para o uso de documentários em sala de aula. Entre estes destacamos a reflexão sobre a leitura de imagens em movimento e da narrativa contida nestes recursos.

Palavras-chave : Documentário. Formação Inicial de Professores. Física Moderna e Contemporânea. Análise de Discurso.

## Introdução

É consenso atualmente que as pesquisas realizadas com objetivo de inserção de assuntos relacionados à Física Moderna e Contemporânea (FMC) nas aulas de Física do Ensino Médio (EM), não devem ser pensadas da mesma forma que a Física Clássica (FC) vem sendo trabalhada nesse ensino (JUNIOR; CRUZ, 2009; COSTA; NASCIMENTO; GERMANO, 2007; LOBATO; GRECA, 2005). Por tratar-se de um assunto relativamente atual e cujas consequências fazem parte de nosso dia a dia, a FMC possibilita um espaço de interlocuções em sala de aula que contribuem para uma análise mais detalhada do fazer científico e do processo de construção dos conhecimentos científicos (GUERRA; MORAIS, 2013).

Dentre as possíveis estratégias de ensino que podem ser aplicadas em aulas de Física com objetivos de se ensinar assuntos relacionados à FMC, uma que consideramos de importância considerável, e ainda pouca usada, é o Documentário de Divulgação Científica (DDC). Os principais motivos que justificam o uso deste recurso em sala de aula são apontados por Torre:

- · Conectar o estudante com a sua história;
- · Possibilitar que o aluno possa localizar corretamente o ser humano na escala temporal e espacial da natureza;
- · Propiciar o entendimento sobre as múltiplas, evidentes consequências tecnológicas da FMC;
- · Ensejar beleza, como também prazer, pelo conhecimento, haja vista que tudo isso constitui parte inseparável da cultura, pois o saber nos faz livres e valoriza a humanidade (TORRE, 1998, p. 70 - 71).

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Neste estudo investigamos a produção de sentidos de licenciandos em Física ao realizarmos atividades com um DDC intitulado A caverna dos sonhos esquecidos , do diretor alemão Werner Herzog. Procuramos responder quais sentidos produzidos pelos licenciandos e professor/pesquisador contribuem para o uso de DDC em sala de aula com objetivo de se ensinar assuntos de FMC no EM, sob um olhar da Física como produção da cultura humana. Para isso, realizamos atividades que incluíram a exibição do documentário, produção de dois questionários, um pelos licenciandos e o outro pelo professor/pesquisador e uma discussão informal entre licenciandos e professor/pesquisador sobre o documentário. Essa discussão foi filmada e posteriormente transcrita. Dada a natureza das questões que foram suscitadas nessa discussão informal e sua relevância para responder nossa questão de pesquisa mediante o apoio teórico ao qual nos filiamos, optamos por analisar e discutir somente trechos da produção discursiva desta atividade.

## Apoio Teórico

Neste trabalho apoiamo-nos no referencial teórico-metodológico da Análise de Discurso (AD) na vertente iniciada na França nos anos 60 do século XX por Michel Pêcheux. Esta abordagem é baseada em trabalhos de Eni Orlandi, cuja produção em AD no Brasil tem contribuído significativamente para a constituição da pesquisa nesta área. As noções e princípios da AD utilizadas neste trabalho foram: a não transparência da linguagem, mecanismos de antecipação, repetição, memória discursiva e discurso autoritário e polêmico. O princípio da não transparência da linguagem postula que procurar o sentido único no texto é uma ilusão. O texto sempre será atravessado por outros sentidos oriundos da história, do social e, consequentemente, do inconsciente e da ideologia. No caso do mecanismo de antecipação, o sujeito se coloca no lugar do outro, antecipando o que o outro 'interpreta' de suas palavras. Ele antecipa o seu interlocutor quanto aos sentidos que suas palavras podem produzir. Este mecanismo regula a argumentação, pois restringe os dizeres, ou seja, silencia alguns dizeres formulando outros, dependendo da posição do interlocutor, variando num espectro entre um interlocutor cúmplice de seus dizeres ao adversário absoluto (ORLANDI, 2010). Outra noção importante que utilizamos é a de Repetição Formal. Para Orlandi (2010) ela se constitui na técnica de produzir frases, exercício gramatical que não historiciza, só organiza. Usamos ainda a noção de memória discursiva. Esta torna possível todo dizer e retorna sob a forma do pré-construído, o já dito que está na base do dizível (ORLANDI, 2010). Cabe ao analista de discurso, procurar indícios de que as condições de produção imediatas não decidem exclusivamente os dizeres, mas também, a incidência da memória e das condições sócio-históricas. Com objetivos de deslocar o discurso autoritário na direção de um discurso polemico, a estrutura das atividades desenvolvidas neste trabalho procurou manter um constante diálogo entre licenciando e professor, permitindo a ambos:

Exercerem sua capacidade de discordância, isto é, não aceitar aquilo que o texto propõe e o garante em seu valor social: é a capacidade do aluno de se constituir ouvinte e se construir como autor na dinâmica da interlocução, recusando tanto a fixidez do dito como a fixação de seu valor como ouvinte (ORLANDI, 1987, p. 26).

A mediação do professor é fundamental nesse tipo de atividade para problematizar e fomentar a discussão entre os alunos.

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## Condições de Produção

As informações analisadas foram coletadas no segundo semestre de 2012 numa universidade pública do Estado de São Paulo no curso de Licenciatura em Física na disciplina de Práticas do Ensino de Física II. Os quatro licenciandos matriculados na disciplina estavam cursando o 6° semestre do curso e o professor da disciplina é o primeiro autor deste trabalho. Na atividade que optamos por analisar participaram apenas três licenciandos, pois no dia desta um deles faltou. Todos os nomes referenciados ao longo das análises são fictícios. Na primeira aula do semestre explicamos para os licenciandos que iríamos filmar algumas aulas e que eles fariam parte de uma pesquisa que estava sendo desenvolvida sobre o uso de DDC em sala de aula. Deixamos claro que as avaliações e atividades que realizaríamos não estavam vinculadas às participações ou não deles na pesquisa. Nas leituras realizadas na disciplina procuramos apresentar para os licenciandos noções da linguagem documental e suas relações com a sala de aula. Foram lidos, entre outros, o trabalho de Bruzzo (1998), que problematiza a noção que temos de documentário como retrato fiel da realidade. Lemos também um trabalho de Bienvenido Léon (2007) que estabelece algumas características presentes em quase todos os DDC. Além das leituras de trabalhos sobre documentários, estudamos alguns trabalhos que tratam da temática da inserção da FMC no EM.

Neste período, realizamos atividades usando o documentário Cave of forgotten Dreams ( A caverna dos sonhos esquecidos ) distribuído pelo History Channel e dirigido e narrado pelo cineasta alemão Werner Herzog em 2010. O objetivo principal ao escolher o documentário de Herzog foi investigar as produções de sentidos dos licenciandos sobre a importância da técnica do carbono-14 no desenvolvimento de outras áreas do conhecimento, no caso, a Arqueologia. Além disso, pensamos nas possibilidades de se discutir a Física sob um viés da cultura e da arte, fundamentados por trabalhos de autores como Zanetic (ZANETIC, 1989; ZANETIC, 2006).

O processo metodológico das atividades constituiu-se da a. Leitura de dois Textos de Divulgação Científica (TDC) sobre os assuntos tratados no documentário; b. Assistir o documentário; c. Responder um questionário sobre o documentário; d. Discussão informal sobre o documentário; e. Elaboração de um questionário pelos licenciandos.

Na aula que precedeu a transmissão do documentário pedimos para os licenciandos lerem dois TDC: A química do tempo: Carbono-14 da revista Química Nova na Escola (FARIAS, 2002) e A caverna onde a arte nasceu da revista de divulgação científica Scientific American Brasil (VALLADAS; CLOTTES; GENESTE, 2004).

Antes da exibição do documentário explicamos resumidamente o seu tema e dissemos que este tinha relação com os artigos que foram lidos antes. O documentário começa narrando a descoberta de uma caverna encontrada no sul da França em dezembro de 1994 por três espeleologistas: Jean-Marie Chauvet, Éliette Brunel e Christian Hillaire. Hoje esta caverna é conhecida como caverna de Chauvet em homenagem ao seu primeiro descobridor. Dentro da caverna os pesquisadores encontraram uma série de pinturas nas paredes, aproximadamente 400 delas no total. Um dos fatores que tornaram a sua descoberta importante é a idade das pinturas, estimada em aproximadamente 32 mil anos. Com efeito, segundo Cabral (2011):

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Enquanto a estimativa da idade de suas magníficas pinturas, feitas por Jean Clottes pouco depois de sua descoberta, com base nos primeiros dados estilísticos obtidos, as colocavam no Solutrense (21.000 a 18.000 antes do presente), a datação direta pelo radiocarbono de um de seus mais espetaculares desenhos - o combate dos rinocerontes - dava como resultado valores de 31.000 antes do presente. A diferença era da ordem de grandeza de 10.000 anos! (CABRAL, 2011, p. 312).

O uso da técnica de datação por radiocarbono ocasionou uma mudança significativa na metodologia de trabalho da Arqueologia e, no caso das pinturas de Chauvet, surpreendeu os pesquisadores.

Devido a natureza das questões suscitadas durante a discussão informal sobre o documentário e sua relevância para responder nossa questão de pesquisa, optamos por analisar e discutir somente trechos da produção discursiva desta atividade.

## Análise das informações coletadas

A discussão sobre o documentário foi realizada entre professor/pesquisador e licenciandos. Teve duração de uma aula de aproximadamente 50 minutos. Nela participaram os licenciandos Márcio, Fernanda e Breno. Larissa faltou nesse dia. Procuramos seguir uma proposta metodológica de caráter semi-estruturada: fazíamos algumas questões iniciais e deixávamos os licenciandos expressarem sua opinião. Às vezes, o assunto mudava de foco, às vezes intervínhamos, porém deixamos um espaço aberto para os licenciandos conversarem sobre os assuntos que iam surgindo.

Logo no início da discussão, quando perguntamos se os licenciandos leram os artigos entregues na aula anterior sobre o Carbono 14 , Breno responde:

Breno: Eu li. Achei que as questões tratadas no texto sobre o C-14 fossem ser tratadas no documentário. Nem fala nada.

Professor: É. O documentário fala só a utilização da técnica.

Breno: Eu achei que ele fosse falar como funciona o processo.

Professor : De fato ele não fala.

Breno: Eu achei que fosse falar um pouco.

Talvez Breno esperasse que o documentário falasse como a técnica do Carbono 14 é usada para realizar a datação das pinturas da caverna, ou mesmo falasse mais sobre o conceito de Carbono 14. Ele mostra ainda uma preocupação se os alunos do EM serão capazes de compreender ou problematizar a temática do documentário e relacioná-la à física. Quando questionado se o aluno do EM compreenderia a linguagem do documentário e saberia relacioná-la á disciplina de física e aos possíveis usos da técnica do carbono 14, Breno expõe sua opinião:

Breno: Eu acho assim, se o aluno não teve nenhum contato com esse assunto do Carbono-14 ele vai passar despercebido. Eu, por exemplo, já tinha ouvido falar porque eu faço física, caso contrário, até entrar na faculdade eu não tinha ouvido falar de Carbono-14, não sabia nem o que era. Então o aluno não vai nem prestar a atenção nesses detalhes. Ele não vai conseguir relacionar com a física aquilo que foi passado no documentário sem antes ter tido algum contato com esse assunto.

No imaginário do licenciando, é necessário que o aluno de EM tenha conhecimentos prévios sobre o assunto para que esse tenha meios de problematizar o que está sendo narrado no documentário. Acreditamos que um contato inicial com o assunto Carbono 14 contribuirá para que o aluno se interesse por assistir o documentário. No entanto, o objetivo deste documentário não é detalhar a técnica do Carbono 14. Se o principal objetivo fosse esse, poderíamos ter escolhido uma

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vídeoaula sobre a técnica de datação por Carbono 14. Aqui, o objetivo de se usar o documentário de Herzog é aprender um pouco mais sobre o conceito e a técnica de datação por Carbono 14, mas também, e principalmente, saber como essa técnica ocasionou uma revolução em outras áreas do conhecimento ampliando a visão de mundo que temos da historia da arte e de nós mesmos. Além disso, acreditamos que questionamentos dessa natureza, podem contribuir para que os estudantes rompam com a visão disciplinar da ciência, podendo apreciar a beleza de suas manifestações nos diversos campos de estudos que dialogam entre si com objetivos dos mais variados possíveis, mas que no fim sempre suscitam as mesmas questões que são àquelas relacionadas às nossas origens e o porquê de estarmos aqui e esse ser o nosso lugar no espaço. Como prescrito pelo próprio PCN + de Física, sobre o que o estudante de EM deve saber ao terminar o ensino básico:

Uma compreensão cósmica do Universo, das teorias relativas ao seu surgimento e sua evolução, assim como do surgimento da vida, de forma a poder situar a Terra, a vida e o ser humano em suas dimensões espaciais e temporais no Universo. Compreender a Física como parte integrante da cultura contemporânea, identificando sua presença em diferentes âmbitos e setores, como, por exemplo, nas manifestações artísticas ou literárias, em peças de teatro, letras de músicas etc., estando atento à contribuição da ciência para a cultura humana. Finalmente, será indispensável uma compreensão de natureza cosmológica, permitindo ao jovem refletir sobre sua presença e seu 'lugar' na história do Universo, tanto no tempo como no espaço, do ponto de vista da ciência. Espera-se que ele, ao final da educação básica, adquira uma compreensão atualizada das hipóteses, modelos e formas de investigação sobre a origem e evolução do Universo em que vive com que sonha e que pretende transformar (BRASIL, 2002, p. 67).

Acreditamos que o documentário de Herzog pode funcionar como um exemplo para a discussão de um aspecto da física que vai ao encontro dos objetivos e recomendações apontadas pelas propostas curriculares oficiais e pesquisas na área de ensino de ciências com intuito de trabalhar assuntos de FMC em aulas de física do EM.

Em outra parte, Breno delineia uma metodologia de como usaria este documentário caso trabalhasse com ele no EM:

Breno : Eu gostaria de trabalhar com este documentário. Mas eu trataria do assunto antes sobre o Carbono-14, ai eu passaria o documentário sem mencionar que tem relação com a matéria que foi dada pra ver se eles...

Professor: Você passaria o documentário depois de dar a matéria?

Breno : Depois de dar o assunto sobre o Carbono-14, nem que eu trabalhasse a fundo o assunto, mas primeiro eu iria situar eles nesse tipo de assunto.

- O licenciando seguiria a mesmo cronograma seguido pelo professor. Ou seja, a produção de sentidos aqui é dada como consequência das condições de produção imediatas da atividade sobre o documentário. Podemos supor uma Repetição Formal : numa situação de ensino no EM, o licenciando repetiria metodologicamente com os seus alunos o que o professor fez com seus licenciandos.

Já, para o licenciando Márcio, passar o documentário antes e trabalhar os conceitos depois seria o mais adequado. Além disso, ele estende os possíveis assuntos de FMC que poderiam ser trabalhados usando o documentário:

Márcio: Eu deixaria claro no objetivo não só a relação com o Carbono-14, mas deixaria... Pediria para que eles prestassem atenção em possíveis

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conceitos relacionados à física. O que eles conseguiriam enxergar da física no documentário?

Professor: Isso seria uma questão que você colocaria antes de passar o documentário?

Márcio: Sim. Logo de início. E ai depois trabalhar o conceito que eles precisariam. Porque assim além do Carbono-14 ele faz citação da luz fria, do laser, então vários conceitos para trabalhar. (grifo nosso)

Neste caso, o documentário parece ser o catalisador de possíveis assuntos de FMC a serem discutidos. Márcio se mostra preocupado com os possíveis assuntos que poderiam ser trabalhados utilizando o recurso. Antes de passar o documentário, ele coloca uma questão inicial para que os alunos procurem no documentário, elementos que possam associar o assunto à física que ele estuda em sala de aula. De acordo com ele, é possível discutir outros tópicos além do Carbono 14, como, por exemplo, luz fria e laser. Ele ressalta a importância de se procurar a física existente no documentário, deixando clara a intenção de que usar o documentário é um meio para se inserir assuntos e conceitos relacionados à FMC na aula. Quando pensamos em discutir assuntos de FMC no EM por meio de documentários, não estamos apenas pensando em confirmar o que o documentário coloca como discurso prevalente ou mesmo apenas discutir os conceitos científicos por trás da técnica. Os assuntos científicos discutidos no documentário são passiveis de discussões mais abrangentes e controversas. Não foi objetivo da atividade com o documentário de Herzog, construirmos uma narrativa única, mas também criarmos possibilidades de polissemia entre alunos e professores, através do deslocamento do discurso autoritário em discurso polêmico.

Uma das funções dos DDC quando pensamos em trabalhá-los em sala de aula é promover o despertar da curiosidade dos alunos em pesquisar mais sobre os assuntos tratados. Quando fizemos essa pergunta para os licenciandos a resposta foi unanime:

Professor: Vocês acham que esse tipo de atividade que nós fizemos aqui, com documentários [...] despertam a curiosidade por aprender mais sobre aquele assunto posteriormente? Vamos supor que você, como professor do Ensino Médio, vá trabalhar o assunto decaimento radioativo. O que você acha que é mais 'eficaz' para despertar uma possível curiosidade do aluno, um gosto pelo assunto: você aprofundar matematicamente esse assunto ou falar o assunto parecido com as atividades que nós fizemos aqui?

Fernanda: Fazendo atividades iguais a essa que fizemos aqui. Quanto menos matemática tiver melhor.

Breno: Concordo.

Márcio: Eu também.

Provavelmente os licenciandos utilizam-se aqui do mecanismo de antecipação: dizem o que o professor quer ouvir. Quando pergunto o porquê de nas escolas os professores fazerem justamente o contrário, ou seja, predomínio da linguagem matemática em detrimento de outras estratégias, eles respondem:

Fernanda: É mais cômodo, é mais fácil, sempre foi assim.

Breno: Ninguém faz esse tipo de atividade que o professor fez aqui na graduação. Ninguém trabalha isso na graduação. Aí o professor não sabe como fazer com esse tipo de situação. Ele só vê as contas e repete no Ensino Médio.

Fernanda: Daí ele vai ter que pesquisar e ter todo aquele trabalho. Vai ter que ir afundo é bem mais cômodo ele passar o que já tá pronto ali no livro.

A fala dos licenciandos confirma uma realidade ainda existente em muitas escolas e cursos de licenciatura em física: o predomínio de estratégias de ensino e

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aprendizagem baseadas na linguagem matemática em detrimento de outras. Muita matemática, muita conta e poucas discussões sobre outras visões de ensino e aprendizagem que poderiam ser trabalhadas nas aulas de física no EM. Este panorama tem mudado nos últimos anos nas licenciaturas, porém ainda é muito tênue quando analisadas em contexto nacional. Além disso, o problema do ensino da física, nas escolas de nível médio, não reside apenas em métodos ou estratégias para trabalhar determinados conteúdos, mas também, é necessária uma mudança paradigmática, onde outras linguagens, como elementos da historia e da natureza da ciência podem ser incorporados nas discussões em sala de aula. O professor da escola básica se vê muitas vezes desarmado para pensar em outras estratégias além das já comummente aceitas e cristalizadas para trabalhar com seus alunos. Como apontado pela licencianda '[...] é bem mais cômodo ele passar o que já tá pronto ali no livro' .

Em outra fala Fernanda expõe a importância de se desenvolverem atividades como a que realizamos com os licenciandos:

Fernanda: O legal é que se nós não tivéssemos aula assim a gente não pensaria em talvez passar algum vídeo na sala de aula e agora eu já penso em como passar. A gente acaba pesquisando também a respeito do vídeo. (grifo nosso)

Ressaltamos a fala da licencianda quando ela diz ' [...] A gente acaba pesquisando também a respeito do vídeo ', pois, no âmbito das discussões realizadas nas condições de produção imediatas, percebemos a preocupação dos licenciandos em possuir critérios de seleção na escolha de um bom DDC para trabalhar em sala de aula. Provavelmente, estes se configuraram ideologicamente por meio de condições sócio-históricas, seja pelo contato com DDC em sua vida escolar, ou através da mídia televisiva ou pela internet, mas também, proveniente das discussões e leituras realizadas na disciplina de Práticas do Ensino de Física II.

## Considerações Finais

Neste trabalho investigamos formas/estratégias de se utilizar o documentário A caverna dos sonhos esquecidos com objetivo de se promover a reflexão entre licenciandos de um curso de Física sobre o ensino de aspectos da FMC no EM.

Esta pesquisa nos forneceu indícios de que os DDC podem contribuir para a descentralização do papel do professor como único produtor de sentidos em sala de aula. Uma vez que isto vai ao encontro da perspectiva teórica adotada por nós, no que concerne ao deslocamento do discurso autoritário na direção de um discurso polêmico, acreditamos que contribuímos para a reflexão do futuro professor de física ao desenvolver atividades com DDC no EM. Identificamos ainda preocupações variadas no sentido de não usar o DDC apenas para ilustrar ou reforçar conteúdos, mas também, promover estratégias de ensino que vão ao encontro de modelos mais representativos do papel do professor como profissional reflexivo e crítico.

No que concerne às perspectivas futuras sobre a pesquisa do uso de DDC em sala de aula, apontamos para os aspectos relacionados às representações da ciência nestes meios e quais os sentidos produzidos pelos futuros professores sobre estas representações. Como apontado por Reid (2016, p. 148), o estudo destas representações trará grande contribuições para o ensino de ciências, pois '[...] a compreensão, avaliação e a crítica fundamentada sobre as representações da ciência na mídia não requer somente conhecimentos sobre a mídia, mas também, sobre a epistemologia e os conteúdos da ciência'.

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## Referências

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