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Atividades Multissensoriais para o Ensino de Física: significados semântico sensoriais

André Luis Tato L. Santos, Danilo Pereira, Éder Pires De Camargo

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXII
Ano
2017
Data
25/01/2017
Linha de pesquisa
Cultura, Linguagem E Cognição No Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## Diversificação sensorial para o Ensino de Física: significados semântico sensoriais

André Tato , Danilo Pereira , Éder Pires de Camargo 1 2

- 1 Colégio Pedro II/USP, andretato@gmail.com
- 2 UFRJ/Colégio Pedro II,
- 3 UNESP/USP, camargoep@dfq.unesp.br

## Resumo

Do início da década de 90 até os dias atuais o número de matrículas de alunos alvo da educação especial tem aumentado a cada ano. Para o caso específico de alunos com deficiência visual, nossa pesquisa em andamento pretende demonstrar como recursos pensados para atividades específicas voltadas para alunos com baixa visão ou cegueira podem ser úteis a todos os alunos da escola. Isto posto, a diversidade em sala de aula corresponde a acréscimo de oportunidades de aprendizagem a todos os presentes independente da existência de necessidade de compensação de função perdida (ou não desenvolvida como nos casos de inexistência do perceptor sensorial desde o nascimento) pela ausência de um sentido. Defenderemos ainda, através da diversificação sensorial, considerada pelos autores desse trabalho como inerente ao processo de inclusão de qualquer aluno com alguma deficiência sensorial, que os modos tradicionais de veiculação da informação (estrutura empírica da linguagem audiovisual interdependente) são insuficientes para representar os fenômenos físicos abordados no decorrer do Ensino Médio tomando como base os conteúdos apresentados pelos livros do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD). A pergunta base de nossa pesquisa é: quais as vantagens de utilizar um método multissensorial em sala de aula regular no âmbito da compreensão da natureza?

Palavras-chave: diversidade sensorial, inclusão escolar, percepção

## Abstract

From the early 90s to the present day the number of target students enrollment of special education has increased every year. For the specific case of students with visual impairment, our ongoing research aims to demonstrate how resources designed for specific activities for students with low vision or blindness can be useful to all school students. That said, the diversity in the classroom corresponds to learning opportunities increase to all independent Gifts existence of lost function of compensation need (or not devel from birth) by the absence of a sense. We will defend also, through sensory diversification, considered by the authors of this work as inherent to the inclusion of any student process with some sensory impairment, the traditional ways of serving information (empirical structure of interdependent audiovisual language) is

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23 a 27 de janeiro de 2017

insufficient to represent the physical phenomena discussed during the high school building on the contents presented by the books of the National Textbook Program (PNLD). The question the basis of our research is: what are the advantages of using a multisensory method in regular classroom within the understanding of nature?

Key words: Multisensory , school inclusion , sensory meanings

## Introdução

Apesar da maioria das grandezas físicas não serem visíveis (CAMARGO, 2008), a representação de fenômenos é predominantemente visual. As formas mais comuns de registro de informação, especialmente até o final do século passado, estimularam a predominância visual até por uma questão de limitação de recursos. Livros, cartazes, slides, quadro de giz e gestos, meios comuns de materialização do ato comunicativo na escola, nos remetem ao uso da visão para estudo individualmente ou a uma estrutura empírica da linguagem audiovisual interdependente (CAMARGO, 2012) onde a mensagem pretendida depende do somatório de estímulos visuais e auditivos.

Os modos de estabelecer atos comunicativos usando as formas supracitadas em uma sala de aula de escolar da rede regular de ensino não permitem a participação efetiva de alunos com deficiência sensorial seja visão ou audição. Por uma questão de recorte, embora em alguns momentos seja utilizado o termo 'deficiência sensorial' para momentos em que a questão seja extensível a alunos surdos, nosso trabalho versará para alunos com deficiência visual matriculados na rede regular de ensino nos momentos dentro de sala de aula regular.

- O processo ensino-aprendizagem, independente da presença de alunos alvo da educação especial, deve considerar como estímulos influenciam os alunos. Além da análise ontológica do processo de percepção sensorial, cabe a interrogação sobre a percepção da informação resultante e seu aproveitamento da atividade docente.

Com o objetivo de incluir alunos com deficiência visual em sala de aula regular, o planejamento de atividades considerando a interação dos alunos com as grandezas pretendidas deve ser condizente com o processo de compensação na visão de Vigotski (1983). De acordo com o autor, a compensação não é do perceptor sensorial deficiente, mas das atividades resultantes dessas informações. Nessa perspectiva, a pessoa não é deficiente. Deficientes são os recursos disponíveis.

Um dos caminhos pretendidos, nosso ponto a ser desenvolvido, refere-se aos significados físicos semântico-sensoriais (CAMARGO, 2012) onde será considerada a relação entre o fenômeno estudado e as possibilidades de interação com os perceptores sensoriais.

## Justificativa

A base de nosso trabalho encontra-se na experiência profissional dos autores nos últimos 11 anos e autores como Santos (2001), Tato e Barbosa-Lima (2007, 2008 e 2009) e Camargo (2008, 2011 e 2012). Acompanhando a entrada progressiva de alunos com necessidades especiais em sala de aula regular

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conforme exigências do art. 208 da Constituição Federal de 1988, inciso III (BRASIL, 1988): 'Atendimento educacional especializado, preferencialmente na rede regular de ensino '. Isso significa que os recursos necessários ao sucesso escolar do aluno devem estar onde ele está matriculado. Em sala de aula regular, a presença de alunos com diferentes necessidades tem se mostrado eficiente, motivo de nossa escolha de tema de pesquisa, no sentido de ganho para todos os alunos conforme os professores buscam oferecer igualdade de oportunidades de aprendizagem.

Santos ( op.cit .) mostra que dependendo do tema a ser abordado em sala de aula, a visão pode representar um obstáculo epistemológico utilizando a perspectiva de Bachelard. A representação visual de um modelo de grandezas não relacionadas à visão pode induzir o aluno a conceitos equivocados, motivo do obstáculo epistemológico em questão.

Tato e Barbosa-Lima ( op.cit. ) apresentam experimentos em sala de aula regular referentes a uma pesquisa onde a percepção tátil mostra-se mais eficiente que as auditivas e visuais, sendo a visual a pior delas. No decorrer das atividades, os alunos ainda, por hábito, insistiram em confiar nos olhos mesmo após notar sua eficiência.

Camargo (2008) apresenta 10 anos de pesquisa sobre o ensino de Mecânica, nos mostrando um excesso de vinculo com a visão em grandezas não visíveis. Nesse caminho, o autor questiona a necessidade da visão para um aluno estudar Física, ratificando sua posição ao mostrar que alunos com e sem deficiência visual apresentaram as mesmas concepções e dificuldades.

- O histórico docente e acadêmico nos indica que as experiências de inclusão de alunos com deficiência visual/sensorial podem nos guiar por novos e melhores caminhos na relação ensino-aprendizagem de física.

## Estrutura semântico-sensorial da linguagem

Camargo (2012, p.47) apresenta a estrutura semântico-sensorial da linguagem como relacionada aos efeitos produzidos pelas percepções sensoriais nos significados e conceitos físicos. Essa categoria da linguagem faz referência à identificação de significados pelos perceptores sensoriais e nos possibilita prever reações dentro dos temas a serem trabalhados em sala de aula, através da estrutura empírica da linguagem (meio material de veiculação da informação) adotada. Os significados semântico-sensoriais, levando em conta nossa especificidade em salas de aula com a presença de alunos com deficiência visual, podem ser entendidos como:

- 1- Indissociáveis: são aqueles dependentes de um perceptor sensorial específico, e se subdividem em:
- 1.1 - de representações visuais
- 1.2 - de representações não visuais
- 2- Vinculados: são aqueles cuja representação pode ser feita com mais de um perceptor sensorial. Podem ser vinculados:

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- 2.1 - às representações visuais;
- 2.2 - às representações não visuais.
- 3 - Sem relação sensorial;

Significados indissociáveis de representação visual, como o estudo das cores, não podem ser substituídos diretamente. As possibilidades envolvem relações como associar as cores com comprimentos de onda ou frequência sem sucesso em termos do entendimento da cor em si, mas com a possibilidade de explorar temas relacionados como análise de banda espectral.

- O vínculo com a visão não significa exclusividade da visão para acesso ao fenômeno que se pretende estudar. Esse seria o caso da construção de imagens em espelhos onde os raios de luz podem ser substituídos por linhas ou impressão em relevo caracterizando uma linguagem tátil.

Quando não há relação sensorial, como o conceito de energia, o professor pode escolher a forma de representação sem temer perda de informação para o aluno, modificando apenas as formas de representação interna da informação.

Para casos de grandezas sem relação sensorial, deve-se ressaltar que a representação de um fenômeno encontra-se no campo das ideias, e uma de suas características é a capacidade plástica e o grande número de possibilidades (MORIN, 1997). A representação de um fenômeno no campo das ideias pode ganhar status de fenômeno após consagração de uso, como no caso da gravidade, um modelo usado para prever fenômenos reais. Não se deve confundir o fato 'o objeto caiu após ser abandonado' com sua representação 'há um campo gravitacional nesse ambiente'.

Nesse momento, torna-se condição sine qua non diferenciar o que é 'realidade' de 'representação da realidade' em um processo contínuo de construção de ideias e suas formas de expressão.

## O Processo de Compensação e a Construção do Pensamento e da Linguagem

O senso comum pode nos levar a crer na supercompensação dos outros perceptores sensoriais na ausência de um deles, como supostas altas habilidades táteis e auditivas em pessoas cegas. De acordo com Vigotski (1983) a compensação não está nos perceptores, mas no uso dos perceptores com a intenção de substituir as funções relacionadas com o perceptor sensorial ausente.

A sensação de supercompensação dos perceptores sensoriais vem do processo de construção do pensamento com os recursos disponíveis (VIGOTSKI, 2010) e sua respectiva linguagem. Isto posto, cabe a ideia de melhor uso dos recursos existentes como uma possibilidade para todos desde que devidamente estimulados.

Encontramos respaldo para a diversificação sensorial na neurolinguística de Kato (2002, p.11), para quem '(...) a consciência lingüística provém muito mais do que eles fazem ao escrever ou ler do que daquilo que eles fazem ao falar ou ouvir'(p.11). Desse modo, ultrapassamos a barreira de inclusão

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através da adaptação verbal do professor (que continua sendo imprescindível) visando interação aluno-aluno, aluno-professor e aluno-fenômeno. No decorrer das relações encontramos atos comunicativos que ultrapassam a barreira da coloquialidade da fala.

A abordagem de fenômenos limitada a dois dos cinco perceptores sensoriais tem eficiência limitada e não encontramos na literatura justificativa para limitação sensorial.

De acordo com Marx apud Camilo & Mattos (2013) o uso dos sentidos humanos são determinados pelas atividades que se apresentam pela sociedade, sendo estas orientadas por experiências prévias construídas historicamente. No contexto da nossa pesquisa, isso pode ser interpretado como:

- 1- Dependendo do assunto, o aluno pode aprender melhor através de outro sentido que não seja a visão. O teto da limitação sensorial é igual ao número de perceptores disponíveis.
- 2- A construção de modelos científicos pode se feita para além da visão, aumentando as possibilidades de compreensão de todos os alunos enquanto inclui os alunos com deficiência visual. Embora a construção histórica nos leve ao uso da visão, nada nos impede de repensar nossas concepções acerca de fenômenos.

## Possibilidades de Percepção: análise da Chuva

Com a intenção de auxiliar o entendimento das categorias semânticosensoriais, apresentaremos um fenômeno natural e as respectivas possibilidades de percepção apresentadas por alunos do Ensino Médio de uma escola pública federal da zona oeste do Rio de Janeiro.

Até o momento, defendemos que a preferência pelo uso de um ou outro perceptor sensorial varia conforme a situação e, em certos casos, não há sequer intencionalidade na escolha. A chuva, o exemplo proposto, pode ser percebida por um somatório de informações:

- 1Pela visão: os olhos fornecem a imagem da água caindo;
- 2Pelo tato: a pele fornece a sensação de variação da umidade do ar (ou presença de água dependendo da proximidade com as nuvens);
- 3Pelo olfato: através de um odor usualmente denominado como 'cheiro de terra molhada' pelos participantes da pesquisa;
- 4Pela audição: pelo som das gotas de água colidindo com objetos do entorno como ou até mesmo com o chão.

Não necessariamente todos os quatro perceptores sensoriais serão necessários para se perceber a chuva. Pela nossa expectativa inicial, bastaria apenas um perceptor. Em muitos casos, percebemos ser comum a percepção com um dos sentidos e, a título de conferência da informação, usar outro como ouvir o som das gotas colidindo com o chão, árvore ou telhado e olhar para alguma área aberta, procurando a chuva.

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Para analisar como os alunos que enxergam percebem a chuva, mostramos a foto 1 abaixo para algumas salas de aula regulares, no período entre 2013 e 2016. Em seguida, era realizada a seguinte pergunta: 'o que é possível ver nessa paisagem'?

Figura 1: chuva despercebida

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Os alunos identificaram casas, árvores, fiação da Light, a Lagoa de Jacarepaguá, prédios ao fundo vistos 'bem pequenos' em função da distância variando entre 10 km (fundo da foto à esquerda) e 20 km (fundo da foto à direita), aproximadamente, considerando o marco zero no local de registro da imagem. Nenhum dos alunos conseguiu perceber a presença de chuva apenas por estímulos visuais. As respostas mais próximas foram 'neblina ao fundo', 'um esbranquiçado', 'uma fumaça branca' etc. É importante ressaltar que a imagem em questão não pertence às experiências anteriores dos entrevistados, indicando que a percepção sensorial, para além da mera recepção de informação, passa por um processo de aprendizagem.

No mesmo local montanhoso, tomando por base depoimentos de moradores do local, quando a chuva vem em sentido contrário, muitas vezes também não é detectada: a pessoa escuta o som das gotas colidindo com as folhas das árvores quando a chuva está muitíssimo próxima, porém não necessariamente perceptível.

Moradores mais antigos do local, cuja construção da percepção sensorial sobre o fenômeno está 'consolidada', identificam a chegada da chuva usando apenas um perceptor sensorial (visão, audição, tato e olfato). Nesse caso, a percepção foi construída ao longo do tempo e das diversas necessidades já vivenciadas (como correr para guardar sacos de cimento vendo que a chuva está chegando, tirar a roupa do varal etc).

Nesse caso, o fenômeno possui significado vinculado a quatro perceptores sensoriais e é acessível, para pessoas menos experientes, pelo somatório de informações vindas de diferentes perceptores sensoriais. As possibilidades de combinação irão variar de acordo com as preferências de cada indivíduo.

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## Conclusão

A inclusão escolar de alunos com deficiência visual é dificultada pelo hábito da sociedade em utilizar estímulos visuais em suas representações. Conforme desenvolvemos no decorrer do texto, o uso dos perceptores sensoriais e a interpretação de informações depende do uso que fazemos e das possiblidades que se apresentaram no decorrer da construção da linguagem e organização do pensamento.

A maior parte das grandezas físicas sequer são visíveis, embora não seja tão óbvio em um primeiro momento pelo hábito de representar grandezas físicas visualmente. O desafio da inclusão pela diversificação sensorial é proporcionar novas formas de representar grandezas físicas/fenômenos resultando em ganho para toda comunidade escolar.

## Bibliografia

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KATO, M.. No mundo da escrita: uma perspectiva psicolinguística . São Paulo: Ática, 2002.

MORIN, Edgar. O método, vol.4. As ideias, seu habitat, sua vida, seus costumes, sua organização. Rio Grande do Sul: Sulina, 1997.

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VIGOTSKI, L.S.. Obras Escogidas V: Fundamentos de Defectologia . Moscou: Editorial Pedagógica, 1983.

VIGOTSKI, L. S.. A construção do Pensamento e da Linguagem . São Paulo: Martins Fontes, 2010.

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