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A CINEMÁTICA NO CONTEXTO DA EDUCAÇÃO PARA O TRÂNSITO: A RECONTEXTUALIZAÇÃO DE APORTES TEÓRICOS CTS PARA O ENSINO DE CIÊNCIAS

Maria Cristina Do Amaral Moreira, Marcus Vinicius Pereira, Isabel Martins

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXII
Ano
2017
Data
25/01/2017
Linha de pesquisa
Cultura, Linguagem E Cognição No Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## A CINEMÁTICA NO CONTEXTO DA EDUCAÇÃO PARA O TRÂNSITO: A RECONTEXTUALIZAÇÃO DE APORTES TEÓRICOS CTS PARA O ENSINO DE CIÊNCIAS

Maria Cristina do Amaral Moreira , Marcus Vinicius Pereira , Isabel Martins 1 2 3

- 1 Instituto Federal do Rio de Janeiro, IFRJ/PROPEC, maria.amaral@ifrj.edu.br
- 2 Instituto Federal do Rio de Janeiro, IFRJ/PROPEC, marcus.pereira@ifrj.edu.br

## Resumo

Este artigo é um recorte de uma pesquisa mais ampla que se volta para os intertextos da pesquisa e o ensino de ciências em livros didáticos autorados por pesquisadores e aprovados pelo Programa Nacional do Livro Didático (PNLD). O objetivo foi o de analisar a temática do trânsito na sua relação com os aportes teóricos da abordagem Ciência-Tecnologia-Sociedade (CTS) nas representações discursivas instauradas na lógica e na prática pedagógica do ensino de ciências, sobretudo no ensino da cinemática, para o 9º ano do ensino fundamental. O referencial teórico-metodológico da Análise Crítica do Discurso foi considerado ao se analisar o texto intitulado 'Viajando com segurança' presente na introdução do capítulo 9 do livro 4, referente ao 9º ano, da coleção didática 'Construindo Consciências', assim como os elementos que circundam esse texto. Os resultados, baseados em análises lexicais, sintáticas e de estilo, apontam estratégias discursivas que recontextualizam o ensino do conceito de velocidade com questões socioambientais próprias das cidades atuais, implicando os estudantes pela reflexão dos riscos (nível individual e coletivo), na exposição de posicionamentos e na problematização de ações cotidianas envolvendo deslocamento de pessoas e veículos (segurança no trânsito, tecnologia dos automóveis, acidentes etc.).

Palavras-chave : livro didático; análise crítica do discurso; CTS.

## Introdução

Educar para cidadania ou para a formação de cientistas tem sido uma indagação que persiste no ensino de ciências até os dias de hoje (SANTOS e AULER, 2011). A perspectiva Ciência-Tecnologia-Sociedade (CTS) considera a ciência um empreendimento humano não singular (AIKENHEAD, 2005) e, portanto, os conteúdos e sequências didáticas nas práticas escolares de ciências, ao adquirirem caráter universal, estabelecem uma única forma de ensino.

- O livro didático (LD) espelha um modo de atuação sociodiscursiva em uma cultura (MARCUSCHI, 2008) entendido como um gênero textual que pode mediar ações que respaldam, aprofundam, negligenciam e reformulam essas ações. Portanto, a centralidade do LD na prática pedagógica se dá por representar os discursos hegemônicos que se perpetuam no ensino de determinada disciplina. No entanto, pode ser um espaço potencial de mudança desses discursos, mesmo que condicionados por recomendações oficiais, pedagógicas e científicas.

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No que diz respeito à função pedagógica do LD, essa parece ter mudando com os anos, estando menos voltada às referências e instruções e mais 'para resolução de exercícios escolares' (SANTOS e CARNEIRO, 2006, p.202). Recomendações específicas para o LD de ciências do ensino fundamental II (6º ao 9º ano) contidas no Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) de 2014 (BRASIL, 2014) refletem a preocupação da incorporação de facetas do discurso CTS no LD ao solicitar de forma explícita a contextualização de conteúdos na aproximação com a realidade, à formação para a cidadania, às relações entre a ciência e tecnologia e às práticas cotidianas dos alunos no ensino da disciplina ciências.

Considerando as argumentações anteriores, neste trabalho apresentamos uma investigação dos discursos relacionados à linha de pesquisa CTS em interseção ao discurso da área de ensino de ciências presente no LD de ciências. Para isso, analisamos uma temática social abordada em um texto contido em um LD de ciências: o trânsito nas grandes cidades em interseção com o ensino de física. Esse aspecto está na contramão do que tem se encontrado nas pesquisas sobre a abordagem CTS que advogam que os LD não trazem as discussões centrais sobre as principais relações dessa abordagem (DÍAZ, ALONSO e MAS, 2003).

## Quadro teórico-metodológico

Esta pesquisa toma como referencial a Análise Crítica do Discurso (ACD) de Fairclough (2001; 2003) a fim de evidenciar representações discursivas provenientes de debates, discussões, aportes teóricos, resultados de discursos, da linha de pesquisa CTS, recontextualizados no texto do LD de ciências. A ACD pressupõe um social incompleto e aberto a transformações. Ao analisar a articulação dos elementos da vida social no discurso, é possível compreender facetas da prática social em estudo por intermédio das relações de poder explicitadas em antagonismos, negociações e ausências assumidas nessas articulações discursivas.

A análise que realizamos do LD foca no aspecto híbrido dos textos (diversas dimensões do social) como norma da modernidade recente. De acordo com Chouliaraki e Fairclough (1999), a análise do discurso do LD como momento da prática social de ensinar ciências permite compreender processos culturais, históricos e conceituais envolvendo a abordagem CTS, aspectos epistemológicos e filosóficos que se atrelam ao funcionamento da linguagem e permitem analisar relações de representações no discurso.

Na análise da conjuntura inicia-se pela reflexão acerca da história, pressupostos e orientações da linha de pesquisa CTS, bem como das recomendações oficiais, objetivos e finalidades do ensino de física. A análise é complementada por análises de textos (microanálise) gerados e que circulam nas práticas sociais em estudo, representando e constituindo a dimensão semiótica do problema social . Busca-se identificar e significar essas relações por intermédio das 1 escolhas lexicais, das representações discursivas inscritas no texto, por meio de citações, paráfrases e, ainda, pelas escolhas de estilo, transitividade e modo retórico.

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## A linha de pesquisa Ciência-Tecnologia-Sociedade (CTS) e suas relações com as orientações contemporâneas para o ensino de ciências

A linha CTS surge no pós-guerra, no contexto da sociedade industrializada e nos questionamentos voltados a aspectos ambientais, tecnológicos, éticos, políticos e de cidadania, e direcionados às profundas mudanças econômicas e sociais (SANTOS e MORTIMER, 2002). Para Aikenhead (2005), a forma socializada de pensar e crer a ciência parece relacionada ao endereçamento do conhecimento escolarizado, que em última análise busca formar cientistas. Este exemplo expressa a luta hegemônica (mais dependente do consenso do que da coerção) no âmbito do discurso, na disputa pela sustentação de um status universal no qual existe apenas uma natureza científica.

Para autores como Santos (2005), a perspectiva da pesquisa CTS permite superar visões universalistas e defende que o conhecimento escolarizado articule-se preferencialmente com os saberes da população não acadêmica, apresentando uma concepção de ciência na qual deixa de ser exclusividade de um público restrito, agregando diferentes matrizes de racionalidade (científica, tecnológica, social, cultural) que no cotidiano são inseparáveis.

Santos e Mortimer (2002), ao analisarem os pressupostos teóricos da abordagem CTS, entendem que, no caso brasileiro, a ênfase está na preparação dos alunos para o exercício da cidadania, caracterizada por uma abordagem dos conteúdos científicos no seu contexto social. Esta visão é corroborada e expandida por Prata (2011), ao considerar que a formação para a cidadania passa a integrar a agenda de vários projetos educacionais brasileiros nos contextos contemporâneos, projetos esses em que a formação do cidadão assume a posição de finalidade última da educação.

## O ensino de cinemática e a educação para o trânsito

A educação para o trânsito pode ser considerada como um tema transversal (tal como a educação ambiental ou a educação em saúde), que, no contexto da física, ganha destaque no ensino da mecânica, tanto nos tópicos de cinemática quanto nos de dinâmica, ao mesmo tempo em que permite, por exemplo, ser trabalhado sob enfoque da abordagem CTS.

Se por um lado consideramos importante esse tema, por outro isso não se reflete de forma tão clara nos resultados de pesquisa encontrados na literatura da área de ensino, conforme aponta a revisão feita por Ledur (2015) que encontrou 15 trabalhos, entre artigos, dissertações e teses, muitos deles voltados à conscientização, a sensibilização e adoção de melhores atitudes, conjugados ou não com a aprendizagem das leis e normas de trânsito. Desses, apenas cinco artigos relacionavam a educação para o trânsito e o ensino de física (nos últimos 15 anos), ainda com o objetivo de uma aprendizagem mais conceitual, 'abordando velocidade, atrito, distância de frenagem e colisões' (LEDUR, 2015, p.25).

## O corpus da pesquisa

O texto selecionado para análise - 'Viajando com segurança' - localiza-se 2 no capítulo nove do volume quatro da coleção didática intitulada 'Construindo

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Consciências' (DE CARO et al., 2010, p.183-184). Esse texto pode ser caracterizado como o de introdução do capítulo, aquele que apresenta o capítulo de forma geral, o qual trata de questões relacionadas à velocidade de veículos em centros urbanos nos dias de hoje, e de problemas e necessidade de segurança, provocados por estes deslocamentos no trânsito.

A unidade do livro, na qual o capítulo está inserido, intitula-se 'Ciência, Tecnologia e Sobrevivência' (DE CARO et al., 2010, p.148-207). O título dessa unidade faz uma alusão ao acrônimo CTS, atribuindo significado diferente para a última letra. No caso da linha de pesquisa CTS, a letra S significa sociedade e no título desta unidade do livro, a mesma letra significa sobrevivência. O capítulo nove, objeto de análise deste estudo, inclui o debate de procedimentos de segurança no trânsito, a relação entre a velocidade e equipamentos de segurança (cintos de segurança, air bag , capacetes) e a qualidade de vida das pessoas.

## Discussão dos Resultados

## Título e elementos introdutórios do capítulo

O texto 'Viajando com segurança' inicia na primeira página do capítulo na qual figuram três elementos - o título propriamente dito, um enunciado e um conjunto de três imagens - e segue até a metade da página seguinte. Na página seguinte, além do texto, está presente um quadro de estatísticas de acidentes de trânsito de um website governamental. Nessa página, à direita do texto, há uma imagem, sob a forma de um desenho de autoria de um ilustrador de livros infantis, de um homem que dirige um automóvel e faz uso do cinto de segurança. O título do texto faz uso do gerúndio como tempo verbal, produzindo o efeito de uma ação presente, contínua e conjunta, contrariamente a linguagem científica que é impessoal, exclui os agentes ou sujeitos da ação, o que parece contribuir para se aproximar da perspectiva CTS no discurso do LD no sentido da implicação do sujeito com aquilo que lê.

Um segundo componente do cabeçalho do capítulo é o enunciado que fornece informações sobre a correlação entre aumento de velocidade e número de acidentes em decorrência disso. As informações servem de base para uma pergunta, antecipando a centralidade que a ciência adquirirá no contexto da discussão trazida no texto:

Ao aumentar a velocidade com que se deslocam, os seres humanos precisam criar mecanismos de segurança para evitar acidentes. Como a ciência pode nos ajudar a compreender os dispositivos e procedimentos de segurança no trânsito? (DE CARO et al., 2010, p.183)

Para entender os enunciados acima, exploramos a categoria da transitividade, isto é, analisamos as sentenças como descrevendo processos , 3 expressos por meio de verbos, e envolvendo participantes. O texto inicia com o verbo transitivo direto 'aumentar', indicando sentido de intensificar. Nesse caso, a transitividade implica os sujeitos como aqueles que usam/usarão equipamentos que empregam velocidades superiores às alcançadas pelo homem desprovido deles. No entanto, essa ênfase na agência ainda parece estar associada aos compromissos e

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responsabilidades no nível individual, sem problematizar o institucional e o mercadológico (MARTINS, 2011), uma vez que há destaque dos sujeitos e não da indústria automobilística como agentes do aumento da velocidade. Esse enunciado pode servir como base para implicar os diferentes níveis do debate da segurança e das possibilidades de adotar comportamentos seguros.

Em sequência, a pergunta 'Como a ciência pode nos ajudar a compreender os dispositivos e procedimentos de segurança no trânsito?' parece requerer uma decisão/posicionamento num modelo interativo de construção discursiva pelo uso do pronome 'nos', o qual torna o estudante alguém inserido nas questões relacionadas à segurança no trânsito. Por meio do uso do advérbio 'como', é chamada atenção para o modo pelo qual a ciência pode ajudar na compreensão dessas questões, ou seja, na forma que a ciência favorece a inteligibilidade das questões. No entanto, ocorre aqui um processo característico da transitividade que é o da nominalização: o nome 'ciência' passa a condensar a ideia de um 'processo de construção de inteligibilidade' (FAIRCLOUGH, 2001, p.223), levando a uma consequência imediata da supressão de um conjunto de processos e participantes envolvidos.

A primeira página inclui, ainda, três imagens fotográficas que compõem o cabeçalho do capítulo. Na primeira delas, à direita do título, dois homens, um negro e um branco, se encontram em posição de largada em pista de corrida de atletismo. A segunda, localizada abaixo do título, é a fotografia tomada durante uma corrida de fórmula 1, mostrando seis carros próximos e dando a ideia de movimento. A terceira imagem, ao lado da segunda e abaixo da primeira, mostra um atleta em uma prova de ciclismo. As três imagens representam atividades esportivas que envolvem graduações de velocidade dependendo do uso de diferentes tecnologias e conduzem a pensar o problema da velocidade no viés do uso, do potencial e dos limites da tecnologia e consequências desses condicionantes. Entendemos que esse início, em alguma medida, imprime uma abordagem que convoca o aluno a se posicionar frente ao problema destacado.

## Texto: 'Viajando com segurança'

O texto 'Viajando com segurança' (DE CARO et al., 2010, p.183-184) possui sete parágrafos, apresentados no Quadro 1 abaixo.

Quadro 1: Parágrafos do texto 'Viajando com segurança' no início do capítulo nove do livro

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No primeiro parágrafo, a escolha dos verbos 'nascer, crescer, envelhecer e morrer', tipicamente utilizados para representar as etapas do ciclo da vida, sugere a possibilidade de sua perda/ruptura em consequência de acidentes. De forma não explícita, os acidentes parecem dizer respeito àqueles que ocorrem em consequência do trânsito de automóveis, pela relação que se estabelece com o contexto do título 'Viajando com segurança', complementado por um quadro de estatísticas de acidentes de trânsito e o desenho do motorista portando cinto de segurança, mencionados anteriormente.

- O próximo parágrafo apresenta os verbos 'ser' e 'ter' no presente durativo. Este modo serve para expressar ações ou estados permanentes, frequentemente identificados com enunciados científicos, aos quais se vinculam elevados graus de certeza e confiabilidade. O conhecimento físico é reconhecido pelos limites de velocidade impostos à condição humana na dimensão relevante do problema a ser considerado.
- O terceiro e o quarto parágrafos têm estruturas frasais similares ao se iniciarem com adjuntos adverbiais de modo 'com o auxílio de máquinas' e "com o rápido crescimento e concentração populacional", ambos antecipados na oração querendo dizer que esses elementos têm mais importância e destaque. Os adjuntos adverbiais de modo, nesse exemplo, compreendem conteúdos diferenciados e que, somados nessa sequência, expressam condicionantes diferentes, a tecnologia de automotores e a superpopulação do planeta, apresentados aparentemente sem relação.
- O terceiro parágrafo, ao ponderar dois lados da mesma questão pelo uso de orações adversativas, tece a contraposição entre um caráter positivo e consequências negativas do aumento da velocidade. O enunciado conclusivo 'alguns tipos de acidentes passam a acontecer em razão das máquinas e dos ambientes que construímos e utilizamos' estabelece uma relação direta dos acidentes ('passam a acontecer') devido às máquinas (automotores) e ambiente (cidades/concentração humana).

No quarto parágrafo, o aspecto negativo é trazido em primeiro plano no aprofundamento das questões das consequências do trânsito associado à velocidade. Nesse caso, faz-se uso de referência a instituições, tal como a do

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Ministério da Saúde e o Sistema Único de Saúde (SUS), como estratégia discursiva à persuasão. O argumento de autoridade tem sentido para conferir confiabilidade ao que se diz, citando-se dados concretos fornecidos por entidades de credibilidade social.

- A primeira pergunta do quinto parágrafo, 'Mas qual seria a maior causa de acidentes no trânsito?', parece implicar o leitor na medida em que suscita sua curiosidade pela informação sugerida no quadro de estatísticas de acidentes do trânsito, entendida como 'imprudência de condutores e pedestres' e 'as más condições das vias de transporte e dos veículos' que aparecem na forma das perguntas subsequentes nesse mesmo parágrafo.
- O sexto parágrafo inicia-se por meio da referência à fonte de dados do quadro de estatísticas a partir de elementos que respondam à pergunta feita no parágrafo anterior. Esse enunciado configura 'argumento de autoridade' ao mencionar o Ministério dos Transportes e incluir um link no qual essas mesmas informações atualizadas podem ser obtidas.
- O enunciado do sétimo parágrafo termina com uma inversão temática ao dar ênfase àquilo que está ausente, ou seja, ao que falta no contexto da discussão das soluções para o problema apresentado. A frase tem início com o pronome indefinido 'muito', sujeito da locução verbal 'está por ser feito'. Em seguida, apesar de implicar o estudante ao apontar a educação como uma resposta ao problema, o grau de implicação parece diminuir ao se referirem à 'sociedade que tem cada vez mais pressa'. Na última pergunta do texto, 'O que a ciência tem a nos dizer sobre isso?', o estudante é implicado explicitamente pelo uso do pronome na primeira pessoa do plural ('nos'), lançando o leitor/interlocutor (aluno) para dentro do texto, tornando-o cúmplice do que é dito.

Portanto, esse texto traz como cenário o conceito de velocidade caracterizado de forma complexa, como imposição, benefício e fator de risco na vida dos cidadãos. Entendemos que o cenário proposto no texto aproxima três dimensões do conhecimento: a do estudante, a da ciência (estatísticas oficiais) e a da tecnologia (máquinas automotoras). A própria configuração linguística, na forma de um debate como estilo discursivo, é uma proposta de estratégia pedagógica amplamente alinhada aos pressupostos da abordagem CTS. A discussão sobre a relação entre a velocidade e o social (riscos, aumento populacional, tecnologia das máquinas) e das consequências negativas associadas à possibilidade de atingir altas velocidades permite articulações que, em geral, estão ausentes no ensino da mecânica, sobretudo no ensino da cinemática.

## Considerações finais

Os resultados encontrados indicam que o discurso CTS no LD analisado trouxe outros aspectos à tona para o ensino de física, tais como o contexto socioeconômico da produção do conhecimento, as possibilidades de implicar e empoderar os estudantes por meio de debate sobre os riscos e níveis de responsabilidade social, o convite a posicionamento, a reflexividade como forma de desnaturalizar consensos, entre outros. Consideramos que alguns aspectos ainda merecem maior aprofundamento por parte de educadores e pesquisadores da área de ensino de ciências relacionados a estes entendimentos, em especial o discurso de autoridade usado na linguagem científica e como certas questões influenciam a gênese e aceitação das teorias científicas por estudantes.

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## Referências

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