ASPECTOS DA NATUREZA DA CIÊNCIA NA CRÔNICA E SE UM ASTEROIDE... DE LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO
Letícia Dos Santos Fonsêca, Alisson Diêgo Dias De Medeiros, Luciane Soares Almeida, Ricardo Rodrigues Da Silva
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXII
- Ano
- 2017
- Data
- 25/01/2017
- Linha de pesquisa
- Cultura, Linguagem E Cognição No Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## ASPECTOS DA NATUREZA DA CIÊNCIA NA CRÔNICA E SE UM ASTEROIDE... DE LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO
## Letícia dos Santos Fonsêca , Alisson Diêgo Dias de Medeiros , Luciane Soares 1 2 Almeida 3 , Ricardo Rodrigues da Silva 4
- 1 Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte - Campus Caicó, fonseca\_le\_ticia@hotmail.com
- 2 Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte - Campus Caicó, alisson.dias@ifrn.edu.br
- 3 Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte - Campus Caicó, luciane.almeida@ifrn.edu.br
- 4 Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte - Campus Caicó, ricardo.rodrigues@ifrn.edu.br
## Resumo
O presente trabalho tem por objetivo apresentar uma proposta didática que trabalha aspectos da Natureza da Ciência (NdC), mediados pela leitura da crônica 'E se um asteroide...' de Luís Fernando Veríssimo. Baseando-nos em Martins (2006a), quando relata a importância de um ensino que propicie uma compreensão sobre a NdC, em Candido (1992), quando destaca que a crônica trata do miúdo, do que está próximo da vivência, e compartilhando do entendimento de Zanetic (2005) de que Física também é cultura, acreditamos que aspectos da ciência aplicada e/ou concepções da NdC, podem se mostrar ainda mais evidentes nesse gênero. Embora a utilização da História e Filosofia da Ciência seja a mais recomendada para alcançar um entendimento coerente da NdC, acreditamos que a discussão de textos literários (aliados a estudos históricos e filosóficos) também pode ser uma alternativa à inserção e aprendizagem de questões relativas à natureza da ciência. Verificamos que a crônica pode mediar discussões como a não existência de um método único de pesquisa, a ciência como parte de um desenvolvimento histórico-cultural, o caráter gradual, não linear do desenvolvimento científico, e a distinção de conhecimento científico e crença científica.
Palavras-chave : Física e Literatura, Crônica, Luís Fernando Veríssimo, Natureza da Ciência, Ensino de Física.
## Introdução
Entreouvida na rua: 'O que isso tem a ver com o meu café com leite?' Não sei se é uma frase feita comum que só eu não conhecia ou se estava sendo inventada na hora, mas gostei. Tudo, no fim, se resume no que tem e não tem a ver com o nosso café com leite, no que afeta ou não afeta diretamente nossas vidas e nossos hábitos. É uma questão que envolve mais do que a vizinhança próxima. Outro dia ficamos sabendo que o Stephen Hawking voltou atrás na sua teoria sobre os buracos negros, aqueles furos no Universo em que a matéria desaparece. Nem eu nem você entendíamos a teoria, e agora somos obrigados a rever nossa ignorância: os buracos negros não eram nada daquilo que a gente não sabia que eram, são outra coisa que a gente nunca vai
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23 a 27 de janeiro de 2017
entender. Nosso consolo é que nada disto tem a ver com nosso café com leite. Os buracos negros e o nosso café com leite são, mesmo, extremos opostos, a extrema angústia do desconhecido e o extremo conforto do familiar. Não cabem na mesma mesa ou no mesmo cérebro.
Mas da mesma forma que estes extremos não estão tão longe assim - basta o Sol inventar de implodir e iremos todos juntos para o buraco, nós, nosso café com leite, nosso pão com manteiga, nosso santinho da sorte e aquele pulôver favorito -, coisas da vizinhança próxima que parecem não ter nada a ver com nossas vidas têm muito.
Luís Fernando Veríssimo
- O pensamento mostrado pelo cronista é comum, compartilhado por muitas pessoas, isto é, que os estudos da ciência aparecem totalmente dissociados da sociedade/realidade. Isso é reforçado, continuamente, pelos meios de comunicação que apresentam uma ciência distante da realidade, fora do alcance dos seres humanos comuns, sendo acessível apenas aos grandes gênios (cientistas de conhecimento inigualável e um método de pesquisa infalível), mostrando noções totalmente equivocadas a respeito da construção do conhecimento científico.
Os PCN+ (BRASIL, 2002, p. 59), dentre outras coisas, recomenda que a Física deve vir 'reconhecida como um processo cuja construção ocorreu ao longo da história da humanidade, impregnada de contribuições culturais, econômicas e sociais [...]'. Uma das estratégias mais recomendadas para se alcançar um entendimento coerente da NdC é a utilização da História e Filosofia da Ciência (MARTINS, 2006a; SILVA e MARTINS, 2003; VITAL e GUERRA, 2014).
De acordo com Martins (2006a, p. xxi), 'além de poder ajudar a transmitir uma visão mais adequada sobre a natureza da ciência, a história das ciências pode auxiliar no próprio aprendizado dos conteúdos científicos', ressaltando que o estudo de episódios da história da ciência é 'insubstituível' (MARTINS, 2006a, p. xx), na construção de uma visão adequada da ciência, destacando, que este estudo, pode auxiliar no entendimento:
- a) da ciência como parte de um desenvolvimento histórico-cultural e sua relação com a tecnologia e sociedade, isto é, que 'a ciência não se desenvolve em uma torre de cristal, mas sim em um contexto social, econômico, cultural e material bem determinado' (MARTINS, 2006a, p. xx).
- b) de que a construção do conhecimento científico é resultado de um processo coletivo e gradual, isto é:
A ciência não brota pronta, na cabeça de 'grandes gênios'. Muitas vezes as teorias que aceitamos hoje foram propostas de forma confusa, com muitas falhas, sem possuir uma base observacional e experimental. Apenas gradualmente as ideias vão sendo aperfeiçoadas, através de debates e críticas, que muitas vezes transformam totalmente os conceitos iniciais (MARTINS, 2006a, p. xviii).
- c) da não existência de um método científico único, um caminho a verdade, 'a ciência muda ao longo do tempo, às vezes de um modo radical, sendo, na verdade, um conhecimento provisório, construído por seres humanos falíveis' (MARTINS, 2006, p. xix).
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Concordamos com o autor, e acreditamos que a discussão de textos literários (aliados a estudos históricos e filosóficos) também pode ser uma alternativa à inserção e aprendizagem de questões relativas à natureza da ciência.
## Física, Cultura e Ensino
De acordo com Fourez (1995), a ciência é uma construção humana - feita por humanos, para humanos, com humanos - que está diretamente vinculada a sua realidade. O conhecimento científico, por estar inserido em um contexto cultural, é fortemente influenciado por fatores, dentre outros, políticos, econômicos e sociais, isto é, 'grande parte das profundas transformações que a ciência tem sofrido tem sua origem no meio social-econômico em que está imersa' (MENEZES, 1984, p. 78).
Da mesma forma, exercendo uma relação de reciprocidade, a ciência também promove mudanças significativas à cultura humana. Merton (1970 apud ZANETIC, 2005), destaca que vários dos cientistas mais ilustres do século XVII se interessavam em cultivar a relação teoria e prática, fazendo com que as inovações levassem ao aperfeiçoamento do comércio, mineralogia e técnica militar. O estudo das máquinas simples, segundo o autor, fora aplicado na indústria de mineração para a elevação de minérios à superfície, tal qual a hidrostática para o bombeamento de água do interior das minas e a mecânica de projéteis para indústria militar.
- O exposto por Merton também dialoga com o expresso pelo físico alemão Werner Heisenberg, em seu livro Física e Filosofia, quando afirma que as ciências, a natural e a aplicada, exercem reciprocidade cooperativa:
A relação entre ciência natural e ciência aplicada foi, desde o começo, uma de colaboração mútua: os progressos da ciência aplicada -aperfeiçoamento de ferramentas, invenção de novos equipamentos especializados - calçaram o caminho para a busca de um conhecimento empírico da Natureza, a cada passo mais preciso. E o progresso na compreensão da Natureza e, por fim, a formulação matemática das leis naturais, vieram a propiciar novas técnicas - em base aos conhecimentos adquiridos - à ciência aplicada (HEISENBERG, 1981, p. 116).
De acordo com Souza (2010, p. 45), essa relação, entre ciência e tecnologia, exerce tal influência na sociedade atual que parte da memória do desenvolvimento humano é classificada segundo o potencial tecnológico de cada época. O autor destaca que, a partir do século XIX ao XX, foi sendo enraizado o pensamento de desenvolvimento como sinônimo de evolução da ciência e tecnologia, em tal magnitude que, quando se fala em desenvolvimento humano, grande número de pessoas pensa em avanços automobilísticos, armamentistas, medicinais, entre outros. 'Infelizmente, nem sempre imaginamos mais solidariedade, menos fome, mais dignidade, mais igualdade'.
Com isso, vemos que, a atividade humana é constantemente influenciada por fatores científicos e tecnológicos. Além disso, a observação - ponto de partida do conhecimento científico - não é absolutamente passiva: para descrevê-la são utilizadas 'noções' conhecidas por quem a deseja interpretar. Os cientistas, como integrantes de um universo linguístico e cultural, têm a linguagem como pré-requisito para o ato da observação, 'não se pode observar sem utilizar a linguagem, seja verbal, seja mental. E a língua já é uma maneira cultural de estruturar uma visão, uma compreensão' (FOUREZ, 1995, p. 44).
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## E o ensino de Física, como fica?
Embora estejamos, cotidianamente, rodeados de controle científicotecnológico, a maioria das pessoas está alienada da presença efetiva da ciência em seu cotidiano (ZANETIC, 1989). E, com exceção de alguns casos em que professores trazem para as salas de aula pesquisas desenvolvidas no ensino dessa ciência, 'no geral a Física é mal ensinada nas escolas', sendo apresentada de maneira 'esotérica' e sem conexão com aspectos da vida e cultura (ZANETIC, 2005, p. 21).
Com isso, os PCN+ alertam para o tratamento da ciência em suas diversas representações e voltada para a 'formação do cidadão contemporâneo, atuante e solidário, com instrumentos para compreender, intervir e participar na realidade'. E um dos pontos destacados no documento é a apresentação da Física como cultura, podendo ser representado por meio da literatura, letras de música, peças de teatro, museus, história da ciência, entre outros meios (BRASIL, 2002, p.59).
Isso posto, a Literatura, como uma dessas atividades, pode ser uma importante ferramenta, dentre outras coisas, no processo de aprendizagem em ciências, na representação da Física como cultura, podendo deixar contribuições consideráveis na formação do cidadão contemporâneo.
Trabalhos que envolvem conhecimentos históricos mediados por textos literários, já foram desenvolvidos por outros autores. Groto e Martins (2015), por exemplo, apresentam uma análise sobre a utilização das obras ' A reforma da natureza ' e ' Serões de Dona Benta ', de Monteiro Lobato, para o estudo de temas da ciência como, a matéria, meio ambiente, além da NdC, destacando, dentre outras coisas, aspectos como o caráter dinâmico do conhecimento científico e a relação da ciência com a sociedade . Os autores destacam ainda que 'os textos literários 1 podem ser utilizados, também, na problematização das visões de ciência que veiculam, uma vez que transmitem imagens de ciência vinculadas ao contexto histórico da época em que foram produzidos' (GROTO; MARTINS, 2015, p. 220).
Isto posto, o presente trabalho tem por objetivo apresentar uma análise da crônica ' E se um asteroide... ' de Luís Fernando Veríssimo, destacando as contribuições que a utilização dessa ferramenta pode trazer ao estudo da Natureza da Ciência.
## A crônica na Literatura
A Literatura não é algo simples de ser definido. Eagleton (2006, p. 33), no seu estudo acerca da teoria literária, busca, inicialmente, caracterizá-la por meio de uma análise que perpassa aspectos históricos, filosóficos e sociais da relação entre a Literatura e a sociedade inglesa vitoriana. Segundo o autor, diversos estudos buscavam definir o que é a literatura, no entanto vários desses deixaram lacunas em suas definições.
De acordo com Eagleton (2006, p. 33), a discussão sobre o que é caracterizado como Literatura tem cunho ideológico, pois ela preserva relações
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próximas com 'questões de poder social'. O autor destaca que os juízos de valor isto é, o que é considerado valioso para certo grupo de pessoas - que caracterizam a Literatura são historicamente mutáveis, tendo estes, relações íntimas com ideologias sociais. 'Eles se referem, em última análise, não apenas ao gosto particular, mas aos pressupostos pelos quais certos grupos sociais exercem e mantêm o poder sobre outros' (EAGLETON, 2006, p. 24).
Não omitindo o deslumbramento causado pela Literatura, concordamos com Almeida e Ricon (1993) quando destacam que a leitura de textos literários (romances, crônicas, biografias, poesias, quadrinhos, etc.) leva, muitas vezes, o leitor ao estado de envolvimento, pois eles possuem a capacidade de comover, cativar e fazer, em alguns momentos, o leitor reviver sua própria história de vida.
A crônica, objeto de estudo deste trabalho, é considerada por alguns autores um gênero menor da Literatura - conforme os pressupostos apontados por Eagleton - pois, como já destacado, ela trata do miúdo - do cotidiano - e, diferente dos cânones da literatura, trabalha 'ao rés do chão' (CANDIDO, 1992, 14), isto é, mais próximo da vivência das pessoas. No entanto, esse fator não apaga sua relevância para o cenário nacional, pois, como afirmado por Eagleton (2006, p. 17), o título de literatura não é recusado a um gênero considerado menor (por um grupo), este, como os demais, 'pertence ao tipo de escrita geralmente considerada como de valor'.
A crônica não é um 'gênero maior'. Não se imagina uma literatura feita de grandes cronistas, que lhe dessem o brilho universal dos grandes romancistas, dramaturgos e poetas. Nem se pensaria em atribuir um Prêmio Nobel a um cronista, por melhor que fosse. Portanto, parece mesmo que a crônica é um gênero menor.
'Graças a Deus', - seria o caso de dizer, por que sendo assim ela fica perto de nós. E para muitos pode servir de caminho não apenas para a vida, que ela serve de perto, mas para a literatura [...] (CANDIDO, 1992, p. 13).
Isto posto, por tratar especialmente do cotidiano, acreditamos que aspectos da ciência aplicada e/ou concepções da NdC, podem se mostrar ainda mais evidentes nesse gênero. As crônicas utilizadas serão as do Luís Fernando Veríssimo. Concordando com Oliveira (2010, p. 48), quando caracteriza o estilo do Veríssimo como leve e versátil, e que não deixa de lado um aspecto reflexivo, vemos, nos textos desse autor, um potencial discursivo que, utilizados em aulas de Física, podem ser ferramentas relevantes para a aprendizagem dessa ciência.
## As crônicas de Luís Fernando Veríssimo e o ensino de Física
Considerado por Simon (2004 apud OLIVEIRA 2010), um fenômeno editorial brasileiro. A escrita do Luís Fernando Veríssimo - fortemente influenciada pela literatura de língua inglesa, principalmente quanto a aspecto humorístico - é leve, não apresentando 'lirismo poético ou humor exacerbado'. Apresentando características fortemente reflexivas, mostra a verdade atrás do riso.
Embora sempre seja um riso de prazer - pois as contradições do mundo, embuçadas nesses jogos de linguagem, são em geral dolorosas, pela verdade com que mostram nessas ficções possíveis, ou pela acuidade implacável do olhar do cronista, quando parte de uma situação real - é esse riso doce-amargo que define o humor e a arte de quem realiza. É um riso torto, de quem enxerga o que não vemos e se diverte com nossa cegueira. É um riso desconsolado, pois não acredita que possa mudar o que vê. É um
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riso debochado, pois não leva a sério a seriedade de suas vítimas. É um riso atrevido, pois não teme ridicularizar os valores sacralizados pela sociedade e pelas ideologias. É, enfim, um riso libertador, pois nos permite superar o peso das opressões diárias, bem ou mal percebidas, sejam elas físicas ou metafísicas, conforme assim as entendemos (BORDINI, 1982 apud OLIVEIRA, 2010, p. 47).
De acordo com Oliveira (2010, p. 48), o cronista busca por fatos recentes, que conversem diretamente com o leitor, caminhando 'por temas complexos e sérios, mas de um modo leve e humorístico, um meio eficaz em se tratando do alcance ideológico'. Seus textos são dotados de temáticas, dentre elas, políticas, econômicas, futebolísticas, envolvendo também sexo e traição.
Como no caso da crônica E se um asteroide... , além das temáticas mencionadas, identificamos também aspectos físicos -tema, fenômeno e personalidade da Física - e/ou da Natureza da ciência nos textos de Veríssimo . 2
## E se um asteroide...
Veríssimo inicia sua crônica com indagações acerca da natureza humana, sobre o comportamento das pessoas diante de uma situação de fim - com um asteroide prestes a se chocar com a Terra sem que não restasse mais o que fazer levantando algumas possibilidades de ações das pessoas.
Nos convenceríamos, finalmente, de que somos uma única espécie frágil num planeta precário e viveríamos nossos últimos anos em fraternidade e paz, ou reverteríamos ao nosso cerne básico e calhorda, agora sem qualquer disfarces? Nos tribalizaríamos ainda mais ou descobriríamos nossa humanidade comum, e como eram ridículas as nossas diferenças? Jogaríamos nosso dinheiro fora ou cataríamos o dinheiro que os outros jogassem fora, pensando na remota possibilidade de comprar um lugar no último foguete americano a deixar a Terra antes do impacto? Perderíamos todo o interesse nos prazeres da carne e trataríamos de salvar a nossa alma ou, pelo contrário, nos entregaríamos à lascívia, ao deboche e à gula, ultrapassando, às gargalhadas, todos os nossos limites orçamentários? (VERÍSSIMO, 2013, p. 255).
O cronista fala que, como os fatos seriam previstos, a priori, por cientistas, 'seríamos a primeira geração sobre a Terra a viver com a certeza universal e prémedida do seu fim' (VERÍSSIMO, 2013, p. 255-256) e continua destacando que muitas seitas através dos tempos pensaram e mediram o fim, mas seríamos os primeiros com evidência científica em vez de crença. E supõe que a predição do fim faria com que as pessoas tratassem a ciência como crença, partindo do pressuposto que só acreditando que aquela estando errada, ou desmoralizada, daria esperança as pessoas de que o desastre não ocorresse.
Muitas seitas através da história e até hoje estabeleceram a hora e o modo de o mundo acabar e se prepararam para o evento. Nós seríamos os primeiros com evidência científica do fim, em vez de crença, o que nos levaria a tratar a ciência como hoje muitos tratam crenças. Pois só a desmoralização total da ciência, só chamar o sistema métrico de ocultismo e termodinâmica de feitiçaria, nos daria a esperança de que os cálculos
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estivessem errados e o asteroide, afinal, passaria longe (VERÍSSIMO, 2013, p. 255-256).
O cronista finaliza questionando como seria o procedimento de seleção de quem embarcaria em possíveis foguetes de salvação. 'Quem vai nos foguetes? (Nada de Mulheres e crianças - intelectuais primeiro!) Tem que ser americano? Quanto custa uma terceira classe? Aceitam cartão?' (VERÍSSIMO, 2013, p. 256).
A crônica apresenta diversas concepções acerca da NdC, no entanto essas concepções podem ser utilizadas como exemplos contrários a visão adequada da NdC. Concordamos com Martins (2006b, p. 187) quando destaca a relevância de apresentar exemplos contrários de episódios da ciência, como forma de comparação, de maneira que os alunos possam destacar os equívocos, e 'pontos falhos', nas informações veiculadas em livros didáticos e de divulgação, internet, etc.
Esse é um excelente exercício, que estimula o pensamento crítico dos estudantes e que pode ajudar a elevar o ensino a um outro nível, não se limitando apenas à reprodução das ideias apresentadas pelo professor mas estimulando a comparação e discussão de ideias (MARTINS, 2006b, p. 187).
Isto posto, podemos desenvolver uma série de questionamentos/reflexões tendo como ponto de partida situações/fenômenos presentes no texto, cada um desses direcionando a discussões relativas à natureza da ciência, como: 1) O que há de tão poderoso e evidente no conhecimento científico que garante essa 'certeza universal' destacada no texto?; 2) Qual é a distinção entre o conhecimento científico e as crenças ressaltadas no texto?; 3) Podemos afirmar que quem acredita no conhecimento científico não possui crença?; 4) Por que o autor discorre, durante os questionamentos, sobre quem subirá aos foguetes a nacionalidade e função das pessoas na sociedade? Em que a ciência e/ou o desenvolvimento científico influencia nessas decisões?
## Considerações finais
Podemos observar que os questionamentos/reflexões destacados permitem discutir, dentre outros aspectos, os destacados por Martins (2006a), isto é, a compreensão da ciência como parte de um desenvolvimento histórico-cultural, o processo gradual do seu desenvolvimento e a inexistência de um método excepcional de pesquisa, como também a distinção de conhecimento científico e crença científica (SILVA; MARTINS, 2003).
Verificamos que aspectos da NdC também estão presentes em textos literários, neste caso, na crônica E se um asteroide..., de Luís Fernando Veríssimo, a qual pode ser utilizada em sala de aula com discussões mediadas tanto por terminologias científicas, personalidade da Física e/ou fenômenos presentes no texto, como em ações descritas ou desenvolvidas pelos personagens. Isto posto, concordamos que a crônica pode ser uma ferramenta valiosa no estudo/discussão de ciência e sobre ciência.
## Referências
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BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Média e Tecnológica. PCN + Ensino Médio: Orientações educacionais complementares aos Parâmetros Curriculares Nacionais. Ciências da natureza, matemática e suas tecnologias . Brasília: Ministério da Educação, 2002.
CANDIDO, A. A vida ao rés-do-chão. In: CANDIDO, Antônio et al. A crônica: o gênero, sua fixação e suas transformações no Brasil. Campinas: Ed. Unicamp; Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1992. p. 13-22.
EAGLETON, T. Teoria da Literatura: uma introdução. Tradução de Waltensir Dutra. São Paulo: Martins Fontes, 2006.
FOUREZ, G. A construção das ciências: introdução à filosofia e à ética da ciência. Tradução de Luis Paulo Rouanet. São Paulo: Editora UNESP, 1995.
GROTO, S. R.; MARTINS, A. F. P. Monteiro Lobato em aulas de ciências: aproximando ciência e literatura na educação científica. Ciência e Educação , Bauru, v. 21, n. 1, p. 219-238, 2015.
HEISENBERG, W. Física e Filosofia . Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1981.
MARTINS, R. A. Introdução: a história das ciências e seus usos na educação. In: SILVA, C. C. Estudos de história e filosofia das ciências . São Paulo: Editora Livraria da Física, 2006a. p. xvii-xxx.
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MENEZES, L. C. Ciência? Revista Brasileira de Ensino de Física , v. 6, n. 1, p. 78-84, junho 1984.
OLIVEIRA, K. Leitores da crônica de Luis Fernando Veríssimo . 2010. Dissertação (Mestrado). Centro de Ciências humanas, Letras e Artes da Universidade Estadual de Maringá. Maringá: Universidade Estadual de Maringá, 2010.
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SOUZA, Alcindo Mariano de. Despertando responsabilidade social no ensino médio por meio de temáticas associadas à física nuclear. 2010. Dissertação (Mestrado em Ensino de Ciências Naturais e Matemática) - Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, 2010.
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