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A PRESENÇA DOS SUPER-HERÓIS NO ENSINO DE FÍSICA

Kassiano Ferreira, Letícia Oliveira

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXII
Ano
2017
Data
25/01/2017
Linha de pesquisa
Cultura, Linguagem E Cognição No Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## O USO DAS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS NO ENSINO DE FÍSICA

## Kassiano Ferreira 1

1 Universidade Federal do Vale do São Francisco/Colegiado de Ciências da natureza, kassioferreira567amorim@gmail.com

## Resumo

Com um ensino de física matematizado e distante dos alunos, temos uma desvalorização da física conceitual e um desinteresse por parte dos alunos. Partindo dessa problemática, se faz necessário buscar novas formas de tornar esse atual ensino menos mecânico e matemático e torná-lo mais atrativo. Buscando uma aproximação com o mundo cultural do aluno, usa-se como uma alternativa as histórias em quadrinhos. Sendo um material de entretenimento conhecido pelos alunos, com um fácil acesso e com muitos conceitos de física presentes, possibilita que sejam utilizados para se ensinar física. Esse artigo mostra como as histórias em quadrinhos foram usadas para se ensinar física, através de oficinas, em duas escolas da Bahia, com alunos do ensino médio. Juntamente traz a análise desse uso, mostrando a recepção a essa metodologia, buscando destacar os aspectos positivos, e como estes refletem na produtividade dos alunos, onde eles mostram que aprenderam os conceitos e consegue aplicá-los através de textos.

Palavras-chave : Histórias em quadrinhos, Ensino de Física.

## Introdução

O atual ensino de física, vivenciado tanto no ensino médio como no ensino fundamental, é um ensino puramente mecânico, centrado no excesso de cálculos e fórmulas, memorizadas pelos alunos e aplicadas na resolução de exercícios padronizados e repetitivos. Assim os conceitos ficam em segundo plano, o que faz com que muitos alunos não os compreendam e nem entendam a presença dos mesmos em sua vida.

Diante dessa problemática, é necessária a utilização de métodos que aproximem a física, presente na cultura escolar, com a cultura do aluno e seus saberes. Isso faz com que os conceitos tornem-se mais próximos a eles, criando significado, e deixando de ser simples cálculos matemáticos. Essa aproximação deve buscar integrar a física em elementos da cultura do aluno.

Algo muito presente e que permite essa aproximação, são as histórias em quadrinhos (HQs). Com uma grande popularidade entre o público jovem, que compõe o alunado do ensino médio e fundamental, e uma estrutura de comunicação simples, unindo imagens e textos, as HQs funcionam como uma conexão entre a cultura escolar e as afinidades dos alunos.

Buscando mostrar a eficiência do uso das HQs para se ensinar física, rompendo com os modelos tradicionais de ensino, é que esta pesquisa foi construída. Através de oficinas e textos, feitos com os alunos, os conceitos físicos foram trabalhados utilizando personagens de quadrinhos. Em sequência, estão descritas a fundamentação teórica, a metodologia empregada e os resultados obtidos.

## Referencial teórico

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23 a 27 de janeiro de 2017

Atualmente, vivencia-se em grande parte das escolas do país, um ensino de física matematizado, onde os alunos repetem exercícios-padrões, e acabam desenvolvendo a capacidade de substituir números em fórmulas, mas não tem uma compreensão sobre o fenômeno em si (TESTONI E ABIB, 2004).

Segundo Bonadiman e Nonenmacher (2007), o abandono da física conceitual nas salas de aula, cria um profundo distanciamento entre o formalismo escolar e o cotidiano do aluno. É a presença do 'mundo do estudante' dentro do ensino que o torna interessante. Os alunos atribuem valor a qualquer conteúdo que lhe é ensinado. Uma falta de relação entre os conteúdos e o mundo particular dos alunos, faz com que os alunos não atribuam valor ao que lhes é ensinado. Assim 'os alunos desprezam o conhecimento escolar proposto, que não constitui um valor para eles.' (VILLANI & BAROLLI, 2000, p.04).

Assim sendo, é necessário relacionar a física com a realidade dos alunos, levando em consideração os saberes e as afinidades dos alunos. Existem múltiplas formas de se realizar isso. Uma dessas formas é o uso das histórias em quadrinhos.

Existem diversos pontos a favor da utilização desse material pelo professor de ciências: popularidade entre os jovens, dinamismo na linguagem, facilidade de acesso ao material, variedade temática, ludicidade, cognitivismo, uso de discursos combinados entre texto e imagem e debates que relacionam ciência, tecnologia e sociedade. (LINSINGEN, 2007, p 1).

As histórias presentes nas histórias em quadrinhos também contribuem para a sua popularidade. Os enredos são os mais variados e de múltiplos temas, alcançando assim o mais diverso público. Entre esses temas as ciências estão incluidas (LINSINGEN, 2007). Um bom exemplo são os quadrinhos de super-heróis norte-americanos. Eles estão repletos de ciência em suas páginas, como é mostrado por Gresh e Weinberg (2005), Gonzaga et.al. (2014) e Kakalios (2005), ao analisarem alguns dos super-heróis dos quadrinhos, mostrando a física envolvida neles.

São inúmeros os super-heróis com seus superpoderes que nos permitem uma análise dos conceitos físicos que os regem. Um primeiro exemplo é o Flash, da DC Comics. Todas as habilidades do Flash são decorrentes da sua supervelocidade. A força de seus golpes seria muito grande, baseando-se na segunda Lei de Newton, de acordo com a qual uma grande aceleração gera uma grande força. Flash pode alcançar facilmente a velocidade de um bala (cerca de 1.200 m/s) ou até mesmo a velocidade do som, cerca de 340 m/s (GRESH E WEINBERG, 2005). Para alcançar essas velocidades, o heroi deverá acelerar e isso lhe garantirá uma grande aceleração, o que vai lhe proporcionar uma grande força. Essa relação certamente facilitará a compreensão dos jovens acerca da segunda lei de Newton, bem como estabelecerá uma proximidade com ela.

Diversos outros conceitos de física podem ser trabalhados utilizando o Flash como exemplo. Tais conceitos são: a força de atrito, que decorrente da velocidade com que ele corre, torna até uma nuvem de poeira um perigo; o conceito de trabalho empregado em sua frenagem; a questão energética, que envolve sua perda calórica nas corridas e sua alimentação, entre vários outros.

Outro herói famoso é o Homem-aranha, da Marvel Comics. Peter Parker, ao visitar uma feira de ciências, foi picado por uma aranha que havia sido atingida por radiação atômica, o que lhe conferiu os poderes de aranha (GRESH E WEINBERG, 2005). Utilizando sua teia, o herói se balança pelos prédios. O balanço do Homem-

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aranha lembra o movimento de um pêndulo. Nos pontos mais altos do seu balanço, o herói vai ter apenas energia potencial, já no ponto mais baixo de sua trajetória, a energia potencial será zero, enquanto a energia cinética será máxima (GONZAGA et al., 2014). A energia potencial é a energia que um corpo armazena por causa de sua posição. Já a energia de cinética é a energia do movimento (HEWITT, 2002).

Existem muitos outros heróis que permitem uma análise física das suas habilidades. O Hulk, por exemplo, possui uma superforça, causada por sua imensa massa. De acordo com as leis do movimento, a grande massa do Hulk lhe proporciona uma grande força, já que pela segunda lei de Newton, a massa é uma grandeza diretamente proporcional a força (HEWITT, 2002).

Outro exemplo é o Magneto, que basicamente pode gerar e controlar campos magnéticos. Um campo magnético é 'uma região sob influência magnética ao redor de um polo magnético ou de uma partícula carregada em movimento.' (HEWITT, 2002, p. 420). Controlando esses campos magnéticos, o vilão os usam para atrair objetos e pessoas, e muitas vezes causar uma grande destruição.

Mas não apenas em personagens de quadrinhos norte-americanos encontramos a física. Diferenciando dos outros autores, Linsingen (2007) vai demonstrar a possibilidade de trabalhar a ciência a partir de um tipo específico de histórias em quadrinhos: os mangás. São histórias em quadrinhos japonesas, mas que possuem um estilo próprio de traço e os enredos são dos mais variados. Uma das categorias de mangás que propicia boas possibilidades de se encontrar ciências entre suas páginas é o Shounen mangá , um estilo voltado para o público masculino, com cenas de ação e violência (LINSINGEN, 2007). Nessas cenas de ação, assim como nos enredos, existem muitos conteúdos científicos, que quando identificados podem ser usados para dinamizar as aulas de física.

Podemos analisar a física de Goku, personagem do mangá Dragon Ball, de Akira Toryama. A gravidade é algo bastante presente e em muito influenciará as histórias vividas por Goku nos quadrinhos. O personagem já treinou em um planeta com gravidade dez vezes maior do que a da Terra (ela seria da ordem de 98 m/s²). O autor explorou essa gravidade muito maior, mas de uma forma muito suave. Goku apenas tinha dificuldade de andar ou se locomover rápido nesse ambiente (TORYAMA, 2013). Capítulos à frente, Goku conseguiu uma proeza maior nesse mesmo planeta. Usando a sua habilidade de flutuar, ele levitava carregando consigo pesos de treinamento, presos as seus membros. Inicialmente cada peso tinha 1 tonelada, totalizando 4 toneladas. Depois ele utilizou quatro pesos com 10 toneladas cada, totalizando 40 toneladas (TORYAMA, 2015). A força peso (que considera a massa e a aceleração da gravidade) atuando sobre Goku seria imensa.

Também podemos analisar algumas passagens do mangá Naruto, de autoria de Masashi Kishimoto. Um personagem, chamado Nagato, tem várias habilidades consideradas raras no universo onde está inserido. Uma dessas habilidades consiste em criar uma pequena esfera negra nas palmas das mãos e lançá-la ao céu, onde essa esfera exerce um poder de atração sobre tudo que está no solo (KISHIMOTO, 2015). Essa esfera tem uma relação direta com a densidade e a gravidade. Primeiramente, para ter uma atração gravitacional grande deve-se ter uma grande massa. Pela lei da gravitação universal, a massa do corpo é diretamente proporcional à força de atração gravitacional (HEWITT, 2002). Então, pelo nível de atração demonstrado, a esfera lançada por Nagato tem grande massa, o que pode parecer contraditório, já que foi dito anteriormente que era uma esfera

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pequena. É nesse ponto que entra o conceito de densidade. A esfera realmente tem um volume pequeno, mas têm alta densidade, ou seja, uma grande massa concentrada em um pequeno volume (HEWITT, 2002). Essa é a explicação para a alta densidade da esfera criada por Nagato. Talvez não seja coincidência o poder ter o nome de Chibaku tensei, traduzido como Estrela da devastação celestial (PANINI COMICS, 2015).

Através desses exemplos, é notável como é possível utilizar quadrinhos para as aulas de física. Isso contribui para a solução da problemática do ensino dessa disciplina, já abordada anteriormente.

## Metodologia

Essa é uma pesquisa qualitativa, porque não serão utilizados métodos e técnicas estatísticas (MATIAS-PEREIRA, 2007). Essa é uma metodologia de pesquisa que possui um significado especial para as investigações sociais (MORAES, 1999), em que serão valorizados os significados adquiridos pelos participantes e pesquisador. Os resultados que serão obtidos com essa pesquisa não podem ser representados em números. Esse estudo possui cunho social, onde se interpretará as opiniões dos participantes.

Para a realização dessa pesquisa foram realizadas oficinas com alunos do ensino médio, em duas escolas, uma de ensino público e outra de ensino privado. Foram realizadas 12 oficinas (6 em cada escola), cada uma com uma temática de física, em que eram apresentadas os conceitos físicos a partir de personagens de quadrinhos.

Ao fim de cada oficina, era solicitado aos alunos que construissem um texto, onde deveriam analisar ou criar um personagem, usando os conceitos da oficina do dia. A análise dos dados foi portanto construida a partir dos textos produzidos pelos alunos.

## Análise das oficinas

Primeiramente, observou-se a reação de surpresa por parte dos alunos, ao notar que os conceitos de física estavam presentes nas histórias em quadrinhos, e que poderiam ser usadas para aprender tais conceitos.

As oficinas seguiram basicamente duas formas: primeiro se explicava o conceito e depois o aplicava aos personagens; ou se explicava o conceito a partir do personagem em si. Ambas as formas mostram-se eficientes, mas a segunda se mostrou mais interessante para os alunos, pois os incentivava a participar e refletir como o personagem podia ser explicado fisicamente. Isso tornava mais dinâmica a oficina.

## Análise dos textos

Dos textos solicitados e recebidos algumas análises puderam ser feitas. Primeiro é importante destacar que os alunos conseguiram, em sua maioria, incorporar a ideia de produzir um texto simples e divertido. Usando o que viram nas oficinas, os alunos construiram textos em que analisaram heróis já existentes. A maioria dos textos produzidos foram relacionados à oficina sobre força.

Pelos textos, observa-se que eles conseguiram entender os conceitos, ao ponto de aplicá-los analisando os personagens. Com exceção de alguns casos em que muitas confusões conceituais foram notadas, os textos produzidos pelos alunos

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estavam conceitualmente corretos, seja mostrando que o personagem tem aplicações acertadas dos princípios físicos ou mostrando que a violação desses princípios.

Exemplificando, podemos ver como uma das alunas descreve a terceira Lei de Newton, analisando o personagem Thor:

E se ele bater em alguém com essa tamanha força, ele também sofreria, graças à 3ª Lei de Newton (Só nesse tema já fica claro que Newton odiaria quadrinhos, por que o cara estraga prazer de todo mundo), essa Lei fala que tudo que vai, volta, a famosa Lei da Ação e Reação, ele sofrerá a mesma força que exerceu no seu golpe, então, ele vai sofrer de qualquer jeito.

Vemos nesse trecho, que a aluna conseguiu relacionar a física com um personagem, de uma maneira divertida, e sem perder o foco conceitual. É um bom exemplo de como os alunos conseguiram fazer análises corretas usando conceitos físicos trabalhados nas oficinas.

Uma outra aluna, ainda a respeito da força falou sobre o personagem Flash em seu texto. Expandindo os conceitos que foram trabalhados na oficina, ela chega em Einstein ao falar:

Imagine esse cara correndo na velocidade da luz prestes a socar a face de alguém, é só fazer os cálculos e você vai ver que ele vai quebrar várias regras da física e adquirir massa infinita, esse maluco não consegue apenas destruir o vilão, mas também o planeta I-N-T-E-I-R-I-N-H-O.

De uma forma divertida a aluna, fala sobre um personagem, analisando a física presente nele, ainda mostrando como isso seria impossível de acontecer. Mas o importante que ela conseguiu capturar a essência das oficinas, e fez análises transpondo os conteúdos vistos na oficina.

## Conclusões

Utilizar histórias em quadrinhos para se ensinar física é realmente algo eficiente. Aproximando a cultura escolar com a cultura do aluno, todo o processo se torna mais significativo. Através das oficinas e dos textos, é possível concluir que o uso das HQs torna a física mais interessante para os alunos, onde eles deixam de ser simples reprodutores de fórmulas e cálculos, para conseguirem entender e aplicar o conceito.

- O uso das HQs torna o ensino mais dinâmico, e possibilita ao docente formas eficazes de se ensinar os conceitos físicos, trabalhando a imaginação do aluno, e fazendo com que ele se aproprie daqueles conhecimentos. Isso permite que ele extrapole os conceitos da física, e os associem à diversão e às situações reais do dia a dia.

## Referências

BONADIMAN, Helio; NONENMACHER, Sandra. O gostar e o aprender no ensino de física: uma proposta metodológica. Caderno Brasileiro de Ensino de Física , Ijuí, v. 24, n. 2, p. 194-223, ago. 2007.

FOUREZ, Gérard. Crise no ensino de ciências. Investigação em Ensino de Ciências , Bélgica, v.8, p. 109-123, 2003.

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GRESH, Lois H.; WEINBERG, Robert. A ciência dos super hérois . São Paulo: Ediouro, 2005.

GONZAGA, Luiziana A.; MACETI, Huemerson; LAUTENSCHLEGUER, Ivan José; LEVADA, Celso Luis . A física dos super-heróis de quadrinhos (HQ). Caderno de Física da UEFS , Feira de Santana, Bahia, v.12, n. 1, p. 07-30, 2014.

HEWITT, Paul G. Física Conceitual. Trad. Trieste Freire Ricci e Maria Helena Gravina. - 9.ed. - Porto Alegre: Bookman, 2002.

KAKALIOS, James. The Physics of Superheroes. Nova Iorque:Gotham Books, 2005.

KISHIMOTO, Masashi. Naruto. v. 56. Panini Comics: São Paulo, 2015.

LINSINGEN, Luana Von. Mangás e sua utilização pedagógica no ensino de ciências a perspectiva CTS . Ciência & Ensino , v. 1, n. especial, nov. 2007.

MATIAS-PEREIRA, José. Manual de metodologia da pesquisa científica . São Paulo: Atlas. 2007

MORAES, Roque. Análise de conteúdo . 1999.

TESTONI, Leonardo André; ABIB, Maria Lúcia Vital dos Santos. A utilização de histórias em quadrinhos no ensino de física. In: Anais do IV ENPEC, Bauru, SP, 2003.

TORYAMA, Akira. Dragon Ball. v 18. Panini Comics: São Paulo. 2014.

TORYAMA, Akira. Dragon Ball. v 36. Panini Comics: São Paulo. 2015.

VILLANI, Alberto. BAROLLI, Elisabeth. Interpretando a aprendizagem nas salas de aula de ciências. 2000.

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Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.