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O capital cultural (científico) na formação dos estudantes: em que os cientistas podem contribuir?

Graciella Watanabe, Marcelo Gameiro Munhoz, Maria Regina Kawamura

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXII
Ano
2017
Data
25/01/2017
Linha de pesquisa
Divulgação Científica E Educação Não Formal
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## O capital cultural (científico) na formação dos estudantes: em que os cientistas podem contribuir?

## Graciella Watanabe , Marcelo Gameiro Munhoz 2 1 , Maria Regina Kawamura 3

1 Universidade de Brasília/Métodos e Técnicas/gwatanabe@unb.br

2 Universidade de São Paulo/Física Nuclear/Munhoz@usp.br

- 3 Universidade de São Paulo/Física Experimental/mrkawamura@usp.br

## Resumo

É consenso entre autores da área de ensino de física que a aprendizagem científica pode ser mais bem compreendida se for contextualizada pelos seus processos de produção do conhecimento. Nesse trabalho, se discute como essas aquisições ultrapassam a ideia de ajudar os estudantes a compreender sobre física, mas como um elemento para aquisição de capital cultural. Aqui, reconhece-se o capital cultural científico enquanto componente que pode ser tratado como valorativo do saber nas trocas simbólicas do contexto social. Por tal motivo, apresenta-se uma reflexão provinda da prática que se utilizará do pensamento sociológico para conduzir ao entendimento de que a divulgação científica pode ser um instrumento que vai para além do reconhecer a ciência, seus saberes ou a atualização desses saberes no contexto das salas de aula. Buscar-se-á defender que ela pode ser reconhecida como um elemento de aquisição das mudanças de interações sociais, dando a aqueles que a detém um valor cultural para as lutas nos campos sociais.

Palavras-chave : capital cultural, cientistas, divulgação científica.

## Introdução

As discussões presentes nas pesquisas atuais em divulgação e comunicação científicas são tratadas com diferentes finalidades (educacionais, sociais, culturais etc.) buscando compreender a relação entre ciência e público. Um mapeamento desses estudos indicou que a comunicação científica, naqueles casos em que o cientista possui papel de destaque devido à sua potencialidade em promover a atualização e a reflexão do público sobre a ciência, pode ser um processo relevante para a aquisição de elementos da literacia científica (BURNS, O'CONNOR, & STOCKLMAYE, 2003; JACOBI, 1999; GILBERT, 2008). Tais perspectivas apontam para um modelo de interação que leva em conta saberes para a conscientização e compreensão pública da ciência e que produz relações embebidas nos valores culturais no grupo de origem dos atores que participam desse processo.

De certo modo, esses debates procuram defender a superação da visão extensionista da divulgação científica, conduzindo os discursos a elementos de aproximação entre mundos, entre culturas e diálogos. Essa dimensão pode ser reconhecida como uma ponte entre os estudos da DC e sua relação com a educação científica, mais precisamente, sob uma perspectiva entre saberes e os contextos sociais e culturais em que se dão tais relações (FREIRE, 1975). São questionamentos que perpassam a crítica ao distanciamento dos cientistas em relação aos problemas sociais que permeiam a humanidade e que se relacionam com a necessidade de produzir entendimentos sobre o papel da ciência como

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23 a 27 de janeiro de 2017

instrumento da cultura humana, promovendo ações para a aquisição da cultura científica (LÉVY-LEBLOND, 2004; ZANETIC, 1989)

Essas percepções suscitam reflexões sobre os limites e potencialidades da divulgação e seus sentidos sociais, filosóficos, psicológicos e educacionais. Alguns trabalhos apontam para o engajamento das questões científicas como elementos culturais, ou seja, aquisições que estão relacionadas aos estudos epistemológicos associados ao sentido de civilidade de cada sociedade. Promover o engajamento significa, segundo Stilgoe, Lock e Wilsdon (2014), reconhecer o perfil da população e o sentido que está sendo negociado entre divulgadores e público.

Nesse processo, ao apresentar uma ciência culturalmente significativa aos agentes sociais e a dimensão educativa que promova a visão crítica de mundo, encontram-se as percepções advindas de diferentes perspectivas das pesquisas na área de comunicação da ciência (OLIVEIRA, 2007). Isso reflete os desafios enfrentados por divulgadores, pesquisadores, educadores, jornalistas e cientistas ao tentarem comunicar a ciência ao público. São questões que se colocam diante de uma área de pesquisa com diferentes perspectivas educacionais (literacia científica, alfabetização científica e cultura científica) e objetivos civis (participação pública da ciência, compromisso social dos cientistas e engajamento público da ciência). Essas concepções carregam consigo a diversidade enriquecedora que se sobressai entre a divulgação científica e a atuação pela consciência do papel da ciência no mundo contemporâneo. Ao mesmo tempo, essas concepções congregam distintos sentidos produzidos e elaborados conforme a ciência se desenvolve, insere-se no cotidiano, muda a vida urbana e rural e é veiculada pelas mídias sociais, televisivas e impressas (FREIRE & MASSARANI, 2012).

Nesse contexto, o presente texto apresenta parte de um projeto mais amplo em que se buscou tratar as dimensões de interação possíveis entre cientistas e estudantes do ensino médio em um evento de divulgação científica. Assim, preocupação nesse trabalho é investigar:

Como são reconhecidas as aquisições de capital cultural científico no âmbito das interações com físicos de partículas?

A partir desse questionamento, propõe-se conduzir ao debate sobre os estudos bourdieusianos de capital cultural e trazer elementos para a compreensão do papel do conhecimento da ciência nas interações estabelecidas no contexto social.

## Referencial teórico

O capital pode ser compreendido, na obra de Pierre Bourdieu, como uma propriedade cuja percepção e valorização dos agentes sociais só são efetivadas quando estes podem entendê-la enquanto instrumento de troca simbólica. Esse capital pode ser do tipo cultural, econômico, científico, social e são percebidos quando assumem um papel de classificação na estrutura social. Desse modo, eles servem para conduzir a regras de diferenciação como rico/pobre, culto/inculto, vulgar/chique, interessante/aborrecedor (BOURDIEU, 1996).

Nesse sentido, ele é parte dos processos de inculcação ou reconhecimento das hierarquias que envolvem as estruturas de classificação e divisão e que conduzem a um conjunto de distribuições abstratas e concretas de valorização cultural, social e

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econômica. Dessa maneira, o reconhecimento da posse ou da não posse desses capitais é relevante para os processos de legitimação das condições sociais e culturais que envolvem essas relações, de modo que, o capital simbólico é um capital com base cognitiva, apoiado sobre o conhecimento e o reconhecimento (BOURDIEU, 1996, p. 150).

A relação com o dom ou aptidão natural, apontada pelo autor nos estudos dedicados ao sistema de ensino francês, acabaram, em função do "sucesso" dos estudantes das classes superiores, por introduzir uma reflexão sobre os diferentes processos de avaliação que suportariam, dentro de sua seleção, um viés social dissimulado (BOURDIEU & SAINT-MARTIN, 2012). Ao mesmo tempo, Bourdieu percebe que a relação estabelecida pelos economistas entre os investimentos na educação e as taxas de lucro (que garantiriam os benefícios econômicos) acaba por assegurar uma visão "igualitária" da educação e suprime o debate sobre as chances dos estudantes ao sucesso escolar.

- Os resultados desse tipo de estratégia, para o autor, proporia um investimento escolar cuja única solução seria o valor monetário, deixando de compreender aspectos implícitos, mas determinante socialmente dos investimentos educativos, a saber, a transmissão doméstica do capital cultural (BOURDIEU, 2012, p. 73). O capital cultural seria, portanto, um conjunto marcado de aprendizagens inicialmente adquiridas no seio familiar, mas acumulada ao longo da trajetória histórica, cuja finalidade é propiciar recompensas para aqueles que a detêm como: o manejo da língua culta e a relação com a entrada em uma instituição de ensino superior (NOGUEIRA & NOGUEIRA, 2004).
- Existe para Bourdieu três estados do capital cultural: incorporado, objetivado e o institucionalizado. O capital cultural incorporado estaria associado a um investimento de inculcação e acumulação ligada ao corpo daquele que investe, ou seja, associado ao habitus. Seria, portanto, as maneiras mais reconhecidas de se portar, que são adquiridas de maneira dissimulada ou inconsciente. Dentre todos os capitais é o que representa um nível de aquisição dissimulada mais elevada do que a aquisição de capital econômico, visto que traz consigo um grau da raridade àquele que o detém e, portanto, não pode ser reconhecido explicitamente a partir dos interesses monetários a ele associado.
- O capital cultural no estado objetivado refere-se à aquisição de bens culturais materiais (livros, obras de artes, pinturas) e ao contrário do estado incorporado pode ser transmitido de maneira simples para os detentores de "direito". Desse modo para obter esse tipo de capital basta que o agente tenha capital econômico e assim, apropriar-se dos instrumentos materiais necessários para o acúmulo desse tipo de capital cultural. No entanto, para a posse legítima de máquina (tipo capital cultural objetivado), por exemplo, é necessário que haja um capital incorporado que possibilite o manuseio do instrumento, mesmo que seja feito por procuração. Desse modo, aqueles que tiram proveito de seu conhecimento (capital incorporado) para vendê-los aos detentores da máquina podem-se reconhecê-los como dominados, ao mesmo tempo, caso se defenda que eles tiram proveito de seu capital incorporado então, Bourdieu (2012) aponta que é necessário entendê-los como dominantes.
- O último estado de capital cultural é o institucionalizado e aparece, em grande parte, na forma do diploma. Esse tipo de capital confere àquele que o detém um certificado que garante juridicamente ao seu portador um valor cultural. Essa

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forma da capital possui explicitamente, adicionado ao capital social, a possibilidade de converte-se em capital econômico e vice-versa.

Produto da conversão de capital econômico em capital cultural, ele estabelece o valor, no plano do capital cultural, do detentor de determinado diploma em relação aos outros detentores de diplomas e, inseparavelmente, o valor em dinheiro pelo qual pode ser trocado no mercado de trabalho (BOURDIEU, 2012, p. 79).

Os capitais culturais, portanto, aportaram na sociologia bourdieusiana de forma a compreender os processos implícitos pelos quais se transmitiam determinados valores e como esses elementos, dissimulados nos processos de socialização cotidiana, acabam por ser renegados em prol dos discursos dogmatizados do dom.

## Metodologia de Pesquisa

Nesse trabalho utiliza-se a análise de um conjunto de dados, onde são preteridas algumas considerações sobre a interação entre alunos e cientistas em um contexto de atividade de divulgação científica. O evento é produzido por físicos de partículas cujo enfoque é trazer algumas experiências de atividades científicas desenvolvidas em grandes laboratórios científicos. Nesse contexto, utilizou-se a pesquisa qualitativa para coletar e analisar as percepções dos estudantes que participaram desse evento. A ferramenta qualitativa utilizada foi o questionário cujo design pautou-se no trabalho de Partiff (2005) em que o objetivo, segundo o autor, é classificar dados para relatar comportamentos das pessoas e para relatar atitudes, opiniões e crenças dos pesquisados. Ainda que estejam aqui classificadas elas podem ser encontradas ao mesmo tempo como no caso de questionários que procuram obter o maior tipo possível de dados sobre um determinado tema.

Nesse trabalho, houve a produção de um questionário cujo objetivo foi tratar as percepções e concepções dos estudantes acerca do evento e questionar os elementos positivos e negativos no mesmo. Os itens dos questionários tinham perguntas abertas e fechadas de modo a caracterizar elementos ainda evasivos na pesquisa e que precisavam de certo grau de liberdade para obter algumas concepções dos estudantes (TUCKMAN, 2000). Isto, pois as questões abertas são as únicas que nos poderão permitir uma aceitável aproximação ao conjunto de respostas disponíveis na população de interesse, pelo que é essencial começar (TUCKMAN, 2000, p. 130).

## Dados e reflexões

Nos dados obtidos, diante das considerações apontadas pelos estudantes, percebe-se que o momento presente que aparece nos discursos é compreendido como um passado a ser lembrado. Essa dicotomia se reveste de um valor simbólico que os alunos reconhecem como parte de uma aquisição em longo prazo.

Foram dois dias excelentes, tive ótimas impressões sobre os professores, em geral, sobre a universidade. Eu tive uma experiência muito significativa para o meu futuro. (Aluno 58)

A experiência foi uma das melhores oportunidades que já tive, o que aprendi irei levar para minha vida toda. (Aluno 48)

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O presente tornado passado no discurso dos estudantes reflete uma relação que ainda nos parece primitiva, mas que encontra uma nascente afinidade com a ciência que se constitui em um tipo de capital cultural. O aluno da escola privada 58 aponta que o evento lhe proporcionou uma perspectiva de escolha futura profissional para a carreira científica enquanto o aluno da escola pública 48 não a seguirá. Nesse aspecto, olhar o futuro reflete duas dimensões distintas desses sujeitos, mas que evocam um reconhecimento sobre o olhar científico que os estudantes adquiriram no evento.

Adquirir reconhecimento dos agentes científicos e colocar-se na posição ativa da ação de fazer ciência parece, também, ser um tipo de postura científica que ganha status cultural no evento. Ela reflete uma dimensão de tomada de posição, de fazer parte de um mundo até então distanciado de seu rol de ações sociais possíveis. Essa aparente aceitação de ser um cientista ou, de certo modo, fazer parte daquele mundo por um intervalo de tempo, presumivelmente, pode ser um momento de tomada de posse do aluno acerca da ciência:

Foi uma grande oportunidade ter participado deste evento. Conhecer e ter a oportunidade de conversar com cientistas foi uma grande realização. (Aluno 38)

Tive a oportunidade de conhecer novas experiências, de conversar com cientistas e entender como funcionam as partículas. (Aluno 31)

Nesses dias tive bastante contato com a vida universitária e com a universidade de física com um todo, o que foi bastante interessante. O mais significativo para mim foi o contato constante com os dados obtidos no maior acelerador do mundo. (Aluno 28)

A interação com os bens objetivados do campo científico (dados), as dimensões sociais estabelecidas no espaço social e a possibilidade de sentir-se parte da universidade enquanto local de atuação dos cientistas e futuros cientistas, esses são instrumentos de "empoderamento" cultural que marcam os modos de entender e compreender o sentido da ciência e do lugar daquele aluno no mundo. Mesmo que as relações de poder e de lutas no campo sejam ignoradas, parece ser o fato de sentir-se parte daquele mundo aquilo que torna mais significativa as aquisições no evento. Os alunos da escola pública 1, 8 e 28 apontam essa dimensão ao reconhecer sua vocação para as ciências exatas, mesmo não optando pela carreira científica. O reconhecimento do campo científico reflete um tipo de identidade que é enriquecida no âmbito cultural e não somente no social.

Os espaços de possíveis (BOURDIEU, 2011) que o capital cultural pode proporcionar aos agentes sociais reflete outra importante dimensão do evento. Mencionado anteriormente acerca das possibilidades de acesso ao ensino superior, quando os estudantes apontam a universidade como local possível de acesso, aqui, também se apresenta um olhar sobre o saber científico, que ganha um sentido novo:

Foi uma experiência única, aprendi coisas novas e fantásticas do início ao fim. Tudo foi significativo para mim, ver as interações das partículas e abrir os olhos para essa nova física. Não teve preço, o evento despertou em mim um gosto que não conhecia. (Aluno 65)

Inovadora, sinceramente, eu esperava algo menos moderno (inovador). Gostei muito desses dias, aprendi muita coisa nova que eu nem fazia ideia que existia. (Aluno 35)

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Foi uma experiência que me fez bem, aprendi coisas sobre física que não imaginava e gostei. (Aluno 3)

Esse despertar para a ciência associa-se, nos alunos 35 de escola privada e 65 da escola pública, à possibilidade de seguir uma carreira científica, apontando um sentido social na escolha do destino, que ambos relacionam às suas participações no evento. O aluno 3 da escola pública, aponta um desejo por seguir a carreira das ciências humanas, por sua vez, retoma a ideia de um nascente desejo que reflete elementos desconhecidos dos alunos. Faz alusão a uma perspectiva de aquisição cultural que parece indicar um tipo de saber inerentemente associado a reconhecerse no mundo, apresentar-se ao mundo externo ao campo escolar e constituir uma identidade que os diferencia e, ao mesmo tempo, o agrega às relações escolares.

## Considerações

Alguns resultados provenientes do projeto mais amplo se pode observar que aspectos majoritariamente conceituais tornaram-se objetivos marginais nos discursos dos cientistas e alunos, compreendendo esses saberes como estrutura no processo e não objetivo final da divulgação científica. Isso instituiu um pensamento sobre um tipo de perspectiva que pode estar sendo tratada como fruto de um modo de pensar e fazer divulgação. Nesse espaço, acaba por gerar um diálogo capaz de reconhecer a relevância de uma interação que pudesse ultrapassar os discursos de: imposição no campo (BOURDIEU, 2010) e de superação das diferenças (FREIRE, 1975) ao mesmo tempo em que proporcionasse subsídios aos agentes sociais de modo que esses possam superar as relações de hierarquia no campo de poder (BOURDIEU, 2011). Nesse contexto, para além da aquisição de saberes conceituais, é necessário que se reconheça que a aquisição de capital cultural seja também importante para o desenvolvimento reflexivo social e científico dos estudantes e que lhes propicie ideias mais amplas sobre a própria percepção do ato de aprender (BOURDIEU, 2010).

É por tal condição que é pertinente relembrar que o capital cultural pode ser um instrumento importante para superação da visão economicista da educação e destituindo o ato de educar da ideologia do dom (BOURDIEU, 2012). O sentido desse termo tratado na teoria bourdieusiana (dom) está nos modos como grupos sociais (estruturados a partir das relações de poder) herdam de seus parceiros elementos sociais associados ao bom gosto, o uso correto da linguagem e aos modos de ser no mundo.

Esse tipo de reconhecimento para a aquisição de capital cultural apresentouse determinante para que se percebesse que os eventos de divulgação pensados por cientistas estavam se configurando, entre consonâncias e dissonâncias com o público escolar, em um tipo de desejo não pertinente a um único objetivo como: saber sobre ciência para a escola ou para a ação crítica no mundo. Mas, conjuntamente, para constituir um tipo de obtenção, por parte dos sujeitos investigados, de instrumento de trocas simbólicas nos diferentes campos em que atuam (escolar, profissional, social).

Ainda, as experiências sociais com cientistas podem representar para os estudantes uma constituição de saber que se reconhece associado ao capital cultural. Esse saber está conexo ao senso prático das ações sociais, como um tipo de antecipação das ações de modo a garantir algum lucro futuro no jogo social.

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Seria, segundo Bourdieu (2011), um ' sense pratique' que é adquirido por uma aprendizagem implícita.

Os tipos de capitais culturais e os modos como eles estão sendo tratados no âmbito da formação científica de um evento de divulgação, no entanto, não podem ser reconhecidos senão através da percepção da atividade prática, na constituição dos discursos apresentados devido à prática social estabelecida e na elaboração de uma reflexão construída na realidade. Em outros termos, no que se refere à aprendizagem científica, é necessário reconhecer que a teoria não pode apartar-se da prática e que a reflexão da ação pode nascer antes de teoria (BOURDIEU, 1983). Observou-se, portanto, um tipo de capital cultural que retoma a dimensão científica como elemento norteador das ações, de um tipo de aquisição que reforça a relação com a ciência, aportando para um reconhecimento que pode ser caracterizado como saber cultural, visto que se torna parte de um conhecimento adquirido a partir do contexto social.

Pode-se questionar sobre a influência desse tipo de evento na aquisição de bens culturais científicos (estado objetivado) que pode constituir um modo de se representar parte de um grupo social marcadamente caracterizado pelos seus gostos (filmes e livros de ficção científica, HQ's, livros de divulgação científica) e que demonstra uma demarcação de seus modos de ser e a aquisição do status social no espaço escolar. Esse tipo de aquisição retoma a perspectiva de que o saber científico torna-se estrutura das ações e não seu fim. Ter bens culturais sobre física de partículas diferencia o sujeito ante seus colegas, apoiando-o na posição de um tipo de aluno que reconhece o campo científico e consequentemente eventos de divulgação científica como o lugar da construção da identidade. No que tange à posse do capital cultural institucionalizado representado por certificados de participação no evento científico, essa pode ser uma pequena diferença que ganha uma demarcação relevante no reconhecimento no âmbito do campo científico de que o estudante pode e faz parte desse espaço. Ainda que insignificante no que se refere à troca do capital cultural em capital econômico (BOURDIEU, 2012) tal instrumento objetivado traz um reconhecimento cultural que para alguns se torna marca de diferenciação e que gera uma tomada de posição em relação à ciência.

Dentre todos, no entanto, o capital cultural incorporado, associado a um tipo de aquisição de habitus científico (LENOIR, 2005), parece ser aquele mais significativo para compreender o papel do evento na formação científica dos alunos. Ainda que seja mais complexo percebê-lo em um espaço-tempo presente, principalmente por reconhecê-lo como um presente histórico. Isto, pois entender o presente, as ações do hoje se referem a um pertencimento ao presente como atualidade, isto é, como universo de agentes, de objetos, de acontecimentos, de ideias, que podem ser cronologicamente passado ou presente, mas que estão efetivamente em jogo, portanto praticamente atualizadas no momento considerado, define o fosso entre o presente ainda 'vivo', 'queimando', e o passado 'morto e enterrado', como os universos sociais pelos quais ele estava ainda em jogo, atual, atualizado, ativo e atuante (BOURDIEU, 2011, p. 59).

Em suma, percebe-se no contexto do presente trabalho que a divulgação científica se configura como elemento importante para a aquisição de capitais culturais que associados ao saber científico podem estar se configurando como instrumentos de distinção entre os consumidores e não consumidores desse tipo de interação cultural e educacional.

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## Referenciais

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