APROXIMAÇÃO ENTRE EDUCAÇÃO FORMAL E NÃO FORMAL: AÇÃO EDUCATIVA PAUTADA NA TEORIA HISTÓRICO-CULTURAL
Daniel Rocha Ferreira, José Rildo De Oliveira Queiroz
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXII
- Ano
- 2017
- Data
- 25/01/2017
- Linha de pesquisa
- Divulgação Científica E Educação Não Formal
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## APROXIMAÇÃO ENTRE EDUCAÇÃO FORMAL E NÃO FORMAL: AÇÃO EDUCATIVA PAUTADA NA TEORIA HISTÓRICO-CULTURAL
## Daniel Rocha Ferreira , José Rildo de Oliveira Queiroz 1 2
1 Universidade Federal de Goiás/Instituto de Física, daniel.rf\_ufg@hotmail.com 2 Universidade Federal de Goiás/Instituto de Física, rildo@ufg.br
## Resumo
Este trabalho traz um relato de experiência de uma ação educativa desenvolvida entre os anos 2014 e 2016 como fruto de uma iniciação científica e da disciplina de estágio em um curso de Licenciatura em Física. Investigamos o desenvolvimento e a aplicação desta ação que oportuniza ao Professor da Escola o conhecimento prévio do local, os experimentos, e os conteúdos que são abordados nas exposições em um Centro de Ciências (Pré-Visita, Visita, Pós-Visita). Trata-se de uma ação orientada pelos pressupostos da teoria HistóricoCultural de Vigotski, visando a aproximação entre educação formal e não formal. No campo da educação não formal há uma defesa de que Museus e Centros de Ciências são constituídos de uma dimensão educativa própria. Neste contexto o Pátio da Ciência da UFG, caracterizado como um desses espaços, permite um diálogo com a política de Estágio do curso buscando a formação de um professor crítico-reflexivo, a aproximação teoria-prática e a pesquisa como componente formador do professor. Além disso, defende uma relação horizontal entre Universidade e Escola.
Palavras-chave : Centros de Ciências, relação universidade-escola, educação formal e não formal.
## Introdução
Até os anos 80 não era comum aceitar que houvesse aprendizagem efetiva fora da sala de aula, predominando uma concepção de aprendizagem como a aquisição de fatos e de informação, ideia essa abalada pela pesquisa em ensino de ciências (DELICADO, 2013). Para Vigotski, autor sócio-construtivista, o desenvolvimento cognitivo não ocorre independente do contexto social, histórico e cultural (MOREIRA, 2011). Portanto, a aprendizagem ocorre por meio da interação mediada 1 entre sujeito, objetos e outros sujeitos (OLIVEIRA, 1993).
No contexto das atividades educativas fora de sala de aula, merecem destaque programas de divulgação e educação científica não formal, como Museus e Centros de Ciências (ALBAGLI, 1996). Podemos citar o Pátio da Ciência da UFG (Universidade Federal de Goiás) como um desses espaços de educação não formal, que, por meio de suas exposições com visitas mediadas procura fornecer ao 2 público uma forma diferente de vivenciar o conhecimento (PINTO; QUEIROZ; FERRARI, 2014). Faz uso de métodos interativos nas exposições, através dos saberes da mediação do monitor, para que o público em geral se sinta motivado e envolvido com esta experiência (QUEIROZ et al., 2002). Tem por objetivo promover
a apropriação social da ciência e da tecnologia; popularizar conhecimentos científicos e tecnológicos; promover experiências de educação não formal nas áreas de ciência e de tecnologia (BARBA, 2005, p. 1).
A maior parte do público que visita o Pátio da Ciência é composta de Estudantes do ensino fundamental e médio, em visitas agendas e com a presença do Professor, que não necessariamente é o Professor da Turma 3 (PINTO; QUEIROZ; FERRARI, 2014). O desafio é transformar esta experiência em uma oportunidade de aprendizagem para além da motivação e interesse.
Assume-se, a priori, que o Pátio da Ciência é um local no qual o processo de aprendizagem está presente, mas não necessariamente a atividade de aprendizagem (BIZERRA; MARANDINO, 2014). Neste sentido investigamos o desenvolvimento e a aplicação de uma ação educativa que oportuniza ao Professor Formador 4 o conhecimento prévio do local, os experimentos, o plano museológico, e os conteúdos e conhecimentos que serão abordados nas exposições (Pré-Visita, Visita, Pós-Visita). Esta ação teve como objetivo potencializar e ressignificar a visita escolar agendada ao Pátio da Ciência da UFG.
## Fundamentação Teórica
Em especial os Centros de Ciências, vêm sendo caracterizados como locais que possuem uma forma própria de desenvolver sua dimensão educativa. Identificados como espaços de educação não formal, essa caracterização busca diferenciá-los das experiências formais de educação, como aquelas desenvolvidas na escola, e das experiências informais, geralmente associadas ao âmbito da família (MARANDINO, 2008, p. 12). Segundo Marandino (2008), a educação não formal é qualquer atividade organizada fora do sistema formal de educação, operando separadamente ou como parte de uma atividade mais ampla, que pretende servir a clientes previamente identificados como aprendizes e que possui objetivos de aprendizagem.
Ao considerarmos que o processo de apropriação da cultura emerge durante a interação entre indivíduos por meio de mediadores ; instrumentos e signos a abordagem Histórico-Cultural pautada nas ideias vigotskianas nos situa no que diz respeito a compreensão da função educativa como um processo estabelecido no meio social que promove a transformação da realidade. Segundo Vigotski, a ação mediada é a força motriz para o desenvolvimento do homem, pois é através dela que as funções psicológicas superiores, tipicamente humanas, se desenvolvem (BIZERRA; MARANDINO, 2014).
Um desses mediadores são os signos,
os quais são definidos como um produto do desenvolvimento histórico e cultural, no sentido de que eles não são inventados por cada indivíduo que os utilizam, nem são descobertos na interação independente dos indivíduos com objetos e a natureza. Ao contrário eles são parte do contexto social, histórico e cultural em que os indivíduos estão imersos (PEREIRA; LIMA JUNIOR, 2014, p. 525-526).
De acordo com Vigotski, os signos 'são criações artificiais; estruturalmente, são dispositivos sociais e não orgânicos ou individuais' (VYGOTSKY, 2007, p. 93). Os signos são, portanto, dispositivos usados na interação social (PEREIRA; LIMA JUNIOR, P, 2014, p. 525). Segundo Rego (2002), é com o auxílio dos signos que o homem consegue controlar voluntariamente sua atividade psicológica, capacidade de atenção, memória e acúmulo de informação. Para Vigotski, a invenção e o uso de signos como meios auxiliares para solucionar problemas psicológicos como; lembrar, raciocinar, comparar coisas e etc, é semelhante à invenção e ao uso de instrumentos 5 no entanto no plano psicológico (VYGOTSKY, 2007).
Nos Museus e Centros de Ciências 'há um conhecimento historicamente elaborado já concretizado pela humanidade, disponível ao visitante por meio do objeto museal ' (BIZERRA; MARANDINO, 2014, p. 127). Assim o Pátio da Ciência busca através da ação educativa disponibilizada ao Professor Formador a transformação do objeto museal da posição de objeto para a de signo mediador . O visitante, portanto, ao se apropriar do conhecimento disponível por meio do objeto museal pode transformá-lo da posição de objeto para a de signo mediador . Segundo Bizerra e Marandino:
Essa 'mudança de categoria' do objeto museal, alçado de objeto da experiência à objeto-mediador, tem grande importância na organização de exposições e atividades educativas em museus de ciências. Sob esta perspectiva, os conteúdos da ciência construídos historicamente são reproduzidos por meio dos objetos museais, segundo os modos culturais de cada grupo social (BIZERRA; MARANDINO, 2014, p. 127-128).
Sustentamos, portanto, 'a tese de que a atividade humana, tanto no plano social como no plano individual, é mediada por instrumentos e signos' (PEREIRA; LIMA JUNIOR, 2014, p. 523).
## Metodologia
Trata-se de uma pesquisa de cunho qualitativo, que descreve a experiência do desenvolvimento de uma ação educativa em um centro de ciência, na relação entre o campo escolar e o campo universitário. Esta perspectiva metodológica tem o ambiente natural como fonte direta dos dados e o pesquisador como o instrumento principal de recolha. Ou seja, interessa-nos mais o processo do que os resultados ou produtos finais, jogando luz sobre a dinâmica interna das situações, frequentemente invisível para o observador externo (BOGDAN e BIKLEN, 1996). A principal fonte de dados foram as notas de campo, tendo como contexto da pesquisa a disciplina de Estágio da UFG, um Centro de Ciências, e uma escola, por meio dos sujeitos envolvidos: Professor de Estágio (Campo Universitário), Professor Formador 6 7 (Campo Escolar), Professor Orientador (Campo Universitário) e o estagiário . 8 9
## Relato de Experiência
Este trabalho começa a ser concebido em agosto de 2014 por meio do Programa de Iniciação Científica da Licenciatura - PROLICEN. Houve inicialmente um estudo teórico de livros e artigos acadêmicos com enfoque em Museus e Centros de Ciências, teoria Histórico-Cultural e saberes da mediação, sendo que foi realizada a discussão e revisão dos mesmos junto ao orientador. Realizou-se um curso de formação - Saberes da Mediação (32 h), ministrado nas dependências do Pátio da Ciência da UFG com a finalidade de apresentar os saberes e especificidades contidas em ambientes de educação formal, informal e não formal com foco em Museus e Centros de Ciências.
A aproximação efetiva com Pátio da Ciência se deu por meio da participação direta nas atividades desse espaço; acompanhamento, participação e mediação nos momentos de visitas escolares e eventos científicos da Universidade. Com a finalidade de divulgar com mais eficiência os saberes presentes nesse ambiente, foi construído um material didático explicativo para cada aparato experimental contido no acervo do Pátio, mais especificamente para os estandes de Física para Todos, Energia e Nano Tecnologia, Luz e Partículas e Palco da Física, perfazendo 23 experimentos e seus respectivos princípios físicos (Tabela 1). Esse material tem por objetivo ser disponibilizado ao Professor da Escola para facilitar a aproximação e conversão dos saberes escolares curriculares com os saberes científicos culturais pertencentes ao acervo do Pátio da Ciência.
Tabela 1 - MATERIAL DIDÁTICO DE APOIO AO PROFESSOR - PÁTIO DA CIÊNCIA
A Política de Estágio do curso em questão encontra-se numa estrutura denominada 'Grande Grupo de Pesquisa' (GGP) composto pelos 'Pequenos Grupos de Pesquisa' (PGP), na intersecção do Campo Escolar com o Campo Universitário (GENOVESE, 2013). Dentro do GGP também vêm sendo desenvolvidos trabalhos de bolsistas do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência - PIBID e de bolsistas do Programa de Iniciação Científica da Licenciatura - PROLICEN. A estrutura da disciplina de estágio procura propiciar uma formação crítica a professores, futuros professores e pesquisadores em ensino de física. A realização do estágio nessa estrutura, possibilita uma formação sólida e significativa ao professor, na medida em que se vê à docência como um trabalho cujo objeto não é constituído de matéria inerte ou de símbolos, mas de relações humanas com pessoas capazes de iniciativa (TARDIF; LESSARD, 2005).
De posse da perspectiva construtivista, onde a construção do conhecimento ocorre em condição de complementariedade, estão nesse processo questões sociais
- e políticas envolvendo Alunos, Professores e Estagiários. Assim sendo, faz-se necessário uma apresentação do contexto em que o presente trabalho foi desenvolvido. Para isso usamos os conceitos de campo escolar , campo da escola , campo universitário , capital docente , e esse último subdividido em capital social e capital cultural escolar (GENOVESE, 2014; GENOVESE; CARVALHO, 2012).
- O Pequeno Grupo de Pesquisa que possibilitou a construção desse trabalho está hospedado numa escola pública tradicional de Goiânia - GO. Essa escola faz parte de um campo escolar que pode ser caracterizado como dominante, pois possui uma estrutura física significativa 10 com piscinas, refeitório, quadras esportivas, uma biblioteca com um acervo significativo e um grande número de salas. Segundo o Professor Formador desse PGP, a Escola exerce grande influência nas greves da rede Estadual de Educação, tendo a fama de ser o marco sustentador dos movimentos paredistas.
- O campo da escola desse PGP valoriza mais o capital social, na medida que não possui muitos Professores com mestrado ou doutorado ou que 'tenham interesse' em tais títulos, embora tenha alguns programas de ações pedagógicas e de formação de Professores ligados à sua estrutura, como por exemplo, o próprio PGP. O Professor Formador desse PGP valoriza mais o capital cultural escolar, apesar de possuir a suas três formas em construção, a institucionalizada 11 , incorporada 12 e objetivada 13 .
A estrutura do Estágio do curso de Licenciatura em Física da UFG possibilitou através do GGP e do PGP a aproximação com o Professor da Escola que nesse caso é o Professor Formador. O Referencial Teórico utilizado nos alerta para a importância da interação entre os indivíduos, pois é por meio da interação mediada, nesse caso pela linguagem 14 , que ocorre o processo de apropriação da cultura. 'Na perspectiva de Vigotski, construir conhecimento implica numa ação partilhada' (REGO, 2002, p. 110). Sendo assim, a aproximação com o Professor Formador foi concretizada a partir das reuniões semanais do PGP realizadas na escola, no acompanhamento de algumas aulas e no desenvolvimento do projeto de pesquisa do estagiário em conjunto com o Professor Formador. Assim, surgiu a ideia de integrar as atividades do currículo escolar do Professor, visitas agendas ao Pátio da Ciência, mas com a participação na ação educativa Pré-visita.
No acolhimento (Pré-Visita) do Professor Formador ao Pátio da Ciência foi apresentado os propósitos, conteúdos trabalhados, tipos de objetos tecnológicos, textos e possibilidades presentes na exposição (Figura 1). Durante a ação de PréVisita e com base nas aulas acompanhadas na escola foi realizado um levantamento junto ao Professor do planejamento curricular para o diagnóstico dos conteúdos abordados. Essa forma a ação educativa oportunizou ao Professor o conhecimento
prévio do local bem como os saberes científicos presentes nos experimentos expostos.
Figura 1: foto do Pátio da Ciência - UFG
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## Considerações Finais
Neste trabalho vimos uma ação educativa que tem potencial para ressignificar a visita escolar agendada a um Museu de Ciências. A aproximação da educação formal com a não formal por meio da ação educativa Pré-visita, Visita e Pós-visita a um Centro de Ciências pode mobilizar saberes científicos intencionalizados pelo Professor Formador. Com o conhecimento prévio do local, o Professor poderá assumir a frente de um determinado experimento durante realização da visita e jogar luz sobre esse objeto museal , tratado aqui como um signo mediador, fazendo as vezes do Monitor. Dessa forma o Professor poderá trabalhar este experimento com a intencionalidade pedagógica que lhe convém. A utilização de vídeos e fotos pode contribuir para a internalização dos signos mobilizados através do objeto museal. Para Vigotski, a internalização envolve uma atividade externa que deve ser modificada para tornar-se uma atividade interna, de interpessoal para se tornar intrapessoal (VYGOSTKY, 2007).
A partir do que foi visto e discutido no Centro de Ciências, o Professor poderá propor uma atividade que continue reverberando os conhecimentos mobilizados na visita para dentro das atividades da Escola. Assim sendo, esta ação dialoga com a política de Estágio do curso que busca a formação de um professor crítico-reflexivo, a aproximação teoria-prática e a pesquisa como componente formador de todos os atores envolvidos. Além disso, defende uma relação horizontal entre Universidade e Escola.
## Referências
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