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Especialidades escoteiras e ensino de Física: alternativas para o desenvolvimento de competências para o Enem

Mariana De Marchi, André Rodrigues

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXII
Ano
2017
Data
25/01/2017
Linha de pesquisa
Divulgação Científica E Educação Não Formal
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## ESPECIALIDADES ESCOTEIRAS E ENSINO DE FÍSICA: ALTERNATIVAS PARA O DESENVOLVIMENTO DE COMPETÊNCIAS PARA O ENEM

## Mariana De Marchi 1 , André Rodrigues 2

1 Instituto de Física da Universidade de São Paulo - marianademarchi@outlook.com

2 Instituto de Física da Universidade de São Paulo - andremr@if.usp.br

## Resumo

Tendo em vista que o desenvolvimento das competências e habilidades relacionadas ao ENEM configura-se como um dos grandes desafios da educação contemporânea, este artigo visa buscar na educação não-formal novas alternativas para o com tais elementos em sala de aula, em especial no que diz respeito aos saberes relativos à área de Física. Para tal, utilizamos o movimento escoteiro como espaço de educação nãoformal e as especialidades escoteiras como nosso foco do estudo. Foram selecionadas especialidades trabalham diretamente com conceitos de Física e as atividades relacionadas a estas especialidades foram comparadas com algumas das competências e habilidades da matriz do ENEM, com o objetivo de entender quais das primeiras podem ajudar a desenvolver saberes relacionados a tais competências. Ao final, conclui-se que a educação não-formal pode ser uma importante fonte de abordagens não-tradicionais para o desenvolvimento de habilidades contidas na matriz ENEM.

Palavras-chave : educação não-formal, ENEM, educação escoteira, ensino de Física

## Problema de pesquisa

Uma das preocupações dos professores em sala de aula, em especial no ensino médio, é auxiliar seus alunos no desenvolvimento das competências da matriz de referência do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM). Por terem caráter transversal, as competências e habilidades ali definidas acabaram por se chocar com o sistema tradicional de ensino, baseado em disciplinas compartimentadas. Enquanto o ENEM espera que os alunos sejam capazes de relacionar o conhecimento de diversas áreas para refletir sobre problemas e soluções, por boa parte de sua vida os estudantes foram expostos a saberes aparentemente independentes, o que dificulta muito o sucesso tanto na prova objetiva como na redação.

Neste cenário, os professores acabam por sentir-se carentes de instrumentos para desenvolver esses novos saberes e habilidades que são cobrados de seus alunos. O que este trabalho busca é examinar estratégias que eventualmente possam ser utilizadas em sala de aula para desenvolver competências e habilidades contidas na matriz do ENEM, utilizando como fonte de tais estratégias a educação não-formal, em especial as especialidades escoteiras.

## O Movimento escoteiro como ambiente de educação não-formal

Surgido na Inglaterra em 1907, o Movimento escoteiro configura-se hoje como um dos maiores movimentos juvenis do mundo, mobilizando mais de 40 milhões de pessoas em 223 países (WOSM, 2016) No Brasil as atividades iniciaram-

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23 a 27 de janeiro de 2017

se em 1910, na cidade de Rio de Janeiro. Hoje a União dos Escoteiros do Brasil (UEB) conta com mais de 82 mil associados, divididos em 23 estados.

Como base de seu sistema educativo, o Movimento escoteiro conta com uma série de valores, resumidos nas chamadas lei e promessa escoteiras. Estes textos, tomados como guia de vida por jovens e adultos, exaltam valores como altruísmo, honestidade, lealdade e fraternidade. Além disso, para nortear suas práticas e objetivos educativos, foi desenvolvido o método escoteiro, que condensa os princípios por trás da educação escoteira. São eles: a aceitação dos valores contidos na lei e na promessa escoteiras, a educação pela ação, a vivência em equipes e pequenos grupos, o desenvolvimento pessoal de cada jovem com orientação individual feita por educadores voluntários e as atividades desenvolvidas de forma progressiva, atrativa e variada (UEB, 2013).

Para melhor organização das atividades, os jovens são divididos em quatro ramos, de acordo cum sua faixa etária. Cada um destes ramos tem uma ênfase educativa diferente, adequada à idade dos jovens com que trabalha, como demonstrado na tabela a seguir:

Tabela 1. Organização do Movimento escoteiro em ramos (UEB, 2013)

Os escotistas, adultos responsáveis pelo planejamento e aplicação das atividades, são voluntários oriundos de diversas áreas profissionais diferentes. Além de ter como norte o programa educativo desenvolvido pela UEB, também participam de cursos de formação, em que são abordados temas relativos ao desenvolvimento dos jovens e à aplicação de atividades.

O programa educativo trata de competências que se espera que os jovens desenvolvam enquanto dentro de determinado ramo. Quando se fala em competências dentro do Movimento escoteiro é necessário entender que estas se baseiam na tríade: conhecimento, habilidade e ação. Ou seja, o jovem não precisa apenas conhecer determinado assunto, mas saber como utilizar estes saberes em seu cotidiano e ter a iniciativa de fazê-lo. Além disso, as competências estão divididas em seis grandes áreas, visando promover o desenvolvimento do jovem em diversos aspectos de sua vida. São elas: desenvolvimento físico, afetivo, de caráter, espiritual, intelectual e social. Juntamente a cada uma das competências, são propostas atividades que ajudam o jovem no desenvolvimento daquele objetivo educativo. O exemplo a seguir traz uma competência da área de desenvolvimento físico, proposta para o Ramo Lobinho:

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Tabela 2 . Exemplo de competência e atividades no Ramo Lobinho (UEB, 2011)

Como parte do desenvolvimento de cada jovem, é proposta ainda a conquista de especialidades, distintivos relacionados a diversos campos do conhecimento. Para cada uma das especialidades, são listadas diversas tarefas que o jovem deve cumprir. Se cumprido um terço destes itens, o jovem conquista a especialidade em seu primeiro nível. Se cumpridos dois terços, no segundo nível e, se cumpridos todos os itens, no terceiro nível. Tomando como exemplo a especialidade de Astronomia, apresentam-se alguns de seus itens: 'apresentar para a sua seção uma palestra ilustrada sobre a evolução estelar'; 'apresentar ao examinador, de forma geral, a atual teoria para a formação do universo e do sistema solar"; "construir e expor em seu Grupo Escoteiro um relógio de Sol, explicado seu funcionamento" (UEB, 2016). Já nestes exemplos, é possível notar de que maneira as especialidades se relacionam a determinados saberes das ciências físicas, comumente trabalhados em sala de aula.

As especialidades são organizadas em cinco ramos de conhecimento: ciência e tecnologia, serviços, cultura, desportos e habilidades escoteiras. A tabela abaixo traz como exemplo algumas especialidades de cada um destes ramos:

Tabela 3. Exemplos de especialidades e ramos do conhecimento (UEB, 2016)

É sobre a análise dos itens relativos às especialidades que se debruça o trabalho aqui apresentado.

## O ENEM e suas competências

Depois da última reforma estrutural por que passou o ENEM, que culminou com o surgimento do chamado 'novo ENEM', o desempenho dos alunos nesta prova ganhou uma relevância jamais vista. Com o advento do SISU e sua ampla utilização em instituições públicas de ensino superior, o ENEM acabou por adquirir o caráter de vestibular, renovando o leque de possibilidades e desafios relacionados à

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prova, como discutido por Silveira, Barbosa e Silva (2015). O exame que antes servia como diagnóstico da situação do Ensino Médio no país passou a ser de fato uma preocupação de alunos e professores.

- O conhecimento passou a ser dividido em quatro grandes áreas, que se associam às disciplinas tradicionalmente presentes nas escolas: Linguagens e Códigos e suas tecnologias; Ciências da Natureza e suas tecnologias; Matemática e suas tecnologias; e Ciências Humanas e suas tecnologias (MEC, 2012) . Para cada uma destas, foi elaborada uma série de competências que se espera que o aluno tenha desenvolvido, de acordo com os Parâmetros Curriculares Nacionais. A cada uma das competências, foi relacionada uma série de habilidades que são avaliadas nas questões da prova objetiva e na redação.

Diversas críticas e reflexões vem sendo feitas a este novo modelo de ENEM e suas implicações diretas e indiretas, em especial no ensino de ciências, como pode ser visto em Andriola (2011), Gonçalves, et al. (2014), Hernandes, et al. (2013), Maceno, et al. (2011) e Marcelino, et al. (2012). O objetivo deste trabalho não é versar sobre o Exame em si, mas analisar uma de suas principais consequências: o fato de que professores utilizam a matriz de referência do ENEM como orientadora do trabalho didático e pedagógico em sala de aula.

## Metodologia

Para a realização da pesquisa proposta, foram selecionadas duas competências da matriz do ENEM, ambas da área de Ciências da Natureza e suas Tecnologias, que se relacionam diretamente aos saberes da Física. Foi selecionada a Competência 5, que contém as habilidades H17 a H19 e a Competência 6, que contém as habilidades H20 a 23 (MEC, 2012) .

A Competência 5 foi selecionada por exigir dos alunos a transcendência dos conceitos científicos, ou seja, sua aplicação em contextos diferentes dos quais foram trabalhados em sala de aula, alinhando-os a demandas sociais e trabalhando em diversos tipos de linguagem e representação diferentes. Já a Competência 6 foi escolhida por tratar de saberes diretamente relacionados à Física, como explicita em seu enunciado.

Foram então selecionadas dez especialidades escoteiras que se relacionam diretamente aos saberes da Física. São elas: Astronáutica, Astronomia, Ciências da Terra, Eletrônica, Energia, Engenharia, Geologia, GPS, Meteorologia e Robótica.

Em seguida, foram mapeados os itens de cada especialidade que se relacionam diretamente às habilidades citadas. Os resultados encontram-se a seguir.

## Resultados da pesquisa

Após a análise cuidadosa dos itens das especialidades, bem como das competências e habilidades escolhidas, foram encontradas ao todo 102 correspondências. Ou seja, em 102 dos itens analisados foram encontradas correlações diretas entre a atividade proposta pela especialidade e alguma das habilidades em estudo. A tabela abaixo traz como exemplo as quatro correspondências encontradas entre a especialidade de Astronomia e a habilidade H19, referente à Competência 5:

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Tabela 4. Exemplo de correspondência: especialidade e habilidades

Como mostrado acima, a especialidade de Astronomia possui quatro correspondências com a habilidade H19. O número total de correspondências entre cada especialidade e as Competências de Área 5 e 6 foi compilado e mostrado no gráfico a seguir:

Gráfico 1. Correspondências entre as especialidades escoteiras e as competências 5 e 6

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É possível observar que, em relação à Competência 5, as especialidades que mais apresentam correspondências são as de Astronomia, GPS, Eletrônica, Meteorologia e Energia. Tal apontamento justifica-se pelo fato de que estas especialidades, bem como a competência analisada, tratam dos saberes da ciência associados diretamente a aplicações práticas. As tabelas a seguir trazem alguns exemplos das correspondências encontradas entre essas especialidades e as habilidades da Competência 5:

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## Especialidade: Astronomia

Tabela 6. Correspondências encontradas: especialidade de GPS e H18

## Especialidade: GPS

Tabela 7. Exemplos de correspondência: especialidade de Energia e H19

## Especialidade: Energia

Tabela 5. Correspondências encontradas: especialidade de Meteorologia e H17

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Já em relação à Competência 6, as especialidades que mais apresentaram correspondências foram: Eletrônica, Robótica, Astronáutica e Energia. Bem como as habilidades relacionadas a essa competência, as três primeiras especialidades tratam de conhecimentos específicos de cada área, tendo um caráter bastante técnico. Já a especialidade de Energia, apresenta tanto itens mais amplos, como mostrado anteriormente, como itens mais técnicos, o que fez com que apresentasse diversas correspondências com ambas as competências. As tabelas a seguir trazem exemplos das correspondências encontradas:

## Especialidade: Astronáutica

Tabela . 9 Exemplos de correspondência: especialidade de Robótica e H21

Tabela 10. Exemplos de correspondência: especialidade de Eletrônica e H22

Tabela 8 Exemplos de correspondência: especialidade de Astronáutica e H20 .

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## Conclusões

A partir das reflexões apresentadas neste trabalho, é possível concluir que a educação não-formal, em especial o Movimento escoteiro, pode ser uma fonte de estratégias para que professores trabalhem as competências e habilidades relacionadas ao ENEM em sala de aula. Além disso, para os jovens que fazem parte do Movimento escoteiro, a conquista de especialidades configura-se como algo além do proposto no Programa Educativo, passando a ser também um meio de se prepararem para o ENEM.

## Referências

ANDRIOLA, W. B. Doze motivos favoráveis à adoção do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) pelas Instituições Federais de Ensino Superior (IFES). Ensaio: Avaliação e Políticas Públicas em Educação , Rio de Janeiro, v. 19, p. 107 - 126, Janeiro/Março 2011. Disponivel em:

&lt;http://www.vdl.ufc.br/solar/aula\_link/llpt/A\_a\_H/estrutura\_politica\_gestao\_organizacional/a ula\_03-5236/imagens/04/motivos\_adocao\_ENEM\_IFES.pdf&gt;. Acesso em: 13 agosto 2016.

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MACENO, N. G. et al. A Matriz de Referência do ENEM 2009 e o Desafio de Recriar o Currículo de Química na Educação Básica. Química nova na escola , v. 33, Agosto 2011. Disponivel em: &lt;http://qnesc.sbq.org.br/online/qnesc33\_3/153-EA09210.pdf&gt;. Acesso em: 13 agosto 2016.

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MEC, M. D. E. Matriz de Referência ENEM . [S.l.]: [s.n.], 2012. Disponivel em: &lt;http://download.inep.gov.br/educacao\_basica/enem/downloads/2012/matriz\_referencia\_ene m.pdf&gt;. Acesso em: 2016.

SILVEIRA, F. L. D.; BARBOSA, M. C. B.; SILVA, R. D. Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM): Uma análise crítica. Revista Brasileira de Ensino de Física , São Paulo, v. 37, 12 março 2015. Disponivel em: &lt;http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S180611172015000101101&amp;script=sci\_arttext&amp;tlng=pt&gt;. Acesso em: 22 agosto 2016.

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Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.