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Lise Meitner e a Fissão Nuclear: gênero, Nobel e História da Ciência para as aulas de Física

Isabelle Priscila Carneiro De Lima, Maria Cristina Martins Penido

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXII
Ano
2017
Data
25/01/2017
Linha de pesquisa
História, Filosofia E Sociologia Da Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## Lise Meitner e a Fissão Nuclear: gênero, Nobel e História da Ciência para as aulas de Física

Isabelle Priscila Carneiro de Lima , Maria Cristina Penido Martins 1 2 1 Universidade Federal da Bahia/Instituto Federal da Bahia, isapris@gmail.com 2 Universidade Federal da Bahia, mcrispenido@gmail.com

Resumo: Este trabalho tem por objetivo apresentar uma proposta de intervenção para as estudantes em uma escola de ensino médio técnico, com vistas a realização de uma proposta de intervenção que contemple uma forma de estudar a ciência evitando os padrões androcêntricos. O principal objetivo da intervenção é tornar possível para as estudantes, em cursos técnicos predominante masculinos, a discussão sobre a contribuição de mulheres no desenvolvimento da ciência. A ideia da proposta surge e está embasada nos primeiros estudos da pesquisa de doutorado desenvolvida pelas autoras. Por isso, alguns elementos desta pesquisa constituem o material utilizado na atividade, a exemplo da narrativa da trajetória acadêmica de Lise Meitner (1878-1968), nos altos da Alemanha Nazista, apresentando esta história numa perspectiva da crítica feminista. Neste são destacados elementos peculiares à sua trajetória, a exemplo da sua ausência entre as laureadas do Prêmio Nobel, mesmo tento elaborado a teoria da Fissão Nuclear e sendo nomeada 48 vezes. Outros materiais utilizados na elaboração da intervenção são os textos disponíveis na plataforma Pioneiras da Ciência, do CNPQ e o livro Mulheres na Ciência. A intervenção foi proposta para realização em duas etapas: a primeira denominada 'Histórias de ontem', já realizada, e a segunda 'Realidade de hoje', ainda em fase de aplicação. A primeira etapa possibilitou discussões em rodas de conversa nas quais pudemos conhecer a perspectiva das falas das estudantes sobre uma possível carreira nas ciências, apresentar histórias de sucesso de mulheres na Física, principalmente, a fim de evidenciar que o caminho é possível e, com isso, tornar o espaço um lugar propício à motivação das envolvidas. Esperamos que após a conclusão da atividade, tenhamos uma mudança nestas perspectivas, ou pelo menos que possamos empoderar essas adolescentes e mostrar para elas grandes possibilidades de seguir uma carreira nas ciências.

Palavras-chave: Mulheres na Física - Lise Meitner - Ensino de Física História da Ciência

## Introdução

O cenário presente no ensino de Física no Brasil, desde a criação e implementação de projetos para o seu ensino, se apresenta, de um modo geral, como espaço para abordagens de uma ciência completamente desarticulada do seu contexto de desenvolvimento. Produto disso, presenciamos um discurso nas salas de aula, que evidencia a ciência como empreendimento de homens brancos, ignorando a colaboração de mulheres, negras/os, latinas/os, africanas/os, orientais, etc., alijando os aprendizes do conhecimento produzido por estes grupos.

Ao mesmo tempo, pesquisadores do Ensino de Física estão conscientes e defendem que a ausência do contexto histórico no qual o cientista/personagem esteve inserido ou a apresentação da ciência como produzida por grandes gênios não oferece aos estudantes uma visão justa do desenvolvimento da ciência. Para suprir essas lacunas, uma das alternativas que vem sendo utilizada é a abordagem da ciência numa perspectiva histórica. Então, muitos trabalhos, a exemplo de Matthews (1995); Martins (1990); todos os artigos que compõem Silva

(2006) e Forato (2012), se preocupam em estudar a evolução de conceitos, outros as influências da política na elaboração de conceitos, entre tantos outros enfoques de fundamental importância.

No entanto, esta historiografia presente nas pesquisas em História da Física está completamente impregnada do discurso masculino há pouco destacado. Este cenário, até hoje, pouco foi problematizado, em termo dos personagens que lhe deram vida, até que grupos de mulheres, negras/os, latinas/os, asiáticas/os começaram a se interessar pela lacuna presente na sociedade científica quanto à sua presença no fazer científico.

Concordando com o argumento apresentado por Rago (1998, p. 23), o processo de desenvolvimento da ciência se 'remete ao branco-heterossexual civilizado-do-Primeiro-Mundo, deixando-se de lado todos aqueles que escapam deste modelo de referência. Da mesma forma, as práticas masculinas são mais valorizadas e hierarquizadas em relação às femininas'.

Numa busca pelos anais dos principais eventos de Ensino de Física no Brasil, visitamos os anais do Simpósio Nacional de Ensino de Física (nos últimos 6 anos, ou seja, nos três últimos eventos) e os anais do Encontro Nacional de Pesquisa em Educação em Ciências, o ENPEC (nos últimos 8 eventos), e encontramos 1 trabalho que relaciona a História da Ciência às questões de 1 gênero para o Ensino de Física e outros 2 que relacionam a HC com o ensino de 2 Ciências de um modo mais abrangente. No tocante aos periódicos da área, na Revista Brasileira de Ensino de Física, em seus artigos publicados entre 1979 e 2015, encontramos apenas um trabalho que discute a temática gênero , mas 3 nenhum que relacione a HC ao ensino de Física. A palavra gênero sequer aparece nas palavras da sugestão de busca. Na busca para o Caderno Brasileiro de Ensino de Física, nenhum artigo é encontrado quando se pesquisam as palavras: 'gênero', 'mulher', 'menina', 'feminina'.

Estes números refletem o quanto as temáticas voltadas a conquistas femininas na ciência, bem como suas trajetórias e suas contribuições são invisibilizadas tanto nos espaços acadêmicos de discussão de pesquisas em Física, quanto nas salas de aula de professores de Física - tendo em vista que estes periódicos são espaços utilizados por professores e pesquisadores para apresentar estratégias e abordagens realizada nos contextos escolares nos quais estão inseridos.

Diante deste contexto, é notório que abordagens históricas feitas na área de história da ciência no Brasil estão preocupadas em compreender a natureza do empreendimento científico, ou seja, desmitificar a ideia de gênios. Além disso, pretendem observar contextos social, político, religioso da época em que nascem

as teorias, por exemplo. Mas e a presença das mulheres no desenvolvimento deste empreendimento? As nossas pesquisas buscam mostrar qual o lugar dessas personagens nos espaços onde se produz essa ciência? Por que suas histórias quase não aparecem nas pesquisas e nos eventos na área da Física? Estes são questionamentos centrais da pesquisa de doutorado que inspirou a escrita deste trabalho.

Portanto, diante desta problemática e tomando as primeiras leituras da referida pesquisa em andamento, objetivamo-nos neste trabalho a apresentar uma proposta de intervenção didática, direcionada para estudantes do ensino médio técnico, que tem por tema: A presença das mulheres nos meios acadêmicos: a história de ontem e a realidade de hoje, além de alguns resultados da realização das primeiras atividades. Referindo-nos a história de ontem, apontaremos alguns elementos da história de Lise Meitner (1878-1968), numa perspectiva da crítica feminista à ciência, a fim de provocar uma reflexão nas estudantes acerca de questões de gênero na ciência.

Para isso, a sequência proposta busca oportunizar a discussão de alguns elementos do episódio histórico da Fissão Nuclear, apontando alguns passos da cientista para a elaboração da teoria da Fissão Nuclear. Para tal, nos baseamos na crítica feminista com o intuito de contar para as estudantes uma história da ciência não elitista e masculina, evidenciando o papel desta mulher para a elaboração de uma teoria fundamental para o desenvolvimento de muitas tecnologias da atualidade.

A escolha do episódio se justifica, inicialmente, pela sua pouca presença nas aulas de ciências. Em segundo lugar, por se tratar de uma temática bastante atual no desenvolvimento de pesquisas físicas (fissão nuclear). E em terceiro e não menos importante, pela ausência do nome de Lise Meiner (1878-1968) na premiação do prêmio Nobel, para o qual ela teve seu nome indicado 48 vezes. Aliado a esta terceira justificativa temos o fato de que o seu companheiro de trabalho Otto Hahn (1879-1968), com quem dividia seu laboratório em Berlim e realizou a maioria dos seus trabalhos, foi premiado no ano de 1954 justamente pelas evidências experimentais da fissão nuclear explicada teoricamente por Lise Meitner.

Para o conhecimento e aprofundamento das teorias sobre a ciência e feminismo, o papel da mulher no desenvolvimento de teorias sobre a ciência e epistemologia feminista, inicialmente, nos referenciaremos nos trabalhos de Londa Shienbinger (2001) e Fox Keller (1996) para entendermos as relações entre ciência e feminismo, e das pesquisadoras brasileiras Cecília Sardenberg (2007) e Ivone Gebara, para selecionarmos os elementos do episódio baseadas na epistemologia feminista. Antes de apresentar a forma como a intervenção foi conduzida, na sessão que segue, vamos conhecer um pouco do episódio histórico escolhido.

## Sobre o episódio: Lise Meitner e a Fissão Nuclear

Meitner nasceu em Viena, em 1878. Na época que poderia ingressar nos estudos, não lhe era permitido ingressar no que denominavam de Gymnasium 4 . O império Austro-húngaro entendia como um gasto desnecessário permiti-lhes o acesso ao Gymnasium . Assumindo como única atividade possível e remunerada na época o magistério particular, Meitner resolveu dedicar-se a esta, dando aulas

de francês. Logo em seguida, o império permitiu às mulheres o acesso à universidade. Meitner logo entrou no Gymnasium e, em dois anos, se candidatou à Universidade de Viena, para o curso de Física, na qual ingressou em 1901. Neste período, Meitner desenvolveu um trabalho no qual estudou uma aplicação das equações de Maxwell para condutores sólidos e obteve seu título de doutoramento em 1905, não somente por vias teóricas, como também experimentais. Lise foi a segunda mulher em Viena a obter um título de doutorado. SIME, (1996, p. 6).

Em 1907, Meitner decidiu sair de Viena justamente porque não conseguia mais apoio financeiro para os seus trabalhos. Em 1907, chega à Universidade de Berlim. Lá, conforme menciona Ruth Sime em Lise Meitner: A life in physics , de 1996, Meitner não se sentia estranha, mas sim, uma raridade em um ambiente completamente masculino. Meitner começa assistindo às aulas de Max Planck e, em seguida, conhece Otto Hahn e é convidada a trabalhar como sua assistente. Meitner prontamente aceitou, mas havia um problema: o Instituto de Química era completamente contra a presença de mulheres nos seus espaços. Foi permitido que ela trabalhasse em um porão, que Hahn usava para medições de radiações. Ela não poderia aprecer em qualquer outra parte do instituto, nem mesmo o andar de cima laboratório, onde trabalhava Hahn. 'para usar um banheiro, Meitner se dirigia a um restaurante na mesma rua.' SIME (1996, p. 29). Mesmo quando as mulheres foram permitidas nas universidades, o diretor criou um quarto para as senhoras de modo a seperá-las dos homens pesquisadores.

Em seguida, eclodiu a I Guerra Mundial. Ao final da guerra, é criado o Kaiser Wilhelm Institute (KWI), em Dahlem, e Meitner é convidada juntamente a Hahn para trabalharem no instituto. Para Hahn foi oferecido uma posição como associado científico, digamos, sendo responsável por uma seção de radioatividade do primeiro laboratório na Alemanha e um salário anual de 5.000 marcs. Meitner foi muito bem-vinda como uma convidada e sem remuneração. SIME (1996, p. 32).

Meitner trabalhou muito, escreveu cerca de 20 artigos até então e começava a se apresentar como uma pesquisadora em física teórica, independente de Hahn. No entanto, mesmo com tanta dedicação e aparente capacidade para desenvolver trabalhos tão brilhantes quanto os de seus colegas, o que obtivera, imediatamente depois de ano foi um convite de Max Planck para ser sua assistente. De qualquer forma, tinha o seu primeiro trabalho pago, corrigindo provas dos estudantes dele. Somente mais um ano depois, ela consegue tornar-se uma associada, assim como Hahn, mas ainda com remuneração inferior.

Logo após iniciar os seus trabalhos no Instituto, Meitner teve seus trabalhos interrompidos devido à ascensão de Hitler ao poder. E, entre tantos outros detalhes, ela é obrigada a deixar a Alemanha por sua nacionalidade Austríaca e por ser de família judia. Isso lhe custou muito caro. Ao fugir dos domínios da Alemanha, Meitner encontrou-se com o seu sobrinho Otto Frisch em Estocolmo. É lá que encontrou apoio para levar adiante suas ideias e tentar resolver problemas juntamente a ele.

- O contato com Hahn não se encerrou, pelo contrário, eles continuaram trabalhando por meio de cartas, trocando informações e dividindo

questionamentos e soluções para o trabalho em andamento. Neste período, Hahn, no seu laboratório observou o efeito do bombardeio de um núcleo de um átomo feito com um nêutron. Ao socializar a descrição do fenômeno com Meitner, questionou sobre a explicação teórica para o observado. Ao tentar resolver o problema, Lise sugeriu que a explicação teórica seria exatamente que a quebra do núcleo do átomo dá origem a dois nêutrons de massa muito pequena, por isso a liberação de grande quantidade de energia. Depois dessa constatação, Hahn e Strassman publicaram os resultados experimentais . No artigo, Meitner não é 5 referenciada. Ao mesmo tempo, Meitner e o seu sobrinho publicam a explicação teórica 6 do fenômeno. Neste momento, Hahn foi reconhecido pelas suas explicações experimentais e Meitner, ainda afastada, pelas suas contribuições teóricas. A partir de então, nascem questões intrigantes, como a premiação do prêmio Nobel de 1945.

Logo após a publicação dos artigos já mencionados, a comunidade científica reconheceu com a devida grandeza os estudos da Fissão Nuclear, tanto que, logo em 1940, os nomes de Meitner e Hahn foram indicados por três cientistas . Nos quatro anos seguintes, mais nomeações. Em termos de números, 7 mais 7 nomeações com o nome de Hahn e 3 com o nome de Meitner. Acontece que em 1945, Otto Hahn é laureado com o prêmio Nobel do ano " for his discovery of the fission of heavy nuclei" . Se considerarmos todas as indicações, mesmo antes de 1945, para os prêmios Nobel em Física e Química, ela foi nomeada em surpreendentes 48 vezes. E ainda assim, nunca fora premiada.

Segundo a análise feita por Sime e Crawford (1995) os prováveis motivos pelos quais Lise Meitner ficou fora da premiação do Nobel foram: a dificuldade de validar a interdisciplinaridade entre química e física (já que Otto Hahn era químico e escreveu um trabalho sobre química experimental), a falta de experiência em física teórica, o isolamento científico e político da Suécia durante o período da guerra e uma falha geral do comitê ao apreciar em que medida a perseguição aos judeus alemães desequilibrou as publicações da época. Mas e a questão de gênero não deve ser salientada?

## Lise Meitner e o Ensino de Física: A metodologia

Na tentativa de evitar a visão do empreendimento científico como produto de uma elite masculina, propomos na intervenção referida, introduzir esta nova nuance da abordagem da Fissão Nuclear e o papel de Lise Meitner no desenvolvimento da ciência no início do século XX.

Em face disso, a elaboração da sequência que utiliza como ponto central a história narrada na sessão anterior toma por base também os estudos sobre a crítica feminista ao modelo de ciência androcêntrico. Esta preocupação e as justificativas para um trabalho que fuja a este modelo foram apresentadas em LIMA (2015). Partindo disso, pensamos em uma intervenção visando oferecer às estudantes em uma escola de ensino técnico uma discussão que vá além do discurso presente em suas salas de aula, que valoriza a maioria dos seus colegas (homens, brancos e considerados de melhor desempenho em cursos de natureza

técnica), assim como os credita pelos desenvolvimentos na ciência e também nas suas áreas de estudo, a saber, eletrônica, automação industrial, mecânica, etc.

A ideia inicial foi a elaboração de uma estratégia de ensino que proporcionasse discussões em duas frentes : 8

- 1. Recorte Século XX 1. O papel da mulher na academia no século XX, particularmente a trajetória acadêmica de Lise Meitner

No primeiro momento, o material elaborado trouxe algumas contribuições de mulheres na ciência tanto no Brasil quanto fora do país, com o intuito de apresentar o papel destas personagens para o desenvolvimento da ciência pelo mundo. Para isso, utilizamos algumas biografias presentes na plataforma Pioneiras da Ciência do Brasil , do CNPQ, originado do texto escrito pelas professoras Hildete Pereira de Melo e Lígia M.C.S Rodrigues (MELO e RODRIGUES, 2003), e o livro Mulheres na Física . O principal objetivo deste momento foi mostrar para as estudantes histórias de sucesso de meninas brasileiras, de todas os níveis de ensino, não somente em séculos passados, como também nos dias atuais. Neste momento, promovemos uma conversa num grande grupo, no estilo de uma roda de conversa, de modo a deixar livre os comentários das estudantes sobre as histórias apresentadas.

Num segundo momento, utilizando como exemplo um caso de sucesso no desenvolvimento da ciência física, narramos a história de Lise Meitner, destacando sua trajetória acadêmica, a fim de problematizar e trazer questões importantes e peculiares ao trabalho de uma mulher em um ambiente acadêmico da época. Para este momento, utilizamos uma breve biografia elaborada pela autora deste trabalho, além de trechos de um documentário produzido pela Rosiemarie Reed Procuction . 9

No terceiro momento, ao apresentarmos a ausência de Lise Meitner do Prêmio Nobel, convidamos as estudantes a visitar o site do Prêmio Nobel para que elas investigassem os números relacionados aos vencedores do Nobel nas áreas de Física, Química e Medicina (entendendo como as áreas da Ciência), a relação entre ganhadores e ganhadoras e a relação entre o número de mulheres premiadas nas três áreas. Junto a isso, apresentamos notícias de premiações por projetos de pesquisas, construção de aparatos experimentais, de estudantes e pesquisadoras. A ideia foi levá-las a refletir sobre os números presentes na plataforma do Nobel e entre as vencedoras e vencedores de prêmios na ciência mais atual.

- 2. O Recorte Dias Atuais A presença feminina no espaço acadêmico atual ainda está em fase de elaboração e será aplicado ainda no mês de outubro. Para este, temos vistas à utilização do material disponível no site do prêmio Para Mulheres na Ciência, alguns textos e notícias divulgados em mídias sociais, socializaremos as experiências das meninas envolvidas no projeto brasileiro Meninas na Ciência (um projeto idealizado pela Petrobrás com envolvidas de todo o Brasil).

## Alguns resultados

Das primeiras atividades que foram realizadas, podemos ouvir nas rodas de conversas, opiniões e inquietações sobre os responsáveis pelo desenvolvimento da ciência, as representações em livros didáticos, o modo como a ciência representa cientistas de um modo geral, inquietações relacionadas à timidez em sala por medo dos estudantes não respeitarem os seus lugares de fala, já que, como elas mesmo mencionaram 'os meninos dizem que mecânica é curso de homem. Já viu menina sendo mecânica?'. Alguns comentários sobre a participação nas olimpíadas de Física nos chamaram atenção, quando uma das estudantes disse: 'Por isso que nós não gostamos de olimpíadas. Se nem Lise Meitner ganhou um prêmio, que foi a mulher que escreveu a teoria, imagine se nós ganharemos alguma coisa'. No mesmo momento, uma outra estudante comentou: 'Não penso assim. Eu não gosto muito de física, mas eu acredito que todas nós podemos estudar física na faculdade. Por que não? Olha aí quantos exemplos a gente teve hoje. É porque a gente nem sabia disso, achava que não existia mulher importante na Física'.

Estes discursos são preocupantes e nos alertam para um fato já existente que é a autoestima das estudantes quando nas aulas e nas avaliações das disciplinas ditas 'exatas'. É por situações como essas, na tentativa de conscientizar estas estudantes, de lhes incentivar a seguir carreiras. Além disso, é nestas falas que entendemos que para elas a professora delas, as estudantes dos cursos de licenciatura, as professoras das universidades do seu estado não são mulheres importantes na Física. Mulheres importantes são aquelas que estão nos livros, nas revistas, que ganham prêmios. Por isso, acreditamos e trabalhamos pensamos sempre na valorização das mulheres que constroem a ciência no nosso país.

- O caso de Lise Meitner claramente ilustra a possibilidade de escrever uma história da ciência com foco em aspectos acerca da presença de mulheres na academia, indo muito além da mera citação de suas presenças. O estudo do episódio numa perspectiva da crítica feminista, aquela influenciada pela teoria do que compreende o conhecimento como sendo construído de perspectivas particulares para que se enxerguem aspectos próprios de sujeitos e grupos que não são representados nos diálogos de outros. É a perspectiva que considera a individualidade de um grupo e percebe a necessidade de se contar a sua história, até então omitida pelos grupos privilegiados.

## Considerações Finais

Acreditamos que estes aspectos peculiares à trajetória de mulheres acadêmicas são importantes e devem ser apresentados às estudantes de todos os níveis de ensino, especialmente àquelas do ensino básico como forma de encorajar estas meninas à carreira científica. Como estudantes podem ver uma carreira promissora em física, por exemplo, se elas não se veem em livros didáticos, paradidáticos, em discussões sobre teorias ou em qualquer outro material de divulgação da ciência? A despeito dos obstáculos apresentados, mulheres como Lise Meitner conquistaram seu espaço na academia e desenvolveram trabalhos tão importante quanto os de seus colegas. Por fim, nós precisamos comunicar aos nossos estudantes sobre os excelentes trabalhos realizados pelas físicas.

Por fim, pretendemos que, ao final da intervenção, os elementos descritos no corpo do trabalho possam oferecer subsídios para mais presença de debates acerca da presença da mulher na ciência, um debate cada vez mais necessário às aulas de Física. Aspectos como área do conhecimento pretendida pelas mulheres, números de mulheres estudantes nos diferentes cursos das escolas técnicas, mulheres ganhadoras de prêmios na Física, Astronomia, Robótica e áreas correlatas, presença de professoras nestas áreas nas escolas técnicas, são alguns dos elementos discutidos juntamente aos aspectos da vida acadêmica da cientista mencionada.

Por fim e não menos importante, esperamos que este espaço possa ser capaz de mostrar para estas meninas o quão possível é seguir carreira na ciência, o quão possível é tornar-se uma história de sucesso em cursos em que o conhecimento masculino é dominante. Esperamos também que as frutíferas discussões possam servir de motivação para meninas e mulheres participantes da intervenção e estas sejam um elemento a mais no processo de empoderamento das mesmas.

## Referências Bibliográficas

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