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Méson$\Pi$: descoberto ou confirmado? O surgimento da física de partículas como disciplina científica

Antonio Augusto Passos Videira, Mariana Faria Brito Francisquini

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXII
Ano
2017
Data
25/01/2017
Linha de pesquisa
História, Filosofia E Sociologia Da Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## Méson π : descoberto ou confirmado? O surgimento da física de partículas como disciplina científica

## Antonio Augusto Passos Videira 1* , Mariana Faria Brito Francisquini 2

1 UERJ/Departamento de Filosofia, guto@cbpf.br

2 IFRJ/Departamento de Física, mariana.francisquini@ifrj.edu.br

## Resumo

O debate acerca da consolidação de uma nova área como disciplina científica e a sua relação com o ensino não é uma discussão muito explorada na literatura. No entanto, essa questão suscita um panorama de grande importância para a formação de professores no que diz respeito a um conhecimento mais profundo daquilo que ensinam. As disciplinas científicas, dentre elas as muitas especializações da física, não são uma maneira espontânea de como os fenômenos se apresentam na natureza. Elas são fruto da criação humana tendo cada disciplina, portanto, sua própria história. No entanto, esta história é apresentada geralmente a partir de uma visão internalista, que acaba reforçando o mito fundador de que uma disciplina nasce a partir de ideias, entidades ou pessoas fundadoras em busca de um conhecimento livre de considerações sociais. Tendo em vista este cenário, iremos apresentar como exemplo a consolidação da Física de Partículas Elementares como disciplina científica a fim de desmistificar essas concepções. Para isto, basearemo-nos nas discussões apresentadas por T. Lenoir em seu livro 'Instituindo a Ciência'. Desta maneira, nossa análise preconizará: o caráter comunitário da prática científica; o papel da técnica e da instrumentação na descoberta de um novo fenômeno/entidade e de como a criação de instituições contribui com a manutenção de nichos científicos imprescindíveis à prática.

Palavras-chave : história e filosofia da física, disciplina, instituição científica.

## Introdução - a relação entre o ensino e a formação de disciplinas

Uma das grandes preocupações de professores no exercício de sua profissão diz respeito à construção do currículo. Este, por sua vez, é estruturado a partir de uma gama de diferentes disciplinas que são geralmente, no caso de disciplinas científicas, apresentadas de uma maneira conteudística, a-histórica em praticamente todos os níveis de instrução. Esta abordagem, além de enfatizar a hiperprofissionalização das disciplinas científicas, desvia a atenção do professor a outras questões pertinentes ao ensino e aprendizado de sua matéria. O que deve compreender um currículo de física? Quais disciplinas são essenciais para garantir o sucesso desse currículo? Que valores epistêmicos são evocados quando analisamos a formação de uma nova área? O que pode ser caracterizado como uma disciplina científica e em que condições uma nova disciplina é criada?

Uma tentativa de resposta a estas questões não é encontrada no interior da ciência. Neste sentido, as contribuições da História, da Filosofia e da Sociologia da

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23 a 27 de janeiro de 2017

Ciência (HFSC) se mostram não apenas subsidiárias ao exercício da prática docente, mas absolutamente indispensáveis. Há muito é enfatizado na literatura [1] que os professores de ciências devem ter conhecimento não apenas na sua área de atuação, mas também sobre sua área de atuação. Ou seja, considera-se que a compreensão acerca daquilo que se entende por 'ciência' englobe não apenas o domínio de fatos científicos, leis, teorias (os ditos produtos da ciência ), mas também o conhecimento sobre os processos da ciência. Um exemplo desta perspectiva diz respeito à formação de disciplinas científicas. Em 1979, Robert Ennis [2] já enfatizava a importância de se conhecer as estruturas das disciplinas, seus valores, explicações e teorias e acreditamos que estes tópicos devam constituir um interesse permanente a todos os professores no exercício de sua função. Com esta finalidade, o tratamento de aspectos filosóficos e sociológicos nos parece de extrema importância. Se o professor reconhece que a ciência não é realizada em um vácuo social, então a história de formação de uma disciplina científica dá ao professor subsídios para entender melhor questões relacionadas à sua própria disciplina, mas que transcendem o seu conteúdo.

Desta maneira, pretendemos fornecer um exemplo de como questões históricas, filosóficas e sociológicas podem contribuir prolificamente na narrativa de um episódio científico, a saber: o processo de formação de uma disciplina científica. Para isto, levaremos em conta o papel das instituições científicas na consolidação de uma nova área e de como a circulação de técnicas e pessoas desempenha papel ativo neste processo.

## O papel das instituições científicas na formação de disciplinas

As instituições científicas desempenham papel manifestamente ativo nas nossas vidas diárias. As informações decorrentes de um trabalho de pesquisa ao serem apresentadas e submetidas ao crivo da comunidade científica acabam influenciando na tomada de decisão em muitas categorias diferentes perpassando por governos, escolas e comércio. Assim, analisaremos a função desempenhada pela presença destas instituições na sociedade, bem como a da circulação de seus produtos para a estabilização do conhecimento científico. Para isto, recorreremos ao trabalho de T. Lenoir intitulado Instituindo a Ciência: a produção cultural das disciplinas científicas [3].

Em seu livro, Lenoir discute o fato de que as instituições guiam, habilitam e até mesmo constrangem diversos aspectos do nosso cotidiano. Esta presença é perceptível mesmo àqueles que não detêm a habilidade requerida (à qual o autor refere-se como cultura ) para iniciar-se nela. No entanto, os indivíduos aculturados, em busca de prestígio ou recursos, podem agir fora dos movimentos permitidos pela instituição em um momento muito específico se detiverem a habilidade necessária para isso. Esta breve descrição serve para ressaltar o aspecto defendido pelo autor de que as instituições científicas funcionam como um local governado por regras e guiado pela prática para coordenação e incorporação de habilidades.

Para defender seu ponto de vista a respeito das instituições científicas, Lenoir faz comparações entre duas concepções muito contrastantes de ciência: a visão da sociologia funcionalista (de Robert Merton e Joseph Ben-David) e a visão de Pierre Bourdieu. Para a primeira, a ciência funcionaria como uma investigação racional da natureza, que tem por meta o descobrimento de leis universais descritas pela matemática e a predição de fatos empíricos dedutíveis da teoria confirmada

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pela observação/experimentação. Nesta descrição internalista, percebemos a ausência do papel do sujeito e da história como sendo relevantes na construção do conhecimento científico, sendo o conteúdo da ciência considerado à parte do contexto de sua produção, reprodução e distribuição. O autor torna explícita a sua posição contrária a esta concepção: para ele, a ciência é uma prática cultural que dialoga com outras práticas sociais, políticas e estéticas, sendo a formação de disciplinas e de instituições o sítio para construção e manutenção de formas de identidade social e cultural. Desta maneira, Lenoir resolve abordar um modo de investigação que trata a ciência como prática cultural , apoiando-se no trabalho de Pierre Bourdieu no que diz respeito à instituição da ciência. Esta análise, por sua vez, desloca o foco da teoria científica para a prática. O tratamento dado por Bourdieu a respeito da ciência é visto como necessariamente histórico, uma vez que a prática científica se mostra entrelaçada em uma estrutura de interesses sociais, políticos e culturais.

As ideias de Bourdieu mostram-se cruciais para eliminar a distinção interno x externo ao tratar cientistas como indivíduos em luta por créditos obtidos na produção de bens científicos. Além disso, esta abordagem é útil ao captar a tecnociência como sendo simultaneamente política e técnica. A luta política para dominar recursos é inseparável do empreendimento cognitivo de definir o que constitui a ciência; ao lutar para ganhar reconhecimento por seus produtos, os cientistas estão engajados em legitimar seu poder para definir domínios do campo científico em que eles têm interesse. O campo científico, por sua vez, se distingue de outros campos pelo fato de que, nele, os competidores de alguém são também os consumidores primeiros do seu produto já que o reconhecimento de competência e autoridade não pode ser atribuído sem o escrutínio de outros produtores competidores. Lenoir enfatiza que o crédito decorre da apropriação simbólica do trabalho dos outros, de sua incorporação e superação no próprio trabalho. Assim, a dinâmica do campo suscita um ambiente mais complexo: o conjunto de técnicas, habilidades, modelos, teorias são estabilizados pela sua incorporação por parte de outros pesquisadores.

Deve-se ressaltar, no entanto, que a abordagem de Lenoir não é uma tentativa de reelaborar a história externalista. Em seu trabalho, ele não examina o modo como fatores externos moldaram instituições e conteúdos da prática científica. O autor reconhece que a teoria e os trabalhos científicos são objetos da história contextualista: são inconcebíveis sem as condições políticas, sociais, culturais que os originaram e deram suporte. Além disso, ele preconiza a criação, a circulação e a reprodução de produtos científicos. Assim sendo, o autor de um produto é o que Lenoir chama de 'apenas o nó mais visível de toda uma rede de relações sociais, incluindo outros autores, editores, fazedores de instrumentos e fornecedores comerciais de equipamentos e especialidades em cada campo'. Entendemos ser neste contexto que uma disciplina é formada: ao serem organizadas estruturas em que habilidades são reunidas como conjuntos coerentes próprios para levar adiante a condução de uma prática científica.

A visão de disciplina desenvolvida por Lenoir em sua obra corrobora a tese apresentada de que as instituições científicas serviriam como sítios para coordenação e incorporação de habilidades. Neste sentido, as disciplinas trabalham para estabilizar a heterogeneidade da ciência ao se apresentarem como, nas palavras do autor, 'a infraestrutura da ciência corporificada nos departamentos universitários, nas sociedades profissionais, nos manuais e nos livros didáticos'.

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Além disso, é destacado pelo autor o cunho político das disciplinas. Estas são tratadas como estruturas que mediam a economia e a produção do conhecimento. Ou seja, a disciplina ajuda a estruturar as relações dos cientistas com contextos particulares institucionais e econômicos. Assim, as disciplinas regulam relações de mercado entre consumidores e produtores de conhecimento e distribuição de status: ao fundar especialidades, as disciplinas estabelecem hierarquias, separando os indivíduos entre especialistas e amadores.

Uma das teses mais importantes advogadas por Lenoir diz respeito ao fato de que ninguém cria disciplinas. As implicações teleológicas de uma ideia central e os esforços de pesquisadores singulares, ou mesmo de grupos singulares de pesquisadores, são insuficientes para fundar uma disciplina. Assim sendo, as disciplinas científicas não têm fontes unicausais; elas são mais apropriadamente compreendidas como efeito de sistemas interativos. Este tratamento nos fornece uma imagem oportuna para a posição defendida por Lenoir de que, em suas palavras, 'o esforço por construir disciplinas é o esforço por firmar estruturas de apoio que sustentam uma cultura'.

Analisaremos, a seguir, um exemplo que, em nossa opinião, corrobora as ideias de T. Lenoir a respeito do papel simbólico ocupado pela natureza no processo de produção do conhecimento científico. Em outros termos, a dupla descoberta do méson π exibe que, na física contemporânea, apenas a natureza parece não dispor de força epistêmica suficiente para comprovar as leis e os modelos propostos pelos cientistas. Torna-se também necessário recorrer artificialmente às mesmas situações por estes últimos. Contudo, deve ser observado que não apenas a função da natureza é reforçada no exemplo que se segue. Outro ponto interessante é o papel que a circulação do conhecimento, isto é, de especialistas e instrumentos, desempenha na criação e consolidação de novas áreas e linhas de pesquisa. Em particular, a confirmação do bom funcionamento do cíclotron em Berkeley reforçou a necessidade do uso de instrumentos fabricados pelos seres humanos. Ou seja, para não comprometer a circulação do conhecimento - necessária para validar a crença na universalidade da ciência-, seria necessário construir outras máquinas semelhantes, criando uma rede de laboratórios capazes de se comunicar uns com os outros, trocando conhecimentos e problemas. Em suma, a ideia de formação de uma disciplina científica, tal como proposta por Lenoir, parece se aplicar ao caso da física de partículas elementares, que surge por volta do ano de 1948, tal como é apontado usualmente pela historiografia [4,5].

## O lugar do méson π na historiografia da física da segunda metade do século XX - a formação da física de partículas elementares

Uma das teses mais difundidas entre os membros da comunidade de física de partículas elementares é aquela que afirma que o seu nascimento ocorreu entre os anos de 1947 e 1948, quando em duas ocasiões experimentais radicalmente distintas, uma partícula subnuclear, o méson π , foi descoberta. A confirmação da existência dessa partícula, prevista teoricamente anos antes pelo físico japonês Hideki Yukawa, é geralmente compreendida como inaugurando uma nova era na física. No entanto, esta visão internalista acaba reforçando o mito fundador de que uma disciplina nasce a partir de ideias, entidades ou pessoas fundadoras - estas últimas geralmente referenciadas por 'pais' de disciplinas. Contra essa perspectiva,

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esta comunicação visa a avaliar o processo de formação de uma disciplina científica, pondo em xeque a afirmação de que a física de partículas elementares tenha surgido com a confirmação da existência do méson π . O pressuposto para a aceitação dessa tese é o papel desempenhado pelo píon na confirmação do modelo de Yukawa. Contudo, o píon não foi a primeira partícula 'descoberta' em raios cósmicos: antes houve o caso do pósitron. Por que, então, o píon e não o pósitron? O relevante, neste caso, é que as condições da confirmação do píon se deram em um acelerador de partículas e não na 'natureza'. Corresponderiam tais condições a uma mudança no plano dos valores epistêmicos da ciência?

Em 1947, a confirmação da previsão de Yukawa se deu em plena Cordilheira dos Andes, no Monte Chacaltaya (Bolívia) a 5500 metros de altitude. No ano seguinte, a sua existência foi confirmada no cíclotron de Berkeley, na costa oeste dos EUA. Em ambas as oportunidades, esteve presente o físico brasileiro Cesar Lattes (1924-2005), personagem importante devido ao seu conhecimento no uso da técnica de emulsões nucleares. Aquela primeira observação do méson π , não foi a primeira oportunidade em que os raios cósmicos, o 'material' usado por Lattes e seus colegas, foram utilizados para provar a existência de uma nova (no sentido de até então desconhecida) partícula elementar [6]. No início da década de 1930, Carl D. Anderson, P. M. S. Blackett e Occhialini, este último também participante da primeira descoberta do méson, provaram que o pósitron existia. Relembrar o pósitron nos permite indagar pela coerência da historiografia usual que atribui ao píon a responsabilidade pela criação de uma nova área na física.

Em artigo publicado na revista Nature, em 1947, intitulado Nuclear disintegrations produced by slow charged particles of small mass [7], o qual parece ser um dos primeiros artigos de uma série que se referirá ao tema da Física de Partículas Elementares, Occhialini e Powell fazem a análise do espalhamento de partículas em que utilizavam a técnica denominada método fotográfico ou emulsões nucleares. Neste trabalho, as conclusões de Powell e Occhialini são levadas a cabo com uma tentativa de mostrar o porquê de o método empregado ser confiável. A respeito disso, eles destacam:

- O acordo entre os resultados de observadores em dois laboratórios diferentes, trabalhando de maneira completamente independente com materiais diferentes, é uma prova definitiva da confiabilidade do método fotográfico no seu estado presente de desenvolvimento.

No entanto, este relato pode ser visto não como prova definitiva da confiabilidade de um método, mas como prova definitiva de uma outra característica da ciência: sua desunificação. Uma vez que cientistas, mais especificamente físicos, apresentam-se em subculturas com diferentes práticas, interesses e tradições, determinar um consenso sobre um resultado experimental não constitui uma tarefa trivial. Neste sentido, devemos entender que este consenso acerca de um fenômeno intrigante ou até mesmo sobre o grau de confiabilidade de um método confere legitimidade aos resultados obtidos pelos grupos. Ou seja, podemos dizer que a estabilização da prática científica ocorre no nível comunitário e, tão importante quanto, mediante a manipulação de instrumentos.

Dentre as muitas heranças instrumentais relevantes, podemos citar a do primeiro acelerador circular de partículas (cíclotron); construído, em 1931, pelo físico norte-americano Ernest Lawrence (1901-1958). Desde então, aceleradores maiores seriam propostos e construídos. Como consequência, essas máquinas ganhariam relevância com o Projeto Manhattan, que coordenou a grande mobilização científico-

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militar para a construção das bombas atômicas lançadas sobre o Japão em agosto de 1945. O projeto marca a origem da chamada Big Science .

Ao fazer o balanço de um encontro científico ocorrido em julho de 1953, em Bagnères de Bigorre (França), o físico francês Louis Leprince-Ringuet (1901-2000) escreveu que o destino da pesquisa na área de raios cósmicos dependia dos aceleradores de partículas. Dois anos depois, tal previsão seria confirmada em um encontro em Pisa (Itália). Lá, a predominância dessas máquinas foi tamanha que levou Juan G. Roederer a resumir a quantidade de dados que os norte-americanos trouxeram para a reunião com o adjetivo de "toneladas". Os aceleradores ofereciam não só abundância na produção de mésons, que, até então, só haviam sido produzidos e detectados nos raios cósmicos. Aquelas máquinas - cujos tamanhos e custos cresciam rapidamente - permitiam aos físicos algo tão ou mais valioso que a quantidade: o controle sobre a produção de tais eventos; quantidade e controle tornavam as análises mais confiáveis e seguras. Por sua vez, um cosmicista sempre esteve à mercê da sorte. Com um pouco dela, ele conseguiria fazer com que um ou mais mésons do chuveiro cósmico atravessassem seu detector. E, com mais sorte ainda, o fragmento de matéria capturado seria um integrante ainda desconhecido do universo subatômico. A natureza ainda oferece fenômenos mais energéticos do que as colisões geradas nos aceleradores, mas o preço a se pagar por isso é a incerteza.

Com o final da guerra, houve a retomada do uso dos aceleradores para a pesquisa básica. Em um deles, Lattes e o físico norte-americano Eugene Gardner (1917-1950) obteriam, em 1948, um resultado de grande repercussão tanto científica quanto política. Neste ano, Lattes chegara ao Laboratório de Radiação, na Universidade da Califórnia, em Berkeley (EUA), chefiado por Lawrence e que abrigava o então mais potente acelerador de partículas do mundo: o sincrocíclotron de 184 polegadas. O sincrocíclotron havia sido construído com o objetivo de produzir mésons - até então encontrados apenas na radiação cósmica. Porém, mais de um ano depois do início do funcionamento do sincrocíclotron, em 1 de novembro de 1946, os mésons ainda não haviam sido detectados nos choques das partículas alfa contra alvos fixos. As partículas geradas nessas colisões tinham suas trajetórias registradas nas emulsões nucleares. Poderíamos supor que Lawrence, naquele momento, encontrava-se em uma situação difícil.

A situação sofreria, no entanto, uma reviravolta cerca de dez dias depois da chegada de Lattes a Berkeley. Quando examinadas as emulsões ao microscópio, Lattes conseguiu identificar as trajetórias dos píons. Sua conclusão: o sincrocíclotron estaria produzindo mésons desde que começou a funcionar. Essas partículas só não estavam sendo reconhecidas nas emulsões. Desta forma, Lattes não só aumentou o tempo de varredura ao microscópio, mas também acrescentou à pesquisa o conhecimento que havia adquirido em 1946 e no ano seguinte, trabalhando no Laboratório H. H. Wills, na Universidade de Bristol, na Inglaterra. Lattes, portanto, sabia reconhecer os traços de mésons nas emulsões, ou seja: sabia o que buscar ao microscópio . Este caso poderia ser caracterizado, no mínimo, como curioso. O reconhecimento de partículas deste tipo nas emulsões nucleares só foi tornado possível devido ao longo processo de especialização pelo qual a ciência passou. No entanto, este nível de especialização exige do cientista um alto grau de familiaridade com o instrumento com que opera a fim de que se extraiam dados relevantes à prática. Como poderia um cientista treinado como Lawrence, chefe do laboratório que abrigava o mais potente acelerador de partículas do mundo, deixar escapar o

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objeto de suas investigações? É importante lembrar que os dados referentes a uma observação, no entanto, não estão inertes esperando a intervenção dos cientistas para serem descobertos. Eles precisam ser recebidos pelo investigador; são, desta forma, uma construção, ou seja, estão imersos em uma subcultura. Em particular, podemos relembrar o papel desempenhado pelos instrumentos na construção do conhecimento científico, uma vez que muito frequentemente são referidos como aparatos que corporificam seu objeto de estudo. Essa abordagem, aliás, também enfatiza o caráter negociado da produção de objetos da investigação científica; uma vez que cientistas definem seus objetos em um campo agorístico.

Nesta perspectiva, a produção de raios cósmicos em laboratório foi um feito importante. Além do mérito científico, há naqueles resultados um desdobramento sutil, mas de suma importância: o fato de o sincrocíclotron ter produzido píons assegurava que a tecnologia usada naquela máquina funcionava. Isso permitiria a construção de máquinas ainda mais potentes. Na mesma época, em 1950, já havia nos EUA dezenas de aceleradores de partículas, de tamanhos variados. Começava a chamada 'Era das Máquinas', marcada por financiamento governamental volumoso, enormes laboratórios nacionais, estreitamento das relações com a indústria e o setor militar. A Europa, com o CERN, e a então União Soviética, com um laboratório em Dubna, seguiriam esses passos. Este movimento em direção a subsídios governamentais vultosos em criar nichos institucionais locais contribui prolificamente para a institucionalização de uma disciplina científica.

Até aqui descreveu-se apenas em parte a história da física de partículas. Isso foi realizado com o propósito de mostrar a proeminência que os aceleradores e a instrumentação possuem nessa descrição. Não é improvável que tal atribuição faça parte de uma estratégia elaborada pelos próprios cientistas em favor de uma certa concepção de prática científica. A lembrança de que o méson π fora observado antes na natureza, nos Pirineus franceses e nos Andes bolivianos, parece ser feita apenas para assegurar algum papel à natureza no processo de validação empírica de hipóteses científicas. Papel que com a fabricação e o uso das 'grandes máquinas' seria cada vez mais relativizado, uma vez que estas últimas passaram a ser vistas como mais confiáveis.

Finalmente, parece-nos crucial estabelecer a relação do conhecimento com a prática científica. Neste sentido somos solidários ao pensamento de Lenoir de que temos de inserir prática, técnicas e instrumentos em sítios de produção do conhecimento como laboratórios, institutos e departamentos. Para que este trabalho local venha a culminar na criação de uma nova disciplina, devem ser gerados nichos institucionais, nos quais a atividade disciplinar é moldada a ponto de outro estilo de trabalho emergir.

## Conclusões

Neste trabalho, procuramos mostrar a relevância da discussão acerca da criação de uma disciplina científica para a formação de professores. Tentamos, também, enaltecer o papel da história, da filosofia e da sociologia da ciência para uma melhor compreensão de professores acerca de seus objetos de estudo. Para isto, tentamos investigar os percursos que culminaram no aparecimento da física de partículas elementares como disciplina autônoma. Com esta finalidade, recorremos às ideias de Timothy Lenoir acerca das noções de instituição e disciplina, enfatizando o caráter de circulação e estabilização dos produtos

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científicos. Esperamos ter mostrado, embora com algumas limitações, que esta disciplina não surgiu por ocasião da descoberta do méson-pi na natureza. Sua consolidação se verificou pela criação desta partícula em uma situação artificial, em um instrumento concebido pela atividade humana: o acelerador de partículas. Este instrumento foi o verdadeiro criador da disciplina. Esta posição mostra que uma possibilidade mais ampla de verificação - tanto na natureza, quanto em situações controladas pela dinâmica do laboratório - de uma entidade/fenômeno parece-nos suficiente para constatar uma mudança dos valores epistêmicos por parte dos cientistas.

## Agradecimentos

* O autor gostaria de agradecer aos apoios financeiros do CNPq (nº do processo 304.945/2014-5) e da Faperj (Programa Prociência).

## Referências

[1] MATTHEWS, Michael Science Teaching - The role of History and Philosophy of Science . Routledge: 1994;

[2] ENNIS, Robert - Research in Philosophy of Science Bearing on Science Education' IN Current Research in Philosophy of Science , P. D. Asquith and H. E. Kyburg (eds.), 1979;

[3] LENOIR, Timothy. Instituindo a ciência - a produção cultural das disciplinas científicas . São Leopoldo: UNISINOS, 2004. Tradução de Alessandro Zir;

[4] BROWN, Laurie M.; HODDESON, Lillian (Orgs.) The Birth of Particle Physics . Cambridge: Cambridge University Press, 1983;

[5] FOSTER, B.; FOWLER, P. H. (ed.) 40 Years of Particle Physics . Bristol: Adam Hilger, 1988;

[6] VIEIRA, Cássio Leite; VIDEIRA, Antonio Augusto Passos. Carried by history: Cesar Lattes, Nuclear Emulsions, and the Discovery of the Pi-meson . Physics in Perspective, Volume 16, Number 1, p.: 3-36, 2014 ;

[7] OCCHIALINI, G. P. S.; POWELL, C. F. Nuclear disintegrations produced by slow charged particles of small mass . Nature 159 (4032): 186-90, 1947.

Para uma literatura mais aprofundada sobre o tema, o leitor interessado poderá também consultar os trabalhos:

MERTON, Robert K. Science and the Social Order . Chicago: University of Chicago Press, 1938;

BEN-DAVID, Joseph. The Scientist's Role in Societ: A Comparative Study. Englewood Cliffs, N.J.: Prentice-Hall, 1971;

BOURDIEU, Pierre. Outline of a Theory of Practice . Cambridge: Cambridge Press, 1977.

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