HYPATIA DE ALEXANDRIA : UM OLHAR FEMININO PARA O CÉU NA ANTIGUIDADE CLÁSSICA
Crislanda Lima Pereira, Ricardo Silva De Macedo
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXII
- Ano
- 2017
- Data
- 25/01/2017
- Linha de pesquisa
- História, Filosofia E Sociologia Da Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## HYPATIA DE ALEXANDRIA UM OLHAR FEMININO PARA O CÉU NA ANTIGUIDADE CLÁSSICA
*Crislanda Lima Pereira , Ricardo Silva de Macedo , 1 2
## Resumo
Neste trabalho, que faz parte de uma investigação mais abrangente, apresentamos o olhar da cientista e filósofa, Hypatia de Alexandria, sobre o estudo do céu na Antiguidade Clássica. O objetivo da pesquisa consiste em explorar as contribuições da figura feminina de Hypatia à problemática do movimento dos corpos celestes, no problema de Platão e proporcionar aos estudantes do ensino médio a oportunidade de conhecer a história e os estudos da erudita de Alexandria. A metodologia da investigação envolveu uma historiografia sobre Hypatia, onde se explorou referenciais teóricos que contemplaram sua trajetória política, histórica, filosófica e cientifica. Fez-se necessário articular a partir da historiografia o trabalho da filósofa com o famoso Problema de Platão, analisando suas contribuições que melhor solucionasse este problema. As conclusões apontam para a importância das contribuições de Hypatia à compreensão do movimento do céu e para possibilidades de exploração da sua história durante o ensino dos conteúdos relacionados à gravitação universal.
Palavras-chave : Hypatia, Astronomia, Problema de Platão, Historiografia
## Introdução
A concepção cósmica das primeiras civilizações da humanidade era relativamente a mesma: tinha-se a Terra como centro do Universo. Babilônios, Sumérios dentre outros povos estabelecia que as estrelas, o Sol, a Lua e os planetas até então conhecidos giravam em torno da Terra. Os estudos para este contexto de compreensão dos céus perpetuou por um longo tempo, contudo foram as concepções dos filósofos gregos que consolidaram e dominaram a Astronomia antiga na Europa posteriormente. A construção do conhecimento astronômico antigo perpassara por Anaxímenes de Mileto (V.I A.C) com seu estudo sobre o achatamento da Terra; Pitágoras de Samos que inseriu uma série
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de esferas concêntricas para cada um dos corpos celestes, conhecido como harmonia das esferas e Cláudio Ptolomeu atribuindo epiciclos e deferentes no modelo geocêntrico.
Compreender os Céus era desafiante e contrariar as formulações já pré estabelecidas pelos filósofos era mais complexo ainda. Aristarco de Samos propunha um sistema de planetas que giravam em torno do Sol, sendo assim um dos primeiros a estabelecer a teoria heliocêntrica e contrariava filosoficamente toda uma sociedade de pensamento geocêntrico e de perfeição do universo, como por exemplo, Platão e sua astronomia matematizada. Este filósofo se tornou importante para vários outros que surgiram posteriormente, trazendo assim a importância significativa do estudo empírico e observacional na sociedade antiga. Hypatia fora um desses filósofos nascida m 355 d.C.
Desmistificar concepções filosóficas gregas, sem torná-los errados, sobretudo com os estudos de Platão e estabelecer um diálogo com o trabalho de Aristarco fora o objetivo da filósofa alexandrina Hypatia. Alexandria em seu contexto de vida surgira como um pólo difusor de pesquisa para a humanidade e entender os percalços, como mostrado neste artigo, que uma figura feminina perpassara para ter o direito de fazer ciência é de extrema importância para construção do conhecimento, sobretudo no ensino de Física.
Assim, o objetivo da pesquisa através de uma revisão de literatura consiste em explorar as contribuições da figura feminina de Hypatia à problemática do movimento dos corpos celestes, tomando como base o problema de Platão e proporcionar aos estudantes do ensino médio a oportunidade de conhecer a história e os estudos da erudita de Alexandria.
A metodologia da investigação envolveu uma historiografia sobre Hypátia, onde se explorou referenciais teóricos que contemplaram sua trajetória política, histórica, filosófica e cientifica. Fez-se necessário articular a partir da historiografia o trabalho da filósofa com o famoso Problema de Platão, analisando suas contribuições que melhor solucionasse este problema.
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## Descrição do Trabalho
Para entender a importância do trabalho da filósofa Hypatia é pertinente a compreensão de seu contexto social e político vivenciado há 2000 anos quando segundo Sagan (1994) surgiu uma civilização cientifica e esplendida na história da humanidade. Alexandria fora na antiguidade um pólo florescente de cultivo cultural filosófico histórico e cientifico de arquitetura sublime com artefatos gregos e uma Biblioteca rica em papiros.
Os problemas sócio-políticos e religiosos de Alexandria, contudo, fizeram com que Hypatia vivesse em um ambiente hostil á filosofia e ás ciências. Essa contextualização que vai além dos seus feitos científicos dignifica a importância de se trabalhar principalmente a História, a Filosofia e a Sociologia da Ciência no ensino de Física. O condicionamento da ciência à ideia de uma verdade absoluta que opera na dimensão de desmistificar o privilégio em relação ao gênero masculino, a inteligência nata e a verdade plena se protagonizava com a práxis da realidade alexandrina. Segundo Matthews (1995), HFSC não têm todas as respostas para a crise do ensino contemporâneo de ciências, porém possuem algumas delas: podem humanizar as ciências e aproximá-las dos interesses pessoais, éticos, culturais e políticos da comunidade; pode tomar as aulas de ciências mais desafiadoras e reflexivas, permitindo, deste modo, o desenvolvimento do pensamento crítico.
O contexto de Hypatia reflete em seu trabalho quando passa a ser acusada de ateísmo. Com uma das poucas referências de biografia cinematográfica da filósofa, o filme Ágora (Alexandria, 2009), dirigido por Alejandro Amenabar traz a luta de Hypatia diante de uma sociedade majoritariamente masculina e que abrange uma série de questionamentos pela dominação religiosa cristã. Este fato estava associado aos problemas que a filósofa tivera por ser considerada neoplatónica, uma escola que na sua época e em Alexandria tinha a oposição dos grupos cristãos. E fortalecendo essas dificuldades, a mesma manteve-se solteira declarando-se casada apenas com a verdade.
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Astrônoma, Matemática e Filósofa ela precisava ultrapassar os obstáculos da crença e dos mistérios dos corpos celestes. Segundo Dzielska (2009) escreveu comentários a obras clássicas, como à Aritmética de Diofanto e às Secções Canónicas de Apolónio e tudo indica que conhecia a obra de Ptolomeu. Contudo todo conhecimento que se tinha atribuída ao Geocentrismo dos errantes era desconfortante para a erudita, e a saída era aprofunda em trabalhos empíricos como as hipóteses de Aristarco de Samos dentro do Heliocêntrismo. O primoroso deste aspecto é entender como Hypátia chega a conclusão do Sol no centro do que se considerava como todo Universo e o que isso implicaria no Problema de Platão.
Segundo Law (2008) Platão juntamente Aristóteles, foi a mais importante influência da filosofia ocidental. Nascido numa família ateniense nobre, Platão tinha parentesco com membros do governo aristocrático dos Trinta Tiranos (404403 a.C.).
O filósofo observou que afirmações sobre coisas físicas envolvem sempre uma restrição. Como por exemplo, não podemos dizer que um objeto é plenamente belo ou que uma pessoa é completamente corajosa. Eles serão sempre belos ou corajosos sob algum aspecto ou em algum grau, não atingindo o ideal da beleza ou da coragem. Como Heráclito, Platão pensava que as coisas percebidas pelos sentidos estão sempre se tornando outra coisa. Mas o conhecimento, conclui ele, tem que ser daquilo que é plenamente, o que significa que não podemos ter, de fato, conhecimento do mundo dos sentidos. Assim, Platão divide a realidade em dois reinos, o mundo físico do vir-a-ser e um mundo do ser constituído por ideias eternas e perfeitas. Cabe ao filósofo atingir esse mundo. Portanto, aprender não é realmente descobrir algo novo, mas recordar, visto que tudo já existe anteriormente no mundo das ideias. Se todo conhecimento é recordação, como afirma Platão, isso mostra que a alma existe antes do nascimento e abre a possibilidade de que ela sobreviva à morte física.
O "Problema de Platão" é, em essência, o estímulo dado por Platão à criação de modelos geométricos que explicassem os movimentos dos corpos celestes, que pode melhor ser observado no frontispício da Academia: "Não Entrará Nesta Casa Quem Não Soube Geometria"; cuja raiz está na descoberta dos irracionais pelos pitagóricos, que ruiu as esperanças de criação de uma
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cosmologia baseada na aritmética dos números naturais, causando a derrota tanto do atomismo de Demócrito quanto do pensamento de Pitágoras, uma vez que ambos estavam balizados na aritmética. Sendo, então, encorajada por Platão, a invenção de uma teoria geométrica de mundo.
Esta vertente do Problema de Platão faz parte de toda uma construção metodológica e filosófica do pensamento astronômico que estava envolto no contexto de Hypátia. Segundo KUHN (1992) mesmo quando são pouco pronunciadas as idéias metodológicas de um determinado cientista, os padrões metodológicos da sua época (por exemplo, os critérios para as explicações aceitáveis e os cânones de uma experimentação) afetam, muitas vezes, a prática da ciência, jamais podendo ser a priori postos de lado como irrelevantes. Este fator se preponderava nos estudos da filósofa.
## Resultados e Discussões
O trabalho empírico da filósofa alexandrina trouxe repercussões e reflexões na história e na filosofia do seu período e das verdades consideradas sobre os errantes pelos gregos. Dzielska (2009) ressalta as percepções de Hypatia sobre o estudo dos corpos celestes enfatizando toda a influência causada, sobretudo na política de gestão de Alexandria já que um dos seus discípulos e amigos mais próximos, Orestes, era prefeito de Alexandria e o maior rival político do patriarca, Cirilo. Dzielska (2009) afirma que a morte de Hypatia aconteceu em consequência do conflito entre Orestes e Cirilo.
Mesmo com estes contrapesos Hypatia buscou respostas para as suas principais indagações: Como o Sol poderia ocupar duas posições ao mesmo tempo? E porque os errantes mudam seu brilho? Hypatia alegava que se o movimento fosse circular o Sol não teria tamanhos diferentes nas estações inverno e verão. Contudo, isso só se justificaria caso a órbita fosse oval.
Compreendendo a definição de círculo e as noções básicas dos movimentos dos corpos, a erudita trouxe a elipse, já que a posição do Sol coincidia com um dos focos elípticos.
A construção do conhecimento astronômico antigo perpassara por Anaxímenes de Mileto (VI a.C) com seu estudo sobre o achatamento da Terra;
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Pitágoras de Samos que inseriu uma série de esferas concêntricas para cada um dos corpos celestes, conhecido como harmonia das esferas e Cláudio Ptolomeu atribuindo epiciclos e deferentes no modelo geocêntrico. Hypatia então contrapõe os pensamentos de seu contexto de vida, passa a ser considerada como bruxa, pagã e constrói seu trabalho diante da Elipse e de uma teoria heliocêntrica que posteriormente é desenvolvida pelo astrônomo polonês Nicolau Copérnico e pelo matemático alemão Johannes Kepler.
Contudo para a discussão deste artigo as contribuições do trabalho de Hypatia estão sendo direcionadas ao Problema de Platão. A análise é feita pela perspectiva de que há duas formas de se fazer astronomia no período helênico grego: A Astronomia Física no retrato de como a realidade realmente é e a Astronomia matemática, através de um segmento platônico da geometrização do espaço.
Assim, existe em outras palavras o realismo e o instrumentalismo, este último propriamente articulado ao trabalho de Platão já que a geometria é o que DUHEN (1984) chama de 'Salvar os fenômenos' que sobrepõe as relações matemáticas aos próprios fenômenos. O argumento de Platão neste contexto combina movimentos circulares e uniformes para fornecer um movimento resultante semelhante ao movimento dos astros; quando suas construções geométricas associam a cada planeta um movimento equivalente àquele que é revelado pelas observações, seu objetivo foi atingido, pois suas hipóteses salvaram as aparências.
Hypatia que trazia enraizada o instrumentalismo (declarava-se neoplatônica), contudo contribui para o problema platônico através de uma astronomia física. As análises empíricas (comprovadas através das cartas de Sinésio atualmente na Biblioteca de Alexandria) mostram suas percepções contrárias de um universo perfeito, com formas perfeitas e, sobretudo com a Terra em seu centro.
Além disso, a construção do conhecimento da alexandrina parte do principio de que as hipóteses devam estar erradas. Prova disto esta na passagem do filme Ágora ( 2009) quando a mesma realiza um experimento e prova que sua hipótese estava errada, ou seja sua proposição não salvaria as aparências.
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## Considerações finais
A influência que grandes mentes tiveram em seu tempo faz parte de uma capacidade inigualável de transcender suas ideias a partir dos seus pensamentos singulares a particulares. Porém os percalços das ideologias no poder condenava o desenvolvimento destes indivíduos que ficavam presos ás forças de seu tempo.
Os padrões metodológicos da época da cientista aqui estudada felizmente influíram fortemente na prática da ciência, do desenvolvimento de suas aulas, trabalhos sobre os corpos celestes e, sobretudo nas relações interpessoais em sociedade visto que contrapunha todas as idéias aceitas sobre a participação da mulher nela.
Suas contribuições vão além do Problema de Platão, com a astronomia matemática. Contempla a Teoria Heliocêntrica trazendo o movimento dos planetas, sendo ele uma combinação do movimento planetário em torno do Sol com o movimento da Terra em torno do Sol trazendo á vista os trabalhos de Aristarco de Samos.
Cabe ressaltar que conclusões apontam para a importância das contribuições de Hypatia à compreensão do movimento do céu e para possibilidades de exploração da sua história durante o ensino dos conteúdos relacionados à gravitação universal. Importante valorizar a história, a filosofia que perpassa sobre os grandes cientistas.
## Referências
DZIELSKA, Maria. Hipátia de Alexandria .. Lisboa: Relógio D' Água, 2009
MATTHEWS, Michael R. Historia filosofía y enseñanza de lasciencias: laaproximaciónactual. In: Enseñanza de lasCiencias . 1994. P. 255-277.
SUÁREZ, G.A. Hipatia:otrahijadel Nilo. Universidad Complutense de Madri, 2010;
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MOSLEY, M; LYNCH. Cosmo. IN\_Uma História da Ciência. Rio de Janeiro : ZAHAR, 2011. P. 49-51
LAUDAN, Larry. Teorias do método científico de Platão a Mach: resenha bibliográfica. Cad. Hist. Fil. Ci., Campinas, v. 10, n. 3, p.35-60, jun. 2000. Disponível em: <http://www.cle.unicamp.br/cadernos/pdf/Larry Laudan.pdf>. Acesso em: 28 mar. 2016.
BARROS-PEREIRA, Humberto Antonio de. Esferas de Aristóteles, círculos de Ptolomeu e instrumentalismo de Duhem. Revista Brasileira de Ensino de Física, São Paulo, v. 33, n. 2, p.3-4, jun. 2011. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci\_arttext&pid=S180611172011000200017>. Acesso em: 12 fev. 2016.
Biblioteca Central. A Biblioteca de Alexandria. Disponível em : <http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/6680.pdf> Acesso em: 12 fev. 2016.
LAW, Stephen Guia Ilustrado Zahar de Filosofia ; Ed. Zahar, 2008
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