FÍSICA COM MARTINS E EU, UM RESGATE DA HISTÓRIA E DA MEMÓRIA DE PIERRE LUCIE
Evaldo Victor Lima Bezerra, Eduardo Quadros Da Silva
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXII
- Ano
- 2017
- Data
- 25/01/2017
- Linha de pesquisa
- História, Filosofia E Sociologia Da Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## FÍSICA COM MARTINS E EU, UM RESGATE DA HISTÓRIA E DA MEMÓRIA DE PIERRE LUCIE
## Evaldo Victor Lima Bezerra , Eduardo Quadros da Silva 1 2
## Resumo
No dia 31 de maio de 1946, desembarcou no porto do Rio de Janeiro um jovem engenheiro francês chamado Pierre Henri Lucie, mal sabia ele que sua chegada mudaria a história do ensino de física no Brasil. Após um início modesto como caminhoneiro e montador de rádios, foi descoberto por outros compatriotas como Georges Neu e Edgar Liger Belair que o convidaram para lecionar matemática e física em colégios e cursos preparatórios para vestibular. Nos primeiros anos de docência Lucie começou a destacar-se, desenvolvendo uma didática e um amor pelo magistério que ainda hoje são difíceis de encontrar. Esteve envolto em muitos projetos e propostas de melhoria do ensino de física, em especial, Física com Martins e Eu, seu livro didático para o ensino médio, escrito no final de 1969 e inicio de 1970. O livro nasceu de uma brincadeira com o cartunista Henrique de Souza Filho (Henfil), o gibi da física. Este trabalho além de fazer um resgate da memória desse importante educador, também fará uma pequena análise de seu livro. Física com Martins e Eu surpreende por sua postura de vanguarda. Muitos critérios exigidos hoje em dia pelo Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) e por outras legislações para o ensino médio aparecem em suas páginas. O livro é recheado pelo gênero textual história em quadrinhos, além de um texto muito bem escrito que busca um diálogo constante com o leitor, convidando-o a reflexão e a experimentação. Se fosse possível a realização de alguns ajustes nos volumes disponíveis, bem como a escrita ou descoberta do complemento da coleção, com os volumes dedicados a termodinâmica, mecânica dos fluidos, eletromagnetismo e ótica, certamente esta seria uma das coleções recomendadas para o ensino médio.
Palavras-chave : História da Ciência, Livro Didático, Pierre Lucie
## Uma Pequena Biografia
Pierre Henri Lucie nasceu em 14 de agosto de 1917 numa pequena cidade da Gasconha chamada Condom, no sudoeste da França. Era filho do comerciante Henri Joseph Lucie e de Françoise Henriette Bouteille. Teve uma infância tranquila e modesta apesar de crescer no período entre guerras. Na juventude ingressou na faculdade de Ciências de Toulouse, onde conheceu seu grande mestre, o físico Henri Bouasse (1866-1953). Ele foi uma grande inspiração para o trabalho que Lucie vai desempenhar futuramente no ensino de física.
Aos 20 anos de idade Lucie recebeu o título de bacharel em ciências e enquanto se preparava para os estudos avançados foi convocado para servir no exército francês. O ano era 1937 quando foi admitido a École Spéciale Militaire de Saint-Cyr , a principal academia militar francesa. Após dois anos de estudo foi destacado para atuar na Batalha da França contra os alemães. Sua unidade foi
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23 a 27 de janeiro de 2017
derrotada e obrigada a ficar presa em Oflag II-D , um campo de prisioneiros de guerra para oficiais na Polônia.
De 1940 até o fim da Segunda Guerra Mundial em 1945, os presos organizaram uma espécie de universidade dentro do campo de concentração, onde Lucie participou de cursos de mecânica analítica, óptica, análise matemática, geometria diferencial e até mesmo aulas de mecânica quântica. Essas aulas eram ministradas por colegas oficiais que posteriormente tornaram-se autores conhecidos de livros-textos franceses. A respeito desses cursos de pós-graduação, Lucie declarou numa ocasião posterior que eles:
Eram reconhecidos pela Universidade de Paris, a qual devia outorgar aos aprovados nas provas realizadas nos campos o diplome d'etudes supérieures . A minha vinda para o Brasil no inicio de 1946 me impediu de levar a efeito os trâmites burocráticos referentes a este assunto (LUCIE apud BAZIN, 1985, p. 5).
Em 1945 com o fim da guerra, Lucie foi libertado em péssimas condições de saúde. Segundo Barros e Elia (2010, p. 49) 'Pierre era pouco mais do que pele e osso'. Por seu serviço como oficial do exército francês, Lucie recebeu das mãos do general Charles de Gaulle, a condecoração da Légion d'Honneur , da qual muito se orgulhava.
Contudo após seu retorno a França, Lucie não estava satisfeito com o clima de debates do pós-guerra, o fato de ter de se posicionar entre um ou outro partido o incomodava. Resolveu então acompanhar um amigo militar nomeado para o posto de diplomata no Brasil. Chegando aqui seu primeiro trabalho foi como motorista de caminhão, transportando açúcar da cidade de Campos dos Goytacazes para o Rio de Janeiro. Nos momentos livres consertava e montava rádios para os amigos. Suas habilidades eletrônicas lhe renderam um convite para lecionar física em colégios particulares e posteriormente em cursos preparatórios de vestibular.
Figura 1: Pierre Henri Lucie (1946). Fonte: Cartões de Imigração do Arquivo Nacional.
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Nasceu então o professor Pierre Lucie, cujo estilo iria marcar a vida de muitas pessoas, inclusive determinando várias vocações para a área científica. Ele possuía uma habilidade de lecionar que encantava a todos, com muito entusiasmo e
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força em suas palavras, interagia com seus alunos por meio de arguições, incentivando a investigação e não a memorização. Segundo Bazin (1985, p. 3) um de seus clichês era: 'não perguntem a mim, perguntem ao sistema, perguntem à natureza!'. Lembrando que esta era uma época em que na escola apenas o professor podia falar. Outro aspecto importante de seu método pedagógico estava baseado em experimentos laboratoriais simples, muitos deles desenvolvidos na época do cárcere alemão, utilizando sucata como matéria prima.
Pierre era um homem com forte personalidade, e imitá-lo seria missão impossível. Não obstante, o que ele nos legou foi uma certeza de que é possível associar paixão e razão no magistério das ciências. Seu didatismo era inato, parecendo incorporar em seu intelecto e alma as principais orientações das teorias cognitivistas e de aprendizagem moderna. Sua obsessão pela aprendizagem por meio da interação, observação e experimentação cuidadosa com os objetos físicos poderia cunhar-lhe o rótulo de 'piagetiano'. Mas ele poderia também ser rotulado de 'ausubeliano', porque as ideias de aprendizagem significativa, hoje muito em voga entre os educadores no Brasil, eram-lhe intuitivas, e porque ele sempre 'ensinou' para que a fundamentação, tanto fenomenológica e analítica quanto sistêmica, fosse estabelecida no aprendiz (BARROS; ELIA, 2010, p. 15).
Ao lecionar no colégio Santo Inácio, conheceu o Pe. Francisco Xavier Röser 1 . Essa amizade lhe rendeu o convite, em 1959, para criação do Instituto de Física da PUC-Rio. Na universidade foi um dos idealizadores do ciclo básico no ensino de ciências da instituição, experiência que o levou a participar, em 1963, como membro do programa de reformulação do ensino de física americano conhecido como Physical Sciences Study Committee (PSSC) . Segundo Ribeiro 2 (2010, p. 282), Lucie foi o único latino-americano a participar do PSSC. Esse modelo foi traduzido e implementado na PUC-Rio e em outras universidades brasileiras em 1965.
## O Projeto Física com Martins e Eu
Durante os anos finais da década de 60 e início dos anos 70, Lucie produziu uma extensa e importante obra de caráter didático voltada para o ensino universitário e médio, o gibi Física com Martins e Eu . Foi escrito em parceria com o cartunista Henrique de Souza Filho, mais conhecido pelo anagrama Henfil .
Na apostila sobre Mecânica o personagem Martins foi inspirado no Fradim Baixim 3 , um aluno curioso e contestador que duelava com maestria com seu professor, situação muito similar ao que costumeiramente acontecia nas aulas do professor Lucie. O gibi transformou-se em livro animado de física para o segundo grau em 1969, ocasião em que Lucie foi trabalhar com exclusividade para o Curso Vetor. No prefácio da edição preliminar podemos ter uma noção das convicções
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acerca do ensino de física que o autor defendia. Em relação à matematização da natureza, lemos:
Eu tomo posição quanto à maneira de expor. Fujo tanto quanto possível, do formalismo matemático. Ah! Quantas querelas amigáveis tive sobre o assunto! Continuo firme. Cada dia mais. Não por teimosia idiota. Por convicção. Esclareço: não sou contra a matemática na física. Seria tão imbecil, e inócuo, como ser contra o tear mecânico na tecelagem. Conheço bastante a física para saber que o formalismo matemático é uma linguagem, uma ferramenta indispensável. Mas cujo domínio deve suceder, e não anteceder, a percepção (LUCIE, 1969, p 3).
Lucie acreditava que os adolescentes daquela geração eram também cientistas natos. Contudo percebeu tempos depois que essa capacidade estava fortemente ligada ao contexto social em que viviam. Com respeito ao papel de professor e educador de cientistas, um compatriota seu, Maurice Bazin, em certa ocasião afirmou:
O papel de Pierre na educação científica brasileira foi um papel social. A sua atuação pedagógica dinamizadora fazia parte de uma visão do mundo construída pouco a pouco. Por experiência própria sabia que a história não se conta de maneira internalista e que a maneira de ensinar e de aprender se confundem com a maneira de encarar o mundo (BAZIN, 1985, p. 7).
Sobre a parceria autor e desenhista do livro, a repercussão alcançada e a importância do seu resgate para o atual cenário educacional lemos:
Trata-se de um livro em que o humor de um e a mordacidade didática do outro se complementam para criar um texto raro para o ensino das 'coisas chatas' do programa de física do ensino médio: cinemática e dinâmica. Temos certeza de que Pierre, vivo fosse, criaria hoje um texto mais flexível e menos analítico, adequado aos dias atuais. Não temos dados atuais de pesquisa (e provavelmente nunca teremos!) para saber como foi a interação desse livro com os alunos e se, de fato, por meio da veia crítica do processo de comunicação professor-aluno, conseguiu que os alunos se 'ligassem' nos conceitos básicos da física. Mas, por certo, é uma obra que deveria ser resgatada pela comunidade de físicos brasileiros, não só em tributo a Henfil e a Pierre, mas também para que as novas gerações de jovens estudantes brasileiros também possam aproveitar esse formidável acervo didático que, mesmo depois de quarenta anos, ainda não ficou obsoleto (BARROS; ELIA, 2010, p. 17).
As primeiras palavras do autor no prefácio do livro são os dois objetivos que ele tinha em mente ao escrevê-lo. Primeiramente uma tentativa de desmitificar a disciplina, que para muitos é destinada a pessoas superdotadas intelectualmente, sendo necessário enorme talento para entendê-la. Em relação a isso Lucie explica que:
- O Físico no seu laboratório tem a mesma vontade de viver sua vida, as mesmas preocupações fundamentais, as mesmas alegrias, mas também as mesmas angústias que o pintor, o músico, o homem do teatro, o romancista. Desde que se é um bom profissional, as regras do jogo são praticamente as mesmas (LUCIE, 1969, p. I).
O segundo objetivo era mostrar que o estudo da natureza e suas leis é agradável, a tal ponto que podemos nos seduzir. O segredo para isto esta na tentativa constante de falar da física como ela realmente é, sem pompa, ou formalismos matemáticos extremos. Deve-se ensinar física de forma lúdica, mostrando o fenômeno, ilustrando tanto quanto possível.
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- O livro foi escrito e produzido para os alunos do ensino médio, com uma preocupação que ele possa contribuir para a formação do cidadão, ele vai ao longo do texto tentar desenvolver o bom senso, a intuição dirigida, a observação e a criticidade.
Em vista disso o autor escolhe certos temas em detrimento de outros não propícios à formação, usando linguagem acessível, evitando o formalismo matemático que tende a substituir a compreensão pelo mecanismo.
A utilização dos diálogos entre as personagens ao longo do texto contribuiu sobremaneira para garantir que os objetivos do autor pudessem ser atingidos. O Professor é a primeira personagem e representa o próprio Pierre Lucie, já Martins é seu aluno irritante, que constantemente está questionando as falas do professor. Algumas vezes, o professor admite que errou; outras vezes, ele consegue convencer o aluno. Os dois conversam, discutem, chegam a perder a paciência e a brigar, mas há respeito e vontade em se chegar à uma conclusão satisfatória, nessas discussões.
Foram produzidos dois volumes da obra Física com Martins e Eu em 1969 e 1970, o material abrange apenas os conteúdos da mecânica, introdução a física e cinemática no volume 1 e dinâmica da partícula no volume 2.
Figura 2: Capa do Livro, edição de 1969. Fonte: Internet Archive.
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- O texto segue intercalado com diálogos em quase todas as páginas. Também existem figuras, desenhos ou mesmo fotografias de experimentos. Ao final de cada capítulo existe uma lista de problemas propostos, alguns deles devem ser discutidos com o professor em sala de aula. No final do volume encontramos uma lista exaustiva de exercícios de revisão no formato de perguntas de múltipla escolha.
- O livro foi escrito de maneira a conversar com o leitor, com vários questionamentos que induzem a reflexão. A linguagem utilizada está alinhada com o vocabulário jovial da época, tornando a leitura muito prazerosa. A presença de ilustrações dá um toque de irreverência e humor. O conjunto de todas essas
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estratégias de escrita leva esse livro a ter uma condição única dentro do contexto editorial de livros didáticos.
Em uma resenha do Prof. Roberto de Andrade Martins, ele oferece algumas informações pessoais que pode nos dar uma pista sobre uma das personagens do livro.
Em 1965, quando estava cursando o primeiro ano do ensino médio, comecei a ter grande interesse por física. Os padres jesuítas do colégio me estimularam a entrar em contato com o padre Francisco Xavier Roser (1904-1967), fundador do Instituto de Física da PUC-Rio, para possivelmente fazer a graduação em Física naquela universidade. Visitei a PUC em 1966, e nessa ocasião o padre Roser me apresentou ao prof. Pierre Henri Lucie, que estava trabalhando na tradução e adaptação para o Brasil do livro didático de física do projeto norte-americano PSSC ( Physical Sciences Study Committee ). Pierre me estimulou a estudar o PSSC por conta própria, mandando cartas para ele sobre seus estudos. Estudei efetivamente todos os volumes do PSSC, e fui enviando meus comentários e dúvidas para o professor Lucie. Posteriormente, no entanto, optei por fazer minha graduação em Física na USP e não na PUC-Rio e perdi contato com o professor Pierre Lucie. No entanto, parece que ele se divertiu bastante com minhas dúvidas e questionamentos, e isso parece tê-lo motivado a utilizar meu sobrenome para o seu personagem Martins. Ia me esquecendo de dizer: desde criança, no colégio, eu era conhecido pelo meu sobrenome (MARTINS, 2015, p. 3-4).
## Considerações Finais
O livro didático Física com Martins e Eu , apresenta uma proposta de ensino de física capaz de levantar algumas reflexões importantes. Primeiramente destacamos a interação do livro com o leitor que muito se assemelha com a interação entre professor e o aluno. A linguagem utilizada e a presença do gênero textual história em quadrinhos criam as condições necessárias para compreensão do texto.
A linguagem dialógica utilizada teve o cuidado de inserir as expressões e termos científicos da física de maneira muito natural, pois o contexto dos diálogos ajudou nessa inserção e interpretação. Não há perdas quanto ao conteúdo se comparado com outros livros convencionais.
A dimensão experimental é a tônica do livro, pois segundo o autor: 'O que eu quero dizer é o seguinte: entre ensinar brincando e ensinar chateando, eu prefiro ensinar brincando' (LUCIE, 1969, p. I-II). Essa sua maneira de apresentar o conteúdo de forma experimental, iniciando pelo fenômeno e buscando respostas na natureza e não na matemática, confere esse lado lúdico ao livro.
Tem uma coisa que as aulas práticas trazem aos alunos que nenhuma outra oportunidade se iguala. O encontro com o inesperado. O importante de uma aula prática não é o que dá um resultado esperado, mas é quando não dá! É aquele momento em que você precisa pensar para tentar descobrir o que esta acontecendo. Como dito certa ocasião por Lucie:
São os instantes em que aceitamos a discussão, com os nossos discípulos, de problemas não preparados de situações imprevistas; são as ocasiões em que dividimos com eles as incertezas, as perplexidades, as indecisões. Mas são também os instantes em que podemos transmitir diretamente, sem artifícios, o que as crianças e os jovens vêm procurar, talvez inconscientemente, nos bancos de escola: a maneira de crescer
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intelectualmente, a arte do raciocínio que dissipa magias, um começo de satisfação à ânsia de ser gente (LUCIE apud OLIVEIRA, 2010, P. 54).
A física utiliza-se de muitos modelos, que são em geral idealizados. Quando nos propomos a experimentar, entenda-se arriscar, dialogamos com o imprevisto. Muitas das propostas apresentadas em Física com Martins e Eu , criam esse diálogo com o imprevisto, elevando nossa condição de aprendizagem.
Todos esses elementos anteriormente citados, em tese, estimulam o aluno a interessar-se pela física, pois a todo instante o livro vem e provoca o leitor com perguntas desconcertantes, cuja resposta não parece ser tão obvia. Chega até mesmo ao extremo de insistir que o leitor faça uma tarefa antes de prosseguir com sua leitura! Esse é o jeito Lucie de ensinar divertindo.
Em um trabalho recente (BEZERRA, 2016) propusemos um diálogo entre o PNLD e o livro de Pierre Lucie, com o objetivo de avaliá-lo segundo os critérios da ficha de avaliação pedagógica presentes no guia dos livros didáticos do certame de 2015.
Apesar dos 46 anos de diferença dessas publicações, Física com Martins e Eu surpreende por contemplar 56% de todos os indicadores exigidos. Em especial os blocos que versam sobre: Conceitos, Linguagens e Procedimentos (Bloco 3) e Abordagem Teórica-Metodológica e Proposta Didático-Pedagógica (Bloco 2).
Os blocos mais problemáticos foram: Manual do Professor (Bloco 4) e Legislação e Cidadania (Bloco 1) com baixo percentual no cumprimento dos indicadores.
Para ser aprovado atualmente, o livro didático precisa respeitar todos os indicadores e, além disso, dispor de objetos educacionais digitais. Física com Martins e Eu não seria aprovado por algumas dessas razoes já expostas, mas também por se tratar de uma coleção inacabada! Os volumes produzidos não contemplam todo o conteúdo típico de física para o ensino médio, apenas os conteúdos trabalhados no 1º ano do curso.
Buscar razões para explicar porque Lucie não completou essa coleção, fica difícil de responder. Talvez a grande quantidade de atribuições que tinha, a maioria delas fora da sala de aula, deve ter dificultado a continuação do projeto. Não se ganhava muito dinheiro com livros em 1970, ainda mais livros de física! Pois bem, são só conjecturas. Uma pessoa que poderia nos ajudar a responder seria o filho de Lucie, Pierre Diniz Lucie, contudo não foi possível o contato com ele até o termino deste trabalho.
Em contato com o professor Roberto de Andrade Martins que escreveu uma pequena resenha do livro (MARTINS, 2015), soubemos que um dos possíveis motivos da não conclusão do projeto foi que, na época, a coleção não fez o sucesso esperado. Também fomos informados que haviam planos para uma reedição da obra. Seria feito pela editora Livraria da Física, por iniciativa do professor Martins. Na reunião do representante da editora com os herdeiros legais, os filhos de Lucie e Henfil, infelizmente não foi possível chegar a um acordo. O que nos resta são as cópias disponíveis on-line ou garimpar edições impressas nos sebos do Rio de 4 Janeiro.
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A obra de Pierre Lucie não é apenas mais um livro de física, é uma obra que mostra na prática um jeito diferente de compreender a educação. Um livro de grande valor, por traduzir a personalidade do autor e de refletir de alguma maneira parcelas das personalidades daqueles que contribuíram para a sua formação. Uma pena que livros como este não sejam mais produzidos por ai.
Apesar de não ter conhecido o professor Lucie em vida, sinto-me privilegiado por conhecê-lo através deste trabalho. Sua história de vida e trajetória, saindo de uma situação desesperadora de uma Europa arrasada pela guerra para chegar ao Brasil com o sonho de uma vida melhor é inspiradora! Expresso ao final desse trabalho minha gratidão a Pierre Lucie por seu exemplo e trabalho, que muito contribuiu para a melhoria do ensino da física em nosso país.
No dia 12 de setembro de 1985, com 68 anos, Pierre Lucie deixou esta vida, após sofrer um infarto agudo do miocárdio, deixando a ex-mulher, Dona Solange Martinelli Diniz, seu único filho e netos. Pierre Lucie era cunhado do pintor Cândido Portinari.
Entre as várias homenagens póstumas a ele destacamos as sessões solenes de 1985 do instituto de física da PUC-Rio, com o depoimento dos professores Luciano Videira e Sérgio Costa Ribeiro e a Sessão em homenagem a Pierre Lucie no VI Simpósio Nacional de Ensino de Física (SNEF) ocorrido na Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói. Nas comemorações dos 25 anos do projeto Fundão da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em 2008, houve uma sessão em homenagem ao professor Lucie. Na ocasião foi instituído o prêmio Pierre Lucie, com o objetivo de valorizar e destacar o trabalho acadêmico de docentes que atuam na melhoria das disciplinas de graduação.
## Referências
BARROS, S. d. S.; ELIA, M. Pierre Lucie: Professor e educador de cientistas . Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2010.
BAZIN, M. J. Mestre Pierre Henri Lucie (1917-1985). Revista Brasileira de Ensino de Física , v. 7, n. 1, p. 3-8, 1985.
BEZERRA, E. V. L. O Livro Didático de Pierre Lucie . Curitiba: PUCPR, 2016. 72 p. TCC (Especialização em Materiais Didáticos no Ensino de Ciências e Matemática) - Escola de Educação e Humanidades. Pontifícia Universidade Católica do Paraná, Curitiba, 2016.
LUCIE, P. H. Física com Martins e Eu: Introdução à física, cinemática . Rio de Janeiro: Raval Artes Gráficas LTDA, 1969. v. 1.
LUCIE, P. H. Física com Martins e Eu: Dinâmica da partícula . Rio de Janeiro: Raval Artes Gráficas LTDA, 1970. v. 2.
MARTINS, R. d. A. 'Física com Martins e eu' por Pierre Lucie, com ilustrações de Henfil . 2015. Disponível em: <www.academia.edu/4811797>. Acesso em: 11 dez. 2015.
OLIVEIRA, C. A. S. d. Pierre Lucie, um educador completo. In: BARROS, S. d. S.; ELIA, M. (Ed.). Pierre Lucie: Professor e educador de cientistas . Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2010. p. 53-56.
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RIBEIRO, S. C. Pierre Henri Lucie. In: BARROS, S. d. S.; ELIA, M. (Ed.). Pierre Lucie: Professor e educador de cientistas . Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2010. p. 280-282.
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Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.