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RECONVERSÕES ENTRE O CAPITAL SOCIAL E O CAPITAL CULTURAL ESCOLAR: TENSÕES E NEGOCIAÇÕES ENTRE O SABER ESCOLAR E O SABER POPULAR

Aliny Tinoco Santos, Thiago Vasconcelos Ribeiro, Ângelo Antônio Santos De Oliveira, Letícia Nunes Andreatta, Ualyson Toledo Carmo, Luiz Gonzaga Roversi Genovese

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXII
Ano
2017
Data
25/01/2017
Linha de pesquisa
Formação De Professores E Prática Docente
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## RECONVERSÕES ENTRE O CAPITAL SOCIAL E O CAPITAL CULTURAL ESCOLAR: TENSÕES E NEGOCIAÇÕES ENTRE O SABER ESCOLAR E O SABER POPULAR

Aliny Tinoco Santos , Thiago Vasconcelos Ribeiro , Ângelo Antônio Santos de 1 2 Oliveira , Letícia Nunes Andreatta , Ualyson Toledo Carmo , Luiz Gonzaga 3 4 5 Roversi Genovese 6

1 Colégio Estadual João Barbosa Reis/Colégio Estadual Novo Horizonte, alinytinoco@gmail.com

2

PGP-Colégio Estadual João Barbosa Reis, thiago.v.ribeiro@live.com

3 Instituto de Física-UFG, PGP-Colégio Estadual João Barbosa Reis, angelosantos66@gmail.com 4 Instituto de Física-UFG, PGP-Colégio Estadual João Barbosa Reis, letyfisica@gmail.com

5 Instituto de Física-UFG, Colégio Estadual João Barbosa Reis, Instituto de Física-UFG, ualysontc@gmail.com

6 Programa de Pós-graduação em Educação em Ciências e Matemática- UFG, Instituto de FísicaUFG, lgenovese@ufg.br

## Resumo

O presente trabalho apresenta e discute algumas ações pedagógicas coordenadas por um Pequeno Grupo de Pesquisas (PGP) em uma escola pública localizada na periferia da região metropolitana de Goiânia. As ações, que consistiram na organização e realização de uma feira de ciências, tiveram como objetivos estabelecer o diálogo com a cultura popular que permeia aquela região e que se faz presente nos alunos que ali estudam e, ainda, dar um encaminhamento adequado ao problema de desvalorização excessiva da cultura escolar, e do capital cultural escolar a ele associado, percebida pela professora formadora e pelos demais membros do PGP. As discussões aqui apresentadas sinalizam para algumas reconversões do capital social valorizado e acumulado na escola em formas particulares de capital cultural. O capital cultural reconvertido apresentou características próprias da cultura popular, tais como a valorização da prática, dos conhecimentos inerentes ao saber-fazer e da transformação concreta da realidade próxima aos alunos o que potencializou o processo de ensino e aprendizagem vivenciado pelos alunos.

Palavras-chave : Feira de Ciências; Pequeno Grupo de Pesquisas; cultura popular; capital cultural; capital social;

## Introdução

O Colégio Estadual João Barbosa Reis (JBR), um colégio público localizado na região metropolitana de Goiânia, à maneira das escolas localizadas em ditas 'regiões afastadas' - afastada fisicamente dos grandes centros e afastada simbolicamente de bens e serviços materiais e/ou sociais de qualidade - precisa lidar constantemente com diversos conflitos e tensões que emergem tanto do contexto social em que está inserida e da qual faz parte, quanto do contexto particular que a escola constrói e é levada a construir devido ao seu papel social e as suas demandas específicas.

Do contexto social há de se destacar a presença da cultura popular, marcada fundamentalmente pela necessidade da sobrevivência, pela escassez de recursos - tanto materiais quanto simbólicos - e pela dificuldade em se vislumbrar/ planejar o futuro (BOURDIEU, 2008; 2010a). Caracterizada por uma forma de 'imediatismo', na cultura popular prevalece o saber prático - o saber-fazer considerado útil ao encaminhamento das problemáticas, sempre urgentes, que

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23 a 27 de janeiro de 2017

emergem naquela região. Esse saber prático caracteriza o conhecimento e os modos de conhecer das classes populares (FREIRE; NOGUEIRA, 2014). Dessa forma, são valorizados os bens materiais e/ou simbólicos percebidos como úteis em um plano imediato, prático e funcional, sendo rejeitados o supérfluo, o teórico ou abstrato. Daí decorre a latente desvalorização da cultura escolar em suas manifestações tradicionais e legitimadas no espaço social.

A cultura dominante, por sua vez, diferencia-se da cultura popular exatamente pelo distanciamento às demandas e/ou necessidades práticas cotidianas, sendo valorizadas as manifestações abstratas, a estética refinada e o aprofundamento teórico, que os afastam (portanto, valorizam) da cultura e do acesso populares. São produzidas, assim, conhecimentos e formas de conhecer distintas das produzidas pela cultura popular, seja pela forma, seja pelos interesses ali associados. A escola, enquanto instituição legítima de reprodução do arbitrário cultural dominante (BOURDIEU, 2010b), tende a reproduzir uma parte significativa dessa cultura dominante que impõe e exige certo distanciamento em relação ao mundo concreto e às necessidades materiais imediatas. Logo, dependendo da realidade social em que a escola está inserida e com a qual lida, podem emergir inúmeras tensões e conflitos decorrentes das diversidades de interesses e necessidades que ali convergem.

Com efeito, as escolas populares são permeadas pelos conflitos proporcionados pela tensão permanente entre a cultura escolar - marcada pela valorização do abstrato, do idealizado, do formalismo e da linguagem elaborada (escrita formal) - e a cultura popular - marcada pela valorização do concreto, da necessidade imediata, da prática, da linguagem falada (oralidade). Nesses contextos, cada escola (constituída pelo corpo docente, gestores, funcionários administrativos, etc.) constrói sua forma particular de lidar com os problemas surgidos dessa relação e com o JBR não é diferente. Nesse sentido, o presente texto, num primeiro momento, caracteriza minimamente as formas construídas pelos agentes do JBR para lidar com os problemas decorrentes tensão cultura escolar/cultura popular e, posteriormente, são apresentadas e discutidas as estratégias empregadas por um Pequeno Grupo de Pesquisas que atua no JBR (PGP-JBR) que procuraram dar um melhor encaminhamento à essa relação naquele contexto em específico.

## O Contexto Escolar

O Colégio Estadual João Barbosa Reis (JBR) é uma unidade de ensino que enfrenta grandes desafios. Está localizado na região metropolitana de Goiânia, em um bairro de periferia da cidade de Aparecida de Goiânia e sua distância geográfica da capital do estado de Goiás reflete na demora para que as informações e recursos cheguem a essa escola. Oferece as modalidades de ensino fundamental de ciclo II e ensino médio no período matutino, ensino fundamental de ciclo II no período vespertino e ensino médio e Educação de Jovens e Adultos (EJA) no turno noturno.

Para caracterizar a escola é preciso compreender que o espaço social formado por uma escola ou conjunto de escolas não pode ser pensado isoladamente, mas sim como sendo um campo de forças relativamente autônomo, que segundo Genovez (2008), se caracteriza, por exemplo, pelo tipo de financiamento privado ou público, localização geográfica da escola e ainda pelas características dos alunos e dos professores. Podemos ainda destacar que tal Campo escolar é estruturado pela distribuição e hierarquização das escolas e dos

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professores segundo sua autonomia sobre às forças exercidas por exemplo pelos campos econômico, político ou religioso, o que acarreta em conflitos pela manutenção ou transformação desse campo de forças, dentre outros fatores. Por sua vez cada escola possui uma estrutura semelhante de manutenção e hierarquização que a caracteriza como um subcampo, denominado Campo da escola , de modo que a posição de cada professor é definida pelo ajustamento mais ou menos conflituoso entre a estrutura do campo e os sistemas duráveis construídos pelo professor a partir de suas práticas, pensamentos e representações do mundo, denominados de habitus do Homo magister (GENOVESE & CARVALHO, 2012). Este habitus é responsável por delineiar o acúmulo de poderes distintivos que compõem o capital docente (GENOVEZ, 2008), que se apresenta como capital cultural escolar , que é formado por conhecimentos, linguagens, competências, títulos, posturas, formas de pensamentos, posse de livros, dentre outras aquisições legitimadas pelo campo escolar, ou como capital social , que é representado pela capacidade do agente em estabelecer, manter e mobilizar relações interpessoais.

Os alunos do JBR, em sua maioria, apresentam dificuldades com a leitura, a escrita e com o formalismo matemático mais abstrato, ou seja, apresentam pouca ou nenhuma afinidade com a cultura escolar. A presença marcante das características da cultura popular, potencializadas pelas recorrentes ausências que afetam aquela região atua diretamente todo o processo de ensino e aprendizagem dos alunos, tornando-o custoso devido à pouca ou nenhuma afinidade dos mesmos com os conhecimentos e formas de conhecer característicos da cultura escolar. Como estratégia de enfrentamento dessas dificuldades, o JBR procura envolver os alunos nas atividades escolares através da constante valorização da cultura popular. Para estimular a participação dos alunos a escola realiza muitos eventos que estimulam principalmente as habilidades práticas/manuais dos mesmos, como por exemplo show de talentos, dia do folclore, dia da consciência negra e show da primavera, e todos esses quase sempre com a mesma dinâmica, ou seja, confecção de cartazes e apresentações musicais e/ou teatrais no pátio da escola. Logo, a valorização do capital social consiste em uma estratégia de enfrentamento dos conflitos que emergem na escola decorrentes das contínuas tensões existentes entre a cultura escolar e a cultura popular. O capital social, na forma com que é cultivado no JBR, carrega a oralidade, o imediatismo e a urgência do contexto da região, prioriza as relações sociais e os bens materiais e/ou simbólicos práticos, úteis e funcionais, convergindo os valores considerados importantes pelas pessoas que ali vivem.

Entretanto, um dos problemas associados a essa estratégia desenvolvida pelo JBR e percebido pela professora formadora do PGP que atua na escola (a professora de Física e Matemática da presente escola), consiste na valorização excessiva desses eventos que, por sua vez, proporciona um acúmulo excessivo de capital social na escola e, por fim, descaracteriza o ato pedagógico em si. Ou seja, ao procurar envolver os alunos nas atividades escolares, o JBR procurou valorizar a cultura popular por meio da valorização e do investimento em capital social na instituição (seja de seus docentes, seja da equipe gestora), mas, em contrapartida, proporcionou também uma desvalorização da cultura escolar (e do capital cultural escolar a ele associado) o que impacta no processo educativo de seus alunos.

Diante disso, foi utilizado como estratégia de enfrentamento dos problemas percebidos no JBR a construção de um Pequeno Grupo de Pesquisa nesta escola (PGP-JBR) que possui uma estrutura favorável ao trabalho colaborativo e conta com a professora formadora da escola, um professor formador voluntário, estagiários do

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curso de Licenciatura em Física da Universidade Federal de Goiás e bolsistas do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID). Dentre as ações empregadas pelos agentes do PGP-JBR buscou utilizar um evento de forte mobilização social na escola - a Feira de Ciências - para tentar realizar uma forma de reconversão do capital social cultivado na escola em capital cultural e, assim, contribuir de forma significativa para a formação dos alunos do JBR.

Buscou-se analisar tal estratégia a partir de uma pesquisa de cunho qualitativo, o que se faz coerente devido à necessidade de dados descritivos, como por exemplo, a descrição dos sujeitos, reconstrução de diálogos, descrição de locais, de eventos especiais, das atividades e do comportamento do próprio observador. As coletas de dados foram realizadas através de gravações de áudio das reuniões realizadas entre os estagiários e professores formadores, alunos e professores da escola, além de notas de campo elaboradas pela professora formadora e relatos escritos pelos alunos após a realização da feira de ciências (BOGDAN e BIKLEN, 1994).

## Resultados e Discussões

A feira de ciências, enquanto atividade extracurricular, tem o propósito de estimular a cultura científica na escola e exige organização, interesse e participação dos alunos. Por esse motivo, a realização de uma feira de ciências foi a estratégia escolhida pelos professores formadores e estagiários do PGP-JBR para se desenvolver uma intervenção apropriada para lidar com os problemas decorrentes tensão cultura escolar/cultura popular presentes na escola. O planejamento da feira de ciências iniciou-se no primeiro bimestre do ano letivo de 2016. Após algumas reuniões de planejamento com os membros do PGP foram delineadas algumas estratégias para a realização do evento. Dentre as decisões tomadas a principal se referia à inclusão dos alunos como participantes efetivos da execução da feira por meio das apresentações, da organização do evento e das avaliações das apresentações dos próprios colegas. No início de fevereiro, foi feita a apresentação da proposta para todas as turmas da escola, na intenção de consultar as opiniões dos alunos sobre a realização de uma feira de ciências. Muitos deles relataram que sequer sabiam como era uma feira de ciências, como foi o caso do aluno do 1º ano que relatou:

A1: 'Aqui na escola nunca teve uma feira de ciências. Estou aqui a nove anos e nunca participei de uma coisa dessas, nem sei muito o que eu tenho que fazer. Mas pelo que eu estou escutando deve ser legal, por isso eu quero que tenha essa feira de ciências aqui'.

Após essa discussão de ideias inicial com os alunos a proposta foi apresentada aos demais professores durante a reunião de discussão do Projeto Político Pedagógico da escola, ocorrida no dia 26 de fevereiro. A proposta, conforme esperado, foi bem recebida pelos demais professores da instituição, adquirindo reconhecido e destaque no calendário escolar de tal forma que foi inserido na redação do PPP. A apresentação da proposta convidou, ainda, os professores para elaborar e desenvolver algum tipo de oficina que pudesse orientar os alunos para a apresentação durante a feira de ciências.

Nos meses seguintes foram dedicados a organização e preparação dos alunos que, divididos em grupos, realizaram o processo de pesquisa e escolha do tema e do experimento a ser apresentado. Durante o processo de preparação das apresentações, cada grupo foi responsável por apresentar a sua experiência para a

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turma, para os professores e para os estagiários. Nesses momentos foram problematizadas as informações apresentadas pelos alunos e discutidas algumas sugestões de melhorias que poderiam ser feitas aos projetos desenvolvidos pelos grupos. A cada apresentação a professora formadora aproveitava o experimento proposto pelos alunos para explicar para toda a turma os fenômenos observados, como por exemplo os alunos do segundo ano que estavam estudando conceitos de física térmica e escolheram o experimento de cortar uma garrafa de vidro com barbante:

A2: 'Professora, tentamos fazer em casa e deu certo, mas não foi com todas. Vamos tentar fazer aqui, mas não entendemos ainda o que está acontecendo, só entendemos que tem alguma coisa a ver com o que a senhora estava explicando sobre o dilatar e contrair'.

Tal experimento permitiu exemplificar os conceitos de condução e dilatação térmica. Na mesma turma ainda houve um grupo que escolheu fazer nuvens em garrafas que permitiu trabalhar o estudo dos gases, e outro que fez uma cachoeira de fumaça que demostrava a convecção térmica. Nesse período aconteceram também algumas oficinas ministradas pelo professor de matemática sobre montagem e manutenção de computadores junto a alunos de uma turma de 8º ano do ensino fundamental. Aqui foram realizadas as tentativas iniciais de reconversão do capital social fomentado pelo evento em alguma forma de capital cultural, onde aproveitouse os momentos de socialização das ideias e dos planejamentos realizados pelos grupos para a construção de uma forma mais elaborada de conhecimento. A ênfase no trabalho prático , característico das atividades experimentais com materiais alternativos, se mostrou mais efetivo para a mobilização dos alunos com o seu processo de aprendizagem.

Próximo da data da feira de ciências, cerca de 15 dias antes, os alunos confeccionaram convites, cartazes e crachás que seriam utilizados para ornamentação e organização do evento que inicialmente estava previsto para acontecer no dia 3 de junho. Entretanto uma semana antes do evento os coordenadores chamaram a professora formadora para negociar um adiamento pois a diretora (D) e as coordenadoras (C1) e (C2) não poderiam estar presentes na escola na data que estava marcada para o evento. A professora formadora então decidiu, junto ao demais integrantes do PGP, consultar a opinião dos alunos sobre o assunto, se os mesmos desejavam ou não mudar a data de realização da feira de ciências, mas deixando claro que as responsabilidades de todos aumentariam. Foi unanime a decisão dos alunos em manter a data e muitos alunos se pronunciaram contra a interferência da coordenação:

A3: 'É um absurdo professora, os experimentos estão prontos, nós já estamos nos preparando faz tempo e agora querem mudar a data. Não mesmo. Nós vamos mostrar que damos conta de fazer a feira de ciências sem a presença a C1 e da (D)'.

Nesse momento, a equipe do PGP percebeu o quanto os alunos estavam engajados no processo e o quanto se sentiam realmente parte daquilo que estava ocorrendo. Diante disso a feira de ciências aconteceu no dia 3 de junho com a participação dos alunos que apresentaram seus experimentos para toda a escola.

Durante as apresentações da feira de ciências foi possível perceber toda a evolução ocorrida durante o processo de construção do evento até se chegar àquele momento. As apresentações e as explicações dos alunos estavam mais elaboradas e sistematizadas, quando comparadas às suas formas inciais,

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presenciadas durante as aulas. A proposta conseguiu dialogar de forma significativa com todo aquele conhecimento prático que os alunos carregavam consigo e que foram efetivamente ativados em determinadas situações como, por exemplo, para o refinamento do aparato experimental - desvinculando-se muitas vezes dos roteiros inicialmente pesquisados - realizados por iniciativa dos próprios alunos, com a introdução de pequenos motores elétricos reaproveitados para a produção de movimento e a sua utilização junto a carregadores de celular, reaproveitados aqui com a finalidade de diminuir a tensão fornecida pela rede elétrica para o experimento e diminuir os riscos de acidentes associados à sua execução. Soluções práticas semelhantes foram presenciadas em experimentos realizados por outros grupos como, por exemplo, o grupo que apresentou sobre a produção de pólvora. Além de expor os compostos necessários para a sua produção, a demonstração de queima do produto era realizada utilizando-se os raios solares convergidos por meio de uma lupa - segundo os alunos do grupo, essa solução foi adotada com a finalidade de diminuir os custos com fósforos para a realização da queima da pólvora. Durante todo o processo de preparação e de apresentação dos trabalhos, os alunos conseguiram, de fato, construir conhecimentos significativos que se aproximaram daqueles fomentados pela cultura escolar, articulando diversos conceitos científicos mais elaborados em problemas práticos reais a fim de viabilizar seus experimentos de uma forma mais adequada e interessante, ajustando-os a um determinado contexto.

Nos dias seguintes os alunos foram consultados e produziram textos sobre como os mesmos avaliavam a feira de ciências. Alguns alunos relataram suas expectativas e impressões e ainda demostraram como se sentiam parte do evento:

A4: 'Quando estava organizando não fui muito com a ideia, achei que iria sair ruim, mas quando cheguei, fiquei muito impressionado [...]. Acho que todos os alunos estão de parabéns porque teve trabalho em equipe e muita participação de cada grupo. E o mais legal da feira é que mostramos para coordenadores e professores que nós podemos nos comportar e organizar algo que foi tão legal'.

Essa sensação de integração com a feira de ciência pôde acontecer devido ao tipo de capital que inicialmente foi mobilizado para realizar a intervenção, uma vez que estes alunos já estavam familiarizados com eventos que valorizavam o acúmulo de capital social - que quase sempre conta apenas com a reprodução das ideias trazidas pelos professores. A busca por reconverter esse capital acarretou no afastamento de alguns professores, entretanto permitiu que os alunos buscassem mais do que a simples integração social, tornando possível a busca por alguma forma de conhecimento tanto para a apresentação de seus experimentos, como para a organização da feira, o que raramente é o foco dos eventos deste colégio.

Outros alunos ainda perceberam a participação ou a falta da participação de parte do corpo docente durante as apresentações, e ainda destacaram a presença do professor da universidade no dia da feira, como relata outro aluno:

A5: 'A feira foi muito boa e proveitosa apesar de ficarmos com medo porque a coordenadora e a diretoria foram fazer curso e a outra coordenadora saiu para fazer uma cirurgia. [...] Mas alguns professores que não ajudaram suas turmas, foram para a lanchonete comer em vez de dar apoio e ajudar sua turma com a limpeza. [...] E ainda um professor de física vir do campus samambaia da UFG, aqui para Aparecida, para ver nossos experimentos e encontrar água em óleo com pastilha efervescente num copo é bem vergonhoso'.

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Fica evidente que os alunos percebem o desinteresse de alguns professores e coordenação em relação a atividade que eles mesmos estavam organizando. Isso ocorre porque a reconversão de capitais operada não foi compreendida ou valorizada por todos os professores de maneira igual. Por outro lado, a presença de uma pessoa externa ao contexto escolar fizeram os alunos perceberem que o conteúdo que eles estavam apresentando era tão importante quanto a socialização em si, tal qual estavam acostumados a realizar, acarretando em uma preocupação com a forma desse conteúdo também, ou seja, os alunos começaram a perceber e a valorizar os capital cultural mobilizado e evidenciado através da realização da feira de ciências.

Por fim, muitos alunos também destacaram os trabalhos que mais os impressionaram e que possibilitaram um tipo diferente de (re)conhecimento, além de desabafarem sobre os preconceitos que os mesmos sofrem no próprio cotidiano escolar, muitas vezes evidenciado pelo distanciamento que os mesmos se encontram da cultura escolar legítima e a escassez do próprio capital cultural escolar na instituição, o que leva, muitas vezes, os alunos a duvidarem de sua capacidade em realizar ações mais elaboradas:

A6: 'A feira realizada me proporcionou vários conhecimentos. Foi bom ter apresentado primeiro para a professora para ter uma ideia a mais de como lidar com a apresentação no dia. [...] Essa não podia ser a única feira de ciências no JBR mas tem que acontecer no ano que vem porque podemos trazer mais curiosidades, experimentos legais, aprender mais de física, química e biologia em um evento como este que envolve diversão e aprendizagem. [...] Ainda mais porque o nosso colégio é de periferia e muitas pessoas tem preconceito com o setor e a feira de ciências mostrou que independente do que nós somos ou onde estamos, somos capazes de conseguir'.

Os avanços realizados nesta feira de ciências representaram muito para esses alunos, na medida em que conseguiram perceber o quanto lhes era negado um contato mais ativo e elaborado com certas manifestações de capital cultural, por este não ser muito valorizado por essa escola. É evidente que esta não foi uma experiência que promoveu o capital cultura escolar em sua forma legítima - o que não consistia no objetivo da proposta de fato - mas permitiu sinalizar formas de negociação e reconversão deste capital com a cultura popular, própria dos alunos. Desse modo, os alunos conseguiram se enxergar capazes, conseguiram perceber os conhecimentos construídos durante todo o processo de organização da feira, um conhecimento distinto do conhecimento escolar tradicional, valorizando a oralidade e a prática como norteadores das atividades dos alunos e professores.

## Considerações Finais

A feira de ciências realizada no Colégio Estadual João Barbosa Reis consistiu em uma estratégia empregada pelo PGP que atua na escola para proporcionar um melhor encaminhamento às tensões existentes naquele contexto entre a cultura popular e a cultura escolar. As formas construídas pela escola para lidar com essas tensões incomodaram a professora formadora do PGP, que identificou ali um problema que necessitava ser trabalhado. De fato, as ações coletivas da escola privilegiavam, e ainda privilegiam, em demasia o acúmulo de capital social, tornando a cultura escolar um elemento não central nas práticas escolares extracurriculares. Dessa forma, a feira de ciências foi uma estratégia utilizada num primeiro momento para mobilizar alunos e professores para a realização de um objetivo em comum e, posteriormente, para se tentar realizar uma

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reconversão do capital social, cultivado e valorizado na escola, em uma forma capital cultural e, assim, operar contribuições significativas para a formação dos alunos.

Entretanto, há de se destacar aqui que a presente reconversão não ocorre de forma integral. Quer dizer, o capital cultural reconvertido durante a construção e execução da feira de ciências não possui todas aquelas características do capital cultural escolar tradicional historicamente legitimado (aquele que produz um conhecimento teórico, abstrato, idealizado, formalizado em uma linguagem elaborada específica, etc.). Trata-se de um capital cultural intimamente ligado à cultura popular, que carrega consigo todas as suas características marcantes como a valorização da prática, dos conhecimentos inerentes ao saber-fazer e à transformação concreta de objetos próximos aos alunos e que se mostraram capazes de potencializar diversas aprendizagens ao longo do processo realizado.

- O trabalho educativo em escolas localizadas em regiões populares se modifica e se ajusta de acordo com o contexto social e cultural em que se produzem os seus enfrentamentos cotidianos. A desvalorização do capital cultural presenciado pela professora formadora nesta escola em específico, é reflexo tanto do afastamento (físico e simbólico) da comunidade escolar (alunos e professores) em relação aos valores reconhecidos como dominantes, quanto da dificuldade que a própria escola tem em se reconhecer e ser reconhecida como formadora de cidadãos. Logo, dentro desse contexto de ausências, alternativa encontrada para se manter o interesse dos alunos pela escola quase que exclusivamente prioriza a construção e a manutenção de relações sociais entre alunos e professores. Nesse sentido, a proposta da feira de ciências teve a intenção de realizar um enfrentamento dessa realidade, partindo de algo que a escola já valorizava (o capital social) e atribuindo-lhe um olhar e uma atitude mais crítica, ao se preocupar a todo instante com a formação que estava sendo construída com os alunos, e estabelecendo uma relação intima com a cultura própria desse aluno, a cultura popular, e toda uma forma de conhecimento e de se conhecer a ela intrínseca, a fim de se construir um conhecimento científico que relativamente se aproxima do conhecimento produzido pela cultura escolar, mas que possui características específicas que o tornam mais significativo para aquele público.

## Referências

BOGDAN, R.; BIKLEN, S. Investigação qualitativa em educação. Porto: Porto, 1994.

BOURDIEU, P. A distinção : a crítica social do julgamento. São Paulo/Porto Alegre: Edusp/Zouk, 2008.

BOURDIEU, P. (Org.). A Miséria do Mundo . Petrópolis: Vozes, 2010a.

BOURDIEU, P. A Reprodução. Petrópolis: Vozes, 2010b.

FREIRE, P.; NOGUEIRA, A. Que fazer: teoria e prática em educação popular. Petrópolis: Vozes, 2014.

GENOVEZ, L. G. R. Homo magister: conhecimento e reconhecimento de uma professora de ciências pelo campo escolar. 229 f. Tese (Doutorado em Ensino de Ciências) Faculdade de Ciências, UNESP, Bauru, 2008.

GENOVESE, L. G. R. ; CARVALHO, W. L. P. A construção dos Campos Escolar e da Escola e do Capital Docente de uma professora de ciências: contribuições do corpus teórico de P. Bourdieu. In: Orquiza de Carvalho, L. M.; Carvalho, W. L. P. (Org.). Formação de Professores e Questões Sócio-Científicas no Ensino de Ciências . São Paulo: Escrituras, 2012, v. 13, p. 12-25.

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23 a 27 de janeiro de 2017

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