O PROCESSO DE ESCOLHA DO LIVRO DIDÁTICO DE CIÊNCIAS: A VISÃO DO PROFESSOR
Carlos Wagner Vieira De Calais, Maria Inês Martins
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXII
- Ano
- 2017
- Data
- 25/01/2017
- Linha de pesquisa
- Formação De Professores E Prática Docente
- Tipo
- Comunicação
Abrir o PDF original ↗ Baixar referência .bib Ver todos do SNEF 2017
Texto completo
## O PROCESSO DE ESCOLHA DO LIVRO DIDÁTICO DE CIÊNCIAS: A VISÃO DO PROFESSOR
## Carlos Wagner Vieira de Calais 1 Maria Inês Martins 2
1 Centro Universitário UNA/Instituto Politécnico/ UNA, carlos.vieira@una.com.br 2 Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais/Mestrado/PUC-Minas, ines@pucminas.br
## Resumo
A presente investigação com docentes de ciências compõe uma pesquisa sobre a abordagem tipológica dos conteúdos da Física em livros didáticos (LD) de Ciências, distribuídos pelo Programa Nacional do Livro Didático, edição de 2014 (PNLD 2014). Foram envolvidos vinte e cinco professores de Ciências Naturais das séries finais do ensino fundamental, de escolas públicas de Belo Horizonte. Visando obter maior clareza quanto à participação destes professores no processo de escolha do livro didático do Programa Nacional do Livro Didático, buscou-se investigar e compreender: o envolvimento dos docentes no processo de escolha do livro didático de Ciências Naturais indicados pelo Programa Nacional do Livro Didático, o uso e a importância atribuída ao Livro Didático, o grau de entendimento quanto ao Programa Nacional do Livro Didático e nível o envolvimento e investimento das escolas no processo de escolha. Observou-se que apesar do papel do professor no processo de escolha do LD ser o mais importante, a atuação da escola é essencial. Além de disponibilizar todas as ferramentas necessárias, como o Guia de Livros Didáticos (GLD) e todas as coleções aprovadas no PNLD, é função da escola viabilizar a participação efetiva do corpo docente, democratizando o processo e garantindo a escolha da coleção mais adequada.
Palavras-chave: Livro didático de Ciências. PNLD 2014. Escolha do livro didático.
## Seleção e uso do livro didático de Ciências
Diversas pesquisas [BARCELOS e MARTINS (2011); PRADO (2013); PAVÃO (2006); SIGANSKI et al . (2008); ZABALA (1998)] mostram a relevância do LD na prática docente e a importância que se deve atribuir ao seu processo de escolha. Inúmeros são os trabalhos que buscam analisar a evolução desse recurso e como o livro didático vem contribuindo para a construção do conhecimento científico.
Com isso, a escolha do LD se firma como um processo pedagógico importante na construção do projeto educacional escolar e docente. É por meio de uma escolha consciente, na qual se deve levar em consideração a realidade social, cultural e vivencial do aluno, que o LD, como instrumento pedagógico, exerce a função primordial de desenvolver a partir da realidade cotidiana saberes contextualizados. Para Pavão (2006, p.4) é importante lembrar que o LD é:
uma mercadoria do mundo editorial, sujeito às influências sociais, econômicas, técnicas, políticas e culturais como qualquer outra mercadoria que percorre os caminhos da produção, distribuição e consumo. Portanto, é preciso muito cuidado na escolha do livro.
Nesse sentido, a seleção do LD pelo professor não deve seguir como único critério a apresentação e a forma como os conteúdos são contemplados e estão distribuídos. A escolha do LD deve, portanto, ser cuidadosa, prevalecendo a qualidade, a utilidade e a possibilidade de adequá-lo ao contexto social e cultural dos alunos, visando potencializar ao máximo a aprendizagem. Em suma, entende-se que uma escolha adequada do LD deve considerar uma reflexão sobre a realidade escolar, além de uma análise criteriosa dos aspectos técnicos e pedagógicos.
Entretanto, para Siganski et al. (2008, p.7), a não adoção de um LD pode deixar o aluno sem um referencial e exposto aos erros que podem ocorrer na transmissão de conceitos, pois seu conhecimento fica limitado às apostilas ou apenas ao conteúdo apresentado pelo professor. Para os autores, o LD possui um expressivo significado para o aluno e é, sem dúvida, um grande suporte ao professor em suas explicações, principalmente quando não conta com outros recursos pedagógicos, como laboratórios, salas de áudio e vídeo. Assim, o LD deve ser acessível aos alunos e coerente com a sua faixa etária, pois é para muitos o único recurso disponível.
Apesar da importância inegável do uso do LD, convém ao professor de Ciências incorporar outros recursos pedagógicos também capazes de contribuir para um aprendizado significativo e prazeroso. Sobre esse aspecto Zabala (1998, p.176) tece as seguintes considerações:
Nossa tarefa prioritária como educadores não consiste na confecção de materiais que devem nos ajudar a desenvolver as atividades educativas. A tarefa de ensinar envolve ter presente uma quantidade enorme de variáveis, entre elas as que nos indicam as necessidades particulares de cada menino e menina e de selecionar as atividades e os meios que cada um deles necessita [...]. O fato de ter que utilizar materiais elaborados por outros não significa uma dependência total, nem a incapacidade de confeccionar os materiais necessários quando a oferta do mercado não se ajusta às necessidades que queremos atender.
## Pesquisa com docentes
Realizou-se a investigação com os professores de Ciências Naturais das séries finais do ensino fundamental, visando obter maior clareza quanto à sua participação no processo de escolha do livro didático do PNLD. Procurou-se investigar as seguintes questões: o tempo de experiência docente no ensino público; o grau de conhecimento do PNLD e do Guia de Livros Didáticos (GLD); a participação e a percepção sobre o processo de escolha do LD; a importância e a utilização do LD na prática docente e a organização da escola para execução do PNLD.
Optou-se por uma pesquisa empírica, buscando responder a essas questões. Segundo Demo (2000, p. 21), esse tipo de pesquisa 'produz e analisa dados, procedendo sempre pela via do controle empírico e fatual', o que permitiu obter resultados a partir da experiência de quem vivencia o processo, no caso, o professor. Elaborou-se um questionário composto por 12 questões fechadas e 2 questões abertas. As questões fechadas tiveram a finalidade de traçar, de modo geral, um perfil do professor quanto ao entendimento do PNLD, à participação no processo de escolha, à utilização e ao grau de importância atribuído ao LD, a fim de compreender como a escola organiza e executa o PNLD. As questões abertas visavam conhecer um pouco mais de perto os parâmetros que os professores utilizam para a escolha do LD e obter sugestões para aprimorar o processo de escolha.
Os critérios adotados para participação na pesquisa foram: ser professor de Ciências Naturais das séries finais do ensino fundamental; atuar na rede pública de ensino estadual ou municipal em Belo Horizonte; e ter participado do PNLD 2014. Identificados os possíveis participantes, fez-se um convite informal e o questionário foi aplicado diretamente ao professor participante, sem a intermediação da escola ou de outro órgão. A pesquisa foi realizada com 25 professores de 5 diferentes escolas. Os participantes foram nominados de Professor 1 (P1) a Professor 25 (P25). Os resultados desta investigação estão apresentados através dos gráficos a seguir.
Fonte: Dados da pesquisa
<!-- image -->
Visto que mais da metade dos pesquisados (60%) possuem acima de 10 anos de experiência, pressupõe-se que a maioria teve a oportunidade de participar de mais
de uma edição do PNLD. Entretanto, 72% afirmam conhecer parcialmente o Programa, o que sugere pouco investimento em campanhas de divulgação ou pouco interesse do professor em se inteirar do programa, pois o MEC disponibiliza em seu site todas as informações necessárias para que os docentes possam se preparar adequadamente para o processo de escolha do LD. Outro dado, talvez o mais relevante para este trabalho, aponta que metade dos entrevistados desconhece o GLD, sugerindo que nem todas as escolas o disponibilizam e nem todos os professores buscam conhecer essa importante ferramenta, essencial para o processo de escolha, por permitir uma visão geral de cada obra. Quanto à participação nos encontros para escolha do LD, 48% afirmaram não terem participado de todos os encontros. Considerando que a maioria possui mais de 10 anos de docência, esse dado reforça o possível tímido investimento em campanhas de divulgação do Programa, a falta de organização das escolas na sua promoção, ou o baixo interesse do professor em participar ativamente do processo.
Gráfico 2 Envolvimento da escola no PNLD, na visão do professorFonte: Dados da pesquisa
<!-- image -->
Os resultados apresentados no gráfico 3 confirmam, na visão do professor, o módico investimento das escolas no PNLD. Segundo os entrevistados, a maioria não elege um responsável para conduzir ou organizar o Programa. Mais de 50% não disponibilizam o GLD e quase 80% nem mesmo disponibilizam as obras para que os professores possam analisá-las durante o processo de escolha. Outro dado importante apontado pelos professores entrevistados, é o baixo grau de promoção do Programa nas escolas, também identificado no gráfico 2. Apesar de 60% declararem que a escola promove a participação dos professores no processo de escolha do LD, ainda há uma parcela que discorda. Os resultados aqui obtidos permitem inferir que a falta de investimento no Programa pode ser uma das causas que explica o fato de 72% dos professores entrevistados afirmarem desconhecer detalhes do PNLD.
Ao pensar na relevância do LD de Ciências como instrumento pedagógico e,
geralmente, segundo Pavão (2006, p. 3), como 'a única referência para o trabalho do professor', reforça a importância que se deve atribuir ao processo de escolha, cuidando para que a escolha do LD seja criteriosa, de forma a privilegiar unicamente o aprendizado do aluno. Para isso, é preciso evitar a subjetividade e o comodismo em adotar, como único critério, a apresentação ou a forma como os conteúdos estão dispostos, evitando a tendência em eleger sempre a mesma coleção. O gráfico 3 permite uma análise da relação entre o trabalho do professor e o uso do LD, assim como do seu posicionamento diante do processo de escolha.
Gráfico 3 Escolha e uso do livro didáticoFonte: Dados da pesquisa
<!-- image -->
Embora a análise dos dois primeiros gráficos indique a necessidade de escolas e professores se organizarem melhor quanto à execução do Programa, os resultados apresentados no gráfico 3 mostram que o professor é consciente quanto à escolha e ao uso do LD. Quase 60% dos entrevistados apontam o LD como um importante instrumento, mas não o único. Esse número sugere que a maioria dos docentes utiliza outros recursos, além do LD, na construção do aprendizado de seus alunos. Pôde-se também verificar que quase a totalidade dos entrevistados demonstra considerar outras propostas de LD, fugindo da tendência em eleger sempre a mesma coleção. Esse dado
indica que há uma preocupação dos docentes em buscar uma coleção mais adequada às demandas de seus alunos. A pesquisa também revela que mais da metade dos professores trabalha as atividades propostas nos LD, facultando o entendimento de que, mesmo não intencionalmente, os conteúdos conceituais, procedimentais e atitudinais são trabalhados pelos docentes com seus alunos.
Para a maioria dos professores, conforme trechos de alguns relatos, a escolha do LD deve ser pautada:
no conteúdo, de acordo com a ordem das séries da escola, com exercícios no nível que atenda as demandas dos professores e alunos, com figuras e imagens claras (P9);
na apresentação do conteúdo de forma compreensível, com ilustrações adequadas ao conteúdo apresentado e atividades que realmente levem o aluno a ter oportunidade de testar o seu aprendizado (P8);
no conteúdo programático igual aos trabalhados pela escola; boas imagens, bons exercícios, textos atuais e assuntos curiosos (P6);
na forma com que o conteúdo é exposto: vocabulário, esquemas, gravuras, exercícios de fixação com questões fechadas e dissertativas; presença de textos complementares (P5);
na realidade dos alunos, na qualidade dos textos e dos exercícios. O livro tem que atender as necessidades dos alunos (P13).
Para os professores P11 e P10, ambos com menos de 5 anos de docência, a escolha do LD deve considerar:
a boa qualidade dos textos, o número de atividades, as ilustrações que facilitem a compreensão do conteúdo (P10);
o conteúdo teórico, a quantidade e a qualidade das atividades, e a linguagem utilizada (P11).
Apenas o professor P2 menciona a importância em se considerar as propostas dos PCN para escolha do LD, como se lê em seu relato:
livro de acordo com o PCN, atividades contextualizadas (conteúdo x realidade dos alunos) e livro que deve ser realmente utilizado como instrumento pedagógico, além de outros (P2).
Embora o número de professores entrevistados não sustente generalizações, os relatos anteriores permitiram perceber que, frequentemente, a escolha do LD é fracamente orientada pelas recomendações dos PCN e é fortemente influenciada pelo suporte que oferece às aulas de Ciências, sobretudo pelo sequenciamento curricular e pelas atividades propostas.
Quanto à opinião dos entrevistados sobre aprimorar o processo de escolha do LD, a maioria aponta para a necessidade da inclusão pela escola de todos os docentes. Abaixo, são transcritos trechos de alguns relatos:
A reunião deveria abranger todos os professores de todos os turnos da escola e o material deveria chegar com mais antecedência para uma análise mais profunda e detalhada (P9).
Reunião para escolha com número máximo possível de professores (P2).
Participação de todos os professores da área e maior tempo para a análise das
obras (P18).
Destinar um tempo adequado, dentro do horário de trabalho, para que os professores se reúnam e discutam sobre os pontos positivos e negativos dos livros aprovados pelo PNLD (P24).
## Considerações finais
Os resultados desta pesquisa revelam que é função da escola disponibilizar o GLD e todas as coleções aprovadas no PNLD, além de viabilizar a participação efetiva do corpo docente, contribuindo para a democratização do processo e assegurando a escolha de uma coleção adequada à realidade do aluno e alinhada à proposta pedagógica e filosófica da escola. Mas, é de responsabilidade do professor, conscientizar-se dos programas governamentais para o livro didático e, principalmente, inteirar-se dos processos de triagem e avaliação pelos quais passaram as coleções de Ciências da Natureza selecionadas pelo PNLD. É também sua responsabilidade, entender a organização do Guia de Livros Didáticos de Ciências do PNLD e a apropriação dos vários recursos oferecidos para subsidiá-lo na identificação da coleção mais adequada ao seu trabalho. É o envolvimento do professor no processo de escolha e sua compreensão quanto às motivações subjacentes à eleição de uma coleção didática, que fortalece o processo que culmina na escolha e utilização de uma determinada coleção adequada à realidade sociocultural do aluno. Nessa perspectiva, espera-se que uma boa escolha de LD contribua, juntamente com outros recursos didáticos, para conectar professor, aluno e objeto de estudo em uma rede de múltiplos conhecimentos, capaz de gerar uma aprendizagem significativa.
## Referências
BARCELOS, Mariana de Oliveira; MARTINS, Maria Inês. Livros de Ciências recomendados pelo PNLD: a visão de professores de Ciências de escolas públicas de BH. In: CONGRESO IBEROAMERICANO DE INVESTIGACIÓN EN ENSEÑANZA DE LAS CIENCIAS, 1, 2011, Campinas. Anais... Rio de Janeiro: ABRAPEC, 2011.
DEMO, Pedro. Metodologia do conhecimento científico . São Paulo: Atlas, 2000.
PAVÃO, A. C. Ensinar Ciências fazendo ciência. Salto para o futuro : o livro didático em questão, Brasília, boletim 05, 2006, p. 7-13. ISSN 1982-0283. Disponível em: <http://goo.gl/zOb5MA>. Acesso em: 05 mar. 2016.
SIGANSKI, Bruna Prevedello; FRISON, Marli Dallagnol; BOFF, Eva Teresinha de Oliveira. O livro didático e o ensino de Ciências. In: ENCONTRO NACIONAL DE ENSINO DE QUIMICA, 14, 2008, Curitiba. Anais... Curitiba: [s.ed.], 2008. p.1-11.
PRADO, Betty R. Gonçalves. A Física nos livros didáticos de Ciências na perspectiva dos PCN . 2013. 190 f. Dissertação (Mestrado em Ensino de Física) Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências e Matemática da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2013.
ZABALA, Antoni. A prática educativa : como ensinar. Porto Alegre: Artmed, 1998.
Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.