Pular para o conteúdo
Buscador da Pesquisa em Ensino de Física Busca em texto completo · v0.3.0

O MAPA DA DESISTÊNCIA NA LICENCIATURA EM FÍSICA DO IFRN

Fernando C. Fernandes Gomes, Dante H. Moura, Juliana M. Hidalgo Ferreira

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XII
Ano
2010
Data
25/10/2010
Linha de pesquisa
Formação E Prática Profissional Do Professor De Física
Tipo
Comunicação

Abrir o PDF original ↗ Baixar referência .bib Ver todos do EPEF 2010

Texto completo

## O MAPA DA DESISTÊNCIA NA LICENCIATURA EM FÍSICA DO IFRN

## THE MAP OF THE ABANDONMENT IN THE TEACHING'S DEGREE IN PHYSICS AT IFRN

Fernando C. Fernandes Gomes 1 , Dante H. Moura 2 , Juliana M. Hidalgo Ferreira 3

1 UFRN / Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciência Naturais e Matemática, fecajueiro@hotmail.com

2 IFRN / Diretoria de Educação e Ciências, dante@cefetrn.br

3 UFRN / Departamento de Física Teórica e Experimental, juliana\_hidalgo@yahoo.com

## Resumo

A desistência é uma realidade que afeta a Licenciatura em Física no Brasil. Considerando que os trabalhos nessa área são ainda escassos, e levando em conta que não basta apenas revelar os índices da desistência, mas sim encontrar repostas que esclareçam as causas desse fenômeno, damos continuidade à pesquisa iniciada em 2007, cujo objetivo é investigar as causas da desistência na Licenciatura em Física do IFRN. Essa pesquisa foi centrada na coleta de informações do sistema acadêmico acerca da evolução semestral da situação acadêmica dos alunos pertencentes às turmas investigadas. Também foi fundamental a coleta de informações por meio de uma observação participante assistemática e os dados fornecidos pelos próprios estudantes desistentes por meio de entrevistas. O propósito do presente trabalho será, então, detalhar o histórico das desistências na turma 2006.1 do referido curso. Para este artigo, temos como pressuposto o entendimento de que o conceito de desistência deve abranger as evasões, os cancelamentos de matrícula e os jubilamentos. Assim, detectamos uma desistência de 84,4% na turma 2006.1. Resumimos o mapa da desistência desta turma da seguinte forma: dos 32 alunos matriculados em 2006.1, 3 permanecem matriculados, 2 formaram-se, 2 cancelaram a matrícula, 5 foram jubilados e 20 alunos evadiram-se. As principais causas das desistências para esta turma foram as questões socioeconômicas e pessoais. Identificamos também as seguintes características como as mais relacionadas aos desistentes: ser mulher; estar casado(a); ser pai (ou mãe); ser trabalhador civil ou militar; possuir idade mínima de 30 anos; ter concluído o ensino médio há pelo menos 12 anos; ter sido transferido compulsoriamente ou ter reingressado. Diante das revelações e conclusões, reconhecemos que ainda há muito a ser investigado. Por isso, um número maior de turmas deve ser analisado e os professores também devem ser ouvidos.

Palavras-chave: Desistência; Evasão; Licenciatura em Física; IFRN.

## Abstract

The abandonment is a reality that affects the teaching's degree in Physics in Brazil. Works in this area are still scarce. Besides, taking into account that unveil the

phenomenon of the abandonment is not enough, but it is necessarily to find out answers to clarify the its causes, we kept on a research begun in 2007. The aim of this research is to investigate the cases of evasion in the IFRN teaching's degree in Physics. We focused on gathering information from the academic system on the evolution of the academic standing of students belonging to the classes investigated. It was also essential information provided by unsystematic participant observation and interviews with the students. The purpose of this paper will be to detail the history of abandonment in the 2006.1 class. In this article, we assume a wider concept of abandonment which includes dropping outs, cancellations of registration and compulsory dropout. Therefore, we detected a 84.4% abandonment in 2006.1 class. We summarize the map of the abandonment in this class as follows: of the 32 students enrolled in 2006.1, 3 remain enrolled, 2 were formed, 2 canceled their registration, 5 compulsorilly dropped out and 20 students dropped out. The main cause of abandonment in this class is related to personal and socioeconomic issues. We also identified the following characteristics as the most related to the abandonments: being female; being married; being a father (or mother); being a civilian employee or military; being over 30 years-old; having completed high school for at least 12 years; and having been forcibly transferred or having re-entered. By the revelations and conclusions, we recognized that many issues still remain to be investigated. Therefore, a larger number of classes scrutinized and teachers should also be heard.

Keywords: Abandonment; Dropping out; teaching's degree in Physics; IFRN.

## Introdução

A desistência é uma realidade que afeta vários cursos superiores no país, de modo que podemos dizer que este fenômeno não é um privilégio da Física. Existem alguns diagnósticos sobre os índices e as causas das desistências em cursos de graduação (BRASIL, 2007; GAIOSO, 2005; VELOSO; ALMEIDA, 2001; OLIVEIRA; et al, 2004). Entretanto, são poucos os estudos que investigam os índices nos cursos de Física. Como exemplo, podemos citar o trabalho de Barroso e Falcão (2004) que revela uma evasão geral de 55% no curso de Física da UFRJ. Temos ainda o valor de 63,6% para o Bacharelado em Física Computacional na UnB (PETFÍSICA, 2008). E Arruda et al l (2006) apontam uma evasão de 63% para a Licenciatura e 60% para o Bacharelado em Física na UEL. Considerando que os trabalhos nessa área são ainda escassos, e levando em conta que não basta apenas revelar os índices, mas sim encontrar repostas para a pergunta "Por que os alunos desistem do curso?", iniciamos, em 2007, um extenso trabalho de pesquisa para investigar este problema na Licenciatura em Física no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte (IFRN).

A primeira fase desta pesquisa ocorreu, então, em 2007 e seus resultados podem ser visualizados em maiores detalhes em trabalho publicado nos Anais do XI EPEF (GOMES; MOURA, 2008). No referido artigo, dizíamos que em rodas de conversas entre universitários em que existiam estudantes de Física, eram comuns perguntas a eles dirigidas acerca de quantos alunos havia em sua turma ou por que eles cursavam Física. Também dizíamos que os estudantes deste curso gostariam de responder que suas turmas estavam completas e que todos os alunos iriam

concluir o curso no prazo previsto. No entanto, a realidade observada costuma ser outra, o que observamos na primeira fase da presente pesquisa. Na época, nossa pesquisa foi centrada na coleta de informações do sistema acadêmico, fornecidas pela DIEC 1 do IFRN, acerca da evolução semestral da situação acadêmica dos alunos pertencentes às turma investigadas. Também foram fundamentais, nesta fase, as informações oriundas de uma observação participante assistemática e os dados fornecidos pelos próprios estudantes desistentes. A participação destes alunos ocorreu por meio de entrevistas semi-estruturadas, realizadas pelos próprios autores da pesquisa.

Dando continuidade à pesquisa 2 , acompanhamos a conclusão, em 2009.2, de duas turmas do curso noturno de Licenciatura em Física do Campus Natal Central do IFRN. Esse acompanhamento teve por objbjetivo dar sequência à investigação das causas da desistência no referido curso, pois o mesmo superava a média nacional cuja evasão é de 65% (BRASIL, 2007, p. 12). Com os dados obtidos em 2007 (GOMES; MOURA, 2008), revelamos uma evasão de 78% para a turma 2004.2 e de 64% para a turma 2006.1 (nomes atribuídos às turmas investigadas com base nos semestres de suas criações). Embora a segunda porcentagem seja cerca de um ponto menor que a média brasileira, devemos relatar que este valor foi obtido quando a turma estava na metade do curso, ou seja, ainda existiam quatro semestres (de um total de oito) para serem cumpridos (CEFET-RN, 2006). Quanto à turma 2004.2, o valor de 78% também não era definitivo, já que 3 alunos, que não concluíram o curso no prazo previsto (o semestre 2007.1 3 ), ainda poderiam desistir. Outro ponto bastante significativo com relação aos nossos resultados em 2007 é que estes foram obtidos somente com base no número de alunos evadidos. Após refletirmos sobre a definição de evasão, percebemos que os cancelamentos de matrícula e os jubilamentos não estavam sendo levados em conta. Resolvemos, então, incluir esses três abandonos acadêmicos num conceito maior, a desistência. O fato de mudarmos o foco de nossa investigação sobre evasão para a desistência aumentou ainda mais a nossa preocupação com relação ao número de alunos desistentes no curso de Licenciatura em Física do IFRN. Os 78% e os 64% de evadidos (respectivamente nas turmas 2004.2 e 2006.1) na pesquisa de 2007 transformaram-se em 84,4% de desistentes em ambas as turmas no semestre letivo de 2009.1 (GOMES, 2010) e permaneceram assim no semestre 2009.2.

Visando descrever como chegamos a esse preocupante número de 84,4%, o propósito do presente trabalho será detalhar a evolução do número de desistentes, ao longo do curso de Licenciatura em Física do IFRN, utilizando como exemplo o histórico das desistências da turma 2006.1. Esse histórico será chamado de mapa da desistência da turma 2006.1. A nossa justificativa para a escolha por esta turma, e não pela turma 2004.2, está no fato de que o primeiro autor deste trabalho vivenciou, enquanto aluno da turma 2006.1, as desistências de seus colegas.

## Tomando como pressuposto uma nova definição para desistência

Na continuidade da pesquisa sobre a desistência na Licenciatura em Física do IFRN, foi necessário elaborarmos uma identidade institucional sobre este fenômeno, uma vez que, algumas ações acadêmicas discutidas, relacionadas com a desistência, devem ser esclarecidas. A desistência, para os fins desta investigação, terá como definição o ato ou efeito de não prosseguir (FERREIRA, 1986, p.566); neste caso, entendemos "não prosseguir com o curso". Tomamos a desistência no IFRN como resultado de três principais ações acadêmicas: o jubilamento, o cancelamento e a evasão. A primeira ação é caracterizada pelo desligamento acadêmico de um aluno - independentemente de sua vontade - realizado pelas autoridades institucionais do próprio IFRN. Por esse motivo, decidimos classificar o jubilamento como uma desistência forçada. Os dois motivos mais frequentes de jubilamento são a reprovação do aluno em dois semestres letivos consecutivos e o fato de a sua estimativa para concluir o curso extrapolar o permitido pela instituição.

O cancelamento é reconhecido por ser uma ação voluntária em que um aluno cancela oficialmente o seu curso. Para isso, o estudante deve preencher um requerimento solicitando tal ação. Logo, classificou-se o cancelamento como uma desistência não-forçada. Uma das causas mais comuns de cancelamento de curso é a escolha por outro curso dentro do IFRN ou por outra instituição de ensino superior. Por último, tem-se a evasão. Esta ação é caracterizada pelo abandono do aluno de suas atividades acadêmicas sem deixar nenhum registro oficial. Pelo fato de o aluno não se apresentar às autoridades institucionais para realizar o cancelamento de seu curso, decidimos classificar também a evasão como uma desistência não-forçada.

Embora as classificações definidas (figura 1) não sejam retomadas ao longo do texto, as ações acadêmicas que as representam o são. Portanto, ao se falar em desistência, estaremos nos referindo conjuntamente ao jubilamento, ao cancelamento e à evasão, e não, especificamente, a esta última como alguns autores o fazem (ARRUDA; UENO, 2003) e (BARROSO; FALCÃO, 2004).

FIGURA 1 - TIPOS DE DESISTÊNCIA

<!-- image -->

## Metodologia complementar para análise da situação das turmas ao término do curso

Finalizada a primeira fase da pesquisa, resolvemos atualizar, alguns semestres depois, as informações acerca da evolução da situação acadêmica dos alunos das turmas investigadas. Esta atualização teve como principal motivo renovar os dados acadêmicos já obtidos e, consequentemente, acompanhar as turmas em questão no momento previsto para a conclusão normal do curso, no semestre letivo 2009.2.

Embora possamos falar na conclusão da turma 2004.2, esta teve os seus primeiros alunos formados (2) no prazo previsto para 2007.1. Somente em 2009.2 é

que os últimos 3 alunos matriculados se formaram. Portanto, podemos considerar que houve, na turma 2004.2, uma conclusão total tardia (quando todos os alunos, que não desistiram do curso, se formaram). Semelhantemente podemos tratar a turma 2006.1. Para esta, dizemos que houve uma conclusão parcial, visto que apenas 2 alunos terminaram o curso no prazo previsto para 2009.2. Ainda restam 3 alunos desta turma matriculados no curso. A atualização dos dados também nos inspirou a construir dados estatísticos que caracterizassem os alunos desistentes. Complementando as informações fornecidas pelo sistema acadêmico do IFRN, realizou-se uma análise documental dos documentos pessoais, que estavam arquivados na DIEC, destes alunos.

## Mapa da desistência da turma 2006.1 da Licenciatura em Física do IFRN

A turma 2006.1 do curso de Licenciatura em Física do IFRN, pertencente ao atual currículo, foi consolidada com 32 alunos. Destes, 15 ingressaram via vestibular geral, 15 via vestibular diferenciado 4 , 1 foi reingressado e 1 ingressou por meio de transferência compulsória. O aluno reingressado era originário da turma 2004.2 e teve sua matrícula cancelada naquela época. Contudo, para o atual currículo, esse mesmo aluno teve o "descancelamento" de sua matrícula e pôde cursar a graduação normalmente com a turma 2006.1.

Antes mesmo de ser iniciado, o semestre letivo 2006.1 (referente ao 1º período do curso) contou com 2 cancelamentos de matrícula e 1 evasão. Portanto, este semestre foi iniciado com um total de 29 alunos. Com o seu término, 17 alunos foram aprovados (com ou sem dependência) 5 , 2 foram reprovados em disciplinas 6 e 10 foram reprovados por falta com uma frequência média de 37,9%.

Para o semestre seguinte, 2006.2, 19 alunos se matricularam, 1 trancou o curso e 9 se evadiram (tabela 1). Todos os evadidos eram alunos reprovados por falta e em disciplinas. Os demais, que não passaram para o período seguinte, se matricularam novamente no mesmo período. Dos 17 aprovados, apenas 1 não se matriculou para dar continuidade aos estudos, pois resolveu trancar o curso.

TABELA 1 - EVOLUÇÃO DA SITUAÇÃO ACADÊMICA DOS ALUNOS DA TURMA 2006.1 ENTRE 2006.1 E 2006.2

Finalizado o semestre letivo 2006.2, 13 alunos foram aprovados (com ou sem dependência), 2 reprovados em disciplinas, 4 reprovados por falta, com uma frequência média de 59,0%, e 1 manteve o curso trancado.

Para 2007.1, 16 alunos se matricularam, 1 trancou o curso (tinha sido reprovado por falta), 2 se evadiram e 1 foi jubilado (tabela 2). Dentre os alunos matriculados, 2 eram reprovados em disciplinas, 1 havia destrancado o curso e o outros eram os aprovados. As 2 evasões também ocorreram com alunos reprovados por falta e o jubilamento ocorreu com o aluno que foi reprovado novamente por falta, ou seja, teve duas reprovações consecutivas num mesmo período.

TABELA 2 - EVOLUÇÃO DA SITUAÇÃO ACADÊMICA DOS ALUNOS DA TURMA 2006.1 ENTRE 2006.2 E 2007.1

Terminando o semestre 2007.1, 7 alunos foram aprovados (com ou sem dependência), 3 reprovados em disciplinas, 6 reprovados por falta, com uma frequência média de 41,6%, e 1 permaneceu com o curso trancado.

Para o semestre subsequente, 11 alunos se matricularam, 1 manteve o trancamento e 5 se evadiram (tabela 3). Dos 11 matriculados, 7 eram aprovados e 4 eram alunos reprovados (2 em disciplinas e 2 por falta). Dos 5 evadidos, 4 eram alunos reprovados por falta e 1 em disciplinas.

TABELA 3 - EVOLUÇÃO DA SITUAÇÃO ACADÊMICA DOS ALUNOS DA TURMA 2006.1 ENTRE 2007.1 E 2007.2

Com o fim de 2007.2, 7 alunos foram aprovados (com ou sem dependência), 4 reprovados por falta, (frequência média de 47,0%), e 1 manteve o trancamento. Para o semestre posterior, 2008.1, 9 alunos se matricularam e 3 foram jubilados (tabela 4). Dentre os matriculados, estavam todos os aprovados, 1 aluno que destrancou o curso e mais 1 aluno reprovado por falta. Já, os 3 jubilamentos ocorreram com os alunos que estavam sendo reprovados pela segunda vez consecutiva no mesmo período (todos tinham sido reprovados por falta).

TABELA 4 - EVOLUÇÃO DA SITUAÇÃO ACADÊMICA DOS ALUNOS DA TURMA 2006.1 ENTRE 2007.2 E 2008.1

Após 2008.1, 6 alunos foram aprovados (com ou sem dependência) e 3 reprovados por falta (frequência média de 38,1%). Na transição para o 2008.2, todos os reprovados se evadiram e os 6 aprovados matriculam-se (tabela 5).

TABELA 5 - EVOLUÇÃO DA SITUAÇÃO ACADÊMICA DOS ALUNOS DA TURMA 2006.1 ENTRE 2008.1 E 2008.2

Com o fim de 2008.2, 5 alunos foram aprovados e apenas 1 aluno foi reprovado por falta, com uma frequência de 42,8%. Para o semestre de 2009.1, todos os alunos aprovados e reprovados se matricularam (tabela 6).

TABELA 6 - EVOLUÇÃO DA SITUAÇÃO ACADÊMICA DOS ALUNOS DA TURMA 2006.1 ENTRE 2008.2 E 2009.1

Concluído o semestre 2009.1, 5 alunos foram aprovados (com ou sem dependência) e 1 aluno, novamente, foi reprovado por falta com uma frequência de 13,3%. Por esse motivo, este aluno foi jubilado e os alunos aprovados foram matriculados (tabela 7).

TABELA 7 - EVOLUÇÃO DA SITUAÇÃO ACADÊMICA DOS ALUNOS DA TURMA 2006.1 ENTRE 2009.1 E 2009.2

Finalizado 2009.2, 2 alunos foram aprovados e 3 foram aprovados com dependência. Como previsto, pelo Plano do Curso do atual currículo (CEFET-RN, 2006), com o término deste período, todos os alunos deveriam estar formados, mas apenas 2 tiveram esta conquista. Os outros 3 alunos aprovados com dependência matricularam-se no semestre letivo 2010.1 para poder concluir o curso (tabela 8).

TABELA 8 - EVOLUÇÃO DA SITUAÇÃO ACADÊMICA DOS ALUNOS DA TURMA 2006.1 ENTRE 2009.2 E 2010.1

Diante do exposto, elaboramos o seguinte resumo da evolução da turma 2006.1 da Licenciatura em Física do IFRN. Dos 32 alunos matriculados em 2006.1, 3 permanecem matriculados, 2 formaram-se, 2 cancelaram a matrícula, 5 foram jubilados e 20 alunos evadiram-se (gráfico 1). Isto revelou uma evasão de 62,5%.

GRÁFICO 1 - SITUAÇÃO ACADÊMICA GERAL DOS ALUNOS DA TURMA 2006.1

<!-- image -->

Com base nos critérios adotados sobre o cancelamento da matrícula e os jubilamentos também refletirem desistências, visto que eles ocorreram devido a reprovações consecutivas, e, principalmente, em virtude de reprovações por ausência às aulas, somam-se aos evadidos mais 7 casos de desistência (2 cancelamentos e 5 jubilamentos) (gráfico 2). Isto mostra, mais uma vez, a grave problemática da desistência no curso de Licenciatura em Física, a qual nesta turma chegou a 84,4% dos alunos.

GRÁFICO 2 - MAPA DA DESISTÊNCIA DA TURMA 2006.1

<!-- image -->

Ainda sobre a evolução da turma 2006.1, são razoáveis outras conclusões: a média de desistência ainda é de 3,37 alunos por semestre (27 alunos/8 semestres 7 ); o momento em que ocorreu a maior desistência foi a transição para o semestre letivo 2006.2 (para o segundo período); e as desistências mostraram-se, a princípio,

significativamente relacionadas com as reprovações, visto que todos os alunos que reprovaram (por falta ou em disciplinas) desistiram do curso.

## O período de maior desistência

Uma das conclusões acima revela que a passagem do primeiro para o segundo semestre foi um momento crucial na vida do aluno recém ingresso no curso de Licenciatura em Física do IFRN. Mas o que está por trás disto?

Segundo Andriola, Andriola e Moura (2006) um dos principais motivos para o abandono nos primeiros períodos de um curso, numa instituição de ensino superior, reside no fato de que alguns alunos - calouros principalmente - não se identificam com o curso que escolheram e, portanto, o abandonam. Contrariando esta perspectiva, a maioria (70%) dos desistentes entrevistados da turma 2006.1 afirmou se identificar com a carreira de professor e querer exercê-la (GOMES; MOURA, 2008). Outros dois fatores que acreditávamos promover a desistência no primeiro período, a quantidade de disciplinas e alguma possível dificuldade em relação aos professores que as ministravam, foram investigados. Contudo, por meio da análise de conteúdo das respostas dos alunos entrevistados, percebemos que estes fatores não contribuíram para a desistência destes estudantes (tabelas 9 e 10).

TABELA 9 - PERGUNTA "VOCÊ ACHAVA A SUA MATRIZ CURRICULAR MUITO PUXADA* ?"

TABELA 10 - "COMO VOCÊ AVALIA A RELAÇÃO ENTRE PROFESSOR E ALUNO?"

## A relação entre reprovação e desistência

A literatura aponta que á relação entre reprovação e desistência é muito estreita (GAIOSO, 2005; ALMEIDA et al., 2001), isto é, muitos alunos quando reprovados se sentem desestimulados e acabam desistindo do curso. Mas o que podemos afirmar da relação entre reprovação e desistência no curso de Licenciatura em Física do IFRN? Para responder a esta questão é preciso lembrar que identificamos dois tipos de reprovação nesta instituição: aquela em disciplinas e aquela por falta.

As reprovações em disciplinas foram as que menos ocorreram quando comparadas às reprovações por falta. Na evolução da turma 2006.1 pudemos registrar 7 reprovações em disciplinas e 29 por falta. Das 7 reprovações em disciplinas, apenas 2 resultaram em evasão e no caso das demais reprovações, os alunos se matricularam novamente. Destas duas evasões, uma delas foi justificada,

na entrevista, como motivada por questões pessoais e profissionais, e não devido à reprovação. Assim, concluímos que no caso do IFRN as reprovações em disciplinas não contribuíram significativamente para as desistências; em outras palavras, elas não foram a sua principal causa. Também é importante ressaltar que as reprovações em disciplinas são um tipo de reprovação em que o aluno refaz todo o período, atrasando o seu curso. Embora em princípio, portanto, devesse ser altamente desestimulante, na Licenciatura em Física do IFRN não se mostrou relevante.

Já as reprovações por falta se destacaram por terem sido o tipo de reprovação mais recorrente. No levantamento sobre a evolução da situação acadêmica dos alunos da turma 2006.1, constatamos que das 29 reprovações por falta, 17 resultaram em evasões, 5 em jubilamentos, 1 em trancamento e 6 em matrículas. Isto mostrou que, embora os alunos reprovados por falta possam, em princípio, se matricular novamente no período em que foram reprovados, dando assim continuidade aos seus cursos, esta não foi a ação mais realizada por eles. A maioria destes alunos optou por abandonar o curso (se evadindo), o que possivelmente já estava implícito em sua iniciativa de não frequentar o semestre letivo no qual estavam matriculados. Transparecia, então, o desinteresse do aluno em cursar as disciplinas e, consequentemente, um desinteresse pelo curso em si.

## Causas das desistências

Ao retomarmos os resultados da pesquisa iniciada anteriormente (GOMES; MOURA, 2008), revelamos, por meio das entrevistas, que as principais causas das desistências na turma de 2006.1 foram as questões socioeconômicas e pessoais, tendo destaque a opção por outro curso de nível superior r (resposta de 40% dos entrevistados) e dificuldades em conciliar o trabalho com os estudos s (resposta de 40% dos entrevistados). Somam-se a esses dados mais dois casos cujas causas da desistência foram descobertas por meio da análise documental e da observação participante assistemática. O primeiro deles foi o de um aluno, que devido ao fato de trabalhar à noite, decidiu cancelar o seu curso no IFRN. Além disso, o mesmo tinha sido aprovado no vestibular de outra instituição de ensino superior. No segundo caso, um aluno deixou de frequentar as aulas (e, consequentemente foi reprovado por falta), pois seria transferido para outro estado. Sendo assim, estes dados apenas reforçam a hipótese de que as causas das desistências residiam, majoritariamente, em questões socioeconômicas e pessoais.

## Quem são os desistentes?

Sabendo quais questões socioeconômicas e pessoais mais causaram as desistências na Licenciatura em Física, nos perguntamos se era possível identificar características que revelassem o perfil dos desistentes da turma 2006.1. Visando algum resultado neste sentido, realizamos uma análise dos documentos dos alunos desistentes, que estavam arquivados na DIEC, bem como das informações existentes no sistema acadêmico. As informações obtidas foram classificadas em oito categorias: sexo; estado civil; número de filhos; ocupação; idade em que desistiu do curso; tempo entre a conclusão do ensino médio e o ingresso no curso de Física; e a forma de ingresso no curso.

Diante desta estratégia, identificamos as seguintes características como as mais relacionadas às desistências no curso de Licenciatura em Física do IFRN: ser mulher; estar casado(a); ser pai (ou mãe); ser trabalhador civil ou militar; ter idade

mínima de 30 anos; ter concluído o ensino médio há pelo menos 12 anos; e ter sido transferido compulsoriamente ou ter reingressado no ensino superior. Destacamos que estas características foram obtidas pela união de diferentes atributos que a princípio são independentes entre si, ou seja, não estávamos identificando um padrão oriundo das intersecções dos atributos. Exemplificando o que foi dito: os desistentes podem ser caracterizados como mulheres ou alunos, e não por serem mulheres casadas .

## Considerações finais

A continuidade da pesquisa sobre as causas da desistência na Licenciatura em Física do IFRN revelou dados mais alarmantes que os iniciais. Os índices obtidos neste trabalho, não só confirmam o panorama nacional, como negativamente o superam. Acreditamos que, ao considerarmos o jubilamento e o cancelamento como desistência, ampliamos a forma de visualizarmos a problemática em questão. Embora essa consideração exponha outras formas de abandono do curso que não sejam a evasão, os números relacionados ao cancelamento e ao jubilamento, quando inseridos na desistência, tornam a realidade desse fenômeno mais evidente.

Saber que questões socioeconômicas e pessoais produziram cancelamento de matrícula, jubilamento e evasão nos induzem a acreditar que a Licenciatura em Física, por si só não pode ser responsabilizada pelas desistências. Reforçando este raciocínio algumas características dos alunos desistentes - estar casado; ser pai (ou mãe); ser trabalhador civil ou militar; possuir idade mínima de 30 anos; ter concluído o ensino médio há pelo menos 12 anos - revelam que existem certas exigências em suas vidas que comprometem o maior empenho e/ou dedicação para com o curso. Contudo, este ainda não é o momento de finalização da investigação das desistências na Licenciatura em Física no IFRN. Em função das revelações e conclusões que surgiram ao longo das análises documentais e entrevistas, reconhecemos que ainda há muito a ser investigado. Acreditamos que a desistência possa ter outras raízes e não apenas as questões socioeconômicas e pessoais dos alunos. Para isso, um número maior de turmas deve ser analisado e os professores também devem ser ouvidos. Pretendemos, enfim, avançar na elaboração de propostas voltadas a mitigar o problema da desistência na Licenciatura em Física do IFRN, o que pode representar uma contribuição relevante no tocante às Licenciaturas em Física no país, já que estas, de modo geral, enfrentam o mesmo problema.

## Referências

ALMEIDA, M. A. T. de. et al. Reversão do desempenho de estudantes em um curso de física básica. Revista Brasileira de Ensino de Física, v. 23, n. 1, . p. 83-92, mar. 2001.

ANDRIOLA, W. B; ANDRIOLA, C. G; MUORA, C. P. Opiniões de docentes e de coordenadores acerca do fenômeno da evasão discente dos cursos de graduação da Universidade Federal do Ceará (UFC). Ensaio: avaliação e políticas públicas em educação, Rio da Janeiro, v. 14, n. 52, p. 365-382, jul./set. 2006.

ARRUDA, S. de M; UENO, M. H. Sobre o ingresso, desistência e permanência no curso de física da universidade estadual de Londrina: algumas reflexões. Ciência e Educação, v. 9, n. 2, p. 159-175, 2003.

ARRUDA, S. de M; et al. Dados comparativos sobre a evasão em Física, matemática, química e biologia da Universidade Estadual de Londrina: 1996 a 2004. Caderno Brasileiro de Ensino de Física, v. 23, n. 3, p. 418-438, dez. 2006.

BARROSO, M. F; FALCAO, E. B. M. Evasão Universitária: o caso do Instituto de Física da UFRJ. In: ENCONTRO DE PESQUISA EM ENSINO DE FÍSICA, 9, 2004, Jaboticatubas, MG. A Anais..., 2004.

BRASIL. Ministério da educação. Conselho Nacional de Educação. Secretaria de Educação Básica. Escassez de professores no Ensino Médio: Propostas estruturais e emergenciais. Brasília, 2007.

CEFET-RN. Plano do curso superior de licenciatura plena em Física. Natal: CEFET-RN, 2002.

\_\_\_\_\_\_. Plano do curso superior de licenciatura plena em Física. Natal: CEFETRN, 2006.

FERREIRA, A. B. de H. Novo dicionário Aurélio da língua portuguesa. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.

GAIOSO, N. P. de L. O Fenômeno da evasão escolar na educação superior no Brasil. Brasília: 2005.

GOMES, F. C. F; Investigando as causas da desistência no curso de licenciatura em Física do IFRN. 2010. 135 f. Trabalho de conclusão de curso. Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte, Natal, 2010.

GOMES, F. C. F; MOURA, D. H. Investigando as causas da evasão na licenciatura em Física do CEFET-RN. In: ENCONTRO DE PESQUISA EM ENSINO DE FÍSICA, 11, 2008, Curitiba. A Anais...Curitiba: 2008. p. 1-12.

OLIVEIRA, R. P. de; et al . Acompanhamento da trajetória escolar dos alunos da universidade de São Paulo ingressantes de 1995-1998: relatório final. São Paulo, 2004.

PET-FISICA. Relatório à comissão de graduação do instituto de física: um estudo da evasão no curso de graduação em física da UnB. Brasília, 2008.

VELOSO, T. C. M. A; ALMEIDA, E. P. Evasão nos cursos de graduação da Universidade Federal de Mato Grosso, campus universitário de Cuiabá: Um processo de exclusão. Em Reunião Anual da Associação Nacional de PósGraduação e Pesquisa em Educação, 24. 2001.

Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.