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PERCEPÇÕES DE FUTUROS PROFESSORES SOBRE A FORMAÇÃO PARA A DOCÊNCIA NO ENSINO DE CIÊNCIAS NOS ANOS INICIAIS DA EDUCAÇÃO BÁSICA

Caroline Dorada Pereira Portela, Ivanilda Higa

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XII
Ano
2010
Data
25/10/2010
Linha de pesquisa
Formação E Prática Profissional Do Professor De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## PERCEPÇÕES DE FUTUROS PROFESSORES SOBRE A FORMAÇÃO PARA A DOCÊNCIA NO ENSINO DE CIÊNCIAS NOS ANOS INICIAIS DA EDUCAÇÃO BÁSICA

## FUTURE TEACHERS' PERCEPTIONS ABOUT EDUCATION FOR TEACHING IN THE TEACHING OF SCIENCE IN THE EARLY YEARS OF BASIC EDUCATION

## Caroline Dorada Pereira Portela 1 , Ivanilda Higa 2

1 Pontifícia Universidade Católica do Paraná , caroline.dorada@pucpr.br

Universidade Federal do Paraná, PPGE 2

Universidade Federal do Paraná, DTPE/PPGE, ivanilda@ufpr.br

## Resumo

Pesquisas apontam dificuldades metodológicas e conceituais dos professores dos anos iniciais do ensino fundamental no que se refere ao ensino de ciências. Dessa forma, considera-se importante aprofundar as investigações sobre a formação inicial desses professores como subsídio para a melhoria do ensino de ciências. Nesta pesquisa buscou-se identificar e analisar os saberes docentes (TARDIF, 2002) explicitados por futuros professores na análise de um episódio de ensino . Foram utilizados como instrumentos de pesquisa um questionário aberto e entrevistas semi -estruturadas. A análise dos dados produzidos foi baseada em alguns princípios da Análise de Conteúdo (BARDIN, 2008) possibilitando identificar a presença de elementos referentes às condições em que tais alunos estão sendo formados para atuar, dentre outras habilitações, como professores dos anos iniciais, e mais especificamente, sua relação com os conteúdos escolares de Ciências e o seu ensino . Serão aqui apresentados os resultados de um dos focos da entrevista: as reflexões dos futuros professores sobre a formação docente para o ensino de Ciências nos anos iniciais do ensino fundamental. As considerações dos sujeitos de pesquisa são relacionadas à disciplina Metodologia do Ensino de Ciências e a condição em que se sentem para ensinar Ciências. Os resultados indicam que os sujeitos se reconhecem como não preparados para o ensino de Ciências, o que está relacionado à formação inicial no curso de Pedagogia e à própria relação das entrevistadas com os conteúdos de ensino. Como alternativas para superação da insegurança e despreparo apontados, a maioria destaca o papel da pesquisa na atuação docente e o aprendizado que ocorre com a profissão, no próprio exercício da docência ou na troca de experiências com outros professores.

Palavras -chave: formação inicial de professores, ensino de ciências físicas, saberes docentes.

## Abstract

Researches indicate conceptual and methodological difficulties of teachers in the early years of elementary school in relation to science teaching. Thus, it is important to deepen the investigation about t the initial teacher training as a subsidy to improvement science teaching . In this study we tried to identify and analyze

teacher's knowledge (Tardif, 2002) clarified by future teachers in the analysis of an episode of teaching . We used as research tools an open questionnaire and semistructured interviews. The analysis was based on some principles of content analysis (Bardin, 2008) that allowed to identify the presence of elements regarding the conditions under which such students are being trained to act, among other qualifications , as teachers of the early years, and more specifically, their r relationship with the school subjects of science and their r teaching. It ill be presented in this paper the results of one focus of the interview: the reflections of teachers on teacher training for teaching science in the early years. The considerations of the study subjects are related to the course "Methodology of Science Teaching " and the condition in which they feel to teach science. The results indicate that subjects recognize themselves as unprepared to teach physical science , which is related to initial training and the interviewees' own relationship with the teaching subjects. As alternatives to overcome insecurity and unpreparedness pointed out, the majority emphasizes the role of research in educational performance and the learning that occurs with the profession, the practice of teaching or the exchange of experiences with other teachers.

Keywords: initial teacher training, teaching of physical sciences, teacher's knowledge.

## Formação docente para o ensino de ciências físicas nos anos iniciais do ensino fundamental

A formação de professores tem sido tema recorrente nos debates educacionais, gerando para a pesquisa em educação desafios consideráveis para a compreensão das relações do ensinar e do aprender.

Conforme pesquisa realizada por Almeida et al. (2001), percebeu-se nas aulas de Ciências um maior enfoque, por parte dos professores dos anos iniciais, aos conteúdos relacionados a Ciências Biológicas e Saúde. As demais áreas do conhecimento previstas pelos Parâmetros Curriculares Nacionais frequentemente não são contempladas, o que, segundo os autores, pode estar associado a dificuldades nas metodologias e domínio dos conteúdos para abordar tais temas em sala de aula.

Em relação aos conteúdos de ciências físicas, Ostermann e Moreira (1999) destacam que estes são utilizados erroneamente pelos professores do ensino fundamental nas aulas de Ciências, o que contribui para um ensino frágil e debilitado no que diz respeito a esses conteúdos específicos. Os autores destacam que muito da aprendizagem de Física no decorrer do período escolar do aluno depende da forma como esse contato inicial ocorre. Em geral, as crianças que inicialmente têm interesse e motivações para aprender Ciências, podem ir perdendo ao longo de sua escolarização essa curiosidade inicial.

Além disso, em uma revisão bibliográfica em periódicos da área de ensino de Ciências , Portela e Higa (2007) evidenciaram a pouca expressividade de trabalhos na formação inicial de professores em cursos de Pedagogia no que se refere ao ensino de Ciências nos anos iniciais do ensino fundamental, particularmente em relação ao ensino de ciências físicas . Isso reafirmou a importância da temática para o desenvolvimento desse trabalho como uma contribuição para essa área de conhecimento.

Optou-se assim por investigar a formação inicial de professores especialmente em um curso de Pedagogia uma vez que, segundo Freitas de Lima (2003, 2004), este é atualmente o lócus s privilegiado para a formação de professores para atuação na educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental.

## Saberes docentes e formação de professores

A temática saberes docentes tem sido amplamente discutida no âmbito nacional e internacional da pesquisa em educação. Borges (2001) destaca que há uma variedade de enfoques e perspectivas com que esse tema vem sendo apresentado nos trabalhos e pesquisas dessa área.

Neste trabalho, os saberes docentes serão abordados na perspectiva de Tardif (2002), que os define como um "saber plural, formado pelo amálgama, mais ou menos coerente, de saberes oriundos da formação profissional e de saberes disciplinares, curriculares e experienciais" (TARDIF, 2002, p. 36).

Por saberes da formação profissional, Tardif (2002) coloca aqueles transmitidos pelas instituições de formação de professores, em geral, faculdades de educação. Constituídos de saberes pedagógicos, são conhecimentos adquiridos sobre os processos de ensino e aprendizagem, procedimentos didáticos, práticas educativas, normas e regras do processo educativo , envolvendo, principalmente, o como ensinar.

Os saberes disciplinares são aqueles relacionados às diversas áreas do conhecimento como história, filosofia, matemática, etc. São encontrados nas universidades sob a forma de disciplinas em cursos distintos e independentes das faculdades de educação e dos cursos de formação de professores, englobando aqueles conhecimentos específicos de determinada área do conhecimento, considerados essenciais aos professores, para o exercício da docência. No caso particular que interessa nesta pesquisa, os saberes disciplinares são os conhecimentos específicos dos conteúdos da disciplina escolar Ciências, particularmente ciências físicas, relativos aos anos iniciais do ensino fundamental.

Já os conhecimentos relativos aos programas escolares, objetivos, conteúdos e métodos correspondem aos saberes curriculares que os professores apropriam-se ao longo de suas carreiras, aprendendo a aplicá-los no interior das instituições escolares.

Por fim, os saberes experienciais são aqueles que os professores desenvolvem com base em seu trabalho cotidiano, nas relações estabelecidas nas instituições escolares; são baseados na experiência e por ela validados. Para Tardif (2002), esses saberes "formam um conjunto de representações a partir das quais os professores interpretam, compreendem e orientam sua profissão e sua prática cotidiana" " (TARDIF, 2002, p.49).

Tardif (2002) ainda coloca outros saberes que também compõem o saber docente, como os saberes pessoais dos professores , provenientes principalmente da família e os saberes da formação escolar anterior r oriundos da escola básica. Nesse sentido, os saberes docentes , como um todo, provem de diversas fontes, tais como a história de vida, a formação inicial e contínua, o currículo, o livro didático, o conhecimento do conteúdo a ser ensinado, as experiências da profissão, dentre outras. Por esse aspecto, a noção de saber possui um sentido amplo que engloba os conhecimentos, habilidades, competências e atitudes dos docentes.

## Metodologia de Pesquisa

## I) Os sujeitos:

Como o objeto de estudo dessa pesquisa é a formação dos professores para o ensino de Ciências (especificamente ensino de conteúdos de ciências físicas) nos anos iniciais do ensino fundamental, foram definidos como sujeitos de pesquisa alunos do 4º ano do curso de Pedagogia, ou seja, alunos formandos. A escolha desses sujeitos deve-se ao fato de estarem em fase final da graduação, tendo cursado as disciplinas voltadas à formação docente como as Metodologias do Ensino, específicas de várias áreas do conhecimento, como Língua Portuguesa, História, Ciências Naturais, Matemática, Geografia, Artes e Educação Física. Tais disciplinas são ofertadas a partir do 3º ano de curso, com carga horária de 30 horas 1 , o que equivale a um encontro por semana com duas horas-aula de duração (aproximadamente 100 minutos).

A partir de um questionário aberto , foram selecionados oito sujeitos com opção profissional na docência e que citavam a disciplina Ciências como a de maior interesse ou maior dificuldade para trabalhar nos anos iniciais do ensino fundamental .

## II) Os instrumentos utilizados:

Uma vez selecionados os sujeitos, foram realizadas entrevistas divididas em duas partes. A primeira, voltada para conhecer um pouco mais sobre as experiências docentes e acadêmicas dos entrevistados; suas considerações acerca da importância do ensino de Ciências nas séries iniciais, os conteúdos e a forma como devem ser trabalhados; além de permitir uma maior aproximação com os entrevistados. A segunda parte das entrevistas foi elaborada buscando levantar elementos para discutir a formação dos futuros professores para o ensino de Ciências nos anos iniciais, em conteúdos escolares de Astronomia, sob dois enfoques: reflexões sobre um episódio de ensino de uma aula de Ciências e a formação obtida na graduação em Pedagogia para ensinar Ciências nos anos iniciais .

A utilização de episódios ou casos de ensino ainda é pouco frequente nas pesquisas em Educação em comparação com outras áreas do conhecimento, tais como, Medicina e Direito (Hiebert, Gallimore, Stigler, 2002 apud Nono e Mizukami, 2002). Os episódios de ensino podem ser utilizados como exemplos reais de uma situação de sala de aula; como uma oportunidade de auxiliar professores na tomada de decisões a partir de determinada situação e ainda como um estímulo à reflexão sobre a prática docente. É possível propor a leitura, análise e discussão de episódios já existentes ou a elaboração de casos relacionados a experiências de ensino (NONO, 2001; ZULIANI, 2001; NONO e MIZUKAMI, 2002).

Nesta pesquisa optou-se o episódio de ensino foi utilizado como instrumento de pesquisa, como uma possibilidade de instigar os sujeitos a explicitarem seus saberes a partir da reflexão de uma situação de ensino.

Os conteúdos escolares de Ciências a serem investigados com os futuros professores deveriam ser parte integrante do currículo dos anos iniciais do ensino fundamental. A opção foi por elementos de astronomia, através de um episódio de ensino que mostrou-se bastante pertinente para se trabalhar as relações conceituais e metodológicas com os professores em formação. Além disso, pesquisas da área têm evidenciado concepções errôneas dos professores em relação a tais conteúdos, além de alguns livros didáticos dos anos iniciais muitas vezes apresentarem erros conceituais em Astronomia.

Ao final da primeira etapa da entrevista foi solicitado a cada entrevistado que realizasse a leitura de um texto contendo o episódio de ensino que narra uma aula de Ciências , e elaborasse por escrito como poderia ser r uma aula sobre o conteúdo abordado no texto. Foi dado um tempo de aproximadamente uma semana para a continuidade da entrevista para que os sujeitos tivessem oportunidade de refletir sobre o episódio indicado para leitura .

O episódio de ensino utilizado nas entrevistas narra uma aula de Ciências na qual são abordados os movimentos da Terra e as Estações do Ano . A professora "personagem" no episódio inicia a aula com explicações de que " o verãrão é o tempo do calor, o inverno é o tempo do frio, a primavera é o tempo das flores e o outono é o tempo em que as folhas ficam amarelas e caem" (CANIATO, 1983). A existência da estações do ano é apresentada por essa professora como uma consequência da distância da Terra em relação ao Sol. Motivado por uma curiosidade, um dos alunos inicia alguns questionamentos à professora, tais como: Se as estações do ano existem devido à distância da Terra em relação ao Sol, como podem existir diferentes estações do ano na Terra, em uma mesma época no ano? São descritos os diálogos estabelecidos entre eles e as dificuldades da professora em explicar as considerações feitas pelo aluno .

Para análise dos dados produzidos tanto nos questionários quanto nas entrevistas, foram utilizados alguns princípios da Análise de Conteúdo (BARDIN, 2008; FRANCO, 2008) com o objetivo de identificar e analisar os saberes docentes (TARDIF, 2002) explicitados por esses futuros professores na análise do episódio de ensino de Ciências.

## Percepções sobre a formação docente para o ensino de Ciências

O curso de Pedagogia da instituição pesquisada habilita os profissionais a atuarem como docentes nos anos iniciais e dessa forma buscou -se investigar nas 2 entrevistas como tem ocorrido a formação para o ensino de Ciências. Os resultados 2 foram organizados evidenciando as percepções das futuras professoras em dois eixos: I) suas reflexões sobre disciplina Metodologia do Ensino de Ciências e II) como se sentem em relação ao enfrentamento da prática profissional para o ensino de Ciências .

## I) A disciplina Metodologia do Ensino de Ciências

Quando questionadas a respeito da formação durante o curso de graduação para ensinar Ciências nos anos iniciais as entrevistadas ressaltaram elementos de diferente natureza. Assim, suas respostas foram organizadas em subcategorias, evidenciando: a) à carga horária reduzida, b) ausência de conteúdos de ensino e c) experiências positivas.

## a) Carga horária reduzida

Praticamente metade das entrevistadas destacou aspectos negativos referentes a sua formação como, por exemplo, a carga horária reduzida da disciplina 3 de Metodologia do Ensino de Ciências 3 .

"(...) são 30 horas e não dá tempo de fazer nada." (Aline) 4

"A gente discute muito a respeito de política, sociologia da educação (...) e metodologias são 30 horas só, uma hora e meia por semana, em um semestre. É muito, muito pouco. Pra quem não tem experiência em sala de aula, não adianta você ter uma ferramenta e não ter outra." (Renata)

"(...) a gente só tem um semestre para estudar isso." (Valéria)

A principal sugestão apontada pelas entrevistadas é o aumento da carga horária das disciplinas Metodologias do Ensino, incluindo Metodologia do Ensino de Ciências Naturais, tal como a fala de Julia apresentada na sequencia:

"(...) todas as metodologias, que daí entra metodologia do ensino de Ciências, elas precisariam ter uma carga horária maior, r, porque eu tive Ciências 30 horas e pra mim foram bem insuficientes." (Julia)

Durante essa investigação, encontrava-se em discussão uma reformulação do curso em questão e, conseqüentemente da grade curricular. Foi proposto um aumento da carga horária destinada às disciplinas Metodologias do Ensino, incluindo Ciências Naturais. Sabe -se que apenas alterações de carga horária e/ou de nomenclatura das disciplinas não proporcionam uma efetiva mudança na formação inicial. Entretanto, acredita-se que o repensar sobre a formação e o currículo do curso é um primeiro passo e, principalmente, uma possibilidade de transformação e mudança das práticas.

## b) Ausência de Conteúdos de Ensino

Um elemento bastante ressaltado nas entrevistas é a percepção das próprias futuras professoras acerca da ausência dos conteúdos de ensino em sua formação docente. Algumas delas destacaram que não são trabalhados os

conteúdos escolares relativos às séries iniciais, sendo pressuposto que todos os alunos que cursam Pedagogia possuem o domínio das diferentes áreas de conhecimento.

- "(...) eu achei que as metodologias era o seguinte, que eu ia ter na metodologia de Matemática conteúdos de Matemática, ia ter na metodologia de Ciências conteúdos de Ciências. A gente precisa. A gente sai da faculdade assim e não tem nada, não tem absolutamente nada, nada de conteúdo. Você aprende um pouco da legislação que norteia a disciplina e só." (Aline)
- "(...) na graduação, a gente não vê essas partes, os livros didáticos, essas coisas. (...) ter mesmo a disciplina pra você pegar essa parte de teoria, só o curso de Ciências mesmo, que teria que fazer então a graduação em Ciências pra você ter um embasamento maior.r." (Veridiane)
- "(...) bastante informação importante, mas... informações que a gente vê no curso como um todo, né, da educação, do encaminhamento, das metodologias... eu acho que é um pouco isso que essa disciplina tenta trazer, né, não conteúdo, porque de conteúdo a gente vai pesquisar depois, vai saber na seqüência." (Valéria)

Pelas palavras das próprias entrevistadas, há uma carência dos saberes disciplinares (Tardif, 2002) em sua formação . A formação do professor que atua nos anos iniciais do ensino fundamental acaba sendo generalista, no sentido de esses profissionais ainda são considerados professores polivalentes, que trabalham com todas as disciplinas presentes no currículo desse nível de escolarização. Este fato, por si só, não dispensa que sejam abordados de maneira significativa os conteúdos relativos às diversas áreas do conhecimento, conforme destaca Oliveira (2007)

há no conteúdo programático do curso freqüentado pelo professor das séries iniciais, uma carga horária pequena para que os conteúdos das diferentes áreas do conhecimento possam ser vistos e apreendidos, essa carga horária favorece a escassez de conteúdos da área científica associados aos de metodologia de ensino desses conteúdos nos currículos desses cursos. (Oliveira, 2007, p.16)

Evidentemente, não se espera que o professor das séries iniciais manifeste o mesmo domínio conceitual de um professor que atua nos anos seguintes do ensino fundamental (5ª a 8ª séries) ou mesmo no ensino médio. Entretanto, vários autores (LONGHINI e MORA, 2004; BARROS et al., 2006; OLIVEIRA, 2007; AUGUSTO e AMARAL, 2008; NASCIMENTO et al., 2008; RAMOS e ROSA, 2008) apontam que os cursos de formação de professores para as séries iniciais não cumprem adequadamente o seu papel de formadores, particularmente, na área de Ciências Naturais, na maioria das vezes restringindo-se a metodologias esvaziadas de conteúdo.

## c) Experiências positivas

Embora com menor expressão, algumas alunas citaram experiências positivas relativas à sua formação para ensinar Ciências nas séries iniciais.

- "(...) geralmente as matérias, as disciplinas metodológicas aqui da faculdade não são tão relacionadas à prática, assim, alguns professores, bem poucos professores eles conseguem trazer essas idéias principais de como você tem trabalhar mas, não é a maioria. (...) ele [o professor de Metodologia do Ensino de Ciências] trouxe umas histórias que a gente conseguia perceber essa praticidade com o conteúdo, ele falou algumas coisas da atualidade pra gente, das revistas que estão em voga (...) Ele

gerou bastante essa expectativa de conhecer mais, de buscar mais pra poder ensinar melhor.r." (Lucia)

"(...) as metodologias elas tem, assim, em comum a teoria de como ensinar. Então, acho que isso que valeu muito, de você pensar que não é só o trabalho conceitual, que você tem que trabalhar, tem que partir pro lúdico, partir pro prático, pro visual e esses outros recursos. Isso é um aprendizado comum assim, que eu acho que vai servir para todas as disciplinas pra se trabalhar em escola." (Mirela)

Dessa forma, pode-se considerar que algumas ações estão sendo realizadas, ainda que de forma isolada por determinados docentes, na perspectiva de implementar novas propostas na formação inicial de professores no curso pesquisado.

## II) O enfrentamento da prática profissional para o ensino de Ciências

Questionadas a respeito de como se sentem para ensinar Ciências nos anos iniciais do ensino fundamental, metade das entrevistadas apontou estar despreparada, evidenciando o papel da pesquisa e do aprendizado através da profissão como alternativas para enfrentar esse despreparo.

## a) Necessidade de aprofundamento conceitual

Devido a lacunas e falhas apontadas na estrutura da disciplina Metodologia do Ensino de Ciências, conforme anteriormente citado, algumas das entrevistadas consideram -se conceitualmente despreparadas para ensinar Ciências nos anos iniciais.

- "(...) eu me sinto como na maioria dos outros conteúdos . Não me sinto preparada (...) eu acho que precisaria de bastante leitura, bastante conteúdo, bastante pesquisa, bastante... bastante subsídio para que eu pudesse dar uma boa aula." (Valéria)
- "(...) posso não dar conta, mas vou estar sempre progredindo no que estou fazendo. Não vou dizer que a minha aula vai ser perfeita e certinha, mas acho que eu tenho condição. Não pela minha experiência aqui na faculdade, porque eu não tive muita base, assim, na metodologia que eu fiz." (Renata)

Novamente percebe-se que as entrevistadas referem-se aos saberes disciplinares (Tardif, 2002) de modo negativo. É evidente o discurso de insegurança, despreparo, e de certa forma, insatisfação, em relação à própria formação. Em várias pesquisas com professores em exercício (NASCIMENTO e HAMBURGUER, 1994; LONGHINI e MORA, 2004; OLIVEIRA, 2007; ROSA, PEREZ e DRUM, 2007; LONGHINI, 2008; NASCIMENTO et al., 2008; RAMOS e ROSA, 2008) essa insegurança relacionada aos conteúdos de ensino também é constatada .

Como alternativa às dificuldades na elaboração de atividades para ensinar o conteúdo Estações do Ano, metade das entrevistadas destacou a necessidade de estudar sobre o assunto para aprofundar o conhecimento sobre o conteúdo.

"Achei dificuldade porque no caso eu teria que pegar uns livros (...) pra ter uma idéia de como que tá colocado ali e que poderia utilizar pra explicar melhor (...) Então, teria que estudar mesmo, ver ali, procurar, pesquisar, pra poder ter esse conhecimento." (Veridiane)

"(...) eu acho que exige um pouquinho mais de estudo, assim, exige um pouquinho mais de estudo do conteúdo pra poder fazer isso. (...) Hoje em dia com Internet, t,

com livros, você vai lá, fica 2 horas estudando, já sabe mais ou menos um bom conteúdo sobre a coisa." (Lucia)

"(...) teria que começar do zero, ir atrás de material, l, que nem eu falei, pesquisar (...) buscar livros, ir para Internet, t, conversar com pessoas que já trabalham com esse conteúdo, porque eu não tenho base nenhuma." (Milena)

"(...) o que me ajudaria muito é pesquisar sobre aquilo que você tem que ensinar. (...) nos livros didáticos é interessante pesquisar porque daí você pega três livros diferentes e pode ver diversas maneiras de fazer aquilo, de trabalhar aquilo, de entender aquilo. (...) outra coisa, outro meio que a gente não pode deixar de lado que é a Internet, t, também. Que é indispensável, por mais que às vezes as pessoas possam até criticar mas todo mundo usa. Você vai no google e digita qualquer coisa, você vai achar no mínimo alguma coisa sobre aquilo." (Mirela)

Destaca -se que as entrevistadas apontam para uma necessidade de aprofundamento conceitual dos conteúdos escolares a serem ensinados. As principais fontes de pesquisa por elas citadas para aquisição de conhecimentos específicos são os livros didáticos, as revistas e páginas da Internet. Essas fontes são externas ao curso de formação inicial, e, considerando que os futuros professores apresentam dificuldades conceituais, como avaliarão o material que estão pesquisando? Qual a qualidade do material que consultam? Apenas uma entrevistada apresenta críticas em relação ao livro didático como única fonte para o professor preparar suas aulas e menciona a utilização de artigos como recurso para o aprofundamento conceitual.

## b) Aprendizagem na experiência docente

Apesar de se tratar de uma pesquisa em um curso de formação inicial de professores, algumas entrevistadas dão pistas de que a formação profissional é um processo contínuo, e que a experiência adquirida na prática docente pode permitir superar as dificuldades que serão encontradas.

"(...) a gente não consegue ter domínio de tudo. Então, se você tem uma aula pra ensinar isso, então você tem que se preparar para ensinar isso. Daí claro, com a prática e com os anos você vai tendo certas artimanhas." (Aline)

"(...) com o tempo que eu tô aprendendo, eu vou estar... como que se diz, em uma formação contínua, né, porque agora eu não posso parar." (Veridiane)

Além disso, a troca de experiências com outros professores também foi citada como uma possibilidade de aprofundamento em certas questões relativas à prática docente, particularmente no que se refere a conteúdos de ensino.

"(...) estar buscando, falando com algum outro professor: r: olha, eu sei que é assim, tal, mas tá difícil de passar isso para a criança, de tentar fazer com que ela entenda o porquê." (Veridiane)

"(...) conversar com pessoas que já trabalham com esse conteúdo." (Milena)

Dessa forma, ainda que se trate de um curso de formação inicial de professores, os saberes da experiência (Tardif, 2002) também foram destacados por alguns sujeitos da pesquisa, uma vez que a maioria dos entrevistados atua como professores auxiliares ou regentes na educação infantil e nos anos iniciais do ensino fundamental.

Ainda que se considere que a formação de professores é um processo contínuo e que o desenvolvimento profissional não se encerra no curso de graduação, acredita-se que os cursos de formação inicial deveriam articular de maneira mais significativa os saberes docentes (Tardif, 2002), proporcionando aos futuros professores estratégias formativas que possibilitem refletir sobre seus

conhecimentos e concepções sobre os conteúdos, sobre como se ensina e como se aprende.

## Considerações Finais

Neste trabalho, buscou-se identificar e analisar os saberes docentes (Tardif, 2002) explicitados por futuros professores dos anos iniciais do ensino fundamental a partir de suas percepções sobre a formação docente para o ensino de ciências físicas nos anos iniciais do ensino fundamental.

- O reconhecimento das entrevistadas como não preparadas para o ensino de Ciências está relacionado à formação inicial do curso de Pedagogia e à própria relação das entrevistadas com os conteúdos de ensino.

Como alternativas para superação da insegurança e despreparo apontados pelas entrevistadas para ensinar Ciências, a maioria destaca o papel da pesquisa na atuação docente e o aprendizado que ocorre com a profissão, no próprio exercício da docência ou na troca de experiências com outros professores. Nesse sentido, mesmo se tratando de uma pesquisa com professores em formação inicial, são indicados elementos relacionados aos saberes experienciais (Tardif, 2002), que são aqueles que os professores desenvolvem com base em seu trabalho cotidiano e são baseados em suas experiências.

Por terem a percepção de que determinados conhecimentos não foram contemplados em sua formação inicial, atribuem a aprendizagem dos conteúdos escolares à uma iniciativa pessoal, através da experiência profissional.

Grande parte dos alunos do curso de Pedagogia investigado considera a docência como uma opção profissional, enquanto alguns a consideram uma etapa na formação para a atuação como pedagogo na organização e gestão escolar. Entretanto, conforme evidenciado pela fala da aluna abaixo, o curso parece enfatizar mais a discussão sobre os fundamentos da educação, tais como sociologia, filosofia e história da educação, com uma ênfase menor na formação para a docência (representada na fala da aluna pelas "Metodologias"), embora essa seja uma das habilitações previstas no curso em questão .

"A gente discute muito a respeito de política, sociologia da educação (...) e metodologias são 30 horas só, uma hora e meia por semana, em um semestre. É muito, muito pouco. Pra quem não tem experiência em sala de aula, não adianta você ter uma ferramenta e não ter outra." (Renata)

Não é só uma questão de maior ou menor ênfase, mas da forma como as disciplinas são trabalhadas, onde, novamente, merece destaque a necessidade de uma articulação entre os saberes docentes (Tardif, 2002) na formação, uma vez que outra aluna menciona a desarticulação existente entre as disciplinas do curso de formação inicial:

"(...) aqui na universidade é que a gente fala tanto de uma educação integral, de uma educação... mas é tudo assim, uma disciplina é uma disciplina, outra disciplina é outra disciplina (...) infelizmente, não se aplica na prática o que se é dito em sala de aula pra gente fazer." (Julia)

Segundo Tardif (2002), a formação de professores ainda é marcada por um modelo aplicacionista, em torno de lógicas disciplinares, no qual as disciplinas não têm relação entre si e pouco ou quase nada modificam as concepções dos alunos sobre ensino e sobre o trabalho docente.

Considerando que as entrevistadas estão em fase final de curso e que estarão futuramente atuando nos anos iniciais do ensino fundamental, diante da insegurança e despreparo apontado por elas mesmas nas entrevistas, ficam algumas questões: Como irão lidar com as dificuldades conceituais em sala de aula? Em que medida conseguirão aprender os conteúdos escolares no dia-a-dia escolar? Terão condições de assumir posturas diferentes daquelas adotadas pela professora personagem do episódio de ensino e tão criticadas por elas? Poderão os saberes da experiência (Tardif, 2002) contribuir significativamente para a futura atuação docente?

A formação de professores é um dos desafios para o futuro da educação básica. E por isso é preciso pensar na formação de um profissional que tenha uma ampliação do conhecimento do processo educativo, que seja capaz de compreender criticamente o contexto social em que está inserido, assim como, de atuar na transformação desse contexto e na criação das condições para que se efetivem os processos de ensino-aprendizagem.

## Referências

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