DISCUTINDO CIÊNCIA E SUA NATUREZA NO ENSINO MÉDIO A PARTIR DO FILME ``MAZE RUNNER: CORRER OU MORRER''
Thaís Balada Castilho, João Pedro De Oliveira, Daniel Fernando Bovolenta Ovigli, Nilva Lúcia Lombardi Sales
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXII
- Ano
- 2017
- Data
- 25/01/2017
- Linha de pesquisa
- Materiais, Métodos E Estratégias De Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## DISCUTINDO CIÊNCIA E SUA NATUREZA NO ENSINO MÉDIO A PARTIR DO FILME 'MAZE RUNNER: CORRER OU MORRER'
Thaís Balada Castilho , João Pedro de Oliveira , Daniel Fernando Bovolenta 1 2 Ovigli , Nilva Lúcia Lombardi Sales 3 4
- 1 Universidade Federal do Triângulo Mineiro/ICENE/taisballada@hotmail.com
- 2 Universidade Federal do Triângulo Mineiro/ICENE/joaofisica2014@outlook.com
## Resumo
O uso de filmes, em especial do gênero de ficção científica, desperta o interesse dos alunos para discutir conceitos físicos e fomenta discussões a respeito dos impactos da ciência e do fazer cientifico na sociedade. Este trabalho relata experiência que aconteceu no contexto de um projeto de extensão no qual são utilizados filmes como instrumentos facilitadores de aprendizagem. A atividade contou com a participação de professores de Matemática e Filosofia atuantes em uma das escolas parceiras do projeto a qual, além de ceder o tempo de suas aulas, contribuiu diretamente na construção das cine-aulas. Utilizando o filme Maze Runner, em uma abordagem multidisciplinar, discutimos temáticas como paradigma, mito da caverna e funções. O envolvimento dos alunos com a atividade mostra que a escolha do filme e dos temas discutidos foi adequada e nos leva a acreditar que o uso deste recurso como ferramenta de ensino pode ser uma alternativa ao ensino tradicional.
Palavras-chave : ensino de ciências; ficção científica; metaciência; filmes.
## Introdução
O ensino de Física e de Ciências na Educação Básica é, em geral, pautado por aulas que tradicionalmente levam em conta apenas temas apresentados pelos livros didáticos. Estes, no entanto, nem sempre contemplam discussões concretas de questões mais atuais do desenvolvimento científico ou discussões sobre a própria natureza do fazer científico. Buscando mudanças nesse cenário, a utilização de filmes como recurso pedagógico se destaca por sua proximidade com o cotidiano dos alunos. Assim, torna-se uma alternativa para instigar e motivar o interesse para temas que serão discutidos em sala de aula (PIASSI & PIETROCOLA, 2006). Destaca-se que é necessário que se reconheça o alcance de cada filme e o modo com que o mesmo foi concebido para que seu uso seja mais produtivo (SANTOS, 2010). Desta forma, um debate sobre questões apresentadas nos filmes pode guiar os alunos para o aprendizado de temas e contribuir com sua formação. A escolha dos temas a serem discutidos a partir de seu uso é vital para uma boa aplicação deste recurso em sala de aula. Evitando o que Viana (2009) chamou de 'vídeo-tapaburaco', ou seja, que o aluno não veja o uso de filmes como uma maneira de preencher espaços não produtivos dentro das atividades curriculares.
Cunha e Giordan (2008) destacam que elementos que permitam trazer à tona questões sobre o fazer científico, a figura do cientista e da própria ciência levarão os alunos a formar uma opinião crítica sobre a mídia e eles possivelmente
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começarão a ver os filmes de ficção científica com um olhar mais criterioso, particularmente quanto aos conceitos de Física envolvidos. Documentos oficiais, como os Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Médio (BRASIL, 2002, p. 29) se mostram favoráveis ao desenvolvimento de atividades que levem os alunos a 'reconhecer a Física enquanto construção humana, aspectos de sua história e relações com o contexto cultural, social, político e econômico. ' E ainda permitam 'estabelecer relações entre o conhecimento físico e outras formas de expressão da cultura humana.'
Viana (2009) afirma que o uso de filmes no ensino de ciências pode tanto contribuir para uma melhor aprendizagem dos conteúdos em si, como também permitir uma 'interpretação crítica da realidade a que estão submetidos tais alunos' (VIANA, 2009, p. 29). Existem indicações de que a ficção científica é o gênero de filmes mais visto pelo jovem; isso acontece pelo forte impacto neste perfil de público (AGUIAR e CHRISPINO, 2012). Com tudo isso, acreditamos que a utilização da linguagem cinematográfica no contexto educativo pode contribuir para despertar o interesse dos alunos para discutir conceitos científicos, auxiliando-os na motivação pelo estudo dos temas abordados e como pode contribuir com a aprendizagem. Ademais, pode motivar discussões a respeito dos impactos da ciência e do fazer cientifico na sociedade e contribuir para uma formação mais crítica do aluno inserido nestas discussões.
Frente a este breve panorama pretendemos apresentar, neste trabalho, o relato de uma experiência realizada em um projeto de extensão que tem como objetivo principal utilizar filmes como instrumentos facilitadores da aprendizagem de conteúdos científicos, além de discutir questões relativas à metaciência e ao fazer científico. Desta forma pretendemos além de trazer discussões sobre epistemologia da ciência que permitam a construção de uma visão crítica do aluno sobre como a Física se constrói enquanto ciência, também dialogar com outras áreas do conhecimento permitindo que esta proposta seja uma atividade multidisciplinar. Neste recorte vamos apresentar a discussão realizada a partir do filme 'Maze Runner: correr ou morrer' em parceria com professores de matemática e filosofia.
## Cine-aulas: uma breve descrição do projeto de extensão
O projeto de extensão 'Cine-aulas: discutindo ciência a partir de filmes', está em seu segundo ano de execução e conta com a participação de dois docentes e dois discentes para sua execução. No primeiro ano o foco foi escolher filmes (a maioria de ficção científica) que permitissem discussões interdisciplinares sobre conceitos científicos e metacientíficos. A partir deste material elaboramos um 'catálogo de cine-aulas' que podem ser adaptadas para serem discutidas nos três anos do Ensino Médio e com professores de várias disciplinas. Independente da abordagem explícita de conceitos de física (pois nem sempre professores de física aderem ao projeto), sempre incluímos uma discussão envolvendo concepções de epistemologia da ciência. Desta forma esperamos contribuir com a construção de uma visão crítica do aluno sobre o fazer científico (em especial considerando exemplos da física) ao fazer uma contextualização sócio-cultural da ciência, como sugerido nas Parâmetros Curriculares Nacionais (BRASIL, 2002).
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Atualmente o projeto tem a parceria de quatro escolas públicas da cidade de Uberaba-MG, as quais foram firmadas a partir de visitas realizadas pela equipe executora às escolas durante reuniões pedagógicas coletivas realizadas no início do semestre letivo. Naquele momento foi apresentado o projeto e os professores foram convidados a participar. Nesta conversa incentivamos que a adesão ao projeto fosse feita por vários professores de uma mesma turma, o que facilitaria a execução da proposta, visto que o filme é exibido na íntegra para depois discuti-lo em uma aula de 50 minutos, no mínimo.
Este contato realizado no início do ano letivo permitiu que os professores pudessem se organizar para incluir a 'cine-aula' em seu planejamento, de forma que a estratégia de ensino pudesse ser mais bem explorada e, assim, evitar as situações do tipo 'vídeo-tapa-buracos', citada anteriormente. Os conteúdos que estão sendo tratados dentro da sala de aula sempre estão envolvidos na cine-aula. Além disso, sempre há a discussão sobre questões de natureza da ciência. Esta é caracterizada por discussões que se concentram, mas não se limitam, na construção, estabelecimento e organização do conhecimento científico. Abrange '(...) desde questões internas, tais como método científico e relação entre experimento e teoria, até outras externas, como a influência de elementos sociais, culturais, religiosos e políticos na aceitação ou rejeição de ideias científicas' (ARSIOLI, 2014, p. 36).
Assim, este relato se baseia na experiência do desenvolvimento de uma das atividades produzidas junto com uma das escolas parceiras do projeto. O contato inicial foi feito pelo professor de Filosofia que gostaria de abordar o mito da caverna com seus alunos do 1ª ano do Ensino Médio. Ao nos reunirmos com este professor para a escolha do filme, a professora de Matemática se interessou e pediu para avaliarmos a possibilidade de incluir alguma discussão sobre os conceitos introdutórios de funções e, para tanto, escolhemos o filme 'Maze Runner: correr ou morrer'. Este filme se desenvolve a partir da chegada de Thomas em uma clareira que é parte de um enorme labirinto, onde é recebido por um grupo de garotos. Uma característica em comum é que todos chegam sem lembrança alguma do mundo exterior. Thomas, porém, tem estranhos sonhos sobre uma misteriosa organização. Assim como todas as sociedades, esta tinha suas regras, mas Thomas não conseguia se adaptar a elas.
O filme escolhido atinge os critérios do projeto, visto que se trata de uma produção de ficção cientifica atual e que faz parte do universo dos alunos. Após a escolha, iniciamos o aprofundamento das questões que posteriormente seriam discutidas, sempre em contato com os professores parceiros. Julgamos que para um maior aproveitamento da atividade o filme deve ser apresentado na íntegra para os alunos, o que, neste caso, aconteceu nos dias que antecederam a discussão pelos professores. É valido salientar que os alunos não eram preparados para a exibição, trata-se de um elemento importante, já que não gostaríamos que se mantivessem atentos apenas a uma cena ou, ainda, direcioná-los de qualquer forma para partes especificas. A discussão aconteceu com cinco turmas de 1º ano do Ensino Médio, todas no mesmo dia. Utilizamos uma aula de cinquenta minutos em cada turma, dentro do horário e ambiente escolar. Sempre iniciamos a apresentação com algumas informações básicas do roteiro, além da indicação da história original (seu roteiro ou o livro que foi roteirizado). Neste caso, que é uma adaptação de um livro, discutimos inicialmente seu caráter de produção e a influência do autor em seu
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desenvolvimento, bem como as características dos personagens principais na história. A seguir iniciamos nossa discussão a partir de cenas pré-selecionadas, exibindo-as uma de cada vez .
## Detalhando a atividade: a discussão das cenas escolhidas
A primeira cena escolhida mostra Chuck conversando com o Thomas, que foi o último garoto a chegar à clareira, sobre o primeiro dia dele e as regras que todos têm que seguir. Chuck adverte que não se pode sair dos muros, que posteriormente é definido como um labirinto. Ao ser questionado sobre o motivo, dá a seguinte resposta: '- Não sei, só sei o que me disseram... E não devemos sair'. Ao mesmo tempo dois garotos entram pelos portões do muro e, curioso, Thomas chega mais perto para entender o que está acontecendo. Neste momento, os moradores mais velhos o impedem de entrar e se segue um diálogo em que a frase que mais se diz é '- Relaxa, só estamos tentando te proteger'. Com esta cena, introduzimos o conceito de paradigma, utilizando para isso os conceitos elaborados por Thomas Kuhn, que o designou como sendo '(...) modelos que, por período mais ou menos longo e de modo mais ou menos explícito, orientam o desenvolvimento posterior das pesquisas exclusivamente na busca da solução para os problemas por elas suscitados' (KUHN, 1962). Assim, discutimos sobre que aspectos este conceito se encaixa no filme e nas relações cotidianas nos próprios alunos. O passo seguinte foi mostrar como os paradigmas se entrelaçam e quais as suas influências nas pesquisas científicas. Citamos alguns exemplos de paradigmas da Física, tanto em vigência, como a Mecânica Newtoniana e a Mecânica Quântica, quando outros que já não são mais usados, como a Física Aristotélica.
A segunda cena mostra um conselho que discute o que fazer sobre a curiosidade constante e o descumprimento de ordens por parte do Thomas. O corte começa com Gally, um dos garotos mais velhos, dizendo a seguinte frase: 'Os tempos estão mudados'. Esta frase se refere principalmente à entrada de Thomas no labirinto, que é considerada uma desobediência às regras estabelecidas, mesmo que essa desobediência tenha salvado a vida do líder dos garotos. É possível ver nesta cena que existe um estranhamento de ideias e entre os próprios garotos já que, apesar de uma das normas ter sido quebrada, uma vida foi salva. Usando esta passagem, discutimos como as leis podem ou não ajudar no convívio em comunidade e como o surgimento de um novo fato, ou mesmo a quebra de uma norma pode influenciar o pensamento de alguns membros dessa comunidade. A mesma discussão é levada à ciência, iniciando as discussões sobre as anomalias que podem surgir no desenvolvimento científico e como a comunidade reage a isso.
A terceira cena mostra uma condição do grupo sendo quebrada. Quando a caixa, instrumento que leva os novos garotos à clareira, sobe novamente, trazendo agora uma garota e ainda um bilhete dizendo: 'Ela é a última. Para sempre' Gally, defensor das regras, diz: 'Ainda acham que eu estou exagerando? '. Logo após, mostramos o quarto corte do filme, que mostra Thomas sendo punido por ter quebrado as regras para, logo depois, ser autorizado a entrar no labirinto, agora como corredor e assim não precisar mais quebrar a regra de que 'só corredores entram no labirinto'. Com a união destas duas cenas foi possível discutir o conceito de crise de um paradigma, na perspectiva kuhniana, e o que acontece durante esse período, como por exemplo, o conflito entre os membros de uma comunidade.
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Discutimos sobre os possíveis cenários que sucedem o fim dessa crise: as adaptações ao modelo vigente revelam-se capazes de tratar o problema que provocou a crise ou a necessidade de que se estabeleça uma nova ordem e um novo paradigma. Exemplos extraídos da física poderiam ser discussões da mudança do paradigma geocêntrico para o heliocêntrico ou até o surgimento da mecânica quântica.
A última cena mostra uma comunidade dividida. Alguns membros que acreditam na manutenção da ordem em que estão vivendo e querem continuar nela, inclusive forçando todos os membros a continuar dentro da sociedade já estabelecida, estes liderados por Gally. E há os membros que não se satisfazem mais com o modo em que vivem e que querem sair em busca de uma nova ordem, estes são liderados por Thomas. Depois de embates, o segundo grupo consegue sair da Clareira e, na sequência, são resgatados e apresentados a uma nova realidade. Esta sequência, que também é a última do filme, representa a quebra do paradigma, ou uma revolução, que na perspectiva de Thomas Khun (1962) representa um momento de reformulação do modo de fazer científico, e que Chalmers (1993, p. 133) corrobora quando diz:
Uma revolução corresponde ao abandono de um paradigma e adoção de um novo, não por um único individuo, mas, pela comunidade (...). Para que uma revolução seja bem-sucedida, o deslocamento da comunidade deverá, então, difundir-se de modo a incluir a maioria da comunidade.
Enfatizamos neste momento que mesmo quando há uma mudança no paradigma a comunidade não muda por completo, já que a linguagem e os instrumentos ainda são os mesmos, o que Kuhn (1962) é enfático ao relatar que:
Mudanças dessas espécies nunca são totais. Não importa o que o cientista possa então ver, após a revolução o cientista ainda está olhando para o mesmo mundo. Além disso, grande parte da sua linguagem e os seus instrumentos ainda são os mesmos, embora anteriormente, ele possa ter empregado de forma diferente.
## Maze Runner, mito da caverna e o conceito de funções: estabelecendo relações
Além desta discussão epistemológica sobre paradigmas deveríamos também tratar das temáticas solicitadas pelos professores parceiros nessa atividade, ou seja, o Mito da Caverna, para o professor de Filosofia, e Funções para a professora de Matemática.
O contexto do filme nos mostra, em seu pano de fundo, uma definição clara da alegoria da caverna. Esta busca pode ser retratada pelo Mito da Caverna (ou Alegoria da Caverna), escrito pelo filósofo Platão em seu livro 'A República'. Este livro mostra o diálogo de Sócrates com Glauco e Adimanto sobre questões do saber, sendo um dos textos de filosofia mais lidos no mundo. Como nosso público foi composto por alunos do 1º ano do Ensino Médio, decidimos usar como fonte o livro 'O Mundo de Sofia' (GAARDER, 1991), para que a atividade estivesse em uma linguagem mais próxima a eles. A passagem que utilizamos segue abaixo:
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'Platão nos conta uma parábola que ilustra bem esta reflexão. Nós a conhecemos por alegoria da caverna. Vou contá-la com minhas próprias palavras. Imagine um grupo de pessoas que habitam o interior de uma caverna subterrânea. Elas estão de costas para a entrada da caverna e acorrentadas no pescoço e nos pés, de sorte que tudo o que vêem é a parede da caverna. Atrás delas ergue-se um muro alto e por trás desse muro passam figuras de formas humanas sustentando outras figuras que se elevam para além da borda do muro. Como há uma fogueira queimando atrás dessas figuras, elas projetam sombras bruxuleantes na parede da caverna. Assim, a única coisa que as pessoas da caverna podem ver é este 'teatro de sombras'. E como essas pessoas estão ali desde que nasceram, elas acham que as sombras que vêem são a única coisa que existe. Imagine agora que um desses habitantes da caverna consiga se libertar daquela prisão. Primeiramente ele se pergunta de onde vêm aquelas sombras projetadas na parede da caverna. Agora, o feliz habitante das cavernas pode andar livremente pela natureza, desfrutando da liberdade que acabara de conquistar. Mas as outras pessoas que ainda continuam lá dentro da caverna não lhe saem da cabeça. E por isso ele decide voltar. Assim que chega lá, ele tenta explicar aos outros que as sombras na parede não passam de trêmulas imitações da realidade. Mas ninguém acredita nele. As pessoas apontam para a parede da caverna e dizem que aquilo que vêem é tudo o que existe. Por fim, acabam matando-o' (p.105).
Após essa leitura pedíamos aos alunos que a relacionassem ao filme e também ao seu cotidiano. Comparando o Mito com o filme, os alunos indicaram que os prisioneiros da caverna estão representados pelos moradores da Clareira pois apenas acreditavam e usavam o foi transmitido a eles. A caverna seria a Clareira, com seus fenômenos e regras. Quando começa a busca para sair do labirinto/caverna e ao descobrir novas possibilidades, temos dificuldade para entender e de mudar a perspectiva. Retomamos a ideia que de na ciência também existe essa dificuldade para aceitar as grandes mudanças de pensamento e, com isso, encerramos essa primeira parte da discussão que relacionou a análise do filme com temas presentes nas aulas de Filosofia.
A outra relação que precisaríamos fazer era entre a discussão do filme e o conteúdo sobre funções. Segundo relato da professora, ao introduzir o conceito de funções os alunos estavam com dificuldades em entender domínio, contradomínio e imagem de uma função. Nossa primeira ideia foi procurar no filme sequências e relações numéricas que pudessem nos levar a esses conceitos, porém não tivemos êxito. Porém ao apresentar a estrutura da 'cine-aula' para os professores, a professora de Matemática nos sugeriu tentar fazer analogias com os elementos presentes na discussão de paradigmas com os elementos presentes na construção do conceito de função. Assim, considerando que o conceito de função poderia ser entendido como uma regra que leva elementos de um conjunto a outro, na analogia que desenvolvemos relacionamos o conceito de função com o de paradigma, que neste caso seria o conjunto de regras que regem uma sociedade, como a dos meninos da clareira. Contudo esse conjunto de regras pode não ser adequado para todos os indivíduos dessa sociedade, como era o caso do personagem Thomas. O que, na nossa analogia, equivaleria a dizer que existe um conjunto de elementos (conjunto domínio) no qual essas regras (ou a função) podem atuar gerando um resultado aceitável. Assim foi possível trazer os conceitos de conjunto domínio e imagem de uma função para o contexto do filme e contribuir para que os alunos os compreendessem melhor.
## Considerações Finais
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Esse trabalho trouxe o relato de uma das atividades desenvolvidas dentro do projeto de extensão 'Cine-aulas: discutindo ciências a partir de filmes'. Em particular, neste recorte, apresentamos as discussões realizadas a partir do filme Maze Runner: correr ou morrer com alunos do 1º ano do Ensino Médio e professores de filosofia e matemática. As discussões versaram principalmente sobre os conceitos da revolução científica na perspectiva kuhniana e permitiram fazer relações com os conteúdos sobre o mito da caverna e funções matemáticas, que eram os temas abordados pelos professores parceiros.
Desenvolvemos a atividade em 5 salas com cerca de 30 alunos cada. Nossa principal dificuldade foi o tempo escasso que tivemos para as discussões, que acreditávamos ser possível fazer em apenas uma aula, ou seja, cinquenta minutos. Durante as discussões do filme vimos que esse tempo é insuficiente. Isso porque além da atividade ter se mostrado rica em detalhes e em desdobramentos, a própria dinâmica do ambiente escolar pede mais tempo. No dia da apresentação tivemos atraso na hora da entrada, dificuldades com o equipamento de projeção e até a intervenção de diretores e outros agentes externos durante a apresentação, além do próprio tempo gasto na entrada/saída de alunos da sala em que era feita a apresentação. De modo geral a apresentação não foi prejudicada, mas sentimos falta de uma discussão feita com mais calma em alguns pontos da atividade.
Contudo, apesar desses contratempos, tivemos a grata surpresa de ver o grande envolvimento dos alunos com a atividade, o que mostra que a escolha do filme e dos temas discutidos foram adequados. Durante as discussões das cenas dos filmes os alunos conseguiam se colocar no lugar de diversos personagens e trazer a discussão para o seu cotidiano mostrando, assim, o envolvimento com as questões apresentadas. Ainda, como a construção do debate foi feita por meio dos exemplos que os próprios alunos colocaram como paradigma, foi possível ver que conseguiam analisar e apontar o desenvolvimento do paradigma, sua estruturação pela ciência normal, crise e revolução. Para nós, estudar conceitos de paradigmas na visão kuhniana reflete no desenvolvimento critico dos alunos, já que conseguem ver com mais clareza que transformações nas teorias vigentes não são feitas por apenas um grande nome que genialmente desenvolve todo um aparato de estratégias para descrever essa teoria. Podemos exemplificar esta questão quando discutimos a passagem do modelo geocêntrico para o modelo heliocêntrico ou, ainda, em como se deu a construção da Mecânica Quântica. Nesse relato, esse não foi o foco principal, uma vez que o professor de física dessa escola não aderiu ao projeto. Contudo percebemos que os elementos que destacamos nesse trabalho podem contribuir para a uma rica discussão sobre a Natureza da Ciência se feito com mais tempo pelo professor dessa disciplina. Até porque a física tem vários bons exemplos de revolução científica do ponto de vista Kuhniano. Assim esperamos com esse texto contribuir com a indicação de uma proposta para problematizar visões sobre o fazer científico nas aulas de física.
Outra passagem que nos chamou bastante atenção foi o uso do paradigma para explicar a função. Como foi a última discussão, e a mais abstrata delas, existia uma grande expectativa da equipe em saber como as turmas reagiriam. A expressão da turma após a explicação era um misto de espanto e entendimento. Os alunos, não só desta escola, estão acostumados a ver Matemática e Física apenas por meio de expressões matemáticas, regras e contas e, assim, eles não conseguiam imaginar como o conteúdo de Matemática se relacionaria com a temática do filme.
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Ao perceberem que a analogia da função matemática com o paradigma apresentado fazia sentido, nossa discussão foi facilitada.
## Referências
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ARSIOLI. B. M. O que é natureza da Ciência e qual sua relação com a História e Filosofia da Ciência? Revista Brasileira de História da Ciência , Rio de Janeiro, v. 7, n. 1, p. 32-46, jan | jun 2014.
BRASIL. Secretaria de Educação Média e Tecnológica. PCN+ Ensino Médio: Orientações Educacionais complementares aos Parâmetros Curriculares Nacionais. Ciências da natureza, matemática e suas tecnologias. Brasília: Ministério da Educação/Secretaria de Educação Média e Tecnológica, 56-141. (2002).
CHALMERS, A. F. O que é Ciência Afinal? 1ªed. Editora Brasiliense. São Paulo, 1993.
CUNHA, M. B.; GIORDAN, M. A Imagem da Ciência no Cinema. Química Nova na Escola .v. 31, n. 1, fevereiro 2009.
GAARDER, J. O mundo de Sofia: romance da história da filosofia . 1ª ed. Companhia das Letras. São Paulo, 2012.
KUHN, T. S. A estrutura das revoluções científicas . 12ª ed. Perspectiva, São Paulo, 2013.
PIASSI, L. P. C.; PIETROCOLA, M. Possibilidades dos filmes de ficção científica como recurso didático em aulas de física: A construção de um instrumento de análise. In: Encontro de Pesquisa em Ensino de Física , 2006, Londrina.
PLATÃO. A República . Trad. Enrico Corvisieri. São Paulo: Nova Cultural, 2004.
SANTOS, P. C. A utilização de recursos audiovisuais no ensino de física: tendências entre 1997 e 2007. 2010. 179 f. Dissertação (mestrado). Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo (USP), São Paulo, 2010.
VIANA, S. S. O uso do cinema como ferramenta pedagógica para o ensino de ciência na modalidade de educação de jovens e adultos . Instituto Federal de Ciência e Tecnologia do Rio De Janeiro. Nilópolis. 2009.
Maze Runner, Wes Ball, USA, Fox Film do Brasil. 2014, DVD.
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Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.