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A INTERAÇÃO TRIÁDICA NA PARCERIA UNIVERSIDADE-ESCOLA: DIÁLOGOS ENTRE A FÍSICA E A POESIA DA MÚSICA POPULAR

José Roberto Da Rocha Bernardo, Patrick De Miranda Antonioli, Gloria Regina Pessôa Campello Queiroz

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XII
Ano
2010
Data
25/10/2010
Linha de pesquisa
Formação E Prática Profissional Do Professor De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## A INTERAÇÃO TRIÁDICA NA PARCERIA UNIVERSIDADE -ESCOLA: DIÁLOGOS ENTRE A FÍSICA E A POESIA DA MÚSICA POPULAR

## THE TRIADIC INTERACTION IN UNIVERSITY -SCHOOL PARTNERSHIP: DIALOGUE BETWEEN THE PHYSICS AND THE POETRY OF POPULAR MUSIC

## José Roberto da Rocha Bernardo 1 , Patrick de Miranda Antonioli 2 , Glória Regina Pessôa Campello Queiroz 3

1 Faculdade de Educação/Universidade Federal Fluminense , bernardo.jrr@gmail.com 2 Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca , rickantonioli@gmail.com 3 Instituto de Física/Universidade do Estado do Rio de Janeiro , gloria@uerj.br

## Resumo

O presente trabalho apresenta parte de uma pesquisa que envolve duas dimensões e que se baseia na aproximação entre a Física e elementos da Música Popular - mais especificamente a poesia do samba . A primeira está relacionada com a investigação do aprendizado de estudantes do Ensino Médio sobre fenômenos da reflexão da luz a partir de conflitos (ou não) criados pelo confronto entre concepções alternativas externadas pelos autores das músicas e as concepções apresentadas pelos estudantes. A segunda está relacionada com a identificação, para compreensão da origem das concepções alternativas de estudantes sobre os fenômenos da reflexão da luz. Através de um projeto desenvolvido de forma colaborativa entre a universidade , uma escola pública regular e um curso préuniversitário comunitário . Participaram do processo: um professor formador (da universidade), um professor co-formador (da escola) e alunos de graduação em Física. A dinâmica adotada durante as ações de planejamento das atividades e implementação junto às turmas das escolas parceiras , envolveu os três seguimentos representantes da tríade. Em relação à aprendizagem dos estudantes, as atividades promoveram uma aproximação com o gênero do samba, considerado o gênero popular mais significativo para a região do Município do Rio de Janeiro, local onde as escolas estão localizadas. As atividades propostas possibilitaram momentos de reflexão, discussão, descoberta, revelações e de construção do conhecimento por parte dos estudantes. A utilização do projeto de parceria foi importante para os atores envolvidos na tríade na medida em que promoveu uma aproximação com o campo da Didática das Ciências a partir do trabalho colaborativo e da experiência de construção e implementação de proposta inovadora no espaço escolar.

Palavras -chave: formação de professores, ciência e arte, ensino de ciências

## Abstract

This paper presents part of a research involving two dimensions and is based on the approach between physics and elements of popular music - more specifically the poetry of the samba. The first is related to research of the learning of high school students about the phenomenon of light reflection from conflict (or not) created by the confrontation between alternative conception presented by the authors music and the

conceptions presented by students. The second is related to the identification, to understanding the origin of alternative conceptions of students about the phenomenon of light reflection. Through a project developed collaboratively between the university, a regular public school and a communitarian pre-university course. Participated in this process: an educator teacher (from university), a co-educator teacher r (from school) and graduate students in Physics. The dynamics adopted during the planning actions and the implementation with classes of partner schools, involved representatives of the three segments of the triad. Regarding students learning, the activities promoted an approach to the genre of samba, considered the most significant popular genre in the region of Rio de Janeiro municipality, where schools are located. The proposed activities allowed reflection moments, discussion, discovery, revelations and knowledge construction by students. The use of the partnership project was important for those involved in the triad in proportion to promoted an approach to the field of Science Didactics from the collaborative work and experience in building and implementing innovative proposal in the school space .

Keywords: teachers ' education, science and art, science education.

## Introdução

Muitos são os problemas enfrentados pelos professores em relação ao Ensino de Física, sobretudo no que diz respeito à falta de interesse dos estudantes por questões que envolvem essa disciplina. Ao refletir sobre a possibilidade de introdução de atividades mais inovadoras nas escolas, nos identificamos com Foerste (2005) em relação entre as parcerias no apoio a essas inovações, através de projetos colaborativos que valorizem a interação triádica (QUEIROZ et al, 2005) entre os diferentes atores envolvidos: professor da escola (co-formador), professor da universidade (formador) e licenciando, em processos que relacionem escola e universidade de forma horizontal.

No âmbito de uma parceria entre professores de uma escola de ensino médio e a universidade, o presente trabalho teve como objetivo específico acompanhar a construção por licenciandos e professores de um projeto relacionando o ensino de óptica às concepções alternativas presentes na cultura musical popular brasileira, como dados possíveis de serem usados na construção de conhecimento significativo pelos alunos. Os licenciandos e o co-formador elaboraram atividades ligadas à música popular e a óptica em colaboração com o formador, para juntos aplicarem na sala de aula. Os licenciandos, em contato com o referencial das concepções alternativas, colocam em prática a teoria ao realizarem seu estudo, dentro do contexto da óptica e da cultura, explorado em sala de aula.

Os objetivos de nossa pesquisa estão vinculados às duas perguntas de partida:

- 1) Em que medida a poesia de canções populares pode colaborar para a aprendizagem de conceitos de óptica?
- 2) Em que medida uma ação de parceria entre universidade e escola pode colaborar na formação do licenciando e do professor de física em serviço?

O foco da pesquisa não está no levantamento das concepções prévias, mas em algo mais amplo, como a colaboração entre os três elementos para uma melhor

prática de ensino por parte dos licenciandos e co-formadores, assim como a abertura de portas para o campo da pesquisa em Ensino de Ciências para os próprios licenciandos. Os objetivos mais amplos junto aos estudantes de ensino médio eram: despertar o interesse para o estudo de Física, através da contextualização da ciência na cultura, tecendo relações com os dias atuais; estimular os alunos a compreenderem a ciência como fator integrante da vida e estimular o interesse pelas ciências e pelas artes como formas de conhecimento, interpretação e expressão dos seres humanos sobre si mesmos e sobre o mundo que os cerca. Especificamente em relação ao ensino de óptica, os objetivos eram: compreender princípio de propagação retilínea da luz; compreender reflexão difusa e reflexão regular em espelhos planos.

A universidade envolvida tem consolidado uma nova cultura de formação no âmbito de seu curso de Licenciatura em Física. Futuros professores, alunos do curso são inseridos numa cultura de projetos pedagógicos capaz de ampliar a visão geral de mundo e a visão pedagógica com que ingressam na Universidade, por meio de atividades teórico -práticas preparando-se para negociar o desenvolvimento de projetos similares aos propostos a cada ano pelos formadores na universidade com seus tutores nas escolas em que atuam como estagiários. Ao aceitarem o convite, os professores que os orientam e seus alunos participam de uma via de mão dupla escola -universidade para a formação inicial e em serviço de professores.

## Marco Teórico

Para a consecução de nossas pesquisas, temos buscado apoio nas relações entre ciência, arte e cultura, levando em conta as concepções alternativas, de autores da música popular e de nossos estudantes, procurando relacioná-las para compreender as origens das concepções dos alunos sobre elementos da Física. As atividades se baseiam em projetos colaborativos que envolvem os campos da Cultura Musical Popular e da Física em ações de parceria entre universidade-escola que favoreçam a formação de licenciandos e de professores em serviço bem como a introdução de atividades inovadoras que facilitem a aprendizagem de estudantes do Ensino Médio.

## A parceria na formação do professor de Física

O contexto educacional internacional vem dando ênfase ao crescimento nos últimos anos da parceria como prática de formação inicial e continuada de professores. Segundo Foerste (2005), a parceria envolve instituições e/ou indivíduos que se agregam de forma voluntária para desenvolver objetivos comuns, estabelecendo negociações coletivas com partilha de compromissos e responsabilidades.

Uma parceria surge para tentar resolver problemas educacionais complexos, como a grande lacuna entre a formação teórica dos professores na universidade e o exercício da profissão docente na escola, visando a uma maior e necessária articulação entre saberes teóricos e saberes da experiência (TARDIF, 2002). Na educação, a utilização de projetos vem assumindo cada vez mais um papel inovador, capaz de motivar licenciandos e professores na construção do conhecimento pedagógico de conteúdos, desde a fase de planejamento até a de avaliação de um projeto que atenda aos objetivos de todos os envolvidos no processo educativo (COSTA, 2003). Por integrar conhecimentos escolares à cultura em geral, a pedagogia de projetos pensada na relação universidade-escola se

adequa a escolas e professores conscientes do momento de mudança que a sociedade demanda.

Em trabalhos anteriores (QUEIROZ et al, 2005), foram estudados parâmetros relevantes para a implementação de projetos inovadores em escolas que participam da formação inicial universitária de professores, via intercâmbio de saber docente entre professores de universidade, das escolas e os licenciandos. Entre eles se destaca o compromisso do professor com seus alunos na escola e com o trabalho de co -formação dos universitários, seus futuros colegas.

## Ciência, Arte e Cultura Popular

A discussão sobre a relação entre Ciência e Arte é um tema antigo e controverso. O desenvolvimento de sistemas ópticos como as lentes, os espelhos e as câmaras escuras coincidem historicamente com mudanças de paradigmas no campo da pintura desde o século XV.

Segundo Barbosa-Lima et al. (2007), o processo de formação de imagens, principalmente no século XVIII, está diretamente ligado ao avanço do conhecimento. De acordo com as autoras, os trabalhos do pintor Vermeer, do cientista Huygens e do microscopista Leeuwenhoek estão todos apoiados em estudos sobre a luz. Naquele contexto histórico, cientistas e artistas estariam recorrendo às imagens produzidas para registrar suas descobertas e produzir suas obras, como fez Kepler, que utilizou uma câmara escura para registrar, em desenho, os seus estudos.

Ao considerar a criatividade como um ingrediente indispensável da Ciência, Mascarenhas (1997) chega a asseverar que "a Arte é a mãe da Ciência" e atribui a esta os papéis de indutora dessa criatividade e alimentadora da curiosidade que, segundo o autor, "é o motor da Ciência". Também no campo da Literatura, a aproximação com o campo da Ciência vem sendo promovida. Em um trabalho de análise das relações entre a Ciência e a Literatura, Vierne (1994) busca fazer um paralelo entre as duas, mostrando que essas relações não são tão simples. Enquanto a Ciência modifica a visão que o homem possui do mundo, a Literatura traduz as mudanças que ocorrem na concepção do homem sobre a sua relação com o mundo. Assim, a autora descreve momentos em que ciência e literatura andaram muito próximas, como na Renascença, por exemplo, onde, segundo ela, vêem-se alguns homens esforçando-se por adquirir e transmitir um saber enciclopédico, situação em que "os poetas se apropriam da ciência enquanto esta se transmite sem complexos pela poesia". Entretanto, a autora aponta outros momentos em que se iniciou uma separação entre elas, quando a ciência começou a adquirir uma linguagem própria e mais complexa, a partir dos séculos XIX e XX.

Ainda em relação à discussão sobre a integração existente entre ciência, arte e cultura, Moreira (2002) considera que "ciência e poesia pertencem à mesma busca imaginativa humana, embora ligadas a domínios diferentes de conhecimento e valor". Assim, a aproximação entre essas duas dimensões pode e deve ser valorizada pelos professores, em geral, através de atividades que envolvam a arte e a poesia, já que "a criatividade e a imaginação são o húmus comum de que se nutrem" (MOREIRA, 2002).

Como sugestão para tratar de forma integrada essa relação entre ciência e poesia, o autor apresenta em seu trabalho, exemplos onde diversos temas científicos são citados em textos de poemas escritos por autores como: Manuel Bandeira e João Cabral de Melo Neto, entre outros.

Em se tratando do caso específico da Física, Zanetic (2002) ilustra a ideia de "ponte" entre esta e a arte, citando várias iniciativas ocorridas no Brasil nesse sentido. Além disso, o autor se utiliza basicamente de exemplos de músicas populares brasileiras, onde o diálogo entre essas duas culturas se realiza, como nas composições Quanta e Lunik 9 de Gilberto Gil e Tempo e Espaço de Paulo Vanzolini.

Em relação à tarefa do professor de Física em sala de aula os autores recomendam uma iniciativa no sentido de incentivar a leitura e a análise de textos literários, buscando uma forma lúdica de fazê-lo, sem que isso faça dele um substituto para o professor de literatura, mas sim que auxilie efetivamente na construção de atividades, através da colaboração mútua, não só de professores de física e de literatura como de outras disciplinas (ZANETIC, 2002).

## Concepções alternativas

Pesquisas realizadas ao longo de mais de duas décadas (CARRASCOSA, 2005) mostram que os estudantes têm ideias e conceitos formulados por eles próprios ao longo de suas vidas, oriundos de conhecimentos empíricos, de revistas em quadrinho, da televisão, da sala de aula, etc. São concepções alternativas às ensinadas pelos professores , e de difícil substituição. Para o aluno, mesmo errada , uma dada concepção resolve seus problemas do dia-a-dia e desse modo quando este se depara com um novo conceito , a aprendizagem se torna mais difícil.

As concepções alternativas são construídas ao longo do tempo. Algumas são fáceis de mudar, mas outras são mais difíceis. No cotidiano, costumamos emitir enunciados do tipo: hoje está calor, e empregar as palavras força e trabalho em inúmeras situações, sem que o sentido dado a essas palavras possa ser identificado com o dado pela física estudada na escola. Como muitas vezes o uso é feito de maneira inadequada, do ponto de vista da ciência, a concepção alternativa ganha a força de um hábito, em seu pensamento .

Vale destacar que autores como Pozo e Gómez-Crespo (2009), entre outros, alertam para uma forma mais efetiva de ensino de ciências, a integração hierárquica de conteúdos, na qual não se espera que os alunos abandonem as concepções alternativas, mas que as analisem e as compreendam à luz das ideias científicas, em um processo de metacognição que deve acompanhar todo o ensino em prol de uma "mudança ou desenvolvimento conceitual".

Carrascosa (2005) cita algumas das principais origens para essas concepções, que são normalmente identificáveis ao analisar os testes de concepções alternativas aplicados aos alunos. São elas: experiências físicas cotidianas, ou sensoriais; influência da linguagem cotidiana (oral, visual e escrita); erros conceituais em livros didáticos e metodologia de trabalho inadequada.

A maior parte das concepções alternativas se forma espontaneamente devido às nossas experiências sensoriais, pois sempre utilizamos o conhecimento velho para interpretar o novo. Quando este processo é feito de forma acrítica leva a uma interiorização de um conceito, difícil de ser mudado. Como o ensino de Física entra na vida de uma pessoa depois de bons anos, ela já se encontra habituada a termos do cotidiano que são inadequados para a ciência e transferem seu significado errôneo para a sala de aula. Além disso, os meios de comunicação não costumam dispor de pessoas qualificadas para falar especificamente de ciência.

Nos citados e em muitos outros casos podemos ver que a cultura influencia muito na formação das ideias das pessoas. Insistem em trazer a Física como algo pronto, aparentemente construído de maneira linear e simples pelos cientistas. Não há espaço para história, para os erros dos grandes cientistas, nem para as controvérsias sempre existentes durante a construção da ciência. Trabalhar a própria cultura popular para a obtenção dessas concepções e discuti-la em sala de aula pode ser uma boa estratégia para uma melhor aprendizagem dos conceitos.

Como característica importante desse projeto, destacaríamos o fato de não considerarmos os alunos como papéis em branco a serem preenchidos da forma desejada pelo professor. Assim, as concepções prévias foram levantadas de modo a facilitar o desenvolvimento de processos de ensino que venham a promover sucessivas integrações hierárquicas dos conteúdos, além de compará-las com as concepções apresentadas por compositores de música popular. O estudo dessas concepções se torna importante no que concerne a aprendizagem dos próprios licenciandos. Nesse ponto, eles têm a possibilidade de sair do campo teórico desse referencial e aprender na prática como realizar uma investigação e análise dos resultados, com a orientação do formador e a contribuição do professor-tutor .

## Metodologia

- O trabalho por projetos não é solitário, ele exige uma postura colaborativa entre as pessoas envolvidas por ser um trabalho de grupo, onde cada participantecolaborador r com seus talentos se posiciona em direção a um objetivo comum. A equipe foi formada por um professor de física de ensino médio, licenciandos de cursos de Física e uma formadora da universidade. Em encontros semanais na Universidade, a equipe foi reunindo sugestões de todos do grupo e construindo uma proposta levada à escola pelo professor em uma atividade que teve o acompanhamento dos licenciandos. Coube aos alunos de licenciatura em Física a elaboração de texto teórico sobre concepções alternativas e material de apoio ao professor relativo ao levantamento das concepções alternativas dos alunos.
- O trabalho se realizou a partir de uma parceria entre o Instituto de Física da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e o Colégio de Aplicação (CAp) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A pesquisa ocorreu em duas fases. A primeira fase, envolveu a participação de um grupo de alunos do CAp e licenciandos em Física da UERJ e da UFRJ. Além disso, a pesquisa envolveu alunos de um curso pré-universitário do Município do Rio de Janeiro.

Dentre o material utilizado nas atividades destacamos alguns textos de músicas populares (sambas), onde os conteúdos físicos aparecem externados em linguagem poética. Além disso, destacamos o uso de experimentos sobre a reflexão regular da luz.

As atividades junto aos alunos seguiram a seguinte organização:

## Primera fase:

Levantamento de concepções alternativas dos alunos sobre a formação de imagens em espelhos, através do seguinte questionamento: quando posicionamos um objeto na frente de um espelho, onde está localizada a imagem que se forma, tomando -se o espelho como ponto de referência?

Audição da música Além do Espelho - de autoria de João Nogueira e Paulo César Pinheiro - e discussão preliminar do conteúdo do texto da música.

Discussão dos aspectos físicos contidos no texto da música a partir de uma provocação através da seguinte questão: esquecendo-se o aspecto poético, sem desvalorizá -lo, mas baseando-se no que está escrito nos dois primeiros versos, onde estaria se formando a imagem para os autores? A concepção dos autores está correta? ? (Ver trecho da música abaixo).

Quando eu olho meu olho além do espelho

Tem alguém que me olha e não sou eu

Vive dentro do meu olho vermelho

É o olhar do meu pai que já morreu

..........

A missão do meu pai já foi cumprida Vou cumprir a missão que Deus me deu Se meu pai foi espelho em minha vida

Quero ser pro meu filho espelho seu

Atividade experimental aberta proposta para os alunos, para determinação da posição da imagem em espelhos planos . Trata -se de atividade do tipo investigativa (AZEVEDO, 2004), baseada no material experimental ilustrado na fig. 1 e inspirada na sequencia descrita em Almeida et al. (2004), transcrita à seguir .

- a) Fixar uma folha de papel A4 sobre uma placa de isopor e colocar um alfinete 1 verticalmente sobre o papel na posição apresentada na figura 1.
- b) Colocar o espelho no meio do papel, como indicado na figura e desenhar com cuidado a linha I -J no papel, a fim de marcar a posição do espelho.
- c) Utilizar o método dos raios (Almeida et al., 2004) para desenhar quatro raios emitidos pela imagem do alfinete. Denominar esses raios traçados de raios: 23, 4-5, 6-7 e 8-9. Na figura 1 esses raios estão ililustrados.

Figura 1: Determinação da posição da imagem em espelhos planos pelo método dos raios (Fonte: Almeida et al., 2004:69) .

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- d) Prolongar os raios 2-3 e 6-7 para encontrar a posição da imagem do alfinete.

Discussão sobre o conteúdo dos dois últimos versos da música a partir da seguinte provocação: Os dois últimos versos da música trazem algo bastante conhecido popularmente, que é o desejo dos pais de que seus filhos "se espelhem nos bons exemplos". Do ponto de vista físico, seria possível que o desejo jo dos autores se realizasse da forma como está escrito?

## Segunda Fase:

Análise do texto da letra da música A Deusa da Minha Rua - de autoria de Newton Teixeira e Jorge Faraj - e discussão preliminar do conteúdo do texto, focalizando, principalmente, os versos a seguir.

Espelho da minha mágoa Transporta o céu Para o chão [...]

Discussão sobre o conteúdo dos versos acima a partir das seguintes perguntas a serem respondidas pelos alunos: Por que um espelho reflete melhor do que uma poça d'água? Qual a origem do conhecimento que motivou a sua resposta?

Faça um desenho representativo da trajetória dos raios luminosos para o caso da reflexão da luz em um espelho e em uma poça d'água.

## Análise dos dados

A análise da primeira fase da pesquisa, realizada com alunos da primeira escola permitiu a identificação das seguintes respostas:

## Esquecendo-se o aspecto poético, sem desvalorizá-lo, mas baseando-se no que está escrito nos dois primeiros versos, onde estaria se formando a imagem para os autores? A concepção dos autores está correta?

## Os dois últimos versos da música trazem algo bastante conhecido popularmente, que é o desejo dos pais de que seus filhos "se espelhem nos bons exemplos". Do ponto de vista físico, seria possível que o desejo dos autores se realizasse da forma como está escrito?

Notemos a participação dos alunos como um aspecto positivo. Cumpre-se aí a missão de usar a poesia como elemento motivador na aprendizagem da ciência. Mais do que isso, verifica-se que, em um momento, um aluno diz que não vê a física por trás da poesia e através da discussão chega-se a uma decisão que está entre um conceito físico e a interpretação de um texto literário. Podemos perceber que perguntas simples, podem gerar respostas diversas ratificando a ideia de que não é possível introduzir um conhecimento sem levar em consideração o conhecimento já existente. Também é um momento em que os alunos devem sair do livro e se expressar através da linguagem da ciência, mesmo que de forma equivocada.

Na segunda fase da pesquisa, após o recolhimento dos questionários dos estudantes, foi feita a análise das respostas. Para tal, fez-se necessária uma categorização inicial, dividindo-as em concepções explicativas e descritivas.

- I) Explicativa: respostas que se aproximam da aceita cientificamente, porém, ainda faltam argumentos que deixem claro o modelo usado na explicação.
- Ex: "Porque na poça d'água, a reflexão é difusa. Logo, a luz vai refletir pra tudo que é lado. Já o vidro é polido, assim, o raio vai incidir de maneira uniforme e bonitinha." (A1)
- II) Descritiva: descrição do fenômeno, não existindo uma tentativa de explicação ao nível científico. Estão subdivididas nos grupos a seguir .
- IIa) Forma: Os alunos atribuem as propriedades de reflexão da luz a características como planura ou regularidade do espelho e ondulação da água.
- Ex: "Um espelho reflete melhor do que uma poça de água, pois sua superfície é lisa." (A5)

- IIb) Material: As propriedades de reflexão, bem como a direção do raio refletido, dependem apenas do material em questão.
- Ex: "... enquanto no lago há um desvio da trajetória, por isso, há um desvio no caminho da refração." (A16)
- IIc) Qualidade: O estudante atribui à causa do fenômeno uma qualidade. Estas poderiam estar relacionadas a características como polidez e perfeição.
- Ex: "Porque o espelho é p polido e reflete melhor a luz." (A18)
- IId) Movimento: A direção do raio refletido depende do movimento da superfície. A formação de reflexos em um espelho depende de seu movimento.
- Ex: "No espelho a imagem para no fundo e volta, na água a imagem vai até o fundo do lago e volta distorcida p pela onda da água." (A21)
- IIe) Fase: A reflexão está intimamente relacionada à fase da matéria, ou seja, superfícies sólidas e líquidas refletiriam de maneiras diferentes .
- Ex: "Porque o espelho é sólido e a água é liquida, produzindo ondas que distorcem a imagem." (A25)

A tabela a seguir representa as respostas dos alunos nas duas escolas. A primeira refere-se ao CAp-UFRJ e a segunda ao curso pré-universitário .

Tabela 1: Categorização das concepções

Os alunos marcados com o asterisco apresentaram respostas que se enquadravam em duas categorias. Em alguns casos, alunos explicaram os fenômenos que se encaixavam em duas categorias.

Ex: "... pois um espelho é um objeto p plano e é feito de aço." (A2)

Notemos neste caso que o aluno se enquadra nas categorias forma e material. A A maioria das respostas está dentro da categoria forma. Doze alunos utilizaram algum termo que demonstrava a ligação direta entre a regularidade ou irregularidade ao tipo de reflexão. Alguns alunos sugerem que a superfície de reflexão é o fundo do lago como ilustra o seguinte exemplo:

"Porque o espelho é formado com o vidro plano com um pedaço de papel opaco no fundo e a água nem sempre é perfeitamente plana e não tem um fundo certo (depende do lugar ex: chão, lago...)" (A6)

Podemos notar nesta transcrição que o aluno se confunde em relação ao local onde ocorre a reflexão. A luz parece refletir no fundo do lago ou de uma poça.

No total 7 alunos atribuíram uma qualidade à superfície de reflexão através de termos como superfície perfrfeita e superfície polida. Estes alunos descreveram o fenômeno restringindo-o apenas a algo que ocorre devido a uma qualidade própria que influi na luz refletir melhor ou pior.

A utilização dos desenhos ajuda a ilustrar o que nem sempre fica inteligível por palavras, complementado a resposta escrita. Foram muito comuns desenhos onde o raio se refletia no fundo do lago, assim como raios que se dividiam ao tocar a superfície, tanto na reflexão como na refração. Um caso curioso foi o do aluno A23, que apresentou um modelo particular para representar um raio de luz, diferente tanto do modelo ondulatório, quando o raio é reto e perpendicular à frente de onda, quanto do corpuscular, quando o raio é a própria trajetória das partículas de luz. A figura 2 , esboçada por ele, leva a crer que o meio líquido distorce de alguma forma o feixe de luz, fazendo com que a imagem se torne disforme.

Figura 2: Desenho das reflexões no espelho e no lago .

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## Considerações finais

Em relação aos estudantes, além do aspecto lúdico que caracterizou a fase de audição e de interpretação dos textos (poesias), a interação dos estudantes com o campo da Música Popular promoveu uma aproximação com o samba, considerado o gênero popular mais significativo para a região do município do Rio de Janeiro, onde se encontram localizadas as escolas. As atividades propostas possibilitaram momentos de reflexão e discussão que envolveram conflitos (ou não) entre as concepções dos autores e dos estudantes, favorecendo momentos de descoberta, de revelações e de construção do conhecimento sobre conteúdos da óptica relacionados com a reflexão da luz.

É gratificante observar que os alunos são capazes de ter um olhar científico dentro de uma área, que em primeira vista nada tem a ver com a ciência. O reconhecimento disso pode contribuir para a quebra daquela antiga visão, onde "a física não se aplica a nada no mundo real". Trata-se de uma estratégia valiosa para os licenciandos e o professor co-formador, que passam a agregar elementos externos a ciência para melhorar o ensino da própria. O levantamento das concepções alternativas apresenta aos licenciandos e ao co-formador o cuidado que devem ter ao abordar um assunto científico. Ignorar o conhecimento que o aluno carrega consigo é um erro, visto que a introdução de um novo conceito não se dá ao imprimir algo no aluno, mas sim através de uma negociação de valores, crenças e atitudes. A cultura popular pode servir como meio de compreender melhor o aluno e introduzir conceitos através de uma forma agradável, pois não se dá através da imposição. Os quadros mostram que os alunos se motivam a participar, mesmo com uma desconfiança inicial ou uma falta de clareza entre o que liga a poesia a ciência.

A utilização de um projeto de parceria foi particularmente adequada para a formação dos participantes envolvidos na tríade -formador, co-formador e licenciandos -, na medida em que promoveu uma aproximação com o campo da Didática das Ciências a partir do trabalho colaborativo e da experiência de

construção e implementação de proposta inovadora no espaço escolar. É nítida a importância de trazer o co-formador para a universidade, engajando-o em projetos, assim como a introdução dos licenciandos na sala de aula através de atividades diferenciadas, que promovam seu crescimento e sua aproximação com a pesquisa em Ensino de Ciências, afastando-se do tradicionalismo. Eles saem da cultura de cumprir horas de estágio e entrar r em uma que deixa claro o que tem a aprender.

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Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.