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TRABALHANDO ENERGIAS RENOVÁVEIS EM CIÊNCIAS COM UMA TURMA MULTISSERIADA DE OITAVO E NONO ANO EM UMA ESCOLA DO CAMPO

Márcia Maria Lucchese, Clebes Garcez Garcia

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXII
Ano
2017
Data
25/01/2017
Linha de pesquisa
Ensino E Aprendizagem Em Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## TRABALHANDO ENERGIAS RENOVÁVEIS EM CIÊNCIAS COM UMA TURMA MULTISSERIADA DE OITAVO E NONO ANO EM UMA ESCOLA DO CAMPO

Clebes Garcez Garcia , Márcia Maria Lucchese 1 2

1 Escola Municipal de Ensino Fundamental Henrique Dias, clebesggarcia@gmail.com.br 2 Unipampa/Campus Bagé/mmlucchese@gmail.com

## Resumo

O presente trabalho foi elaborado como proposta didática investigativa que buscou adaptar uma metodologia de ensino que se adequasse a uma nova proposta de formatação das turmas através de um processo multisseriado o qual cada professor deve atender duas turmas simultaneamente. O foco desse trabalho foi identificar se alunos de turmas distintas, porém, sequenciais de oitavo e nono anos do ensino fundamental conseguem aprender conteúdos de física que são trabalhados apenas no nono ano. A temática utilizada para a abordagem de conteúdos foi a geração de energia elétrica a partir de fontes renováveis, partindo de duas situações cotidianas da comunidade, a primeira, as constantes quedas de energia no entorno da escola e a segunda o fato dessa comunidade ter se originado a partir da construção de uma usina hidrelétrica que teve suas obras abandonadas e que nunca ficou pronta. A investigação se constituiu a partir da implantação de uma proposta diferenciada das atividades tradicionais de sala de aula, com a inclusão de atividades de pesquisa de campo, experimentação, vídeos e interação com a comunidade. Utilizaram-se como embasamento teórico as teorias de Vygotsky e Freire. A análise dos resultados da pesquisa se deu com a análise das respostas dos alunos á questões norteadoras apresentadas no início de cada nova temática e de mapas mentais e conceituais. Observouse que os alunos do oitavo ano conseguiram assimilar os conteúdos de física abordados somente a partir do nono ano e que essa assimilação foi bastante semelhante aos alunos da turma do nono ano. Além disso, observou-se que a temática escolhida contribuiu para o processo de aprendizagem dos alunos que participaram das atividades proposta com bastante motivação. A proposta mostrou ser um caminho viável para se trabalhar em turmas multisseriadas podendo ser adaptada para outros componentes curriculares.

Palavras-chave : ensino, turma multisseriada, energia renovável, educação no campo.

## 1 Introdução

No ano letivo de 2014 a Secretaria de Educação do município de Manoel Viana implantou nas escolas rurais uma nova forma de trabalho de maneira a otimizar o quadro de professores e cortar gastos, segundo informações tal ação ocorreu devido ao reduzido número de alunos das escolas. Esta decisão afetou a Escola Municipal de Ensino Fundamental Henrique Dias, sediada na localidade da Barragem do Itú, zona rural do município de Manoel Viana na fronteira oeste do estado do Rio Grande do Sul.

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23 a 27 de janeiro de 2017

Com exceção das turmas de Educação Infantil e da turma de primeiro ano, as demais foram agrupadas duas a duas na mesma sala de aula, ou seja, um único professor atenderia simultaneamente a duas turmas. O agrupamento ficou da seguinte forma: segundo e terceiro ano, quarto e quinto ano, sexto e sétimo ano, oitavo e nono ano. Esta configuração gerou dificuldades aos professores dos anos finais, sexto, sétimo, oitavo e nono ano, passaram a enfrentar dificuldades, pois, em períodos de quarenta e cinco minutos precisariam atender duas turmas distintas com conteúdos distintos.

Como resultado principal verificou-se, ao término do primeiro trimestre, uma queda no rendimento dos alunos em relação ao ano anterior. Outra grande reclamação dos professores passou a ser o fato de que não conseguiam vencer os conteúdos programáticos dos componentes curriculares.

Dentro deste contexto escolar, este trabalho foi pensado em realizar uma proposta diferenciada com as turmas de ciências. Ao invés de se trabalhar conteúdos diferentes com duas turmas em uma mesma sala, optou-se por se elaborar uma proposta didática que abordasse um tema que fosse de interesse aos alunos de oitavo e nono ano, e assim, se trabalharia um conteúdo com as duas turmas.

A temática abordada foi fontes de energia, tradicionalmente conteúdo do nono ano. A escolha por este tema ocorreu, pois a origem da comunidade aconteceu devido ao início das obras de construção de uma usina hidrelétrica no ano de 1958. As obras foram paradas em 1962, a usina nunca foi concluída, porém muitos moradores permaneceram e constituíram a comunidade local da Barragem de Itú. Neste local a escola teve e tem papel fundamental, pois, possibilita que essas famílias possam permanecer no campo proporcionando o ensino fundamental para as crianças.

As questões que norteavam a pesquisa foram: alunos do oitavo ano aprendem os conteúdos de física que só serão ensinados no nono ano? Se conseguirem, existe diferença entre a assimilação desses conceitos por partes dos alunos do oitavo em relação aos do nono ano? O tema fontes renováveis de energia traz uma contribuição positiva para o ensino de física nessas turmas? O tema escolhido é pertinente ao dia-a-dia desses alunos e da comunidade?

Desde a concepção da proposta didática até sua aplicação em sala de aula, sempre se buscou contemplar a liberdade do educando para investigar, questionar, experimentar, criar e recriar os meios que propiciam o seu aprendizado. Nesse processo, não houve um método engessado e sequencial que deveria ser seguido à risca sem a mínima flexibilidade. As aulas foram propostas com a intenção de promover a aprendizagem a partir da participação plena e consciente do educando, de forma que ele seja o construtor do seu conhecimento e o professor um importante colaborador nesse processo.

## 2 Fundamentação Teórica

É preciso trazer para dentro do processo de ensino/aprendizagem a significância do que se ensina para que tenha significado quando se aprende (Freire, 2006). Portanto, é necessário estabelecer uma ligação entre o que se ensina e a vivência desses alunos, para que o que se aprende na sala de aula não fique apenas ali, como se a escola fosse um mundo novo, desconectado do seu, da sua

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realidade. Portanto, é preciso propiciar aos alunos meios para que ele seja capaz de questionar e se questionar acerca dos temas propostos, estimular a pesquisa, a busca pela informação.

Cabe então, ao professor, um papel fundamental: encaminhar o aluno ao mundo da descoberta, da invenção, da reinvenção, da construção de um conhecimento próprio e não a cópia do que alguém conhece, tem que possibilitar através dos conteúdos que este veja o mundo com seus olhos e a sua maneira.

Para Freire (2006):

[...] só existe saber na invenção, na reinvenção, na busca inquieta, impaciente, permanente, que os homens fazem no mundo, com o mundo e com os outros [...].

Porém, é preciso que o professor traga para suas aulas propostas centradas no educando e que dê a ele ferramentas úteis a essa construção, a essa busca pelo conhecimento. No ensino da física não é diferente, é preciso que o educando perceba no seu dia-a-dia a inserção dos conceitos físicos e compreenda a necessidade de conhecê-los de maneira mais profunda, se apropriando dessa ciência com segurança.

Nessa perspectiva, a proposta didática não foi baseada em respostas, mas sim em perguntas, a cada módulo didático foram feitos indagações a respeito do cotidiano dos educandos e que se ligavam ao tema proposto.

Um dos fatores importantes na concepção dessa proposta didática foi a forte dependência que os alunos tinham com relação à figura do professor, por isso, buscou-se propor atividades em que eles fossem os pesquisadores, os construtores, que experimentassem e que buscassem as respostas, colocando a figura do professor como um colaborador e principalmente incentivador dos educandos nessa busca.

- Os professores, muitas vezes, optam por ensinar sem levar em consideração a formação, enquanto indivíduo, que faz parte de um meio social característico. Nas escolas rurais essa situação é bastante evidente porque muitos dos professores não vivem na comunidade, vem do centro da cidade para dar aulas e assim não tem a vivência desse espaço e não entendem nem buscam entender suas particularidades.
- O professor tem papel de extrema importância no desenvolvimento cognitivo e intelectual de seus alunos, pois a ele cabe o papel de mediar esse processo, auxiliando nos momentos em que este não for capaz de realizar determinadas tarefas. Por isso é preciso que sua proposta pedagógica seja dinâmica e criativa, que esteja em constante evolução, da mesma forma que evoluem os conceitos assimilados pelos alunos e resinificados a partir de novas interações.
- As componentes curriculares seguem uma série de conteúdos programáticos carregados de conceitos e definições que a partir de suas nomenclaturas são desconhecidos e vazios de significados para esses alunos. Esses novos termos, signos, na concepção de Vygotsky (2011), precisam ser significados e validados no convívio social (âmbito escola, casa, sociedade) para que seja aceito e assimilado pelo aluno.

A utilização de atividades de pesquisa e experimentação contribui nesse sentido, pois da interação dos alunos com os diferentes meios de pesquisa hoje disponíveis, muitos dos novos conceitos passam a adquirir significado. Além disso, esta proposta didática propicia não só a interação entre os alunos, mas também com

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a comunidade, quando se busca resgatar um pouco da história local, através de pesquisa de campo.

## 3 Atividades elaboradas e metodologia

As atividades foram realizadas com 6 alunos, 3 do nono ano e 3 dos oitavo. A sequencia de atividades está sistematizada na tabela 01. As atividades intercalaram atividades experimentais, pesquisas na internet, aulas expositivas dialogadas, elaboração de mapas conceituais, explicação dos mapas, aplicação de questionários, roda de conversa com membros da comunidade.

Tabela 01: Tabela com a sequencia de atividades aplicadas na turma multisseriada.

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(a)

Figura 01: Alunos trabalhando com experimentos relativos à energia renovável. Em (a) os alunos estão construindo experimento sobre funcionamento de turbina e gerador hidráulico. Em (b) um experimento sobre energia solar.

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A avaliação da aprendizagem dos alunos foi feita a partir das provas, das avaliações dos mapas conceituais e das respostas dos questionários. A sistematização da sequencia aconteceu no final da aplicação da proposta, aula 15 da tabela 01, na qual os alunos elaboraram uma feira de ciências para apresentação dos trabalhos à comunidade. Após, teve uma roda de conversa com os antigos moradores de forma a resgatar a história da comunidade e da própria escola. Na figura 02 (a) tem a roda de conversa com a comunidade e em (b) a exposição de uma das maquetes elaborada pelos alunos na feira de ciências.

Figura 02: atividade de encerramento. Em (a) a roda de conversa com os antigos moradores, e em (b) os alunos colocando em prática seus experimentos na feira de ciências da escola.

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## 4 Resultados

Observa-se nos mapas conceituais, figuras 03 (a) e (b), a existência dos conceitos físicos trabalhados, como os processos de conversão de energia cinética, potencial e elétrica. Em outros mapas conceituais elaborados, que não estão apresentados neste texto, os alunos relacionam a geração de corrente elétrica em circuitos que operam com energia solar.

Ao compararmos dois mapas conceituais elaborados por um aluno do oitavo ano e de nono ano, figuras 03 (a) e (b), é possível verificar que, dentro das particularidades de cada mapa, ambos os alunos compreendem princípios básicos da produção de energia elétrica em uma usina hidrelétrica e que essa compreensão

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é bastante próxima se compararmos os dois mapas. Verifica-se que o aprendizado dos conteúdos de física dos alunos do oitavo ano não se diferencia muito dos alunos do nono ano, pelo contrário, é possível mesmo verificar que o mapa do aluno do oitavo ano possui um número maior de relações.

Figura 03: atividade de encerramento. Em (a) mapa de um aluno do oitavo ano e em (b) mapa de um aluno do nono ano.

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Em questões de provas, nas quais eles tiveram que responder questões objetivas a respeito do conteúdo verificou-se o mesmo comportamento, houve aprendizado a respeito dos conceitos de fontes de energias e suas transformações e que este aprendizado aconteceu de forma semelhante com os alunos de oitavo e nono ano.

Observou-se que a relação entre alunos do oitavo com os do nono ano foi fortalecida ao longo da aplicação da proposta, umas vez que passaram a compartilhar de uma situação comum a ambas as turmas. Alguns declararam ser mais legal ter mais colegas na turma.

## 5 Conclusões

Através dessa temática e da metodologia utilizada foi possível introduzir os conteúdos de física ao longo do contexto das discussões estabelecidas a partir de atividades de pesquisa e experimentais não como objetivo principal do processo de aprendizagem e sim como mais uma ferramenta de construção do conhecimento.

Os alunos apresentaram excelente aceitação do tema escolhido, uma vez que estava presente na realidade deles. E, assim, se empenharam em realizar as atividades propostas da melhor maneira possível, fazendo contribuições importantes para o grupo.

Desta forma pode-se observar que a proposta propiciou aos alunos uma vivência pedagógica de autonomia e participação efetiva como protagonistas do processo de aprendizagem, deixando de serem dependentes da figura do professor e interagindo com outras formas de aprendizagem.

- A cada nova descoberta novas perguntas surgiam e a necessidade de resposta os instigava bastante. Apesar do número reduzido de alunos a motivação era evidente, principalmente nos momentos de montar os experimentos e principalmente na atividade de encerramento onde puderam mostrar ao público as suas realizações.

Assim, conclui-se que a proposta didática da forma como foi elaborada com o tema relevante a realidade do aluno, foi importante na compreensão de conceitos de maneira mais significativa, seja na efetivação da constituição de um ser pensante, que compreende seu papel na sociedade e a sua capacidade de intervir de maneira crítica e reflexiva nas questões que lhes são postas.

A aprendizagem deve se consolidar ao longo de uma série de intervenções de todo o contexto escolar, respeitando a história desses alunos, seus momentos, e principalmente, tornando-os os agentes da mudança, ou seja, aqueles que irão efetivamente construir uma nova aprendizagem capaz de transformarem-se de alunos dominados e receptivos para alunos libertos e criativos.

Toda forma de ensino deve buscar dar ao aluno subsídios e autoconfiança para ser capaz de encarar os desafios do seu dia-a-dia com a capacidade de buscar as soluções que julgar necessário, contribuindo com o meio onde está inserido.

Agradecimento: O presente trabalho foi realizado com apoio do Programa Observatório de Educação, da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - CAPES/Brasil.

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## Referências

Freire, P. Conscientização: Teoria e prática da libertação: Uma introdução ao pensamento de Paulo Freire . 3ª ed. São Paulo: Centauro, 2006.

MOREIRA, M.A. Teorias de aprendizagem. 2ª ed. ampl. São Paulo: EPU, 2011.

VYGOTSKY, L.S. Formação social da mente: o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores . 7ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2011.

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Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.