VISÕES SOBRE CIENTISTAS VEICULADAS EM DESENHOS ANIMADOS INFANTIS
Benjamin Crema Neto, Carlos Alberto Bielert Neto, Ederson Rodrigo Pereira Gomes, Esdras Viggiano
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXII
- Ano
- 2017
- Data
- 24/01/2017
- Linha de pesquisa
- Divulgação Científica E Educação Não Formal
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## VISÕES SOBRE CIENTISTAS VEICULADAS EM DESENHOS ANIMADOS INFANTIS
Benjamin Crema Neto , Carlos Alberto Bielert Neto , 1 2 Ederson Rodrigo Pereira Gomes , Esdras Viggiano 3 4
- 1 Graduando em Licenciatura em Física/UFTM, benjamincrema@hotmail.com
- 2 Graduando em Licenciatura em Física/UFTM, carlos.uftm@gmail.com
- 3 Graduando em Licenciatura em Física/UFTM, erpgomes@gmail.com
- 4 Departamento de Educação em Ciências, Matemática e Tecnologias /Instituto de Ciências Exatas, Naturais e Educação/UFTM, esdras@ensinodeciencias.com
## Resumo
Neste trabalho, investigamos como as visões sobre cientistas têm sido abordadas em três desenhos animados veiculados nas televisões brasileiras: Meninas Superpoderosas, Show da Luna e Johnny Test. Entendemos que esses programas, além de terem sua natureza recreativa, podem ser considerados instrumentos de divulgação científica para o público infantil. Propomos dois conjuntos de categorias, o primeiro para caracterização geral dos programas, quanto às características de produção e, o segundo, inspirado nos trabalhos de natureza da ciência. A primeira fase da análise de natureza qualitativa constituiu a criação de fichas dos filmes, na qual foram dispostos alguns extratos de episódios. Na segunda fase, foram discutidos os trechos e identificadas como as categorias evidenciam-se nos mesmos. A análise indicou que alguns dos desenhos apresentavam deformações da visão de ciência e de cientista, enquanto outros procuram veicular visões mais condizentes com as ideias contemporâneas de Ciência e de cientista. Há de se destacar que alguns dos desenhos apresentaram problemas conceituais ou apresentam a Ciência de forma mistificada. A existência de uma variedade de concepções e abordagens nos programas analisados permite que esses programas sejam utilizados para a problematização em atividades voltadas para alunos da Educação Básica.
Palavras-chave : Divulgação científica. Natureza da Ciência. Televisão; Desenhos animados infantis. Visão de Cientista.
## Introdução
Os desenhos animados estão presentes na televisão brasileira desde os anos 1950 e diferenciam-se entre si de várias maneiras, pois 'se constituem e integram diferentes aspectos da cultura, influenciadas por múltiplas práticas coletivas presentes no contexto social' (BRITO, 2005, p.49). Dentre a variedade de formatos de desenhos, há os que se destacam como Thundercats (Marvel Comics), He-Man (Mattel) e Capitão Planeta (Warner Bros), que apresentavam lições de moral e, assim, possuíam potencial educativo mais explícito. A divulgação científica pode contribuir para a formação de um senso comum que influencia as visões sobre cientistas e sobre Ciência do público. Os desenhos animados e programas televisivos que abordam conceitos de Ciência ou ficção científica, dentre os demais meios de divulgação, têm considerável abrangência no público infanto-juvenil e, portanto, podem contribuir para a formação do senso comum desse público. Nesse contexto, o estudo das visões sobre cientistas em desenhos animados e programas voltados ao público infanto-juvenil mostra-se importante para o ensino de ciências e para a pesquisa de ensino de ciências.
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23 a 27 de janeiro de 2017
## Quadro Teórico
A divulgação científica ou popularização da ciência é definida por Albagli (1996, p.397) como sendo 'o uso de processos e recursos técnicos para a comunicação da informação científica e tecnológica ao público em geral'. Da mesma forma, Ribeiro (2007) também aponta que a divulgação científica é dirigida a certos públicos, utilizando abordagens próprias a cada um.
Como uma forma de divulgação científica, a televisão na sociedade atual pode ser considerada uma importante ferramenta na (in)formação de um indivíduo. Pimenta e Palma (2001) apontaram que, em 2001, crianças entre 10,0 e 11,9 anos assistiam mais do que 18 horas semanais de televisão, o que é quase o triplo de tempo que utilizavam fazendo atividades físicas e brincando. Apesar do largo acesso do público geral, a televisão tem uma questionável eficácia do ponto de vista da aprendizagem, pois a qualidade das informações prestadas não é prioridade nesse meio. Nos desenhos animados, isso não é diferente e ainda pode ocorrer a veiculação de uma visão estereotipada de cientista, a qual ocorre desde os anos 1960, quando esse tipo de programa começou a ser mais transmitido pela televisão (SIQUEIRA, 2006). Os processos de formação de conceitos e de educação são processos contínuos e socioculturais que ocorrem em educação formal, informal ou não-formal. Entendemos a educação não formal como uma estrutura promovida por organizações que compreendem a necessidade de realizar estruturadamente o ensino de determinados conhecimentos buscando construir aprendizagens que ocorram fora do sistema escolar (GOHN, 2006; PÉREZ, 2013). Vemos a importância da televisão, que influencia o senso comum, sendo considerada um instrumento de alienação e transmissora de ideologia dominante por muitos (RIBEIRO, 2009). Apesar de ter esse caráter, a televisão é um instrumento importante no ensino, sendo utilizada em salas de aula, porém de uma forma não sistemática (BONETTI, 2008; SANTOS; ARROIO, 2009) e apenas para reforçar o conhecimento, sem formar novos conceitos de forma interativa (BONETTI, 2008).
Estudos mostram que estudantes têm interesses por estereótipos sobre cientistas (BARBAN, 1997). Chambers (1983) desenvolveu o teste padronizado Draw-A-Scientist Test (Teste Desenhe-um-cientista), com o objetivo de analisar como estudantes caracterizam um cientista por meio de desenhos. Finson, Beaver e Cramond (1995) aprimoraram o teste de Chambers, criando uma lista chamada de Draw-A-Scientist Checklist (Lista Desenhe-um-cientista), contendo as características de cientista obtidas por meio dos desenhos dos estudantes, para posterior análise de incidência e identificação de estereótipos.
A divulgação científica para o público infantil pode ser vista de alguns pontos de vista: definição de ciência e necessidade do ensino de ciências. Tomazi et al. (2009) caracterizam as imagens de Ciência e de cientista veiculadas em filmes de animação infantil com o intuito de contribuir com a reflexão sobre esse tipo de divulgação científica e o debatem sobre o seu uso como alternativa didática para educação científica de crianças. Cachapuz et al. (2005) e Pérez et al. (2001) enumeram e caracterizam visões deformadas de professores sobre o trabalho científico para fomentar discussões de Natureza da Ciência e contribuir para o desenvolvimento de estratégias mais adequadas à reflexão e ao aprendizado de conhecimentos acerca da Natureza da Ciência.
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Antes de apresentar a análise documental desse trabalho, consideramos importante destacar que há dois tipos de desenhos infantis que abordam a ciência (MESQUITA; SOARES, 2008): a) Desenhos Educativos: com fins educativos; b) Desenhos Criativos: com finalidade recreativa, sem fins educativos.
## Materiais e Métodos
A natureza desta pesquisa é qualitativa, sendo realizada análise de alguns episódios por programa televisivo infantil. Os desenhos animados infantis analisados foram 'Jonny Test', 'O Show da Luna' e 'As Meninas Superpoderosas'. A escolha deveu-se à amplitude de público atingido por esses desenhos. Há de se destacar que 'O show da Luna' é produzido no Brasil, enquanto os demais programas foram produzidos no exterior e dublados em português.
Propusemos categorias para análise dos desenhos animados com base em categorias de deformação ou esteriotipização da ciência e cientistas, inspirados nos trabalhos de Pérez et al. (2001), Cachapuz et al. (2005), Siqueira (2006) e Tomazi et al. (2009). Tais categorias foram divididas em dois grupos e utilizadas para analisar de 3 a 6 episódios de cada programa infantil escolhido. O número de episódios variou tendo em vista que não foi possível identificar claramente a categorização em alguns episódios. O primeiro grupo categórico é de contextualização do programa e o segundo de visões da Ciência:
- 1. Características gerais e abordagem de ciência
- a) Faixa etária alvo;
- b) Temáticas principais;
- c) Caráter pedagógico/moral;
- d) Duração dos episódios;
- e) Ocorre em plano real ou imaginário.
- 2. Visão de ciência e do trabalho científico
- a) Concepção empírico-indutivista: a ciência é apresentada como neutra e/ou a ciência é fruto de descoberta;
- b) Ciência rígida e infalível: ciência é algorítmica, exata, infalível. Não há ambiguidades ou contradições no âmbito do trabalho científico;
- c) Ciência é uma construção aproblemática e ahistórica: a ciência é apresentada de forma dogmática e fechada;
- d) Desenvolvimento científico ocorre de forma individualista e elitista: o cientista é um gênio que trabalha isoladamente, desconsiderando as ideias dos demais cientistas;
- e) Há uso simultâneo de teorias incompatíveis ou há problemas conceituais graves;
- f) O cientista é o herói ou vilão;
- g) Os experimentos funcionam ou não.
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## Análise
## Meninas Superpoderosas
As Meninas Superpoderosas ( The Powerpuff Girls ) é um desenho animado norte americano, que estreou em abril de 2016, baseado na série homônima produzida e transmitida entre 1998 e 2005. O cientista e professor é, na maioria dos momentos, um dos protagonistas do programa. O 'Professor Utônio' é considerado pai das Meninas Superpoderosas, Lindinha, Docinho e Florzinha, pois as criou em laboratório, usando 'Sentimentos' e um 'Elemento X' como ingredientes.
Destacamos que o personagem usa jaleco branco constantemente, trabalha em um laboratório com vários livros e aparatos tecnológicos, incluindo equipamentos de ponta (fictícios ou não), tem comportamento sério e se dispõe a ajudar as meninas sempre, educando-as em alguns momentos.
Quadro 1: Ficha analítica desenho infantil 'As Meninas Superpoderosas'. Fonte: Elaborada pelos autores.
## Ficha analítica: Meninas Superpoderosas
- a) Faixa etária alvo: acima de 7 anos.
- d) Duração dos episódios: 22 minutos.
- b) Temáticas principais: ação e comédia.
- e) Ocorre num plano real ou imaginário: ambos.
- c) Apresenta caráter pedagógico/moral: sim.
O desenho não foge de suas essências de veicular conteúdo educativo e recreativo e, ao mesmo tempo, discorre sobre lições para crianças e adolescentes. O professor, que foi o objeto em principal de nossa análise, tem o estereótipo de ser uma pessoa bem inteligente e suas vestimentas são jaleco e roupa social por baixo, indicando a deformação da visão de cientista, que sempre é visto como sujeito de laboratório.
Um estereótipo interessante veiculado é o de um professor/pai. Com essa visão, desmistifica a imagem de cientista isolado e uma pessoa anormal e sim que é uma pessoa normal como qualquer uma, apesar de ter criado as meninas em laboratório. Não é disseminado também o estereótipo de maluco no cientista e sim de uma pessoa normal como outra, que se dedica às suas pesquisas, apesar da
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estereotipização da roupa. No episódio 4, quando elas questionam o professor quanto a importância de 'cientificar', a importância do cientista e da Ciência para a sociedade é colocada em destaque. Não há a veiculação de imagem de que a Ciência é infalível, sendo, inclusive, problematizadas as consequências da produção de Ciência e Tecnologias, que se não forem bem utilizadas podem ter consequências negativas.
- O conteúdo científico não é plenamente correto, apresentando mistificação de um fenômeno amplamente conhecido, por exemplo, o arco-íris, que passa a ter funções místicas e mágicas, implicando a mistura de epistemologias conflitantes, ou mesmo a existência de seres mágicos como o unicórnio.
## Show da Luna
Luna é uma garota cientista, questiona as coisas ao seu redor, procura solucionar suas curiosidades, com a ajuda de seu irmão Júpiter e do furão Cláudio. Eles entram no mundo da imaginação, no quais as próprias perguntas vão sendo respondidas com o desdobrar do episódio. Em alguns episódios, eles 'fazem Ciência' de forma empírica, porém, no mundo da imaginação.
Quadro 2: Ficha analítica desenho infantil 'Show da Luna'. Fonte: Elaborada pelos autores.
## Ficha analítica: Show da Luna
- O desenho, em geral, cumpre o seu papel em entreter e não apresenta fortes estereótipos da cientista e deformação da Ciência. Notamos uma preocupação com a temática científica e, apesar de parte do enredo ocorrer em um mundo imaginário, há cuidado em não apresentar conceitos e o trabalho científico que influenciem interpretações equivocadas ou visões deformadas. O nome dos personagens também evocam astros, Luna (Lua) e Júpiter, mostrando certa intencionalidade de trazer a Ciência como pano de fundo ou temática principal.
Há de se destacar que há a antropomorfização do furão, que come com a mão, brinca com a comida, ri e faz brincadeiras e fala, o que torna o desenho mais recreativo. De forma análoga, a zoomorfização de Júpiter e Luna quando no mundo
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imaginário. Além disso, a abertura dos episódios valoriza a questão do questionamento como fundamento para se aprender, com a seguinte fala: 'Tudo o que é pergunta a Luna faz'. Ademais, ao longo dos episódios, Luna e Júpiter formulam e testam hipóteses e concluem. Além disso, produzem e analisam dados, como fotografias e comparam diferentes situações, de forma a subsidiar as conclusões.
No episódio que se discute a influência massa do avião na distância que percorre, há formulação e testes de hipóteses e síntese. Contudo, como não se considerou a força de arraste, não há uma completude no raciocínio, o que pode comprometer as conclusões e o entendimento da ideia de força e o conceito de inércia, apesar de valorizar procedimentos próprios da Ciência.
A cena que se enquadra na categoria 2.b exemplifica como os autores do desenho esforçam-se para provocar interpretações de uma Ciência rígida e infalível, pois afirmam a inexistência de vida extraterrestre conhecida. O fato do mundo da imaginação mostrar os questionamentos sendo respondidos de forma dinâmica, clara e direta também evita analogias e potencializa a ludicidade.
## Johnny Test
As cientistas do desenho são as irmãs gêmeas de Johnny - Susan e Mary que usam óculos e jalecos brancos e têm um laboratório altamente tecnológico, repleto de máquinas poderosíssimas. Johnny é uma cobaia dos experimentos científicos de suas irmãs, o que faz referência ao seu nome test , teste em português.
Quadro 3: Ficha analítica desenho infantil 'Johnny Test'. Fonte: Elaborada pelos autores.
## Ficha analítica: Johnny Test
- a) Faixa etária alvo: acima de 7 anos.
- d) Duração dos episódios: 22 minutos.
- b) Temáticas principais: Comédia, Ficção científica cômica, Aventura.
- c) Não apresenta caráter pedagógico/moral.
Os autores do desenho preocuparam-se mais em entreter mais do que propriamente ensinar Ciência, portanto não era imprevista a presença das subcategorias de deformações contempladas nas categorias 2.a, 2.d e 2.e. Nos episódios 'Johnny no relógio' e 'O bem o mal e o Johnny', notamos que as irmãs cientistas utilizam nome de teorias científicas e descobertas da Ciência. Para tal,
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- e) Ocorre num plano real ou imaginário: ambos.
misturam jargões existentes ( e.g. plasma) e inventados, seja para confundir seja para transmitir uma mensagem de superioridade, ou de valorização da Ciência. Nos mesmos episódios, notamos como o personagem principal é usado como cobaia em um laboratório, em que os resultados são sempre extraordinários e repleto de animais, o que reforça o estereótipo da Ciência sendo exclusivamente empírica e do cientista maluco.
## Considerações
A análise indica que as visões de cientista são variadas e os estereótipos variam de acordo com as especificações do programa e o público para qual se direciona. Apenas alguns programas apresentaram a deformação da visão de cientista enquanto sujeito estranho ou que usa jaleco. Há, inclusive, em Show da Luna e Meninas Superpoderosas, algumas cenas que podem permitir problematizar a temática na Educação Básica, pois apresentam o cientista como alguém que estuda para construir soluções de problemas da sociedade. Concluímos que os estereótipos que indicam deformação da visão de cientista não abrangem todos os programas e que alguns indicam preocupação com os conhecimentos científicos.
Verificamos que as subcategorias '2.b.' (Ciência rígida e infalível) e '2.c.' (Ciência é uma construção aproblemática e ahistórica) não foram observadas em nenhum dos três desenhos escolhidos e a subcategoria '2.a.' (concepção empíricoindutivista) foi identificada em todos os programas da amostra, o que indica que há alguma preocupação de que imagens de Ciência e de cientista os autores pretendem transmitir.
Assim, concluímos que os programas infantis analisados estão mais apropriados às visões não deformadas de cientistas e podem ser utilizados como exemplos na construção de atividades didáticas a serem utilizadas na educação infantil e mesmo na juvenil, com a finalidade de problematizar e discutir a Natureza da Ciência e as visões de cientista. Contudo, é interessante ampliar a análise para outros programas, pois é importante ter um conjunto para cada faixa etária, sobretudo, porque as crianças podem não gostar de um ou outro desenho e com isso, diminuir o número de estudantes engajados na atividade.
## Referências
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