TRABALHANDO ENERGIA RENOVÁVEL NA ``CASA DO GURI''
Márcia Maria Lucchese, Bruna Carvalho Antunes, Bruna Madeira Noguez, Francisco Machado Cunha, Rosana Cavalcanti Maia Santos
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXII
- Ano
- 2017
- Data
- 24/01/2017
- Linha de pesquisa
- Divulgação Científica E Educação Não Formal
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## TRABALHANDO ENERGIA RENOVÁVEL NA 'CASA DO GURI'
Márcia Maria Lucchese 1 , Bruna Carvalho Antunes , Bruna Madeira Noguez , 2 3 Francisco Machado Cunha 4 , Rosana Cavalcanti Maia Santos 5
- 1 Universidade Federal do Pampa - campus Bagé, mmlucchese@gmail.com
- 2 Universidade Federal do Pampa - campus Bagé, brunaantuneseera@gmail.com
## Resumo
O Projeto de Extensão 'A Física na Casa do Guri' tem como objetivo inserir conteúdos de Física para os menores, de 5 a 12 anos, que estão acolhidos na Instituição Social denominada 'Casa do Guri'. Neste trabalho relatam-se os experimentos elaborados com o objetivo de exemplificar a geração de energia elétrica de forma renovável: uma pequena hidrelétrica com colheres de plástico, um pequeno aerogerador e o protótipo de uma casa que opera com energia solar fotovoltaica. As atividades foram realizadas pelos alunos da Unipampa em conjunto com os professores, tendo sido estimulada a participação das crianças durante a execução dos experimentos. Após cada atividade foi feita uma avaliação no sentido de compreender o que cada criança entendeu do que se estava trabalhando; ao final da sequencia de atividades as crianças elaboraram maquetes de uma cidade e de uma residência com o objetivo de mostrar aquilo que aprenderam. Também se procurou trabalhar outros valores com as crianças, como dividir e compartilhar o material trabalhado e a independência em relação a execução das atividades. Ao final desta sequencia de experimentos observou-se que as crianças incorporaram alguns conceitos, como a geração de energia elétrica a partir do movimento, sem entrar especificamente no conceito de energia cinética. Quanto ao envolvimento, todas realizaram as atividades e algumas acabaram sendo autores de seus projetos. É importante destacar a relevância deste projeto para os alunos da Graduação em uma Universidade que se propõe formar cidadãos comprometidos com a sociedade.
Palavras-chave : Energia Renovável, Física para crianças, Espaço não formal.
## Introdução
O Projeto de Extensão 'A Física na Casa do Guri' tem como objetivo inserir conteúdos de Física para os menores que estão acolhidos na Instituição Social denominada 'Casa do Guri'. A Instituição 'Casa do Guri' é mantida pela Prefeitura do Município de Bagé e abriga crianças e adolescentes de 0 a 13 anos, em situação de risco, maus tratos, abandono, violência doméstica ou exploração (Casa do Guri, 2016).
Em seu trabalho, Cavalcante et. Al. 2007, concluem que quando é inevitável a colocação da criança em um abrigo, devem-se proporcionar elementos que suavizem ou diminuam os efeitos provocados pela longa permanência da criança nestas instituições. Entre outros elementos, um dos que as instituições de abrigo devem promover é a criação de:
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23 a 27 de janeiro de 2017
'... espaços de recreação, estudo e lazer, com estrutura e recursos que permitam as crianças brincar, estudar e se divertir, em companhia dos pais e de outros familiares e pessoas da comunidade. (Cavalcante et al 20017 p.348).'
Nesse contexto, o presente projeto de extensão visa a inserção do ensino de Física na 'Casa do Guri', a fim de estimular o gosto e a curiosidade pela ciência, bem como o aprendizado de conceitos abordados em tal componente curricular. Inserido na característica da extensão, este projeto prevê a troca de saberes entre a Universidade e a Instituição Social. Assim, o projeto procura envolver os alunos da Unipampa na elaboração, execução e avaliação de atividades práticas relacionadas à física e que sejam de interesse das crianças.
As atividades são propostas pelos professores ou alunos da Unipampa que elaboram experimentos ou roteiros de atividades que são executadas e avaliadas na Casa do Guri com as crianças.
Após cada atividade, no ambiente da Universidade, os alunos e professores discutem e avaliam a execução como um todo e individualmente, como cada criança vem se envolvendo com o projeto, tanto do ponto de vista do aprendizado dos conceitos físicos quanto a postura do trabalho em grupo, de dividir e compartilhar materiais, atenção e envolvimento nas atividades.
Neste trabalho iremos apresentar uma parte dos experimentos realizados no projeto; as atividades foram realizadas com o objetivo de trabalhar com as crianças experimentos e conceitos de fontes de energia renovável.
## Metodologia
As atividades propostas neste projeto de extensão são elaboradas e organizadas pelos docentes e discentes (voluntários e bolsistas) da UNIPAMPA/Bagé. Neste contexto foram trabalhados diferentes experimentos envolvendo conceitos de energia renovável.
Os experimentos são trabalhos com os alunos na Unipampa, sendo a atividade realizada com as crianças na própria Instituição, em dois turnos, manhã e tarde. As atividades são realizadas com a intervenção e posteriormente uma avaliação que pode ser um desenho ou elaboração de outro experimento pelas próprias crianças. Em outro momento, os discentes e professores reúnem-se para fazer a avaliação da atividade e elaborar a próxima.
As crianças são divididas em dois turnos: da manhã, que são 8 menores e compreendem crianças de 4 a 8 anos, e com o grupo da tarde, que são 3 crianças de 10 a 12 anos. Esta divisão acontece porque, no turno inverso as crianças estão na escola. A separação por idade também auxilia na execução das atividades, pois com crianças menores devemos elaborar atividades mais curtas uma vez que a concentração tem um tempo menor para acontecer. Já com os maiores podem-se trabalhar experimentos mais elaborados e com conceitos mais aprofundados.
No desenvolvimento das atividades buscou-se respeitar a individualidade das crianças e o tempo de cada uma delas no desenvolvimento dos experimentos. Anterior a cada atividade as crianças são avisadas do que vai acontecer e um combinado a respeito dos materiais é estabelecido sendo que elas não podem ficar com os materiais não destinados a elas.
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As atividades experimentais trabalhadas com as crianças da manhã estão relacionadas na tabela 1. Na tabela 2 relacionam-se as atividades com as crianças do turno da tarde. Nelas constam também, os experimentos trabalhados, como foi executado o experimento e como foi feita a avaliação com os meninos.
## Guris da Manhã
Tabela 02: Atividades realizadas com os Guris da Tarde.
## Guris da Tarde
Tabela 01: Atividades realizadas com os Guris da Manhã.
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As interpretações das avaliações, quarta coluna das tabelas, foram discutidas posteriormente, algumas ações foram filmadas e entrevistas com as crianças foram realizadas com o objetivo de buscar elementos que remetessem ao aprendizado das crianças dos conceitos de ciências. Na observação de cada criança buscou-se os outros elementos que tentamos desenvolver: o trabalho em grupo, aprender a dividir e compartilhar materiais, prestar atenção, envolvimento nas atividades propostas, independência na execução, etc..
## Resultados
## Trabalho com os Guris pequenos
Em relação às crianças pequenas, de 5 a 10 anos, a primeira intervenção foi muito boa, todos cooperaram, foram pacientes na montagem do experimento, foi proporcionado a todos a possibilidade de pegar, montar e testar. Além, é claro, de colocar para girar na torneira de água, elemento que proporciona muita agitação entre as crianças.
No desenho, figura 1 (a), tem uma demonstração da reprodução do que estava acontecendo; em uma atividade anterior em que havia se trabalhado com circuitos elétricos, os elementos do circuito voltaram a aparecer na interpretação das crianças. Essa constatação nos pareceu ser de fundamental importância. Uma das crianças que não gostava de fazer desenhos, nesta atividade acabou nos mostrando que ele tinha habilidades de montar coisas. Enquanto os outros desenhavam, pegou todas as colheres que podia e remontou a atividade, mostrando grande interesse no experimento.
Com a energia eólica, os pequenos não tiveram dificuldade em interpretar que, assim como a água, o vento era o responsável pela geração de energia. Em um dos cataventos, uma das crianças desenhou um pequeno aerogerador, figura 01 (b).
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Figura 01: Desenhos elaborados pelas crianças na atividade de avaliação do gerador hidráulico e na elaboração do catavento .
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A casa e os elementos com energia solar encantaram pelo lúdico, mas os elementos de circuito também não foram esquecidos. Na figura 02 (a) encontra-se uma imagem que traduz o quanto estão interessados nos elementos da casa e, na figura 02 (b), a imagem de uma das crianças elaborando um pequeno circuito com uma placa do tipo protoboard, led, motor e placa solar.
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Figura 02: Imagens das crianças explorando o protótipo da Casa Solar, montando circuitos e brincando com o avião solar.
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A montagem da maquete, figura 03, como avaliação final da atividade envolveu vários fatores identificados como um problema; eles tiveram que dividir material, pintar, concentrar-se por muito tempo em uma única atividade. De uma forma geral todos se envolveram e a maquete foi construída; um dos problemas neste dia foi que estava chovendo, eles não tiveram aula e estavam todos na Casa. Assim as crianças menores de 5 anos acabaram participando da atividade, o que gerou um pouco de agitação na atividade. Os elementos que imaginamos que deveriam aparecer na maquete acabaram não aparecendo, como postes e fontes de
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energia. Mas na roda de bate papo anterior tais elementos foram citados quando da elaboração da maquete.
Figura 03: Maquete elaborada pelos Guris menores como instrumento de avaliação.
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## Trabalho com os Guris maiores
Com as crianças maiores, a turma da tarde, foi possível trabalhar o experimento de hidráulico e eólico em um mesmo dia. Eles se concentraram mais em testar a mudança no ângulo das pás do gerador, em variar o número de pás, trocar os modelos etc. Com eles não havia o fator surpresa, pois as crianças da manhã já haviam relatado, durante o almoço, o que iria acontecer.
Em relação a atividade com o material de energia solar, a casa chamou mais atenção pelos circuitos elétricos que pelo lúdico. Dos relatos dos meninos vieram as informações de que se diminuía a incidência solar as luzes não acendiam e que quando todas as luzes estavam acesas diminuía a velocidade do ventilador; ainda informavam que a velocidade também diminuía com a incidência da sombra, mostrando que houve uma observação detalhada dos efeitos da iluminação da placa solar sobre a geração de energia.
Algumas constatações nos surpreenderam. Neste dia um dos meninos, que no início do projeto mostrava-se pouco participativo, começou a procurar um motor entre os carrinhos que estavam sem funcionar na Casa para poder montar seus experimentos. E, quando retornamos na outra semana, outro menino queria nos mostrar sua invenção: uma casa em uma caixa de sapatos com luzes de led, ventilador e um motor que funcionava com uma pilha. Este menino antecipou a nossa atividade de avaliação, que era a elaboração de uma casa por eles.
Para finalizar as atividades de fontes de energia, foi proposta a elaboração da casa com os elementos elétricos, móveis, etc. em uma caixa de papelão. Levamos os elementos elétricos (led, fios, motores), ferro solda, EVA, caixinhas, tintas, canetas, entre outros elementos. Os meninos trabalharam pela manhã e a tarde na elaboração de sua casa. As casas ficaram completas, desde televisão, estante com livros, camas, etc., e é claro, um circuito para iluminar. E a fonte poderia ser eólica, solar ou uma pilha. Nas figuras 04 (a) e (b) temos duas das casas elaboradas. Para valorizar o trabalho e promover a autonomia das crianças as casas serão levadas a participar da Feira de Ciências promovida pelo projeto: ' Difundindo Ciência e Tecnologia na Região da Campanha ', da Unipampa em Bagé.
Voltando ao relato do menino que não participava, neste dia ele só foi lanchar depois que concluiu a sua casa.
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Figura 04: Casas elaboradas pelos Guris Maiores.
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(a)
(b)
## Observações dos Alunos
O projeto envolve três alunos da Graduação, sendo duas alunas dos cursos de Engenharia e outro do curso de Licenciatura em Física. A seguir os relatos dos alunos em relação aos seus aprendizados sobre a o trabalho com a casa.
## Pelas palavras da aluna Joana:
'O aprendizado vai muito além do científico, e envolve também o lado emocional, devemos saber lidar com situações extremas vivenciadas por crianças. O apego é inevitável, cada menino carrega uma maneira diferente de transmitir carinho e receber também, o mesmo ocorre com o conhecimento. Precisamos conviver com o fato que na próxima visita eles podem ter voltado para o lado da família e que não iremos mais os ver. A abordagem da Física é um desafio, precisamos aprender antes de ensinar, tentando sempre transpor o conhecimento com a linguagem mais apropriada para cada faixa etária. O aprendizado é constante e recompensador!"
## A aluna Maria:
'Aprendi que não existe roteiro, nem para vida e nem para as aulas. Muitas vezes as atividades que preparamos antes das aulas, não ocorrem como o planejado, o que torna mais desafiador e estimulante trabalhar ensinando e improvisando, os meninos são muito espertos perguntam coisas diferentes que por vezes não sabemos responder, com humildade falamos que vamos procurar a resposta adequada, pois todos somos aprendizes. Por trabalharmos em uma casa de passagem de meninos em situação de vulnerabilidade social, ocorre também de planejarmos atividades para um numero x de meninos e no dia a quantidade pode estar para menos ou para mais, lidar com a saída deles da casa mostra que a vida não tem roteiro, ficamos felizes de saber que retornaram para seus lares e gratos por ter aprendido com eles e ensinado um pouco do que sabemos sobre física de uma maneira divertida, de modo que mesmo fora da casa sintam-se estimulados a aprender mais sobre ciência.'
## O aluno João nos conta que:
'Acredito que o trabalho realizado na casa do Guri foi muito importante e proveitoso para minha formação, pois as atividades aplicadas foram bem aceitas pelas crianças, na qual elas ficaram motivadas a realizar a construção de projetos próprios. É muito bom ver essa motivação quando aplicamos uma atividade.'
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## Considerações Finais
A proposta de se trabalhar conceitos de ciência em uma instituição que cuida de crianças em situações de vulnerabilidade proporciona elementos que suavizam ou diminuam os efeitos provocados pela permanência da criança nestas instituições.
No relato da Assistente Social responsável pela Casa, destaca-se a importância do trabalho para os meninos, que sempre esperam e aguardam cada atividade. No relacionamento dos meninos com as cuidadoras, observa-se que eles se entusiasmam em apresentar o material elaborado nas atividades.
Aliada a esta ideia, destaca-se a importância de se trabalhar ciências com crianças, que segundo Eschach:
'....a exposição de crianças, no inicio da infância, a atividades relacionadas com a ciência, ricas em informações verbais e não verbais, auxiliarão a formação de fecundos reservatórios de materiais que, pouco a pouco, vão se transformando em conceitos mais elaborados. (Apud Arce 2011 pg. 63).'
Inserido na ideia de Eschach, este trabalho buscou introduzir conceitos de ciência que, com o tempo, vão se elaborando e formatando-se em conceitos e definições mais elaborados. Observa-se com este trabalho que alguns conceitos foram incorporados, o de transformação de energia e elaboração de circuitos, por exemplo. Já outras questões importantes foram observadas, as crianças aceitaram a proposta, gradativamente foram envolvidas, nas atividades experimentais mostraram-se interessadas a ponto de promover a independência na elaboração de material, sem que fossem obrigadas a isto. E, também se sentiram protagonistas de suas próprias ações, orgulhosas da produção de seus materiais.
Em relação a formação acadêmica, a fala dos alunos nos mostra suas percepções a respeito das atividades, os desafios do projeto, as realizações, fatos que traduzem seus aprendizados.
A perspectiva futura é a continuidade do Projeto com a inserção de novos temas a serem trabalhados.
Agradecimento: Os autores agradecem o apoio do Programa Observatório de Educação, da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior -CAPES/Brasil. E também agradecem o recurso promovido pela Unipampa via Edital 021/2016 do Programa de Desenvolvimento Acadêmico 2016.
## Referências
Arce, A., Silva, D. A. S. M., Varotto, M. Ensinando Ciências na Educação Infantil , Campinas, SP, Ed. Alinea, 2011.
Casa do Guri, disponível em: http://www.bage.rs.gov.br/programas\_visualiza.php?id=12, acessado em 06/06/2016.
Cavalcante, I. I. C. ; Magalhães, C. M. C.; Pontes, F. A.; Abrigo para crianças de 0 a 6 anos: um olhar sobre as diferentes concepções e suas interfaces. Revista Mal - estar e subjetividade, v. vii, Nº 2, p.329-352, Fortaleza, setembro, 2007.
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Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.