A PERCEPÇÃO DE CRIANÇAS COM DEFICIÊNCIA VISUAL SOBRE CIENTISTAS E CIÊNCIA: ENTRE MITOS E ESTERIÓTIPOS.
Luzia Mota, Beatriz Velame, Diego Inácio, Jamile Ceci, Sérgio Luís Pita
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXII
- Ano
- 2017
- Data
- 24/01/2017
- Linha de pesquisa
- Alfabetização Científica E Abordagens Cts No Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## A PERCEPÇÃO DE CRIANÇAS COM DEFICIÊNCIA VISUAL SOBRE CIENTISTAS E CIÊNCIA: ENTRE MITOS E ESTERIÓTIPOS.
Luzia Mota 1 , Beatriz Velame , Diego Inácio dos Santos , Jamile Ceci dos 2 3 Santos Rocha 4 , Sérgio Luís Pita dos Santos 5
- 1 IFBA/Departamento de Física/Campus Salvador, luziammota@gmail.com
- 2 IFBA/Departamento de Física/Campus Salvador, beatrizherry@gmail.com
- 3 IFBA/Departamento de Física/Campus Salvador, diegoinacio195@gmail.com
- 4 IFBA/Departamento de Matemática/Campus Salvador, jamilececi@gmail.com
- 5 IFBA/Departamento de Física/Campus Salvador, sergio08.luis@gmail.com
## Resumo
O trabalho tem como objetivo apresentar resultados parciais de uma pesquisa realizada com crianças de 7 a 10 anos com deficiência visual na cidade de Salvador-Bahia sobre a percepção que essas crianças possuem sobre os (as) cientistas. A metodologia utilizada foi uma adaptação do DAST (Draw a Scientist Test) instrumento largamente utilizado para estudos com crianças sobre percepção pública sobre ciência e cientistas. O referencial teórico utilizado foi pautado em pesquisas nacionais e internacionais já realizadas sobre o tema, além de estudos que investigam o ensino-aprendizagem em crianças com deficiência visual. O trabalho insere-se nos estudos CTS. Os resultados alcançados nessa primeira etapa da pesquisa indicam que, diferente das respostas encontradas em crianças videntes que nessa faixa etária já possuem uma percepção estereotipada sobre a figura do(a) cientista, o grupo pesquisado encontra-se em uma fase cognitiva intermediária entre modelos estereotipados e ausência desses modelos. As crianças pesquisadas apresentaram uma visão ainda não sistematizada sobre o cientista e as atividades que eles realizam.
Palavras-chave : Percepção pública de crianças sobre C&T, Educação Inclusiva, Ensino de Ciências.
## Introdução
Qual a percepção que crianças cegas e videntes possuem sobre a Ciência, a Tecnologia, os cientistas e suas atividades? Estudos e pesquisas revelam uma relação estreita entre a divulgação cientifica (TV, Jornais, INTERNET, livros, etc.) e a forma como crianças constroem suas concepções sobre a Ciência e Tecnologia (C&T) e o trabalho dos cientistas. Sendo a curiosidade o principal combustível do público infantil, a forma como são apresentados os conceitos científicos e as atividades científicas nos ambientes frequentados pelas crianças e adolescentes consolida, de modo indelével, as concepções cientificas de nossa sociedade, afinal, nossa imagem sobre cientistas e sobre o papel da ciência se constroem já na
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infância e ficam conosco pela vida inteira e não raramente são constituídas a partir de 'mitos científicos e tecnológicos'.
O universo cientifico infantil é repleto de mitos e estereótipos muitas vezes excludentes. Inicialmente, a ideia estabelecida é que a C&T é um conhecimento diferente, especial, esotérico e inalcançável. Produzida por especialistas, onde apenas alguns 'iluminados' são capazes de compreendê-la. A divulgação cientifica para o público infantil, em sua maioria, evita usar termos da área, apelando para analogias fantasiosas, como se as crianças não tivessem capacidade de compreender a ciência sem apelo metafórico. O cientista, quase sempre, é aquela figura masculina, solitária no seu laboratório e alienado da sociedade. Esse estereótipo modela o pensamento senso comum de que, por exemplo, meninas não podem ser cientistas e que existe um perfil padrão para seguir a carreira cientifica.
Os padrões constituídos afastam também aqueles que possuem necessidades específicas, tais como, crianças com deficiência visual (baixa visão, cegueira, surdocegueira ou múltipla deficiência sensorial visual) que não possuem estímulos na área científica e tecnológica e muito menos exemplos positivos que os façam sonhar com carreiras científicas. Camargo, 2005, explicita essa situação e aponta possíveis soluções:
[...] Os mitos, verdadeiros paradigmas comportamentais e educacionais, ao constituírem-se como obstáculo a relacionamentos equilibrados e saudáveis entre videntes e pessoas com deficiência visual, produzem uma série de tabus que geram por sua vez, uma relação dialética entre distanciamento e desconhecimento, relação esta, que tende a ser estável, mas que pode ser desestabilizada em contextos sociais como o educativo. (CAMARGO, 2005)
Considerando a restrita literatura nacional sobre esse problema e atentando para a importância do tema, esse trabalho relata os resultados de uma pesquisa empírica com crianças de 7 a 10 anos com deficiência visual sobre a percepção que elas possuem sobre, os cientistas e as atividades desenvolvidas por eles. Conhecendo os meandros do desenvolvimento das concepções das crianças sobre a atividade de C&T será possível, no campo teórico, estabelecer paralelos sobre os efeitos da educação formal e da divulgação científica no desenvolvimento da concepção das crianças com deficiência visual sobre a C&T. No campo prático do ensino da ciência, pretende-se contribuir tanto com a formação de professores da área quanto com a construção de materiais didáticos para esse público.
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## Fundamentação Teórica
Em pesquisa realizada em 2008, em cooperação com pesquisadores italianos, Castelfranchi e outros, assumem que a ciência, a tecnologia e seus produtores são tratados pela mídia, em geral, através de um mosaico que os caracterizam tanto como malucos quanto como geniais; A presente pesquisa está ancorada em estudos nacionais e internacionais e pode colaborar com resultados já encontrados em pesquisas similares ou mesmo desvelar novos elementos ampliando o conhecimento sobre o tema. Além do mais, a interpolação desse objeto de estudo com um público alvo pouco pesquisado, particularmente, crianças com deficiência visual, torna-se uma justificativa acadêmica e social relevante para a consecução deste plano de trabalho. Nunca é demasiado atentar para as conquistas dos grupos com necessidades específicas e que conseguiram, com esforço, estabelece-las em leis, tais como, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Lei Nº 9394/96 e a Lei Nº 13.146, de 6 de julho de 2015.
A compreensão da natureza da ciência e dos cientistas, tem relevância no modo como as crianças respondem ao ensino formal e informal em ciências e por consequência nas suas vidas. Para Reis, Rodrigues e Santos (2006), em uma sociedade científica e tecnologicamente avançada, o exercício da cidadania e a democracia só serão possíveis através de uma compreensão do empreendimento científico e das suas interações com a tecnologia e a sociedade que permita, a qualquer cidadão, reconhecer o que está em jogo numa disputa sócio-científica, alcançar uma perspectiva fundamentada e participar em discussões, debates e processos decisórios.
Para uma melhor compreensão da natureza da ciência em crianças, é essencial que haja a busca das preconcepções ou concepções alternativas que elas têm sobre a ciência e os cientistas. NACHTIGALL (1982), citado por MAVANGA (2007), explica preconcepções em ciências como sendo as ideias sobre o mundo em seu redor (fenômenos, processos, objetos, conceitos e leis da natureza), que as pessoas possuem antes da aprendizagem destes na instituição escolar.
Por isso, ao longo de várias décadas, muitas pesquisas foram feitas e publicadas a respeito das concepções das crianças. Entre essas pesquisas está o inovador trabalho de Mead e Metraux, no qual entrevistou 48 mil jovens americanos
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para detectar a visão que eles tinham sobre a imagem do cientista, bem como a ciência. Uma das pesquisas de maior relevância, no entanto, foi a de David Chambers (1983), conhecida como 'Draw a Scientist Test' (DAST). Ele estudou 4.087 crianças com faixa etária entre 5 a 11 anos, nos Estados Unidos e no Canadá, através dos desenhos feitos por elas, coletando estes por um período de onze anos, a fim de detectar em qual idade a ideia de ciência e do cientista, de forma estereotipada, aparece na visão dessas crianças.
As pesquisas sobre a percepção das crianças acerca dos cientistas e da ciência, revelam que majoritariamente as crianças apresentam diversas ideias estereotipadas sobre os cientistas (REIS, RODRIGUES E SANTOS, 2006). Entre essas ideias, segundo os autores, estão: 1. A imagem caricaturada do cientista algo louco ou excêntrico; 2. O cientista como vivisseccionista; 3. O cientista como pessoa que sabe tudo; 4. O cientista como tecnólogo; 5. O professor como cientista; 6. Os alunos como cientistas; 7. O cientista como empresário. São essas imagens estereotipadas e preconcebidas que serviram como suporte para a análise dos resultados encontrados no estudo aqui apresentado.
## Metodologia
A metodologia para o desenvolvimento dessa pesquisa foi de caráter qualitativa e quantitativa, e tratou-se de uma pesquisa empírica conduzida no interior do referencial teórico dos Estudos sobre Ciência, Tecnologia e Sociedade (CTS).
A pesquisa qualitativa foi realizada através da utilização de grupos focais e entrevistas, esses recursos podem oferecer indicadores adequados às variáveis em exame, além de propiciar aos sujeitos exprimir questões da sua experiência a respeito do objeto analisado, 'revelando tanto a singularidade quanto a historicidade dos atos, concepções e ideias'. (CHIZZOTTI,1998, p.93).
A opção pela utilização do grupo focal como técnica de coleta de dados, favorece a discussão das experiências vividas, que é o desejado na investigação. Os grupos focais serão adaptados à realidade de crianças de 7 à 10 anos de idade com deficiência visual. Experiências nacionais como a de Castelfranchi e outros (2008) e Soares, G. e Scalfi, G. (2014), serão utilizadas para analisar em profundidade a imagem coerente, verbalizada e explicita dos(as) cientistas e suas atividades, bem como analisar o nível de alfabetização e déficit científico das
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crianças. Para a pesquisa quantitativa foi construído um questionário para caracterizar as concepções sobre os (as) cientistas do público alvo.
Aliado aos grupos focais foi utilizado outro instrumento largamente utilizado para pesquisas dessa natureza: o Draw a Scientist Test (DAST), um método de análise para avaliar o imaginário infantil sobre o fazer científico. Este último foi elaborado por David Chambers (1983) e baseia-se em desenhos. Experiências hibridas neste sentido já foram realizadas por SOARES et al (2014), PATRICIO (2014), MANASSERO, (2001); STEKOLSCHIK, (2008).
O uso do DAST integrado aos grupos focais corresponde a uma metodologia capaz de conduzir a investigação aqui proposta. É importante ressaltar que a execução desse plano de pesquisa contou com a colaboração da equipe executora do projeto Estação Ciência que conta com a participação de psicólogas e 1 pedagogas, além de professoras de Física.
Os passos seguidos na intervenção realizada foram: 1.Construção dos grupos focais com as crianças. A discussão nos grupos foi estimulada a partir da criação de um conto com 3 personagens: uma personagem lúdica cuja função foi mergulhar o conto numa atmosfera de 'realidade fantástica'; uma criança entre 7 e 10 anos para facilitar a inserção das crianças na história - e uma pessoa que trabalha com ciência. Foi apresentado às crianças um proposito para a estória (viagem no tempo por exemplo). As crianças contaram a estória, inventando-a e desenhando-a. Essa experiência se constitui em uma evolução dinâmica e aprofundada do DAST (CHAMBERS, 1983) e da pesquisa realizada por CASTELFRANCHI, 2009. 2. A partir de sessões de escutas individuais foi solicitado às crianças que elas resumissem verbalmente, imaginando escrever uma carta para outras crianças da mesma idade, o sentido da estória que foi construída coletivamente, essa etapa permitiu analisar em profundidade a imagem racional, verbalizada e explicita sobre a Ciência, o cientista e sobre as atividades de C&T. 3. Análise dos desenhos, da estrutura do conto, e das gravações de áudio coletivas e individual realizadas nos grupos focais para compreender o imaginário das crianças. 4. Sistematização dos dados pela equipe e análise dos resultados.
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## Resultados
Conforme mencionado na seção anterior, realizou-se analise dos áudios e dos desenhos feitos pelas crianças tanto da estória coletiva quanto da entrevista individual para verificar a existência - ou não - dos estereótipos estipulados por Santos, Pessanha, Santos e Lima (2009).
A intervenção foi realizada com a participação de 19 crianças, sendo três com cegueira total, catorze com baixa visão e duas com baixa visão severa, maioria significativa matriculada em escolas municipais, que fazem acompanhamento sócio pedagógico no Instituto de Cegos da Bahia. Sendo 8 meninas e 11 meninos, foram divididos 3 grupos escolhidos aleatoriamente segundo a disponibilidade de horário e faixa-etária:
- · Grupo A com 6 crianças: 2 meninas e 4 meninos;
- · Grupo B com 5 crianças: 2 meninas e 3 meninos;
- · Grupo C com 8 crianças: 4 meninas e 4 meninos.
O cientista como tecnólogo é marcante nos três grupos focais. Coisas como ' espada eletrônica ', ' lixeira eletrônica ' e ' tem o poder de construir a máquina do tempo ' fizeram-se presente nas estórias, sendo possível qualificar esse estereótipo como o imaginário mais marcante nas crianças envolvidas na atividade.
Curiosamente, o grupo C definiu uma cientista para compor sua estória, fugindo do imaginário convencional que exclui mulheres das carreiras cientificas. Entretanto, todas as crianças concordaram que ' a pele é branca com os cabelos pretos cacheados que precisava pranchar ', reproduzindo padrões estéticos relevantes para enquadramento no item imagem caricaturada do cientista.
A análise dos resultados foi feita de maneira conjunta pelo fato dos grupos A, B e C apresentarem padrões semelhantes em relação aos desenhos, à entrevista, aos estereótipos apresentados no discurso e ao enredo da estória.
Durante todo processo são explicitas as referências aos desenhos animados, filmes de super-heróis e outras realidades midiáticas. Uma das crianças, por exemplo, acredita que o cientista é ator, possivelmente por nunca tê-lo visto fora da televisão, ou por associa-lo apenas aos estereótipos transmitidos pela TV.
Alguns estereótipos foram apareceram fortemente durante a conversa coletiva, como o uso de um colete pela pessoa que faz ciência e que sua produção
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está ligada a tecnologias eletrônicas, entretanto, um grupo de crianças visivelmente mantinham silencio quando estimuladas a falar sobre os cientistas, muitas delas alegando não saber o que dizer.
É importante destacar que algumas crianças não apresentaram concepções, alegando não saber o que é ciência ou o que caracteriza uma atividade cientifica, como fica visível nos desenhos abaixo onde foi solicitado que as crianças desenhassem um cientista:
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Figura 01: Cientistas desenhados pelas crianças
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A figura1 evidencia que o DAST, sozinho, não demonstrou ser capaz de captar a imagem que as crianças em estudo possuem acerca de cientistas, não condizendo com os resultados obtidos por crianças em idade próxima ou igual em outros testes nacionais e internacionais. Em uma sociedade visual, os estereótipos estão mais atrelados à imagem do que ao imaginário, portanto, os desenhos não apresentam, em sua maioria, traços satisfatórios para caracteriza-lo em padrões convencionais.
## Considerações Finais
Um dos resultados mais importantes deste estudo, por se tratar de um grupo formado por crianças com deficiência visual - inclusive com múltiplas deficiências -, decorre da identificação de que elas ainda não foram estimuladas a ponto de criar um imaginário sobre ciência e cientistas, oscilando entre uma visão estereotipada e uma não visão.
Outra possibilidade de investigação, que ficou de fora de nossos questionários, por fazer parte de uma próxima etapa da pesquisa, é a educação formal que estas crianças recebem na escola e de que forma os livros didáticos utilizados por elas apresentam a 'visão' da ciência e dos cientistas, exercendo
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influencia na construção do imaginário destas crianças. Esta será uma próxima etapa da pesquisa.
Desta forma outras possibilidades investigativas e comparativas tornam-se possíveis para este estudo sobre a percepção do que é a ciência e o cientista para estas crianças e de que forma estas 'construções' vão se relacionando de formas estereotipadas ou não.
## Referências
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BRASIL - Lei de Inclusão de Pessoas com Deficiência. STF. DF. 2015.
CHAMBERS, D, (1983). Stereotypic images of the scientist - the Draw-a- scientist Test, Science Education. Vol. 67, pág. 255-265
CACHAPUZ, A., PRAIA, J. & JORGE, M. (2002). Ciência, educação em ciência e ensino das ciências. Lisboa: Ministério da Educação, Instituto de Inovação Educacional.
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CAMARGO, E. P. O ensino de física no contexto da deficiência visual: elaboração e condução de atividades de ensino de Física para alunos cegos e com baixa visão. 2005. 285 f. Dissertação (Doutorado em Educação) - Faculdade de Educação, Universidade Estadual de Campinas, São Paulo. 2005.
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