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TEMPO DE RESPOSTA: CONTRIBUIÇÕES DE UMA ATIVIDADE PARA CIDADANIA NO TRÂNSITO

Fabiano Fernandes De Oliveira, Glória Regina Pessôa Campello Queiroz, Rodrigo Trevisano De Barros

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXII
Ano
2017
Data
24/01/2017
Linha de pesquisa
Alfabetização Científica E Abordagens Cts No Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## TEMPO DE RESPOSTA: CONTRIBUIÇÕES DE UMA ATIVIDADE PARA CIDADANIA NO TRÂNSITO

Fabiano Fernandes de Oliveira¹, Rodrigo Trevisano de Barros², Glória Regina Pessôa Campello Queiroz 3

1

Colégio Pedro II, prof.fabianof@gmail.com 2 Colégio Pedro II, rodrigotrevisano@gmail.com 3 UERJ, gloriapcq@gmail.com

## Resumo

O presente trabalho é uma atividade de investigação realizada com uma turma da segunda série do Ensino Médio do Colégio Pedro II, buscando relacionar os conteúdos de cinemática com questões sociais que envolvem as leis de trânsito. A pesquisa foi motivada pelo crescente número de acidentes e de multas de trânsito que vem ocorrendo no Brasil, devido ao uso do celular por parte dos motoristas enquanto dirigem. Desta maneira a atividade buscou problematizar junto aos estudantes o uso do celular no volante e de que forma isso afeta o tempo de reação de um motorista em situações do dia a dia da cidade. A atividade teve um resultado positivo, uma vez que levou os alunos a refletirem sobre esta prática tão perigosa. Esta atividade é fruto de um grupo colaborativo que tem como objetivo pensar e agir sobre o ensino de Física da unidade escolar em que a prática foi desenvolvida.

Palavras-chave : Ensino de Física, Alfabetização científica, CTS.

## Introdução

Nos últimos anos foi registrado um grande aumento no número de acidentes e multas de trânsito no Brasil devido ao uso de celulares por parte dos motoristas. Em seus sites, diversos jornais e veículos de comunicação alertam para o perigo dessa prática e chamam a atenção para o fato deste comportamento estar crescendo em diversas cidades do Brasil, como por exemplo no Rio de Janeiro (http://g1.globo.com/rj/norte-fluminense/noticia/2016/08/uso-do-celular-no-transito-eterceira-maior-infracao-em-campos-no-rj.html) , na cidade de São Paulo (http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2016/03/1745776-multas-por-uso-do-celularcrescem-22-em-sao-paulo.shtml) e na cidade de Campina Grande na Paraíba (http://g1.globo.com/pb/paraiba/noticia/2016/07/multas-por-uso-de-celular-notransito-lideram-ranking-em-campina-grande.html).

Segundo RUBBA (1991 apud. SANTOS, 2001), o objetivo da educação para ação social responsável é preparar o cidadão para tomar decisões com consciência do seu papel na sociedade, capaz de provocar mudanças sociais na busca de melhor qualidade de vida para toda a população.

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23 a 27 de janeiro de 2017

Defendemos um ensino de ciências que contribua com a construção de uma sociedade crítica e mais democrática, entendemos que para isso precisamos dialogar com a diferença e tentar trabalhar na desconstrução do silêncio estabelecido pela escola para a diversidade presente no interior das suas unidades (QUEIROZ e DALMO, 2016). Na mesma esteira Vázquez (2013) defende que uma proposta educativa para o século XXI deve incluir questões referentes à Ciência, Tecnologia e Sociedade (CTS) em todas as áreas do conhecimento, especialmente no ensino de Ciências, tentando estabelecer a compreensão da Ciência enquanto produção humana. Para o autor, isso deve ser considerado como parte essencial dos currículos escolares atuais incluindo assim uma cultura científica e tecnológica através de uma educação CTS (Acevedo, Vázquez e Manassero, 2003).

Defendemos que uma educação CTS precisa estabelecer uma completa relação entre os temas de ciência, tecnologia e uma sociedade plural e diversa. Acolhemos as palavras de Vázquez (2016) e entendemos que uma educação CTS:

- 1. compromete-se com um ensino de ciências problematizador da realidade;
- 2. compromete-se com os eixos centrais da 'educação para todos' proposto pela UNESCO: a) aprender a conhecer, b) aprender a fazer, c) aprender a viver e d) aprender a ser;
- 3. compromete-se com a mudança da antiga concepção de professor como alguém que apenas ensina, passando a ser comprometido como aquele que também deve aprender, posicionando-se como sujeito capaz de transformar os conhecimentos articulados com as demais disciplinas.

Destacamos que esse trabalho propõe uma atividade que compromete-se com o ponto um (1) apresentado anteriormente. Um problema mais que atual é o uso excessivo do celular durante o período que os motoristas estão dirigindo, assim a relação entre o uso do celular no trânsito e os conteúdos de física se faz importante para que essa relação possa ser explorada.

Pensando na situação atual, relacionada ao uso do celular no trânsito, em que a sociedade brasileira está inserida, foi desenvolvida uma atividade com uma turma de segunda série do ensino médio buscando relacionar os conteúdos de física com essa realidade. A turma é composta por alunos de mesmo perfil sócio econômico e os alunos estão todos dentro da mesma faixa etária, entre 15 e 17 anos.

- O movimento do aprender através da pesquisa inicia-se com o questionar. Como afirmam FREIRE e FAUNDEZ (1985 apud. DEMO, 1996), em Por uma Pedagogia da Pergunta, o conhecer surge como resposta a uma pergunta, leva a um movimento no sentido de encontrar soluções. Logo, tomamos a pergunta de partida como uma boa forma de orientar e iniciar a nossa pesquisa qualitativa. Desta forma, a pergunta a ser respondida nesta pesquisa é: 'Qual a contribuição das aulas de física, mais especificamente de cinemática, para a criação de uma consciência para o trânsito nos alunos do Ensino Médio?'
- O princípio democrático garante ao cidadão, mesmo que indiretamente, a participação nas decisões que envolvam a sociedade e interfiram em seu cotidiano.

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É a partir dessa perspectiva que iremos discutir o papel do Ensino de Física e sua capacidade de produzir e/ou qualificar a participação do cidadão nas decisões sociocientíficas, como ressaltam alguns autores (SANTOS, 2007b; AULER, 2007; ACEVEDO, 2005). Formar cidadãos que atendam a essa nova demanda se torna muito mais que prepará-los com uma extensa lista de conteúdos e exercícios.

É notório que sem um conhecimento mínimo de ciência, de sua capacidade de auxiliar na resolução de situações problema e de seus desdobramentos sociais, a participação do cidadão na análise da relação do homem com o ambiente tende a se tornar marginal. Para participantes ativos destas discussões a 'Alfabetização Científica' é um caminho (AULER, 2001, 2002, 2003, 2007, 2009; BAZZO, 2007; CACHAPUZ et al., 2011, 2001; CARVALHO, 2011; LOPEZ CEREZO, 1998; SANTOS, 2007a).

Podemos ampliar a discussão resgatando a análise de FOUREZ (1999) na qual o autor apresenta duas perspectivas para alfabetização científica, a restrita e a ampla, ou ainda, como AULER (2001) descreve, reducionista e ampliada. Aceitar uma abordagem reducionista significa acatar a ideia de um ensino de regras e conceitos, ou, como classifica o autor, de uma abordagem ingênua, desprezando as implicações e relações com a realidade. Nesta perspectiva simplista, a alfabetização em ciência se realiza pela transmissão unidirecionalmente do conhecimento científico (ROSA 2000 apud AULER, 2001).

- Já na perspectiva ampliada estamos mais perto de uma concepção progressista de educação, produzindo uma aproximação do ensino de ciências com o referencial freiriano pelo qual a educação relaciona-se com conhecimento crítico da realidade (FREIRE, 1996, 2005). A principal diferença entre tais concepções está no que se espera do conteúdo: na reducionista o conteúdo finda em si, se basta no necessário para um pleno entendimento do conhecimento científico, enquanto na ampliada ele é o meio para a concepção de temas de importância social.

A partir destas ideias, a tentativa foi relacionar os conteúdos determinados pelo currículo da escola com o objetivo principal do trabalho. O Colégio onde a atividade foi desenvolvida, divide o ano letivo em três trimestres. No primeiro trimestre do ano letivo, período no qual a atividade foi desenvolvida, as turmas de segunda série do Ensino Médio estudam na disciplina física o conteúdo de cinemática, mais especificamente o movimento retilíneo uniformemente variado.

Sendo assim, a atividade foi pensada tentando relacionar este conteúdo, com o recorte nas situações de queda livre, visando chamar a atenção dos estudantes para o fato de como o tempo de reação das pessoas pode ser afetado durante o uso dos aparelhos celulares. E, desta maneira, problematizar junto à turma questões relativas ao uso de celulares por motoristas, enquanto estão dirigindo.

- A atividade buscava ainda desvincular a aula de física de uma mera resolução de exercícios, que segundo as ideias de Perrenoud (2000) 'leva o aluno a acumular saberes, a passar nos exames, mas não consegue usar o que aprendeu em situações reais'.
- O Ensino de Ciências nesse contexto precisa assumir seu papel de instalar no espaço escolar uma atividade reflexiva, capaz de contribuir para uma percepção mais humanística da Ciência. É fundamental que o Ensino de Ciências se dedique a

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atender as demandas locais da comunidade escolar, fugindo de modelos já estabelecidos e receitas prontas de como ensinar Ciências.

## Metodologia

Optamos por uma pesquisa qualitativa por entender que o projeto tem o objetivo de investigar e melhor compreender o comportamento e a experiência humana (BOGDAN e BIKLEN,1994), não buscando fazer medições e atribuir valores às atividades e à participação dos alunos.

A prática foi desenvolvida pelo professor regente da turma em uma aula de 80 minutos. A atividade consistia no uso de uma régua de 1m de comprimento que seria abandonada em queda livre, individualmente, para que cada aluno tivesse a reação de segurar a régua ainda no ar, impedindo que ela chegasse até o chão.

O procedimento foi realizado com todos os alunos da turma em 3 momentos. No primeiro momento, o aluno que tentaria segurar a régua olhando diretamente para a mesma, com atenção total na régua. No segundo momento, o aluno estaria olhando para outro lugar, sem focar sua atenção na régua, mas deixando-a no seu campo de visão periférica. Já no terceiro e último momento, o aluno deveria estar mexendo no celular, de modo que a sua atenção não estaria voltada para o ambiente.

Em cada momento os alunos mediam o quanto a régua caiu até que fosse segura pelo estudante. Sendo assim, eles conseguiriam chegar ao valor do seu tempo de reação em cada momento da atividade.

Sabemos que nesta atividade teremos um erro nas medidas, uma vez que não estaremos utilizando aparelhos de alto grau de precisão, desta forma, para tentar minimizar os erros, a régua era abandonada com a marcação zero aproximadamente do mesmo nível de altura em relação à mão do aluno que iria segurá-la. Consideramos ainda que os pequenos erros existentes não afetariam de maneira significativa os resultados desta pesquisa.

Para tentar reduzir ao máximo os erros nas medidas, o professor da turma foi o responsável por abandonar a régua para que os alunos segurassem, dessa forma buscamos evitar discrepância entre o abandono da regra de um aluno para o outro.

Após realizar as 3 medidas os alunos responderam a um questionário mostrado abaixo, que iria compor parte da sua nota naquele período. O questionário consistia nas seguintes perguntas:

1)O que você entende por tempo de reação?

2)Como o tempo de reação influencia situações no seu dia a dia?

3)Se você estivesse dirigindo um carro a 72km/h, e houvesse um obstáculo na sua frente quantos metros você iria percorrer até pisar no freio? Considere os tempos medidos com a queda da régua.

4)Como você relaciona as leis de trânsito(e ou os acidentes de trânsitos) com os resultados obtidos para seu tempo de reação e as respostas da pergunta 3?

## Resultados

Os questionários foram analisados após o término da aula. Porém alguns fatores foram percebidos pelo professor ao longo da realização da atividade. Como

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por exemplo, uma aluna que apresentava um baixíssimo tempo de reação em relação a muitos dos colegas de turma. Durante a realização da atividade os alunos ficaram espantados com esse fato e ela relatou praticar natação e com isso, estar acostumada a ter que reagir rápido, devido à largada nas competições.

Isso mostra que cada aluno tira suas conclusões não somente baseada nas atividades desenvolvidas em sala de aula pelo professor, mas associa a isso as suas experiências de vida prévia. Dessa forma, não acreditamos que a atividade é capaz de sozinha mudar apercepção dos estudantes, mas tem potencial para contribuir para uma visão mais critica do pensamento cidadão.

Dentre as respostas obtidas com os questionários, destacamos aqui apenas algumas, devido ao tamanho deste trabalho.

- 'O uso de celular e a falta de atenção influenciam no tempo de reação como podemos observar com os resultados, sendo assim, as chances de ir contra as leis e ocorrer acidentes é muito maior pela distração, pois o tempo que leva para o carro frear aumenta' (Aluno 1)
- 'O uso de celular enquanto se dirige é um problema que causa muito acidentes de trânsito. O tempo de reação é interferido pelo desvio de atenção, assim como o uso de bebidas alcoólicas que interferem também.' (Aluno 2)
- 'O tempo de reação do motorista influencia na hora de evitar um acidente, como por exemplo quando o motorista da frente freia rapidamente no sinal amarelo, o tempo de reação do motorista de trás deve ser rápido. Por isso deve-se ter leis rígidas no trânsito.' (Aluno 3)
- 'O uso do celular e a falta de atenção influenciam no tempo de reação como podemos observar com os resultados, sendo assim, as chances de ir contra as leis e ocorrer acidentes é muito maior pela distração pois o tempo que leva para o carro frear aumenta.' (Aluno 4)
- 'Não pode dirigir embriagado, pois o tempo de reação é mais demorado.' (Aluno 5)
- 'As leis de trânsito dizem basicamente que durante o tempo que alguém está atrás do volante ela não pode ter distrações ou algo que diminua a sua capacidade de tempo de reação, como por exemplo, o celular e bebidas alcoólicas que são as principais causas de acidentes de trânsito.' (Aluno 6)

Analisando as respostas, podemos perceber que além de manifestarem nas suas respostas a reflexão a respeito do perigo do uso do celular ao volante os alunos também conseguiram relacionar o uso de bebidas alcoólicas com acidentes de trânsito.

Essa percepção é de extrema importância, uma vez que formar cidadãos que tenham a capacidade de refletir de maneira crítica a respeito de situações do cotidiano relacionando-as com o que é abordado em sala de aula torna o ensino de física mais relevante. Principalmente com alunos que estão prestes a completar 18 anos e muitos já iniciam o processo de formação de condutores de veículos.

Desta forma, podemos proporcionar um ensino que se faz mais presente na vida dos alunos, relacionado com situações concretas do dia a dia, fugindo de um ensino que se restringe meramente a uma transmissão de conteúdos e resolução de exercícios.

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## Considerações finais

As nossas considerações iniciam-se buscando responder às indagações motivadoras desta pesquisa, sendo assim, a partir das respostas dos alunos, foi possível perceber que a atividade foi capaz de fomentar nos estudantes reflexões a respeito de como os acidentes de transito podem ser evitados.

Ainda foi perceptível nos discursos dos alunos que o respeito às leis de trânsito, mais especificamente ao artigo 252 do Código Brasileiro de Trânsito, que proíbe o uso de aparelhos celulares pelos motoristas, é fundamental para a prevenção de acidentes e para a segurança tanto de motoristas quanto de pedestres.

A partir da análise das respostas foi perceptível que os alunos apresentaram discursos mais maduros a respeito do uso do celular ao volante e manifestaram nesses discursos uma visão mais reflexiva a respeito deste problema social que estamos enfrentando no trânsito.

Desta forma, podemos concluir que a atividade teve um saldo positivo, uma vez que foi capaz de levar os alunos à reflexão a respeito de questões fundamentais para a cidadania relacionando essas questões com os conteúdos científicos abordados em sala.

Destacamos também que as leituras e nossa investigação apontam para uma escola que desafie o aluno a crescer, que auxilie na construção de saberes e argumentos preservando suas particularidades, levando sempre o aluno a refletir a respeito dos conteúdos que são abordados em sala de aula.

## Referências

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