EVASÃO E PERMANÊNCIA NA LICENCIATURA EM FÍSICA: QUAL TEM SIDO O PAPEL DA UNIVERSIDADE?
Everton Ribeiro, Ivanilda Higa
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXII
- Ano
- 2017
- Data
- 24/01/2017
- Linha de pesquisa
- Formação De Professores E Prática Docente
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## EVASÃO E PERMANÊNCIA NA LICENCIATURA EM FÍSICA: QUAL TEM SIDO O PAPEL DA UNIVERSIDADE?
## Everton Ribeiro , Ivanilda Higa 1 2
## Resumo
Estudos têm evidenciado que a evasão no ensino superior possui taxas alarmantes e estas são ainda maiores nas licenciaturas. Esta realidade não está presente apenas em uma região do país ou em uma instituição, mas sim em todo o território brasileiro e instituições de nível superior públicas ou privadas. Nesta perspectiva este trabalho apresenta resultados parciais de uma dissertação de mestrado que buscou conhecer quais motivos favorecem a permanência dos alunos na licenciatura em Física. Para tanto foi realizada uma revisão de literatura nas cinco últimas edições dos principais eventos da área, como SNEF, EPEF e ENPEC, pois estes eventos contemplam um número maior de pesquisas já concluídas ou em andamento. Estas indicaram que vários elementos se relacionam à evasão e a permanência, os quais foram denominados neste trabalho de Níveis Analíticos e são: Estrutural, quando de ordem socioeconômica; Institucional, quando relacionam-se com características da Instituição; Profissional, quando são referentes à profissão ou ao mercado de trabalho; Pessoal quando são específicos dos indivíduos. Os resultados aqui apresentados e discutidos referem-se às relações que a Instituição de Ensino Superior, na perspectiva dos estudantes, possui com a evasão e a permanência no curso de Licenciatura em Física, discutindo suas relações com o já citado pela literatura.
Palavras-chave : Evasão e Permanência, Licenciatura em Física, Formação de Professores.
## Introdução
A evasão nos cursos superiores no Brasil é um problema antigo e ocorre em várias instituições, independente da região e, em vários cursos, independente da área. O fenômeno, porém, apresenta taxas alarmantes nos cursos de licenciatura, principalmente no curso de licenciatura em Física, no qual as taxas variam em todo o território nacional de 41,3% até 73% (RIBEIRO, 2015). As altas taxas indicadas trazem prejuízos em várias instancias, inclusive à escola básica, onde a falta de professores de Física é bastante preocupante. Segundo Ribeiro (2015), no ano de 2007, apenas 25,2% dos professores que lecionavam Física no Brasil eram licenciados em Física, em 2012 esse número reduziu para 17,7%.
Um fenômeno que nesta perspectiva ainda merece atenção é a evasão profissional; caracterizada pelo abandono da profissão, que chega em média a 32,5% apontado por Aranha e Souza (2013) como crise na profissão docente. Esta crise se caracteriza pela união de vários elementos, entre eles, o baixa valorização do diploma de professor, ou seja, o desprestígio, e o baixo salário, que corresponde ao capital econômico (ARANHA; SOUZA, 2013; KUSSUDA; NARDI, 2013a, 2013b).
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Buscando estudar quais motivos levam os docentes a permanecerem na profissão, utilizando um questionário online, Kussuda e Nardi (2013b) indicam que três fatores que levaram os professores a permanecer na docência:
- - Gosto pela carreira/ensino
- - Integração do aluno à sociedade
- - Mercado de trabalho para licenciados em Física
- O curso de Licenciatura em Física apresenta algumas características comuns quanto ao perfil de seus alunos, geralmente oriundos das classes menos abastadas. Pode-se chegar a essa conclusão pelo fato da maioria ter estudado exclusivamente em escolas públicas e ter pais cuja maioria possui o ensino fundamental ou o ensino médio como maior nível de instrução (RIBEIRO, 2005).
Os estudos quanto à evasão são amplos, e nestes os alunos apontam como principais aspectos que levam à evasão elementos que podem ser entendidos como de ordem socioeconômica, cultural, institucional e profissional (ARRUDA; UENO, 2003; RIBEIRO, 2005; LIMA JUNIOR; SILVEIRA; OSTERMANN, 2012; CAMARGO et. al., 2012). Nessa perspectiva Barroso e Falcão (2004) estruturam a evasão em três tipos:
- 1) A primeira, evasão socioeconômica, ocorre quando o aluno deixa o curso por motivos financeiros. As pesquisas apontam o perfil socioeconômico dos discentes, e a maioria é proveniente de uma classe de baixa renda, o que gera a necessidade do trabalhar durante o curso. A dificuldade de conciliar trabalho e estudo acaba limitando o tempo disponível para estudo, prejudicando assim o desempenho do discente.
- 2) A segunda é a evasão vocacional. Essa ocorre quando o aluno deixa o curso por não ter afinidade com o mesmo. Pode ser um equívoco na escolha do curso, por esta escolha ser realizada em geral, quando o discente ainda é muito novo e por não ter o conhecimento adequado em relação à profissão.
- 3) A terceira forma, evasão institucional, ocorre quando mesmo não tendo dificuldades financeiras nem dúvidas quanto à profissão escolhida, o discente desiste do curso por motivos internos à Universidade. Nesse caso, destacam-se fatores como currículo e horário de cada instituição, além das metodologias utilizadas pelos professores e infraestrutura.
Nesse contexto, neste trabalho busca-se entender como as instituições estão influenciando ou não a evasão em um curso de Licenciatura em Física. Para tanto discute-se os resultados obtidos por Ribeiro (2015) em sua dissertação de mestrado, a qual analisava elementos de permanência, porém também discutiu elementos sobre a evasão. A discussão aqui proposta está ocorre contrastando os resultados de Ribeiro (2015) com o que já estava posto pela literatura.
## O estudo em uma Instituição
Através de um questionário, Ribeiro (2015) permitiu aos discentes (em torno de 45%), explicitarem seus pontos de vista e vivências quanto a evasão e permanência. Os resultados encontrados relacionavam-se não apenas a instituição, porém neste trabalho serão estes resultados que serão abordados e discutidos. A seguir é feita uma breve apresentação da instituição e dos sujeitos que participaram da pesquisa.
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## Instituição
A pesquisa foi desenvolvida no curso de Licenciatura em Física de uma universidade federal, curso este organizado em períodos semestrais, ou seja, as disciplinas são semestrais.
- O curso possui entrada de 45 novos ingressantes tanto no 1º quanto no 2º semestre, totalizando 90 a cada ano letivo. Por haver um ingresso de alunos semestralmente, as disciplinas obrigatórias são ofertadas todos os semestres. Até o ano de 2010 os dois primeiros anos de curso eram compostos por disciplinas exclusivamente da Física, e nos dois últimos anos essas se davam em paralelo com as disciplinas da Educação.
Desde o ano de 2011 um novo currículo está em vigência.
Diversas foram as alterações em relação ao currículo anterior, dentre as quais algumas serão aqui citadas. Neste novo currículo desde o primeiro semestre o aluno possui contato com as disciplinas da Educação e da Física; o curso passou, de 4 anos de duração (8 semestres) a 4,5 anos de duração (9 semestres); disciplinas de Trabalho de Conclusão de Curso foram inseridas e a carga horária de disciplinas integradoras também aumentou sensivelmente, além das atividades de estágio.
## Sujeitos
Os sujeitos que participaram estavam regularmente matriculados no curso de Licenciatura em Física. Apenas um grupo de alunos foi restrito à participação, que foram os ingressantes do semestre de aplicação, pois por estarem há pouco tempo na Universidade (menos de 2 meses), não atenderiam ao que se buscava.
Responderam o questionário alunos que ingressaram em diferentes anos e semestres (de 2002 até 2013), com uma concentração maior entre os anos de 2009 à 2013.
## O papel da Instituição na Evasão segundo a literatura
Partindo da estruturação feita por Barroso e Falcão (2004), trataremos da evasão institucional. Um problema existente nas licenciaturas, que leva a essa evasão, é o privilégio que existe em relação aos conteúdos de formação da disciplina específica quando comparados aos da formação pedagógica. Muitos professores da área específica não se preocupam em ter uma metodologia diferenciada para a formação de professores, por exemplo, com atividades alicerçadas em conhecimentos do campo da educação (TOTI; PIERSON 2012; CAMARGO et. al., 2012; KUSSUDA).
Essa situação se apresenta quando alunos com formações diferentes são questionados sobre a licenciatura. Toti e Pierson (2012) em pesquisa com alunos da licenciatura evidenciam esse aspecto. Os alunos entrevistados apresentavam contextos diferentes: dois, que eram bacharéis em Física, deram continuidade aos estudos na pós-graduação e no período da pesquisa faziam doutorado em Física juntamente com a licenciatura; outros dois entrevistados cursavam a Licenciatura em Física e já lecionavam a disciplina no ensino médio. As diferenças de compreensão dos dois grupos em relação à licenciatura são apresentadas no Quadro 1.
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Quadro 1 - Diferenças de compreensões de acordo com a formação
FONTE: TOTI E PIERSON (2012) (ADAPTADO)
O antigo modelo 3+1, no qual o curso de licenciatura pouco ou nada se diferenciava do bacharelado até o terceiro ano do curso, acaba se caracterizando nas falas de um grupo. Menezes (1987), em relação a essa formação, afirma:
O licenciado é concebido pela Universidade, hoje, como um meio-bacharel com tinturas de pedagogia. Esta visão deve ser superada. A aversão ao saber prático, que predomina nas unidades universitárias dedicadas às ciências, inviabiliza a formação universitária do professor do ensino médio e o reduz a um subproduto da formação de professores (Menezes, 1987, p.120).
Hoje, sob nova resolução das Diretrizes Curriculares Nacionais (CNE/CP nº009) para formação de professores, houve uma mudança em relação a essa estrutura, porém, ainda assim, o pensamento ou a aversão, como defendido anteriormente, ainda predominam, inclusive pelo preconceito dos bacharéis em relação aos licenciados. Este ocorre pelo fato de os alunos acreditarem que o curso de licenciatura é mais fraco e a profissão desvalorizada; logo, deve haver uma mudança de pensamento, inclusive no ensino médio, para que seja possível perceber mudanças no nível superior (TOTI; PIERSON 2012).
Partindo dessa perspectiva, ressalta-se ainda que existem professores que atuam na formação de docentes e não possuem formação específica para a docência, e acreditam que isso seja natural, pois o que é de suma importância, no seu ponto de vista, é a pesquisa em ciência, área em que realmente ocorre a dedicação dos mesmos (SILVA; SANO, 2011). Porém não é isso que se espera deste profissional, segundo Abreu e Masetto (1990, citados por Silva e Sano) as práticas desenvolvidas por esses professores além do conteúdo da área específica, devem também envolver conhecimentos que lhe permitam uma efetiva ação pedagógica em sala de aula, ou seja, é necessária uma visão de educação, de homem e de mundo. Existem também professores de áreas específicas que, apesar de não possuírem formação pedagógica, valorizam-na e incentivam-na (OLIVEIRA; LÜDKE, 2011). Ressalta-se esse aspecto:
a maior parte dos professores teve excelente preparo em pesquisa e são pesquisadores experientes em suas áreas, alguns com reconhecimento nacional. Apesar disso, parte dos professores entrevistados reconheceu que lhes falta a formação docente adequada ou suficiente para superar a forma de ensino expositiva (Oliveira e Lüdke, 2011, p. 9).
Nesse sentido, considera-se o professor não como um mero transmissor de conhecimento, mas como um ser social capaz de moldar ou de modificar uma sociedade. Os próprios discentes possuem essa perspectiva profissional (NÓVOA, 1992, citado por MATOS; GONÇALVES, 2013; OLIVEIRA; LÜDKE, 2011).
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Na evasão institucional outros fatores ainda se destacam, tais como: frustração com infraestrutura da instituição, a qual pode corresponder à Universidade em geral ou a aspectos específicos do curso. Outra queixa dos alunos que caracteriza essa evasão é a atitude de alguns professores. Esse problema por vezes deixa de ser metodológico ou didático e passa a ser encarado pelos alunos como sendo de ordem pessoal, como pode ser percebido pelas falas a seguir (ARRUDA; UENO, 2003):
'No começo do ano ele escolhe os alunos que ele gosta, esse eu fui com a cara e esse não (...) eu comecei a ser prejudicado por ele...' (Aluno 1A1 Adaptado de Arruda e Ueno, 2003)
- '...existem professores que não passam de bons pesquisadores que fingem dar aula para se manter na Universidade.' (Aluno L4 - Adaptado de Camargo et. al. , 2012)
Não se pode partir de uma situação específica e generalizar, pois não são todos os professores que possuem esse tipo de comportamento. Porém há os que acabam por influenciar negativamente os discentes.
Outro problema ainda de ordem institucional é a desinformação sobre o curso que acompanha os discentes por quase todo o processo de formação. Desinformação referente a atividades que podem ser desenvolvidas, possibilidades de projeto de pesquisa, iniciação científica, prioridade de disciplinas, dentre outras. Por vezes essas situações são as causadoras da evasão (MOURA, 2006).
## O papel da Instituição na Evasão na perspectiva discente
Em consonância ao indicado na literatura, Ribeiro (2015) em sua pesquisa de mestrado identificou alguns elementos por parte da instituição que favorecem a evasão, o Quadro 2 indica os esses elementos indicados pelos discentes.
Quadro 02: Elementos Institucionais que favorecem a evasão
FONTE: RIBEIRO (2015)
Dentro do Nível Analítico Institucional dois elementos destacaram-se: Professores e Curso Difícil.
Após essa explanação é perceptível que não apenas a instituição tem colaborado, porém a mesma possui uma parcela significativa de contribuição.
## A Instituição e a Permanência
Apesar da Instituição apresentar elementos que favorecem a evasão, os alunos indicam que também apresenta elementos que favorecem a permanência (QUADRO 3)
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Quadro 03: Elementos Institucionais que favorecem a permanência
FONTE: RIBEIRO (2015)
O Nível Analítico Institucional apresenta os seguintes elementos: Universidade, Professores e Colegas, os três no sentido de incentivo a permanência, onde a Universidade, que acaba por representar a Instituição, apresenta-se na por ofertar bolsas de ID e IC ou permanência.
## Considerações Finais
Para que as indicações feitas pelos alunos possam ser analisadas e discutidas é necessário entender em que proporção o Nível Analítico Institucional e seus elementos são indicados, para tanto foi feito tanto para a Evasão quanto para a Permanência, um esquema que representa proporcionalmente quanto cada elemento contribuindo para esses fenômenos (FIGURA 1).
Figura 1: Como e quanto cada elemento favorece a evasão e a permanênciaFONTE: RIBEIRO (2015)
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Os dois diagramas comparados indicam que, infelizmente a instituição acaba mais favorecendo a evasão que a permanência. É importante que a instituição tenha uma postura de 'acolher' seus discentes, fornecendo todos os subsídios que são de sua responsabilidade, tentando assim ser mais efetiva no processo de permanência.
Alguns discentes não citam diretamente Professores, mas suas sugestões remetem aos mesmos, como didática, formas de avaliação e metodologias de ensino. Vários discentes apontaram que é necessário que os professores apliquem metodologias de ensino diferenciadas, e principalmente pelo fato de se tratar de um
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curso de licenciatura, é necessário que exista uma contextualização dos conteúdos. Sugerem também que novas formas de avaliação sejam implementadas, não se restringindo apenas às tradicionais 'provas'.
Outro elemento de destaque sobre Professores foi a questão dedicação. Os alunos apontam que os professores acabam por se dedicar apenas às suas pesquisas na área da Física, deixando a desejar a aula que ministram na graduação, sugerindo assim que sejam contratados professores que tenham formação em ensino de Física. Sugerem ainda que todos os professores que lecionam no curso deveriam ter a habilitação em licenciatura, e não apenas o bacharelado.
Essa característica pode implicar em outros problemas, tais como a valorização dos conteúdos específicos em detrimento dos conteúdos pedagógicos e ao aumento da dicotomia entre os mesmos. Por mais que esteja em vigor um novo currículo, onde se busca a formação articulada e contextualizada, com esse aspecto tem-se apenas uma mudança das disciplinas ao longo dos períodos. Para que ocorra uma mudança 'real', é necessário também uma mudança pedagógica e metodológica nas disciplinas, o que deveria ocorrer por parte também dos professores.
Mesmo com um novo currículo vigente desde 2011 ainda existem sugestões de mudança curricular. Muitos alunos sugerem a inserção da disciplina de Geometria Analítica e alguns ainda sugerem o retorno das disciplinas de Química I e II, sugerindo também que as disciplinas do primeiro semestre tenham uma carga horária maior.
Em relação à estrutura do curso, os alunos indicam ser necessária uma maior atenção aos ingressantes com auxílio aos estudos, que poderiam ser na forma de monitorias, por exemplo. Apontam também que é necessário auxílio com o conteúdo básico necessário para ingressar no curso, talvez com uma disciplina específica para isso, um minicurso inicial na Semana do Calouro ou até mesmo uma apostila com esses conteúdos.
## Referências
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de graduação plena, de formação de professores da Educação Básica em nível superior. Diário Oficial da União, Brasília, 19 fev.2002.Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/cne/arquivos/pdf/CP022002.pdf >. Acesso em: 22 ago. 2016.
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