CIÊNCIA E EXPERIMENTAÇÃO COMO CONSTRUÇÃO HUMANA: COMO A HISTÓRIA EM QUADRINHO PODE CONTRIBUIR PARA UMA APRENDIZAGEM CIENTÍFICA
Deborah S. Franco, Filipe G. De Oliveira, Isabela L. Pereira, José Roberto Tagliati, Morganna Justen
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXI
- Ano
- 2015
- Data
- 29/01/2015
- Linha de pesquisa
- Linguagem E Ensino De Física
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
## CIÊNCIA E EXPERIMENTAÇÃO COMO CONSTRUÇÃO HUMANA: COMO A HISTÓRIA EM QUADRINHOS PODE CONTRIBUIR PARA UMA APRENDIZAGEM CIENTÍFICA
Deborah S. Franco 1 , Filipe G. de Oliveira , Isabela L. Pereira , 2 3 José Roberto Tagliati , Morganna Justen 4 5
- 1 Universidade Federal de Juiz de Fora/Departamento de Física, deborahsfranco@gmail.com
## Resumo
Este trabalho foi elaborado no âmbito do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (PIBID). Todo o trabalho relatado foi realizado com os estudantes do terceiro ano do Ensino Médio regular da Escola Estadual Sebastião Patrus de Sousa, situada no município de Juiz de Fora - Minas Gerais, sob a supervisão da professora regente. Foi desenvolvido por bolsistas do PIBID com o objetivo de levantar ideias e concepções prévias dos alunos tendo sido utilizada uma atividade investigativa empírica sobre o tema de eletrostática, sem muita preocupação com o formalismo científico. Foi inserido no corpo do trabalho um contexto histórico com a intenção de criar uma associação entre os experimentos feitos pelos estudantes, e alguns experimentos que os cientistas executaram ao longo da história. Tal associação foi feita utilizando-se quadrinhos com o intuito de representar cada pedaço tratado da história da ciência. Nos quadrinhos foram colocados balões de fala em branco para os alunos preencherem, sendo sugerido a eles manifestarem, em primeira pessoa, o que diriam ou pensariam se estivessem no lugar desses cientistas. Dessa maneira, pretendeu-se traçar um paralelo entre o pensamento do cientista e da pessoa comum, bem como fazer com que os alunos pudessem se posicionar como agentes de seu próprio aprendizado.
Palavras-chave : eletrostática, cognitivismo, experimentação, linguagem, história da ciência.
## Introdução
Este trabalho se insere na proposta do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (PIBID), que tem como objetivo um maior comprometimento dos licenciandos com o exercício do magistério na rede pública sugerindo propostas inovadoras para uma melhor relação entre ensino e aprendizagem. A investigação aqui relatada foi desenvolvida no primeiro semestre do ano de 2014, sendo que o conteúdo trabalhado estava em sincronia com o ministrado pela professora regente. As ações desenvolvidas visavam à complementação e ao enriquecimento do conhecimento tratado em sala de aula.
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26 a 30 de janeiro de 2015
O trabalho consistiu em duas etapas, a primeira sendo investigativa e a segunda uma contextualização histórica. Nosso objetivo foi fazer com que os alunos pudessem, sozinhos, investigar experimentalmente o que os grandes cientistas investigaram em suas épocas, para assim refletirem e buscarem compreender a natureza da ciência, e poderem quebrar o mito gerado sobre a produção do conhecimento científico, segundo o qual as ideias surgem espontaneamente nas mentes de grandes gênios.
Segundo Piaget, 'o principal objetivo da educação é criar indivíduos capazes de fazerem coisas novas e não simplesmente repetirem o que as outras gerações fizeram'. Por isso, consideramos importante buscar como aporte teórico uma teoria cognitivista, uma vez que ela não só valoriza o conhecimento prévio dos alunos, mas identifica e situa o professor no sentido de promover uma aprendizagem significativa. Sendo assim, o professor deve proporcionar aos discentes um ambiente propício para experimentação e confortável para o aluno. Lahera e Forteza (2008) destacam essa importância:
[...] as crianças já têm crenças sobre como funciona o mundo antes de chegar à ciência formal. Assim, uma função importante do professor será proporcionar um clima de aprendizagem no qual os alunos possam, em primeiro lugar, reconhecer e refletir sobre suas próprias ideias e serem conscientizados de que os outros podem ter ideias contrárias, mas igualmente válidas. (LAHERA & FORTEZA, 2008, p.34)
Outro aspecto por nós tratado foi a história da ciência, trabalhada para mostrar aos alunos como a ciência e os conceitos científicos foram construídos e que os cientistas não têm uma linha de pensamento pronta. Uma vez que o aluno compreende que o cientista pensa como ele, e que a diferença pode estar no questionamento crítico dado pelo cientista, o estudante se sente mais seguro a aprender e discutir determinado assunto. Julgamos esse contexto de extrema importância para a aprendizagem, uma vez que, quando o aluno compreende como a ciência é desenvolvida, pode ter mais facilidade em compreendê-la.
Um dos problemas relativos ao ensino de ciências consiste na dificuldade dos alunos compreenderem a forma pela qual a ciência apreende o mundo. Muitos alunos (e professores) imaginam que as leis e teorias derivam da interpretação objetiva dos fatos. Baseados em uma concepção empirista ingênua, esquecem que a interpretação destes é feita mediante conhecimentos pré-existentes. Assim, tomam o conhecimento científico como representação inequívoca do mundo cotidiano. (PEREIRA, Cláudio Luiz Nóbrega; SILVIA, Roberto Ribeiro, 2009)
## Metodologia
O presente trabalho foi desenvolvido em uma escola pública do município de Juiz de Fora, MG, e envolveu seis turmas do terceiro ano do ensino médio do turno matutino, das quais apenas duas foram utilizadas para análise. Podemos separar o processo metodológico em duas etapas, a primeira envolvendo uma tarefa de investigação dos fenômenos através de uma atividade experimental, na qual os alunos puderam realizar os experimentos propostos e descrever o que eles observaram. A segunda envolveu os contextos históricos associados a esses experimentos, que em algum momento da história foram realizados por cientistas de renome e estabelecidos como
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modelo. A partir desse contexto os estudantes foram instruídos a preencher quadrinhos, de maneira a detalhar o processo experimental.
## 1ª etapa
Essa primeira atividade foi aplicada a todos os alunos do terceiro ano do ensino médio do turno matutino, presentes entre os dias 07 a 11 de abril. Com isso, a atividade foi realizada por 176 alunos, durante uma aula de 50 minutos. Para efeito de análise consideraremos apenas 52 alunos, pois julgamos esse número suficiente para expor os resultados encontrados.
Foi entregue aos alunos um roteiro para que eles elaborassem os experimentos e escrevessem suas observações sobre eles. Além disso, entregamos a cada um os materiais necessários para utilização no experimento. O roteiro foi elaborado conforme apresentado abaixo:
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## 2ª etapa
A segunda etapa foi realizada entre os dias 05 e 09 de maio com todos os alunos presentes, e novamente escolhemos as mesmas turmas da primeira etapa para análise, para acompanhar a evolução da aprendizagem entre as duas tarefas.
Nessa etapa entregamos aos alunos uma folha contendo um texto que serviu como base histórica. O texto consistia em um resumo da história da eletrostática, referente à parte trabalhada em sala de aula. Foram focalizadas experiências realizadas por Stephen Gray, Charles François de Cisternay Du Fay e Pieter van Muschenbroek. As investigações eram acerca da natureza do 'fluido elétrico', sendo Stephen Gray o responsável por descobrir a diferença entre condutor e isolante (os quais classificou como eletrizáveis e não eletrizáveis) ao perceber que não conseguia 'guardar' carga numa rolha ligada a um fio de cobre, ao passo que isso era possível com a rolha presa ao vidro. Os experimentos de Du Fay conduziram à percepção de que alguns corpos têm a tendência de ceder elétrons enquanto outros têm a tendência de roubálos de outros corpos. Ele chamou de corpos resinosos ou betuminosos aqueles que adquiriam elétrons e chamou de vítreos os que perdiam elétrons. Já Muschenbroek tinha a intenção de guardar eletricidade dentro de uma garrafa. Para isso, revestiu-a de metal e conectou-a a um gerador de Von Guerick, o que resultou na criação do que hoje conhecemos como capacitor, além de um violento choque em seu assistente. É interessante ressaltar que as conclusões que esses cientistas puderam tirar desses experimentos estão muito aquém do que interpretamos hoje, pois em sua época o elétron ainda não era conhecido.
Após uma leitura conjunta do texto com os alunos, foi entregue a eles um material que consistia em quadrinhos a serem preenchidos com falas a serem elaboradas por eles próprios, referentes às experiências realizadas pelos cientistas citados acima. Esses quadrinhos davam liberdade aos alunos de se expressarem dentro do contexto trabalhado. Eles se dedicaram em escrever com suas palavras aquilo que em sua opinião foi de maior importância em cada uma das situações.
Observamos que o uso de histórias em quadrinhos é favorável para a motivação dos alunos, pois sua forma, sua linguagem em primeira pessoa e suas imagens auxiliam na assimilação do conteúdo, uma vez que o aluno se torna responsável por interpretar aquilo que lhe foi apresentado, transformando-se em agente de seu próprio aprendizado, e ganhando mais abertura para uma expressão de sua personalidade.
A figura apresentada a seguir corresponde a um dos quadrinhos preenchido pelos alunos.
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## Análise de dados
Após analisarmos as respostas da primeira parte do trabalho, foi possível identificar alguns padrões. Um grande número de alunos justificou a atração eletrostática associando-a ao calor, ou seja, se há atração é porque houve mudança de temperatura. Outro grupo significativo de alunos definiu de forma aleatória a carga de cada corpo, conseguindo assim justificar a atração. Achamos interessante a associação feita por alguns deles ao comparar a atração observada à ação de um ímã, pois eles foram capazes de pensar que a experiência realizada independe de contato para que haja interação entre os
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corpos, assim como ocorre com o ímã. Obervamos também que os alunos não sabem diferenciar atração de repulsão, pois um número pequeno, mais ainda relevante, disse que 'eles grudaram, logo se repelem'.
Na segunda etapa a maior dificuldade por nós observada foi a deficiência dos alunos em relação à compreensão e instrumentalização da língua. Com intuito de colocá-los no lugar dos cientistas através de uma releitura histórica por meio de uma atividade lúdica, usamos quadrinhos nos quais eles deveriam escrever em primeira pessoa, deixando emergir, através do discurso, as particularidades de cada um.
O diálogo, por sua clareza e simplicidade, é a forma clássica da comunicação verbal. Cada réplica por mais breve e fragmentária que seja, possui um acabamento específico que expressa a 'posição do locutor' sendo possível responder, sendo possível tomar, com relação a essa réplica, uma posição responsiva. (BAKHTIN, 1992, p. 294)
Dessa forma, consideramos importante que eles desenvolvessem a linguagem, uma vez que ela constitui o instrumento de pensamento do ser humano e por isso participa da construção das funções psicológicas superiores e da capacidade de abstração de conceitos complexos. A linguagem permite ao indivíduo completar-se para conquistar o seu potencial, compreendendo o mundo. Logo é de suma importância que eles consigam transmitir em palavras os experimentos que fizeram, e associá-los aos feitos dos cientistas.
## Conclusão
Durante as propostas por nós apresentadas, foi possível observar que os alunos se interessaram e despertaram vários questionamentos, ficando assim curiosos para os efeitos que viram acontecer. Quando eles fizeram o experimento em que deveriam grudar o canudinho na parede, notaram que não havia nenhum truque, era simplesmente ciência, logo queriam saber a explicação para esse fenômeno. E assim eles foram motivados a entender a Física por trás de cada uma das etapas do experimento. Essa motivação é devida à forma como a atividade foi realizada, na qual deixamos o aluno livre para experienciar os fenômenos sem o compromisso de uma resposta correta conforme transcrita nos livros, mas com o compromisso de uma resposta que correspondesse àquilo que era verdade para eles. Ao tentar estabelecer de maneira autônoma, eles buscaram coerência e passaram a se questionar de maneira crítica sobre o que haviam presenciado e concluído através da experiência por eles vivida.
Já os quadrinhos, tinham a finalidade de aproximar os alunos dos pensamentos e concepções dos grandes cientistas. Quando apresentamos os conceitos científicos complexos sob uma perspectiva histórica e social, permitindo ainda liberdade para a criação artística, foi possível quebrar a tradicional rejeição pelo estudo da Física, e apesar da grande dificuldade no uso da língua, notamos que eles se empolgaram e se sentiram comprometidos em realizar tal tarefa, portanto consideramos que nosso objetivo foi alcançado.
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Analisando em contexto geral, grande parte dos alunos compreendeu o sentido das tarefas e evoluiu em sua aprendizagem. A disciplina em sala de aula foi notável durante a realização da tarefa, especialmente com relação a segunda tarefa, a qual gerou expectativa quanto ao retorno da atividade dos quadrinhos. No entanto, nem todos foram capazes de compreender os fenômenos explicitados a partir dos métodos por nós utilizados. Dessa maneira, temos como um ponto negativo do trabalho a dificuldade em despertar de forma satisfatória o raciocínio científico na totalidade dos alunos a partir da aplicação de nossas estratégias de ensino.
## Referencias Bibliográficas
BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal . Trad. Maria E. G.G. Pereira. São Paulo. Martins Fontes, (1992 [1979]).
FREITAS, Maria Tereza de Assunção. Vigotski e Bakhtin - Psicologia e educação: Um intertexto . São Paulo. Ática, 1994.
LAHERA, Jesus; FORTEZA, Ana. (2006). Ciências Físicas no Ensino Fundamental e Médio . Porto Alegre. Artmed. 2008.
MOREIRA, M. A. Uma Abordagem Cognitivista ao Ensino de Física: a teoria de aprendizagem de David Ausubel como sistema de referência para organização do ensino de ciências . Porto Alegre. Editora da Universidade, UFRGS, 1983.
PEREIRA, Cláudio Luiz Nóbrega; SILVA, Roberto Ribeiro. A história da ciência e o ensino de ciências . Disponível em: <http://www.ltds.ufrj.br/gis/a\_historia.htm> Acesso em: 14 jun. 2014.
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