AS DIFERENTES PROPOSTAS DE ENSINO DA MECÂNICA NO ESTADO DE SÃO PAULO NA DÉCADA DE 1970
Maria Neuza Almeida Queiroz, Yassuko Hosoume
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXI
- Ano
- 2015
- Data
- 29/01/2015
- Linha de pesquisa
- Pesquisa Em Educação Em Física
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
## AS DIFERENTES PROPOSTAS DE ENSINO DA MECÂNICA NO ESTADO DE SÃO PAULO NA DÉCADA DE 1970
## Maria Neuza Almeida Queiroz 1 , Yassuko Hosoume 2
1 Instituto Federal Norte de Minas Gerais-Campus Pirapora/ Universidade de São Paulo/Programa de Pós Graduação em Ensino de Ciências, neuza.queiroz@ifnmg.edu.br
2 Universidade de São Paulo, yhosoume@if.usp.br
## Resumo
Apresentam-se neste trabalho, resultados preliminares de um estudo sobre a história do ensino de Física no Estado de São Paulo na década de 1970, baseado em materiais educacionais editados nesse estado: Livros Didáticos, Proposta Curricular oficial e seus Cadernos de Atividades (PCF/SP) e o Projeto de Ensino de Física (PEF). Na busca de elementos para compreender a ciência física neles presente, restringiu-se esse trabalho para o estudo da Mecânica e construíram-se para análise, categorias que caracterizam a ciência física como conhecimento histórico, de caráter experimental, com modelos explicativos formais e conteúdos específicos estruturantes. Constata-se que, de um modo geral, os materiais curriculares seguem a estrutura tradicional de apresentação do estudo da Mecânica e possuem características similares quanto aos tópicos contemplados, embora os apresentem com abordagens diferenciadas, resultando em diferentes visões de Mecânica. O PEF contempla todas as características e explicita a existência de um método científico experimental; na PCF/SP a ciência é ahistórica e, ainda que proponha experimentos, se assemelha aos livros didáticos que priorizam os conceitos e o formalismo matemático, com exceção de um que traz elementos históricos, maior profundidade conceitual com atenção aos significados e apresentação dos aspectos quantitativos de forma mais equilibrada, comparado aos demais livros didáticos analisados.
Palavras-chave : Ensino de Física, Livros Didáticos, Propostas Curriculares, Projetos de Ensino.
## Introdução
A primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação do Brasil, a Lei nº 4.024/1961 (LDB/1961), representou um marco na Educação nacional, por abranger todos os níveis de ensino. Tal lei provocou significativas modificações no ensino ao descentralizar os programas das disciplinas escolares, concedendo aos Estados a flexibilidade para definir currículos mais ajustados às peculiaridades regionais, o que possibilitou a realização de experiências educacionais (FRACALANZA, 2006, p. 132). O conhecimento científico foi posto como aspecto essencial na formação escolar de um país sensibilizado pelo modelo econômico industrial que se estabelecia naquele momento histórico e que demandava uma escola capaz de acolher uma quantidade maior de cidadãos com uma formação escolar mais ampla, especialmente para atender a um mercado produtivo mais desenvolvido tecnologicamente (FRACALANZA, 2006).
Na conjuntura mundial da LDB/1961, o ensino de Ciências era alvo de intensos debates e renovação em vários países, ainda sob os efeitos da Segunda Guerra Mundial, e, especialmente nos Estados Unidos, em função da derrota espacial para a União Soviética com o lançamento do satélite Sputnik em 1957 evento que incandesceu ainda mais a Guerra Fria. A formação escolar perpassou
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26 a 30 de janeiro de 2015
pelo ideário de preparar futuros cientistas para trabalhar em pesquisas em prol da defesa e desenvolvimento tecnológico de seus países, bem como a preparação de mão-de-obra que atendesse ao processo de industrialização. Um dos reflexos desse movimento no Brasil, em particular no ensino de Física, foi a proposta de implementação do projeto Physical Science Study Committe (PSSC), desenvolvido na década de 1950 nos Estados Unidos e trazido ao Brasil em 1962, por meio do IBCC-UNESCO com apoio do MEC, sendo adotado primeiro nas escolas públicas do Estado de São Paulo. O modelo de ensino do PSSC foi alvo de críticas de educadores brasileiros pela sua inadequação à realidade brasileira (NARDI, 2005). Atribui-se a isso uma das motivações para a criação de projetos brasileiros mais compatíveis com a realidade nacional. Os de maior projeção foram os projetos PEF (Projeto de Ensino de Física), FAI (Física Auto-instrutivo) e PEBEF (Projeto Brasileiro para o Ensino de Física), todos na década de 1970, originados no Estado de São Paulo e com aplicação em muitas escolas do país.
Paralelamente aos projetos de ensino, em cumprimento à LDB/61 e sua primeira alteração - a Lei 5692/71- várias secretarias estaduais elaboraram seus currículos específicos para o ensino de 1º e 2º Graus, como por exemplo, o Estado de Minas Gerais (1976), Rio de Janeiro (1977) e São Paulo (1978). Conquanto o campo de pesquisa na área de ensino de Física tenha aflorado nesse período, não se identificam trabalhos que analisam a implementação desses currículos oficiais.
Os livros didáticos (LD) também estão presentes nesse contexto, em posição de destaque na maioria das salas de aulas, com maior difusão no período em questão, quando a produção deles recebe mais apoio e incentivo do governo federal, através do MEC (HÖFLING, 2006). Sendo os LD os verdadeiros guias de ensino do professor, configuram-se como propostas curriculares reais, o currículo praticado na escola (GOODSON, 1995; WUO, 2000; DELIZOICOV et al , 2007) .
Com o presente trabalho objetivamos uma melhor compreensão de como se deu o ensino de Física no Estado de São Paulo na década de 1970 - momento bastante particular da história da educação brasileira em que estão presentes nesse Estado, várias propostas de ensino de Física, com diferentes objetivos: projetos nacionais e internacionais, proposta curricular oficial e livros didáticos de diversos autores. O resultado apresentado aqui é o primeiro de uma problemática maior que tem como objetivo mais amplo a compreensão da história do ensino de Física no Brasil no período de 1961 a 1996, a partir do estudo de materiais/documentos educacionais.
## Desenvolvimento da pesquisa
Delimitamos nessa primeira análise para o que ocorreu no Estado de São Paulo na década de 1970, nos direcionando para os seguintes fatos: 1) é nesse Estado que se faz a tradução, construção dos experimentos e aplicação do PSSC nas escolas públicas (década de 1960); 2) os primeiros projetos de ensino de Física são elaborados e testados nas escolas do Estado; 3) as editoras de LD são, em grande maioria, de São Paulo (MARTINS e HOSOUME, 2007); 4) a Secretaria Estadual de Educação do Estado elabora sua proposta curricular de Física (1978), com suporte pedagógico para a sala de aula (livros de atividades), o que é um diferencial em relação às propostas curriculares dos outros estados. Também restringimos para a análise da proposta de ensino de Mecânica, por ser um tema
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presente em todas as propostas de ensino da época, além de ser o conteúdo mais trabalhado (com maior tempo de execução) ao longo do ensino médio.
As fontes empíricas foram os seguintes documentos curriculares: a) PEF -Projeto de Ensino de Física, Hamburger, E.W e Moscati, G. (coordenadores), IFUSP. Conjuntos Mecânica 1 e Mecânica 2, compostos de textos com exercícios de aplicação e leitura suplementar e publicados no inicio da década de 1970 pela FENAME (Fundação Nacional de Material Escolar); b) PCF /SP - Proposta Curricular de Física do Estado de São Paulo, coordenação de E. W. Hamburger, publicada em 1978 pela SEE/SP. Traz como suporte pedagógico uma coletânea de atividades dirigida ao professor, estruturada em nove volumes denominados de Subsídios para a implementação da proposta curricular de Física para o segundo grau , sendo nosso foco de análise os volumes que trazem tópicos do tema Mecânica (Vol. I - Medidas e Movimento, Vol. II - Forças e Energia, Vol. III - Quantidade de Movimento e Gravitação); c) LD de Física: LD1 - ' Física', volume 1 de Alvarenga & Máximo (1970); LD2 - ' Fundamentos da Física' , volume 1 de Ramalho et al (1979); e, LD3 - ' Física' , volume 1 e LD3 -' Física' , volume 2 de Gonçalves (1970). Estas obras estiveram presentes no mercado editorial por cerca de quatro décadas e tiveram grande difusão no Estado de São Paulo nos anos de 1970 (WUO, 2000; MARTINS & HOSOUME, 2007).
## Análise dos dados e discussão
Neste trabalho buscamos compreender a dimensão 'ciência", pela análise dos conteúdos do ensino da Física (Mecânica), presente nas diferentes propostas curriculares. Guiadas pela metodologia de análise de BARDIN (2009), construímos quatro categorias de análise, que em seu conjunto poderão proporcionar inferências sobre a visão da física a ser ensinada.
- C1) Ciência como processo - Discorreremos sobre os elementos que evidenciam a história da ciência/Física, seu processo de construção como empreendimento humano e a relação Ciência/Física, tecnologia e sociedade.
- A história da Física, a ideia de ciência em processo com rupturas nas concepções sobre o conhecimento da natureza, a participação/interferência do sujeito/observador na construção do conhecimento científico caracterizando a ciência como conhecimento não neutro e a relação ciência, tecnologia e sociedade está mais presente de forma mais ou menos explícita na obra LD1 e no projeto PEF. Nos demais materiais analisados, ou é totalmente ausente, como por exemplo, na obra LD3, ou aparece de forma ínfima e implícita, como na obra LD2 e na PCF/SP. Na obra LD1, os trechos a seguir explicitam essa perspectiva:
As relações entre força e movimento não são evidentes para nós e nem o foram para os antigos, que sempre se preocuparam em determiná-las. [...]. Os dogmas de Aristóteles, à primeira vista, parecem corretos, pois [...] Galileu conseguiu interpretar [...] . (LD1, p.75).
- [...] O cientista polonês, Copérnico (1473-1543), reviveu a teoria heliocêntrica e mostrou [...]. O próprio Copérnico ainda não estava satisfeito com seu trabalho [...]. Tycho Brahe,[...] não aceitou as idéias de Copérnico, [...]. Enquanto Kleper desenvolvia sua teoria na Alemanha, na Itália, seu amigo e correspondente Galileu defendia entusiasticamente a teoria heliocêntrica. (LD1,p.114).
A relação Física/tecnologia/sociedade é contemplada ao longo da obra LD1 com fotos de reator atômico, computador IBM e aparelhagem de ressonância
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magnética nuclear, astronauta em câmara de teste de gravidade, Satélite Sputnik e Usina hidrelétrica de Três Marias/MG.
No PEF, em uma das várias leituras suplementares, relaciona a ciência com a cultura em um texto que fala da evolução do conhecimento sobre o mundo como 'necessidade fundamental do homem' (p.02). Relaciona a Física com a Arte, ressaltando a importância das medidas, dando como exemplo uma pintura de Leonardo da Vinci. O aspecto político-social é notado, como por exemplo, quando cita os destinos de Giordano Bruno e Galileu Galilei por razão de suas ideias sobre o mundo. A ideia de ciência mutável está presente, exemplificada no trecho a seguir:
As grandes conquistas científicas alcançadas nos últimos séculos dão aos cientistas a sensação de que os mistérios de hoje serão desvendados amanhã, que as dúvidas que o preocupam hoje desaparecerão no futuro. No entanto, muito deles têm consciência de que cada porta que se abrir trará novos problemas, e que nunca chegará um momento em que o homem poderá dizer que compreende o mundo em sua totalidade. (PEF, cap. 1, p. 10).
Em outra leitura suplementar sobre medidas do raio terrestre, em diferentes épocas, busca mostrar que raciocínios idênticos podem levar a conclusões falsas se as hipóteses levantadas forem ilógicas. A relação ciência/tecnologia é colocada como consequência prática da aplicação da ciência no cotidiano e evidencia o papel da tecnologia na vida humana: 'a ciência fornece os conhecimentos que a tecnologia usa para avançar' (p,10). A visão de ciência/física interligada a outras áreas do conhecimento é mais evidenciada no primeiro fascículo, mas se estende de forma mais implícita nos demais.
Na obra LD2, a visão de ciência pronta e acabada pode ser ilustrada com o que traz sobre a composição do Universo, por pequenas partículas, vista como hipótese na antiguidade, e, colocada como fato 'efetivamente comprovado' na atualidade (p. 02). A história da ciência se restringe a um texto no final do primeiro capítulo (p. 10-11), que trata da evolução de algumas explicações dos fenômenos relacionados ao movimento dos corpos (especialmente os celestes) a partir do ponto de vista de alguns 'expoentes' da área, esporádicas notas que trazem biografias de alguns cientistas, ideias e concepções sobre alguns fenômenos e um quadro cronológico comparativo apresentado nas duas primeiras folhas do livro, que, de forma muito simplificada, mostra o desenvolvimento da Física e de outras áreas do conhecimento. A relação Física/tecnologia está limitada à apresentação de fotos (pranchas) de alguns aparatos tecnológicos que suscitam a intenção de mostrar a aplicação da Física na construção de máquinas, sem nenhum texto explicativo: reator nuclear e painel de controle (p.03), higrômetros (p. 84-85), roda gigante (144145), túnel aerodinâmico (p. 224-225), usina hidrelétrica (p. 379-380), lunetas e teodolito (p. 396-397). Um boxe denominado de 'Astronáutica' (p. 392) configura um ensaio de contextualização com o momento histórico trazendo uma breve descrição técnica dos satélites artificiais produzidos entre 1957 e 1958 pela Rússia e Estados Unidos, do primeiro voo humano orbital e da chegada do homem à Lua.
A PCF/SP, bem como os cadernos de atividades que a subsidiam, não fazem menção sobre a história da ciência, não mostra a ciência como processo de evolução de ideais sobre a natureza e nem tão pouco relacionam a ciência/física com a sociedade, a cultura ou outras áreas do conhecimento. Infere-se que a relação com a tecnologia se resume ao uso de equipamentos de laboratório (nas propostas de atividades experimentais), e, com a política, pela própria forma de
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organizar os conteúdos com objetivos de caráter instrumental, buscando atender às exigências da legislação de ensino da época. O documento oficial é puramente instrucional e os cadernos se dedicam a sugestões de atividades experimentais com textos de fundamentação que abordam somente os conceitos físicos e equações.
C2) A Física como ciência experimental - Evidenciaremos elementos que mostrem as perspectivas das propostas de atividades experimentais nos materiais, considerando os aspectos: ideia de experimentos como forma de entendimento dos conceitos; relevância para a inerência experimental da Física; análise de dados; significado de medidas das grandezas físicas; experimentos como geradores de leis da Física ou se considera a existência de um modelo que precede os experimentos.
Todos os referenciais curriculares analisados mencionam a Física como uma ciência experimental, entretanto, a maioria não traz sugestões de atividades experimentais, como é o caso das obras LD2 e LD3, que não contempla nenhuma, e a LD1 que apresenta em quantidade mínima com somente uma sugestão - medição das dimensões do livro e de uma página, utilizando uma régua, na seção Algarismos Significativos . Na obra LD2 o autor afirma que o método de apreensão do conhecimento da Física ocorre por observação dos fenômenos, medidas de suas grandezas, indução ou conclusão de leis ou princípios que regem os fenômenos (p. 05). No LD3, sem nenhuma proposta de atividade experimental, o autor afirma que 'A Física emprega o método experimental, que por sua vez, usa a observação e a experimentação' (p.169). Após citar exemplos sobre a queda dos corpos, diferencia leis qualitativas de quantitativas e ressalta importância da experimentação para o estabelecimento das leis quantitativas por meio das medidas das grandezas físicas que participam do fenômeno: 'Observemos que as leis quantitativas são mais importantes que as qualitativas.' (p. 170). Para o autor, 'o objeto fundamental da Física é estabelecer leis físicas.' (p.171).
Em contraposição aos LD analisados, o PEF tem em sua gênese o método experimental. Em todo o material nota-se essa ênfase. Apresenta fotos da evolução de laboratórios de Física, exemplos contextualizados com o momento histórico (fotos e situações cotidianas como uso da TV, chegada do homem à Lua e satélites artificiais), bem como busca evidenciar os aspectos qualitativos dos fenômenos. Propõe, por exemplo, no primeiro capítulo, atividade prática de desenhar uma órbita do satélite Kosmos 159, lançado pela União Soviética em maio de 1967, evidenciando assim, o contexto da época, a corrida pela conquista do espaço pelas grandes potências mundiais (Estados Unidos e União Soviética). Em todos os capítulos há proposição de algum tipo de atividade experimental e/ou de observação, contemplando na maioria das vezes, a interpretação de resultados de medidas. Deve-se ressaltar que, em consonância com os LD, no desenvolvimento do conteúdo passa a ideia de que as leis da física são obtidas experimentalmente. Cabe lembrar que ao fazer um experimento já temos um modelo.
A PCF/SP também destaca as atividades experimentais, sendo que seus cadernos de atividades tem a finalidade de propor sugestões para auxiliar o professor. Muitas delas com aparatos do PSSC e PEF. O texto ressalta a necessidade de realização de medidas por meios de instrumentos para conclusões mais precisas que permitem compreender o universo (idade da Terra, do Sol, duração de um raio, diâmetro do átomo de hidrogênio, etc.). No caderno de atividade vol. I traz: 'Assim, as leis da dinâmica ou a lei da gravitação universal, após um trabalho de intensa observação, acompanhada de um grande número de medidas,
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se traduzem com relativa simplicidade, através de sínteses gerais, em fórmulas muito compactas.' (PCF/SP, Cap. 1, p.03). As atividades, da forma como são apresentadas, bem como os conceitos e equações que as precedem, demonstram ser somente para que o aluno compreenda os conceitos, assim como ocorre no PEF.
- C3) Modelos explicativos formais - Evidenciaremos elementos que revelam como se dá a apresentação do formalismo matemático, com atenção aos aspectos: visão do formalismo matemático como síntese de um conhecimento; modelo explicativo de fenômenos da natureza ou ferramenta de desenvolvimento de cálculos.
Na obra LD1, a matemática é apresentada como descrição dos fenômenos. Segundo os autores, 'o problema central de análise de um fenômeno físico consiste em se estabelecer uma relação entre duas ou mais grandezas que estejam associadas ao fenômeno.' (p. 21). A obra dedica um capítulo com 10 páginas para assuntos que permitem analisar os fenômenos por meio de modelos explicativos formais (proporção, variação com o quadrado e o cubo, linearização de gráficos, relações inversas e mudanças de escalas). Ao longo do texto da obra, a apresentação das grandezas por meio de modelos formais é precedida de exemplos e explicações, prevalecendo uma abordagem mais conceitual. A representação quantitativa por meio de fórmulas é destaque nas obras LD2 e LD3. Na LD2, na introdução é explicitada a importância atribuída à matemática: 'ajuda muito a Física, simplificando a compreensão dos fenômenos.' (p. 04). Ainda que suscite a ideia de o formalismo matemático ser uma síntese do conhecimento sobre os fenômenos, instiga o seu uso como ferramenta de desenvolvimento de cálculos: 'Assim, aos poucos, você terá que aprender a ler uma fórmula e utilizá-la a seu favor.' (p. 04). As equações, sempre realçadas com cor, em caixas de texto e exercícios com cálculos, são predominantes no texto da obra. Na obra LD3, a preocupação com a matemática é ainda mais evidente, a julgar pela extensão dedicada a revisão de tópicos da área. O primeiro volume dedica cinco capítulos para revisão de conceitos de aritmética, álgebra, geometria, geometria analítica, trigonometria e noções de cálculo vetorial. Não discute os modelos como forma de síntese dos conhecimentos da Física. Indica ser somente para execução de cálculos utilizando as fórmulas que são apresentadas de forma sumária.
- O PEF não dispensa o formalismo matemático, entretanto evidencia o fenômeno, propõe medidas, relaciona grandezas por meio de gráficos e sua interpretação qualitativa para, posteriormente, sintetizar o conhecimento em modelos matemáticos. Não exprime no texto a importância dos modelos e nem apresenta nenhum capítulo especial para revisão de tópicos de matemática. Prevalece a abordagem conceitual, com exercícios de questões abertas e dissertativas.
Na PCF/SP (caderno de atividades, vol. I) o autor coloca que, além do ato de medir, 'outro instrumento importante da Física é a matemática. Ela fornece a maneira mais adequada para estabelecermos as medidas, sistematizando-as de modo a tornar seu uso universal.' (p. 03). Para o autor, a Matemática é a ferramenta mais adequada para o físico sintetizar as suas medidas, relacionando grandezas por meio de uma fórmula matemática. A proposta é de utilização do método da descoberta, para que os estudantes façam medidas, tabelas, interpretação dos dados e tradução para a representação gráfica, interpolação e previsão de
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comportamentos por interpolação, entretanto, apresenta as equações prontas nas introduções contidas nos roteiros das atividades experimentais.
C4) Conteúdos/áreas da Física - Atentaremos para o modo como os conteúdos da Física (Mecânica) estão desenvolvidos/propostos nos materiais, no que se refere a: semelhanças/diferenças na abordagem e na sequência; temas/assuntos priorizados; apresentação das três leis de conservação - da Quantidade de Movimento Linear, da Quantidade de Movimento Angular e da Energia (profundidade).
Em todos os materiais analisados os conteúdos de Mecânica se concentram nos volumes iniciais das coleções. No que se refere aos LD, cabe ressaltar o diferencial da obra LD3 em relação às outras analisadas. Tal obra distribui os conteúdos do tema em dois volumes (1 e 2), enquanto que as outras agregam os tópicos do tema somente no volume 1, embora essa extensão não represente, necessariamente, maior aprofundamento dos assuntos abordados, já que o primeiro volume da obra é mais dedicado a tópicos de matemática do que a assuntos da Física e o segundo traz em sua metade, exercícios de vestibulares. O PEF traz os conteúdos de Mecânica em dois volumes e os cadernos de atividades que subsidiam a PCF/SP, em três volumes.
De um modo geral, os materiais curriculares seguem a estrutura tradicional de apresentação do estudo de Mecânica com tópicos que abrangem: Medidas e relações entre grandezas, Estudo de movimentos, Leis de Newton, Gravitação Universal, Leis de Conservação da Energia e da Quantidade de Movimento e Fluidos. Em termos de tópicos contemplados, os materiais se assemelham, alterando algumas sequências, tais como a apresentação da Cinemática escalar, que vem antes do estudo de vetores nos referenciais LD2, PEF e PCF/SP, enquanto que em LD1 e LD3 vem depois, sendo que o estudo das Leis de Newton vem antes da Cinemática em LD3. Gravitação Universal está presente em todas as obras em diferentes sequências e abordagens. Na obra LD1 vem antes das Leis de Conservação, com abordagem histórica e descrições mais detalhadas. Nas obras LD2, LD3 e PCF/SP vem depois, não necessariamente em seguida, com exploração bem resumida. O PEF tem um tratamento mais contextualizado, que, embora tenha um capítulo específico para o tópico, o assunto integra outras partes da obra. O estudo dos fluidos apresenta diferenças de ênfase nos materiais que o contemplam. A obra LD1 dedica um capítulo ao tópico de hidrostática e não aborda a fluidodinâmica. A obra LD2 integra o assunto ao tópico Forças em Dinâmica , mencionando a força de resistência do ar e traz somente o Princípio de Arquimedes enquanto que obra LD3 dar maior profundidade ao ponto, em dois capítulos, com conceitos de hidrostática e seus principais teoremas (de Stevin, de Pascal e de Arquimedes), bem como trazem os estudos da dinâmica dos fluídos, tensão superficial e capilaridade. Já o PEF e a PCF/SP não contemplam tal tópico.
As leis da Conservação da Energia e da Quantidade de Movimento Linear são tratadas em todos os materiais analisados, sendo a Conservação da Energia com maior discussão conceitual na obra LD1, abordagem qualitativa no PEF com uso de um texto de Richard Feynman, e, com um tratamento quantitativo e sucinto nos demais materiais analisados, cuidando de apresentar o enunciado e equação da conservação da energia mecânica, sendo que o enunciado expressa, de um modo geral, a incapacidade de a energia ser criada ou destruída, mas apenas transformada de uma modalidade à outra. A conservação da quantidade de
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movimento segue a mesma linha - maior extensão e discussão conceitual na obra LD1 e PEF e tratamento mais quantitativo e resumido nos demais. Nenhum dos materiais traz o tópico Quantidade de Movimento Angular.
## Considerações parciais
Os materiais analisados possuem características similares quanto aos assuntos contemplados, embora os apresentem com abordagens diferenciadas. O PEF prima mais pela contextualização com o momento histórico e a relação com as coisas cotidianas, a obra LD1 pela discussão conceitual mais extensa com referências a tópicos anteriores e explicações mais detalhadas dos termos, a obra LD2 e a PCF/SP pela forma sucinta de expor os assuntos e a obra LD3 pela extensa quantidade de tópicos, muitas vezes subdividindo-os em itens.
A importância dada às medidas e a preocupação com o método científico é notada em todos os materiais analisados, a julgar pela ênfase dada à exposição de assuntos sobre medidas e suas representações, unidades de medidas, ordem de grandeza, algarismos significativos, cálculo de desvios, funções e gráficos, relação entre grandezas, linearização de gráficos, mudança de escala, etc., conquanto a maioria não busque mostrar a aplicação desses conceitos em situações cotidianas. Passam a ideia de que as leis da Física são obtidas da experimentação.
Acreditamos que análises em materiais didáticos históricos nos propiciam a compreensão de como o ensino de Física no Brasil foi sendo estruturado ao longo do tempo. Conhecer os materiais didáticos do passado e refletir sobre os contextos em que os mesmos foram produzidos, permite compreender as concepções de ciência e de ensino neles ancorados, e que foram, muitas vezes, legitimados nas escolas. Tais análises auxiliam a pesquisa em ensino, bem como podem orientar a prática pedagógica nas salas de aulas, uma vez que permitem uma melhor reflexão crítica sobre processos pedagógicos outrora adotados, possibilitando o delineamento de ações para o presente, e, principalmente, para o futuro.
Nossa pesquisa prossegue com uma análise mais acurada dos materiais aqui citados, bem como de outros que se difundiram nas escolas brasileiras no mesmo período, no intuito de compreender a historicidade do ensino de Física no Brasil.
## Referências
BARDIN, Laurence. Análise de conteúdo. Lisboa: Ed. 70, 1995.
DELIZOICOV, D., ANGOTTI, J. A. & PERNAMBUCO, M. M. Ensino de Ciências : fundamentos e métodos. São Paulo: Cortez, 2007.
FRACALANZA, H.. Livros didáticos x Projetos de ensino. In: FRACALANZA, H. e NETO, J. M. (Org.). O livro didático de ciências no Brasil . Campinas: Editora Komedi, 2006.
GOODSON, Ivor. Currículo : teoria e história. Petrópolis: Vozes, 1995.
HÖFLING, E. M.. A trajetória do Programa Nacional do Livro Didático do Ministério da Educação no Brasil. In: Fracalanza, Hilário e Megid Neto, Jorge. (Org .). O Livro Didático de Ciências no Brasil . Campinas: Editora Komedi, 2006, p. 19-31.
MARTINS, M.I.; HOSOUME, Y. 2007. Livros didáticos de Física no Brasil: editoras, autores e conteúdos disciplinares: da Reforma Capanema à LDB de 1996. In:
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Simpósio Internacional: Livro Didático - Educação e História. Atas. FEUSP: São Paulo, 2007, p. 1106 - 1123.
NARDI, Roberto. Memórias da educação em Ciências no Brasil: a pesquisa em ensino de Física. Investigações em ensino de Ciências . Porto Alegre, v. 10, n. 1, 2005.
WUO, Wagner. A Física e os livros: uma análise do saber em Física nos livros didáticos adotados para o ensino médio. São Paulo: EDUC/FAPESP, 2000.
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