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PERCEPÇÃO DE CIÊNCIA: UM ESTUDO COM GRADUANDOS PAULISTAS

Fernanda Oliveira Simon, Estéfano Vizconde Veraszto, Dirceu Da Silva, Nonato Assis De Miranda, Eder Pires De Camargo

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXI
Ano
2015
Data
29/01/2015
Linha de pesquisa
Alfabetização Científica E Tecnológica E Abordagem Cts No Ensino De Física
Tipo
Pôster

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Texto completo

## PERCEPÇÃO DE CIÊNCIA: UM ESTUDO COM GRADUANDOS PAULISTAS

## Fernanda Oliveira Simon , Estéfano Vizconde Veraszto , Dirceu da Silva , 1 2 3 Nonato Assis de Miranda 4 , Eder Pires de Camargo , 3

- 1 Faculdade Comunitária de Campinas, Campus III, FAC, Campinas, SP; Associação Assistencial e Educação Santa Lúcia, Mogi Mirim, SP, fersimon@uol.com.br
- 2 Departamento de Ciências da Natureza, Matemática e Educação da Universidade Federal de São Carlos, Campus Araras, SP, estefanovv@cca.ufscar.br

3 Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas, Campinas, SP, dirceu@unicamp.br

- 4 Universidade Municipal de São Caetano do Sul, USCS, São Caetano do Sul, SP, Universidade Paulista, UNIP, São Paulo, SP, mirandanonato@uol.com.br

## Resumo

Este artigo apresenta a concepção, construção e validação de um instrumento de pesquisa tipo Likert para coleta de dados com vistas à identificação da percepção de estudantes universitários acerca da ciência. A pesquisa foi desenvolvida utilizando técnicas qualitativas de análise de conteúdo para a construção do instrumento e técnicas quantitativas multivariadas para a análise dos dados. A investigação avaliou a percepção pública de ciência e as atitudes frente ao desenvolvimento científico, a partir da ótica da biotecnologia, em um público composto por alunos de graduação de diferentes localidades do Estado de São Paulo. Inicialmente, procedeu-se cuidadoso levantamento bibliográfico para fundamentação teórica da pesquisa. As informações encontradas serviram de base para a criação das assertivas ligadas a dois constructos: concepções de ciência e atitudes frente à ciência. Em seguida, foram realizadas a validação teórica e semântica buscando a adequação do instrumento. Os resultados evidenciam que os alunos apresentam concepções clássica de ciência e ainda apresenta indicadores que mostram que essas concepções influenciam direta e positivamente suas atitudes frente ao desenvolvimento científico e tecnológico. Essas informações são de grande valia para elaborar atividades curriculares destinadas ao ensino de Física a partir de pressupostos que envolvam âmbitos dos estudos de Ciência, Tecnologia e Sociedade .

Palavras-chave : Percepção Pública de Ciência, Atitudes frente à Ciência, Estudos CTS.

## Introdução

Uma das preocupações que aparecem em estudos que tentam relacionar a ciência, a tecnologia e a sociedade é a criação e validação de indicadores que permitam avaliar as interações entre estas três dimensões (VOGT & POLINO, 2003; GARCIA et al, 2000; VERASZTO et al, 2011, 2013).

No âmbito da pesquisa em Ensino de Física com base nos estudos de Ciência, Tecnologia, Sociedade e Ambiente, este trabalho, realizado com graduandos brasileiros do Estado de São Paulo, mostrará os resultados de uma

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pesquisa desenvolvida que criou, analisou e validou um instrumento capaz de mostrar como os indivíduos entendem a ciência e quais suas relações com o desenvolvimento científico e tecnológico. Antes, é preciso apresentar os fundamentos teóricos que nortearam a construção de um instrumento de percepção pública de ciência. Como ponto de partida, foi feita uma revisão bibliográfica, com o intuito de mostrar quais as concepções mais aceitas, seja no âmbito acadêmico, ou popular.

## Concepções de ciência

Primeiro vale destacar que por concepção de ciência consideramos o conjunto de crenças que o indivíduo possui acerca da mesma, seja de forma geral ou a respeito de tópicos específicos do trabalho científico. Todavia, esta crença não precisa estar diretamente ligada ao tema. Assim, o conhecimento do processo de investigação científica ajuda o estudante compreender a natureza da ciência podendo assim participar em situações de decisões relacionadas com o desenvolvimento científico e tecnológico (CANAVARRO, 2000). Dessa forma, o levantamento bibliogr á fico realizado aponta diferentes concep çõ es de ci ê ncia que podem ser observadas, de maneira resumida, no Quadro 1. Essa classifica çã o teve base no trabalho de Gil P rez é et al (2001), mas n o nos restringimos a ele. Tamb m ã é foram consultados in ú meras outras fontes, dentre as quais, por limita çã o de espa o ç podemos destacar Garc a et al, 2000; Merton, 1977, 1979; Canavarro, 2000; Villani, í 2001; Barros Filho, 1999; Aikenhead, 1987.

Ainda vale destacar que, mesmo sabendo que essas visões não estão totalmente corretas, elas fazem parte do imaginário social e têm sido amplamente divulgadas pelos meios de comunicação, através de livros didáticos ou pela mídia em geral, como TV, internet, jornais ou revistas de circulação massiva.

Quadro 01: Assertivas referentes à concepção de ciência. Fonte: elaborado pelos autores

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Todas as concepções apresentadas acima, em menor ou maior grau, fazem parte do imaginário social e impedem uma participação pública nas decisões que envolvam a ciência. Além disso, verifica-se uma significante falta de compreensão dos aspectos dos processos científicos nas mídias e também em documentos oficiais nacionais e internacionais (VERASZTO et al , 2013; KERR et al , 2007).

## Biotecnologia e concepções de ciências

Contribuindo para um cenário que pouco evidencia o real papel da ciência, muitas vezes a divulgação feita por mídias populares priorizam um enfoque do desenvolvimento científico e tecnológico a partir de temas "da moda", como a biotecnologia, o aquecimento global, a neurociências, entre outros (SIMON, 2009). Os temas mais comuns presentes nos instrumentos de pesquisa acerca da percepção pública da ciência são: engenharia genética, biotecnologia, energia nuclear e meio ambiente. Assim, optamos também por utilizar como tema mediador a biotecnologia, na área da engenharia genética, por ser assunto controverso e ser amplamente utilizado em instrumentos que visam compreender as relações entre o público e a ciência. Nesse sentido, as opiniões dos indivíduos acerca da biotecnologia podem refletir suas concepções de ciência (ALLUM et al , 2008).

## Metodologia

Para o desenvolvimento da pesquisa, optamos por uma abordagem mista, considerando dois aspectos: a elaboração do instrumento e a análise dos dados.

## Abordagem qualitativa: elaboração do instrumento de pesquisa

A primeira etapa da pesquisa utilizou técnicas qualitativas para fundamentar o instrumento, empreendendo métodos de pesquisa exploratória para a composição do instrumento. Assim, o referencial teórico foi explorado, classificado, organizado e interpretado segundo técnicas de Análise de Conteúdo (BARDIN, 2006). Os dados previamente organizados foram categorizados e ordenados (Quadros 1, 2 e 3) e os resultados formaram a base para a criação das assertivas do instrumento Likert.

Quadro 02: Assertivas referentes à concepção de ciência. Fonte: elaborado pelos autores

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Além dessas 6 assertivas, utilizando a biotecnologia como tema mediador, desenvolvemos mais outras relacionadas a crenças em engenharia genética e ao conhecimento na área (Quadro 3). Essas assertivas tiveram como referencial teórico o Eurobarômetro, citado por Godin e Gingras (2000) e o trabalho de Simon (2009).

Quadro 03: Assertivas relacionadas à biotecnologia e engenharia genética. Fonte: elaborado pelos autores

Assim, o modelo de mensuração foi composto por 6 assertivas relacionadas com as concepções de ciência e mais 9 assertivas relacionadas com a atitudes frente ao desenvolvimento científico, a partir da biotecnologia como tema mediador.

## Abordagem quantitativa

Tomando como base as assertivas criadas, realizamos análise fatorial confirmatória para constatar se os indicadores compõem, de fato, os construtos assumidos (concepções de ciência e atitudes frente à ciência), e se há a indicação para a formação de novos construtos ou redução de indicadores (HAIR et al, 2005).

A validação do instrumento se deu sob dois aspectos:

- i) A validação teórica, feita com 7 especialistas (um educador, dois físicos, dois engenheiros, uma psicóloga e uma publicitária) que analisaram o instrumento verificando a adequação das assertivas ao tema.
- ii) A validação semântica, feita por 17 estudantes universitários convidados para responder ao questionário. Após a resposta, os estudantes foram entrevistados para verificar o entendimento de cada assertiva e buscar sugestões de melhorias. Observou-se também o tempo de preenchimento.
- O dados foram coletados durantes aulas regulares e a amostra foi não probabilística, contando com alunos de diversos cursos independente do ano de ingresso. Embora não haja concordância quanto ao tamanho amostral, uma quantidade que varia entre 100 e 200 respondentes é sugerida em estudos semelhantes (HAIR JR. et al , 2005). A intenção em tomar como público alvo diferentes cursos se deu em função de que o imaginário social deve ser considerado já que a intenção é a de utilizar os resultados da pesquisa para desenvolvimento de

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atividades de ensino para a Educação Básica. Assim, a amostra foi composta por 1658 alunos de graduação de diferentes municípios do Estado de São Paulo (Mogi Guaçu, Mogi Mirim, Campinas, Indaiatuba, Itu, Santa Bárbara d'Oeste, São Paulo e São Carlos), sendo que 20,4% são de faculdades públicas e 79,6% de faculdades particulares. Além disso, 43,3% dos entrevistados eram do sexo masculino, 56,6% eram mulheres e 1 sujeito não respondeu a questão. A média de idade foi de 25 anos e os sujeitos estão distribuídos por 44 cursos de graduação.

## Análise dos dados

Para a análise selecionamos apenas os sujeitos que responderam todas as questões. Assim, a análise contou com 970 respondentes. Todos os parâmetros foram estimados com base no Método dos Mínimos Quadrados não Ponderados ( Unweighted Least Squares - ULS) e realizamos o teste t, analisando também a significância para cada assertiva. Assim, observamos que os valores da significância do teste mostraram-se inferiores a 0,05 para todos os indicadores. Isso sinaliza que t as assertivas são capazes de medir cada um dos construtos (HAIR JR. et al , 2005). Além disso, também analisamos a frequência das respostas (Tabela 1).

## Analisando as concepções de ciência

Para as concepções de ciências, as assertivas ' a tendência ao crime é de origem genética ', ' apenas os cientistas têm competência para decidir o que deve ser pesquisado ' e ' é impossível inserir genes animais nas planta ' foram excluídas do modelo final. Isso explica-se porque a maioria dos respondentes assinalaram a opção indiferente nessas questões.

Com base na Tabela 1 constatamos que 64,1% concordam que os cientistas descobrem novas teorias observando a realidade, 53,8% afirmam que a ciência aprendida na escola tem relação com o dia a dia, e 65,2% discordam que apenas os cientistas tem competência para decidir o que deve ser pesquisado. Essas respostas evidenciam um posicionamento tradicional presente na opinião da maioria dos graduandos. A ideia de ciência desenvolvida a partir da observação da natureza corrobora com a concepção empirista da ciência. Por outro lado, a grande maioria vai contra a ideia de que somente os cientistas tem capacidade para produzir conhecimentos. Isso contrapõem uma visão ahistórica com outra mais crítica.

## Concepções de ciência e biotecnologia

Considerando as 6 questões referentes ao conhecimento científico (biotecnologia), constatamos que em 5 delas, a maioria das respostas posicionaramse na categoria não sei. São elas: é impossível inserir genes animais nas plantas (64,1%), mais da metade dos genes humanos são idênticos aos dos chimpanzés (50,7%), é possível transplantar apenas um pedaço do fígado (46,1%), é possível criar um órgão a partir de células-tronco (40,7%) e a clonagem de seres vivos produz seres idênticos (38,2%). Além disso, 47,1% não souberam avaliar se os benefícios da engenharia genética são maiores que seus efeitos negativos, 41% não sabem dizer se os cientistas são extremamente rigorosos na utilização do método científico, 40% se as novas teorias científicas complementam as teorias antigas e 37,8% não conseguiram opinar se os resultados das pesquisas genéticas podem ser aplicados a qualquer ser humano.

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Tabela 01: Frequência de respostas para cada assertiva. Fonte: elaborado pelos autores, onde 1: discordo totalmente; 2: discordo; 3: não concordo nem discordo/não sei; 4: concordo; 5: concordo totalmente; NR: não respondeu

## Atitudes frente ao desenvolvimento científico e tecnológico

Constatamos que 81,2% dos sujeitos utilizariam testes genéticos para detectar doenças como câncer ou doenças neurológicas antes que elas apareçam, enquanto que 63,6% afirmaram que já nos primeiros meses de gravidez é possível saber se a criança tem ou não alguma doença genética. Além disso, 67,8% concordam com a introdução de genes humanos numa bactéria para se produzir remédios ou vacinas, 59,5% doariam seu sangue ou material genético para pesquisa científica e 53,6% afirmam que deve-se permitir a criação de embriões para o desenvolvimento de células-tronco. Por outro lado, 47,4% concordam em utilizar a manipulação genética de embriões a pedido dos pais para que seus filhos não desenvolvam doenças genéticas, enquanto que 17,3% concordam em utiliza-la para

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escolher as características físicas. Também verificamos que 84,3% dos sujeitos pesquisados não consideram correto permitir que empresas utilizem avaliação genética na seleção de funcionários. Além disso, 51,5% não concordam em desenvolver animais geneticamente modificados para propósitos de pesquisa científica na área médica e 48,1% discordam da introdução de genes humanos nos animais para produzir órgãos humanos para transplante. Consideram também que nem a homossexualidade (56,7%), nem a tendência ao crime (67,7%) sejam características genéticas.

## Considerações finais

De maneira geral, o trabalho revelou que graduandos pesquisados têm uma visão tradicional do trabalho científico. A concepção mais recorrente foi a empirista, sinalizando uma concordância majoritária com a concepção de que a ciência é feita a partir da observação da natureza. Por outro lado, os estudantes investigados discordam que só cientistas têm capacidade para produzir conhecimento. Além disso mostram atitudes favoráveis em relação à ciência através da concordância em utilizar diversos avanços provenientes da biotecnologia. Contudo, esse ponto de vista mostra-se contraditório com o desconhecimento que os mesmos apresentam, de maneira geral, acerca de tópicos específicos relacionados com o tema.

As controvérsias presentes nas respostas podem ser reflexos de discordâncias individuais e fundamentais sobre o papel da ciência na sociedade, não refletindo assim, déficits na compreensão e comunicação da ciência. Nesse sentido, o papel da mídia na comunicação científica deve ser avaliado à luz das correntes discussões sobre ciência e sociedade. Além disso, vale frisar que esforços para aumentar a compreensão sobre a ciência, de forma a capacitar pessoas para tomar decisões bem informadas, podem ter um efeito não intencional de mudar as atitudes numa direção mais positiva, uma vez que, historicamente, se assume que quanto maior é o conhecimento em uma determinada área, maior será sua aceitação.

Vale ressaltar ainda que o instrumento validado poderá ajudar na identificação de percepção de estudantes universitários acerca da ciência em pesquisas futuras, complementando os resultados aqui evidenciados preliminarmente. Nesse sentido, os resultados aqui apresentado tem possibilitado a elaboração (em andamento) de conteúdo curricular destinado ao Ensino de Física no contexto dos estudos de Ciência, Tecnologia e Sociedade.

## Referências

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CANAVARRO, J. M. A. P. O que se pensa sobre a Ciência . ed. 1. Coimbra: Quarteto Editora. 2000.

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