UM SUPER TRUNFO PARA A DISCUSSÃO DE ASTRONOMIA BÁSICA NO ENSINO FUNDAMENTAL
João Paulo Casaro Erthal, Isabela Da Silva Cunha, Ramón Giostri Campos
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXI
- Ano
- 2015
- Data
- 28/01/2015
- Linha de pesquisa
- Materiais, Métodos E Estratégias De Ensino De Física
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
## UM SUPER TRUNFO PARA A DISCUSSÃO DE ASTRONOMIA BÁSICA NO ENSINO FUNDAMENTAL
João Paulo Casaro Erthal , Isabela da Silva Cunha , Ramón Giostri Campos 1 2 3
1 Universidade Federal do Espírito Santo, jperthal@gmail.com
2 Universidade Federal do Espírito Santo, isabelacunha22@gmail.com
## Resumo
Os atuais Parâmetros Curriculares Nacionais orientam os professores a incluir o ensino de astronomia no ensino fundamental. Os conhecimentos sobre o universo se difundiram bastante nos últimos anos devido aos meios de comunicação em massa, principalmente com a popularização da internet. Nesses meios é possível encontrar diversas informações sobre corpos celestes e seus fenômenos, mas mesmo assim, em muitos casos essas informações não são discutidas nas salas de aulas do ensino básico. Esse trabalho apresenta um material didático voltado para o ensino de astronomia e apresenta uma estratégia de utilização deste em sala de aula de modo a desenvolver uma atividade complementar de qualidade. O material consiste em um jogo de cartas chamado Trunfo de Astronomia que é composto por 40 cartas, glossário e regras do jogo. A confecção do jogo foi orientada pelos documentos oficiais e por um trabalho anterior de sondagem de concepções básicas sobre astronomia realizada em turmas do sexto ano do ensino fundamental de uma escola pública do sul capixaba. As cartas do trunfo contêm informações, de alguns planetas, planetas-anões, satélites naturais, asteroide, planetoide e o sol, como periastro e apoastro, diâmetro equatorial, gravidade superficial, temperatura, massa, velocidade de escape, período rotacional e orbital e número de satélites.
Palavras-chave : Ensino de Astronomia, jogo educativo.
## Introdução
A astronomia é uma das áreas mais antiga da física que desperta a atenção e o fascínio de muitas pessoas. Essa ciência estuda a formação e o desenvolvimento do universo além dos corpos celestes existentes nele. Devido a várias pesquisas e estudos realizados, a astronomia contribuiu e ainda contribui para o desenvolvimento da ciência e da humanidade através dos séculos.
Segundo Scarinci e Pacca (2006), assim como é importante estudar geografia, também é importante estudar o universo, a galáxia e o nosso sistema solar para compreender a Terra e o porquê de existirem as estações do ano, o dia e a noite, os eclipses, as fases da lua e o tempo dividido em horas, minutos e segundos. O conhecimento científico básico de conceitos de astronomia deve ser um elemento claro, aplicável e útil e pode ser trabalhado e discutido na formação básica dos jovens brasileiros.
Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) do ensino fundamental sugerem o ensino de temas sobre 'Terra e Universo' na disciplina de Ciências Naturais para o terceiro ciclo desse nível de ensino, que engloba atualmente o sexto e sétimo anos da educação básica brasileira. Os professores são convidados a estimular a curiosidade dos alunos pela astronomia, através de conteúdos que visem ampliar a orientação espaço-temporal, conscientizar esses estudantes aos ritmos de
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26 a 30 de janeiro de 2015
vida, elaborar uma concepção sistematizada de Terra-Sol-Lua, explicar o dia e a noite, reconhecer a forma geométrica dos planetas e as fases da lua, entre outros (BRASIL, 1998). Um fator destacado nesse documento relaciona-se a necessidade da elaboração de uma concepção de universo por meio do conhecimento organizado de informações sobre os corpos celestes.
Apesar dessas orientações, muitos currículos básicos estaduais, como por exemplo, o Currículo Básico Estadual do Espírito Santo (SEDU/ES, 2009) , não contribui com muitas orientações aos docentes para o ensino de astronomia. Esse fato pode fazer com que muitos professores de ciências não discutam o tema em sala de aula, originando mais uma lacuna na formação básica dos estudantes.
Nessa perspectiva, acredita-se na necessidade de criação de materiais que possam auxiliar o professor a desenvolver atividades que propiciem o engajamento dos estudantes perante temas relacionados com conceitos básicos de astronomia. Em vista disso, este trabalho relata a elaboração de um jogo de cartas nos moldes do jogo comercial, mundialmente conhecido, Super Trunfo, assim como os resultados de uma investigação com a utilização do jogo em salas de aula.
Para confecção do jogo, inicialmente foi realizado o levantamento das concepções alternativas de cinquenta estudantes do sexto ano do ensino fundamental, por meio de um questionário que continha 18 questões sobre conceitos básicos de astronomia. Os resultados dessa investigação mostraram que os participantes praticamente desconhecem conceitos básicos sobre astronomia, sendo que apenas uma das questões obteve resultados satisfatórios (CUNHA, ERTHAL e CAMPOS, 2014), os quais não são foco deste trabalho.
Muitos autores (DARROZ; HEINECK; PÉREZ, 2011; DARROZ; SANTOS, 2012; SCARINCI; PACCA, 2006), relatam pesquisas de concepções de alunos do ensino fundamental e médio sobre as fases da lua, eclipses, estações do ano, entre outros, mas não existem muitos estudos dessa natureza que envolvam o conhecimento de características específicas dos corpos celestes existentes em nosso sistema solar. Segundo Silveira, Souza e Moreira (2011) o conhecimento prévio pode ser um fator muito importante para o aprendizado, pois através dele pode haver reestruturação e formação de um novo sentido, de uma nova interpretação e de uma nova compreensão, fazendo com que o estudante evolua seus conceitos.
A reflexão sobre a análise das respostas do questionário serviu de elemento orientador para a elaboração de um jogo educativo para ser trabalhado de forma lúdica. O jogo intitulado Trunfo de Astronomia, foi confeccionado com base no jogo de cartas comercial, mundialmente conhecido, chamado Super Trunfo , ® que geralmente utiliza carros, motos, aviões, etc. O Trunfo de Astronomia tem foco em informações e características básicas sobre o Sol, os planetas, planetas anões, satélites naturais, asteróides, entre outros.
Segundo Cavallini e Fagundes (2013), deve-se ter cuidado ao escolher o tipo de jogo a ser trabalhado como jogo educativo, pois é necessário levar em consideração quais objetivos devem ser alcançados e qual público deverá ser atingido.
Na sequência foi elaborada a estratégia de utilização do jogo e este foi utilizado com as mesmas turmas na qual ocorreu o levantamento de concepções
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alternativas, para verificar o potencial do Trunfo de astronomia para a aprendizagem de conceitos básicos sobre o tema.
## Metodologia
O Trunfo de Astronomia possui 40 cartas contendo características de alguns corpos celestes do nosso sistema solar. Além de curiosidades a carta traz informações sobre velocidade de escape, temperatura superficial, gravidade, número de satélites naturais, período rotacional e orbital, apoastro e periastro, massa e diâmetro equatorial, as quais são utilizadas para a competição. Contém um glossário e as regras do jogo.
Utilizou-se notação científica em alguns itens das cartas devido à ordem de grandeza de alguns valores, de modo a facilitar a leitura destes e possibilitar uma discussão interdisciplinar. As unidades de medidas estão de acordo com o Sistema Internacional de Unidades (S.I.). A seguir são apresentadas algumas cartas do Trunfo de Astronomia, estando a primeira em tamanho original e as outras em tamanho reduzido, a título de ilustração.
Figura 1: Carta do planeta Terra do Trunfo de Astronomia.
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Figura 2: Exemplos de cartas reduzidas do Trunfo de Astronomia.
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Após a confecção das cartas, o jogo foi testado por estudantes de licenciatura em Física a fim de verificar sua adequação, clareza e dinamismo. Na sequência o jogo foi apresentado a duas turmas do sexto ano do ensino fundamental de uma escola pública e trabalhado durante algumas aulas de ciências.
De acordo com a estratégia traçada para utilização do jogo, a turma foi dividida em grupos com o mesmo número de alunos. Em seguida, foi feita a apresentação do jogo, com a leitura das regras e do glossário, com intuito de trazer a tona os elementos principais para uma boa dinâmica durante as jogadas e para sanar eventuais dúvidas dos participantes.
As cartas foram divididas em quantidades iguais para todos os participantes. O grupo deveria utilizar sempre, em caso de dúvidas, o glossário e as regras ou pedir auxílio ao pesquisador. Cada jogador teria que ler as informações contidas no lado direito da primeira carta de seu montante antes de iniciar cada rodada, mas sem evidenciar nome do astro em questão. Na sequência, um jogador deveria escolher uma das características contidas na sua primeira carta, lendo o valor da característica. Os adversários enunciavam os valores da característica de acordo com a carta que continham e comparavam os valores, vencendo aquele que tivesse a carta com o maior valor para a categoria escolhida. O vencedor recebia todas as cartas utilizadas nessa rodada pelos outros participantes, e essas deveriam ser agrupadas ao final do seu montante de cartas. O grande vencedor seria aquele que acumulasse todas as cartas do jogo, porém, o tempo disponível durante as aulas não foi suficiente para que houvesse apenas um vencedor. Neste caso, eram tidos como vencedores os dois competidores que obtivessem o maior número de cartas.
A primeira etapa foi finalizada após a classificação de dois jogadores de cada grupo. Esses jogadores se classificaram para a segunda etapa.
Na segunda etapa foram seguidas as mesmas regras, porém a competição aconteceu em apenas dois grupos formados pelos vencedores da etapa anterior. Ao
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final desta, quatro alunos passaram para a terceira fase. Desses, apenas, dois foram classificados para disputarem a final.
Durante a estratégia, pode-se perceber que quanto maior o número de rodadas concluídas durante uma partida, maior é o favorecimento da aprendizagem, visto que isso dá maior oportunidade de o competidor conhecer os corpos celestes e suas características, interagir com os colegas e com o pesquisador sobre o tema, podendo assim traçar estratégias e se organizar para tentar vencer a partida.
Durante as partidas os participantes faziam perguntas voltadas para o conteúdo do jogo e também sobre satélites artificiais, sondas, missões espaciais, foguetes, vida fora da Terra, entre outros. O pesquisador anotou as perguntas durante o desenvolvimento da atividade para servirem de pontos de discussão antes do encerramento da atividade.
Os dois estudantes finalistas, responderam ao mesmo questionário que foi aplicado a turma antes da confecção do jogo, para verificar o potencial deste em relação a aprendizagem de conceitos básicos de astronomia. Foram escolhidos apenas esses dois alunos pelo fato de eles terem sido os que tiveram mais contato com as cartas do jogo durante a estratégia realizada. A seguir é apresentado um gráfico com os resultados dessa investigação.
Figura 3: resultados do questionário aplicado aos dois estudantes que tiveram mais contado com a estratégia e com as cartas do jogo.
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## Considerações Finais
O jogo gerou muito interesse entre os alunos, devido à praticidade ao jogar e competitividade que era gerada no grupo. Durante os intervalos entre as aulas e no contra turno, os alunos perguntavam quando iriam poder jogar novamente. Alguns alunos mostraram interesse em confeccionar as cartas para poder jogar fora do ambiente escolar.
Ao encerrar-se a aplicação do jogo nessas duas turmas, o questionário utilizado inicialmente foi aplicado novamente aos dois finalistas da competição para analisarmos se houve o aprendizado dos conceitos. Esses alunos conseguiram responder a maioria das questões de forma sucinta, podendo-se perceber uma
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evolução conceitual em relação aos resultados obtidos com esse mesmo instrumento antes da confecção das cartas (CUNHA, ERTHAL e CAMPOS, 2014).
Mesmo dentre os outros alunos não chegaram às últimas etapas, ficou visível que durante o processo houve mudança de postura desses em sala de aula, visto que realizaram diversas perguntas além do desenvolvimento de habilidades relacionadas ao relacionamento em grupo, tomada de decisões, leitura, interpretação de textos, e trocas de significados ao explicar para os colegas os valores e unidades de medidas desconhecidos por muitos.
Esse material didático pode ter potencial para contribuir em atividades extracurriculares, extraclasses ou até mesmo para uma avaliação qualitativa de aprendizagem. Basta determinar os critérios a serem utilizados durante as análises ao final de cada etapa.
- O professor pode utilizar esse material durante a explanação de conceitos relacionados a planeta, planeta-anão, estrela, asteróide, satélite, velocidade de escape, etc. Pode ainda utilizar o jogo para fazer revisão do conteúdo de forma atrelada a softwares computacionais.
- O Trunfo de Astronomia permitiu aos alunos tratarem o tema de maneira dinâmica, realizando comparações entre os principais astros do sistema solar. Os participantes se empenharam na atividade e demonstraram interesse pelo estudo de astronomia. Os alunos se mostraram mais curiosos e mais estimulados pela atividade, o que favorece a aprendizagem.
Os resultados do questionário aplicado após a estratégia de utilização do Trunfo de Astronomia mostraram que se utilizado com frequência o jogo pode auxiliar os estudantes a adquirirem conceitos científicos sobre astronomia básica, mostrando-se como um instrumento facilitador da aprendizagem do assunto.
## Referências
BRASIL. MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO. SECRETARIA DE EDUCAÇÃO FUNDAMENTAL. Parâmetros Curriculares Nacionais: ensino fundamental . Brasília: MEC, 1998. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/livro01.pdf - Acesso em: 15/06/2014.
CAVALLINI, B; FAGUNDES, M. B. Jogos explícitos e implícitos em aulas de física . XX Simpósio Nacional de Ensino de Física, 2013, São Paulo. Disponível em: http://www.sbf1.sbfisica.org.br/eventos/snef/xx/sys/resumos/T0603-1.pdf Acesso em: 10/06/2014.
CUNHA, I. S.; ERTHAL, J. P. C.; CAMPOS, R. G. Investigação inicial para a transposição de conceitos sobre astronomia de forma lúdica no ensino fundamental , 2014. Trabalho apresentado ao VII Encontro Internacional de Astronomia e Astronáutica, Instituto Federal Fluminense, Campos dos Goytacazes, 2014.
DARROZ, L. M.; HEINECK, R.; PÉREZ, C. A. S. Conceitos básicos de astronomia: uma proposta metodológica, Revista Latino-Americana de Educação em Astronomia - RELEA , n. 12, p. 57-69, 2011.
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DARROZ, L. M.; SANTOS, F. M. T. Promovendo a aprendizagem significativa de conceitos básicos de astronomia na formação de professores em nível médio, Experiências em Ensino de Ciências , v. 7, n. 2, p. 01-13, 2012.
ESPÍRITO SANTO (2009). Currículo Básico Estadual . Secretaria do Estado da Educação. Disponível em:
http://www.educacao.es.gov.br/download/SEDU\_Curriculo\_Basico\_Escola\_Estadua l.pdf - Acesso em: 10/05/2014.
SCARINCI, A. L.; PACCA, J. L. A. Um curso de astronomia e as préconcepções de alunos, Revista Brasileira de Ensino de Física , v. 28, n. 1, p. 8999, 2006.
SILVEIRA, F. P. R. A.; SOUZA, C. M. S. G.; MOREIRA, M. A. Uma avaliação diagnóstica para o ensino da astronomia, Revista Latino-Americana de Educação em Astronomia , n. 11, p. 46-47, 2011.
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