ANÁLISE DE LIVROS DIDÁTICOS DE FÍSICA PARA O ENSINO MÉDIO: O CONTEÚDO DE FORÇA EM QUESTÃO
Sílvia Denise Borges Carneiro Santos, Veruska Wys Regis De Souza, Luiz Gonzaga Roversi Genovese
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXI
- Ano
- 2015
- Data
- 27/01/2015
- Linha de pesquisa
- Materiais, Métodos E Estratégias De Ensino De Física
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
## ANÁLISE DE LIVROS DIDÁTICOS DE FÍSICA PARA O ENSINO MÉDIO: O CONTÉUDO DE FORÇA EM QUESTÃO
Sílvia Denise Borges Carneiro Santos , Veruska Wys Regis De Souza , 1 2 Luiz Gonzaga Roversi Genovese 3 .
1 Instituto de Física - UFG / silviaufg@hotmail.com
2 Instituto de Física - UFG / regisveruska@gmail.com
3 Instituto de Física - UFG / lgenovez@uol.com.br
## Resumo
Diante da grande diversidade de livros didáticos que nos são apresentadas no mercado, se faz necessária à escolha crítica do livro tanto como instrumento de auxílio didático quanto a sua adequação à prática docente, para que esta seja exercida de forma mais proveitosa possível. Este trabalho analisa três obras didáticas para o ensino de física do ensino médio. Foram escolhidas duas obras do PNLD(2012) e uma ausente: "Física em Contextos: pessoal, social e histórico" de Maurício Pietrocola et al 2010; "Física para o Ensino Médio", de Kazuhito Yamamoto e Luiz Felipe Fuke, 2010 e "Física: história & cotidiano", de José Roberto Bonjorno e Clinton Márcico Ramos, 2005. A análise dos livros foi realizada sob as orientações para o ensino de ciências de Cachapuz, Praia e Jorge, que seguem pelos eixos epistemológico, curricular e da aprendizagem. Avaliando as obras suas partes fundamentais, apresentação do livro - que geralmente, é uma exposição da disciplina física e sua história - introdução, desenvolvimento e exemplificação do conceito força além dos exercícios propostos, sob as orientações dos autores supracitados categorizáramo-los de acordo com sua ênfase epistemológica, de aprendizagem e curricular. Os resultados apontam o livro de Bonjorno, fortemente guiado pelo Positivismo. Já os livros do PNLD, apresentam tendência pós-positivista e sócio-construtivista. Compreendendo a variedade de propostas dos autores dos livros didáticos, percebemos o quanto é imprescindível sua apreciação crítica e adequação, ao contrário, resultaria no incompleto, não consciente e submisso exercício da atividade docente.
Palavras-chave: Livro didático, pós-positivismo, sócio-construtivismo.
## Introdução
Apesar de sua utilização incorreta ou de seu total abandono, o livro como recurso didático é de grande auxílio para a prática docente e no processo de aprendizagem do aluno (FRACALANZA; MEGID-NETO, 2003). Pois apoiado no livro o professor poderá mostrar diferentes aspectos dos conteúdos aos alunos, e estes também apoiados no livro, além de complementarem, poderão ir além do que lhes foi apresentado em sala de aula. Mas é preciso lembrar que este apoio oferecido pelo livro lhe dará certa 'autoridade', e, portanto, se faz necessário que professor analise criticamente os livros didáticos disponíveis e articule-os à sua ênfase curricular, isto é, sua visão da função do ensino (MOREIRA; AXT, 1986). Analisar significa, por exemplo, refletir se os livros didáticos estão estruturados proveitosamente, se trazem ideias inovadoras para o ensino, se as estruturas de apresentação são diversificadas, na apresentação dos conceitos, nos exemplos e nos exercícios e experimentos propostos, ou mesmo, se contemplam as orientações curriculares nacionais (BRASIL, 1999). Diante da importância no ensino e na aprendizagem, os livros didáticos devem ser problematizados, questionados e, portanto analisados. Nesse sentido, o presente trabalho analisa três obras
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26 a 30 de janeiro de 2015
conhecidas por professores e investigadores da área de ensino de física, utilizando para tal as contribuições teóricas de Cachapuz; Praia e Jorge (2004).
## Referencial Teórico
Como referencial teórico adotamos o texto Cachapuz; Praia e Jorge (2004), em grande medida, por trazer orientações teóricas e metodológicas que norteiam a educação em ciência para o ensino de ciências. As orientações seguem por três eixos: epistemológico, do currículo e da aprendizagem. Eixos, os quais apontam para dois polos: para o polo onde estamos e para o polo para onde devemos ir.
Sinteticamente, o eixo epistemológico nos mostra que estamos num polo positivista, visão científica que traz a ideia de que o conhecimento científico é a única forma de conhecimento verdadeiro e uma verdade absoluta, irrefutável, imutável, ou, num polo pós-positivista, em oposição à visão anterior, que valoriza a índole aproximativa do conhecimento, ou seja, não adota o conhecimento como absoluto e imutável, mas como sendo uma tentativa de aproximar-se da verdade, ''não confundindo a procura de mais verdade com a busca ''da'' verdade'' (CACHAPUZ; PRAIA; JORGE, p.370, 2004). Este ponto de vista ainda defende que o conhecimento científico ao ser construído seja confrontado com o mundo, dinâmico, probabilístico, replicável e humano.
O eixo curricular indica que estamos num polo acadêmico, onde o conhecimento científico é transmitido de forma sistematizada sem estabelecer vínculos com o cotidiano, como algo totalmente distante da realidade do aluno, ou que estamos no polo contextualizado, onde o conhecimento científico é introduzido com interessantes contextos de partida, que podem estar relacionados com o cotidiano dos alunos ou a assuntos que lhes interessem, e não utilizando contextos apenas como ilustrações de conceitos ou de aplicações de princípios científicos. Brevemente,
contextualizar implica valorizar, em primeiro lugar a conceitualização das situações, o que exige cuidados no estudo qualitativo das mesmas. A questão não é desvalorizar o quantitativo nem o disciplinar. Bem pelo contrário. É perceber quão importante ele é, mas em diálogo com o qualitativo (CACHAPUZ; PRAIA; JORGE, p.374, 2004).
E por fim, o eixo da aprendizagem aponta que estamos em um polo comportamentalista, expresso pelo conjunto de teorias psicológicas que postulam que determinados comportamentos acontecem como respostas a determinados estímulos, ou seja, o aluno somente apresenta tal comportamento (aqui a aprendizagem) se for estimulado de tal forma a respondê-lo; ou em um polo sócio-construtivista,
- a perspectiva de construtivismo que nos interessa defender em relação à aprendizagem tem a ver com nosso entendimento da aprendizagem como processo social e culturalmente mediado. Ou seja, estamos, no essencial, a valorizar a compreensão de situações e contextos socioculturais em que a aprendizagem tem lugar e do modo como esta é influenciada por tais situações e contextos (CACHAPUZ; PRAIA; JORGE, p.375, 2004).
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## Metodologia
Sob estas orientações, que nos mostram que as perspectivas pós-positivista, contextualizada e sócio-construtivista devem nortear o ensino de ciências, analisamos três livros didáticos recentes, dos quais, dois estão presentes na lista de livros aprovados pelo PNLD(2012) e um que não está. Optamos por obras incluídas na lista do PNLD devido estas serem ofertadas em escolas públicas e assim amplamente difundidas, e a escolha do livro ausente da lista deve-se por este ser amplamente empregado na rede privada de ensino. Sendo os livros, respectivamente:
Livro 1 - Física em contextos: pessoal, social e histórico . (PIETROCOLA et al , 2010).
Livro 2 - Física para o Ensino Médio (FUKE e YAMAMOTO, 2010).
Livro 3 - Física: história & cotidiano (BONJORNO e RAMOS, 2005).
Ponderamos as três obras, especificamente o capítulo referente à Força, o qual foi escolhido por estar extremamente incluído ao cotidiano dos alunos e ainda pelo motivo de que, na maioria das vezes, os professores levam quase o ano inteiro para aplicá-lo. Tendo em vista o referencial teórico, caracterizamo-las em relação aos eixos de orientação, estabelecendo as influências destes no ensino-aprendizagem. E então concluímos, fazendo sugestões de mudanças a serem realizadas em relação à escolha e uso do livro didático.
## Análise
A análise foi realizada sobre os seguintes tópicos dos livros didáticos: introdução à Física, conceitualização, exemplificação dos conceitos, exercícios propostos e atividades práticas, já que todos as possuíam. E, como foi dito anteriormente, nos ateremos somente ao capítulo referente à força.
Livro 1 no tópico introdução à Física mostra o mundo como uma fonte de desafios à mente humana, e a Física como uma das áreas que se dispõem a responder perguntas que levam à compreensão do mundo. Este livro foi inspirado por este ideal, revelando-se positivista. Pois para o Positivismo, a ciência é a única forma de realmente compreender o mundo. E afirma ser este o ideal de sua inspiração e formação. Apesar de se mostrar positivista - porquanto, para o Positivismo a ciência é a única forma de realmente compreender o mundo - logo de início com aquela afirmação, ao continuar sua análise percebemos seu posicionamento epistemológico mudar e tornar-se sócio-construtivista.
Na conceitualização deste livro percebemos seu posicionamento mudar e tornar-se sócio-construtivista. Sendo evidente sua posição sócio-construtivista na conceitualização. Pois, sabendo que o construtivismo sustenta que o indivíduo ao ter contato com algo novo assimila-o a uma estrutura já existente, e então amplia esta estrutura, ou, ao ser conflitante, constrói uma nova estrutura para acomodar o novo conhecimento, e visto que o livro introduz o conceito de força através de conhecimentos já existentes, isto é, levando em consideração o senso comum do cotidiano e apoiado neste estabelece o conhecimento científico, não o ditando como algo abstrato e inquestionável. Como vemos nesse trecho:
Assim, para entender o conceito físico de 'força', devemos modificar a ideia expressa por essa palavra no cotidiano[...] (p.195)
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Ainda conceitualizando, equacionando os conceitos apresentados e na exemplificação dos conceitos, que o livro titula de ''por dentro do conceito'' e de ''técnica e tecnologia'', observamos seu posicionamento pós-positivista e contextualizado, pois vai consolidando o conhecimento gradativamente o confrontando com o mundo, contextualizando-o ou introduzindo-o através de contextualizações. Como vemos no seguinte trecho:
A força normal é observada em várias situações. Você pode não saber, mas neste momento está atuando sobre você uma força normal aplicada pela cadeira em que você está sentado(a). Ao sentar-se, você se apoia sobre ela e ela reage por meio de uma força de contato. (p.200)
Nota-se que os exercícios propostos, na sua maioria, são assinalados pelo condicionamento, pois não levam o aluno a refletir, somente visam prepará-lo para testes. Como este a seguir:
Um carro de 80 kg de massa é movimentado por um guindaste, ficando em repouso sobre uma rampa lisa inclinada com um ângulo com a horizontal. Sabendo que sen =0,6; cos =0,8 e g=10 m/s , determine: 2
- a) A intensidade da força de reação normal da rampa sobre o carro.
- b) A tração no cabo que sustenta o carro. (p.218)
Livro 2 -em seu enfoque introdução a Física, percebemos seu posicionamento pós-positivista, porquanto apresenta a Física como construção humana, que tem como objetivo a compreensão do mundo, na qual não existem teorias e nem modelos definitivos. Contextualiza-a, demonstrando que esta faz parte do cotidiano. Também se apresenta como sócio-construtivista, defendendo que estudo de ciências tem como função formar um cidadão ético, crítico e com autonomia intelectual. Porém, observamos o livro contradizer-se ao, em sua idealização, adotar características positivista e comportamentalista.
Apesar de mencionar o contexto histórico em que se desenrolou o conhecimento estudado, percebemos que a conceitualização não se mostra póspositivista sendo feita de modo positivista, pois apenas expõe o conhecimento e não o estabelece de forma gradativa, contestando-se com o que defendeu na introdução à Física sobre o pós-positivismo e construtivismo.
Força é agente físico capaz de produzir deformações (efeitos estáticos) e/ou acelerações (efeitos dinâmicos) nos corpos em que atua, por contato (força de contato) ou à distância (força de campo).
Na exemplificação dos conceitos, utiliza exemplos não como ponto de partida, mas apenas como ilustração. Avaliando os exercícios propostos deste livro percebemos que embora sejam contextualizados são utilizados apenas para preparar para testes, como o vestibular, sendo assim para o condicionamento do aluno. Apresentamos um exemplo, o qual tem modelo similar aos outros:
Exercício Proposto n 14) Um veículo de 2 toneladas puxa um avião de 50 o toneladas. A velocidade de movimento é constante e igual a 18 km/h. Então, qual a intensidade da força resultante que atua sobre o avião? (p.209)
Livro 3 seu tópico introdução à Física expõe a Física como a ciência que descreve e explica os fenômenos naturais, e que para tanto cria modelos idealizados, assim mostra seu posicionamento positivista. Na conceitualização novamente notamos seu posicionamento positivista, uma vez que apresenta o conceito pronto e acabado, ao invés de construi-lo juntamente com o aluno.
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Força é toda causa capaz de provocar num corpo uma variação no seu movimento ou uma deformação.
Ao fazer a exemplificação dos conceitos, utiliza exemplos apenas como ilustração dos princípios científicos, de modo acadêmico. Ao analisar os exercícios propostos deste livro notamos que são condicionantes, visto que somente são realizados com a função de habilitar o aluno a testes, não considerando se realmente o aluno aprendeu ou se apenas decorou. A seguir um dos exercícios do livro:
Duas forças de intensidade F1= 6,0 N e F2 = 8,0 N agem sobre um corpo. As direções das forças são desconhecidas.
- a) Determine o intervalo de valores que a intensidade da resultante pode assumir.
- b) Determine a intensidade da resultante quando as forças forem perpendiculares. (p.107)
## Considerações finais
Esta análise aponta o Livro 3, voltado para um ensino positivista e de cunho acadêmico, interessado em preparar o aluno e condicioná-lo para testes, como vestibulares. Este livro não consta no PNLD 2012. Por outro lado, os resultados indicam que o Livro 1 e 2, do PNLD 2012, estão caminhando na direção mais condizente com as orientações defendidas por Cachapuz, Praia e Jorge (2004), deixando gradualmente o ensino positivista e acadêmico, que por muitas vezes condiciona o aluno limitando-o, e partindo em direção ao ensino sócio-construtivista, pós-positivista e contextualizado. Consideramos um avanço no ensino de ciências.
Finalizamos, ressaltando novamente, que o professor ao selecionar o livro didático deve fazê-lo criticamente de forma atenciosa e minuciosa, e depois adequálo a sua prática docente, que deve ser conscienciosa, responsável, independente, que visa formar cidadãos críticos, intelectualmente autônomos, cientifica e tecnologicamente alfabetizados. Um ensino que sobressai a índole transmissiva coíbe a índole investigativa, assim sendo, entendemos que o conhecimento não deve ser apenas transmitido, mas sim construído.
## Referências bibliográficas
BRASIL. Parâmetros Curriculares Nacionais , Brasília: MEC, 1999.
CACHAPUZ, A.; PRAIA, J.; JORGE, M.; Da educação em ciências às orientações para o ensino de ciências: um repensar epistemológico. Ciência & Educação , vol.10, n 3, p.363-379, 2004. o
FRANCALANZA; H.; MEGID-NETO, J.; O livro de ciência: problemas e soluções. Ciência & Educação , vol.9, n 2, 2003. o
MOREIRA, M. A.; AXT, R.; O livro didático como veículo de ênfases curriculares no ensino de Física. Revista de Ensino de Física , vol.8, n 1, 1986. o
PIETROCOLA, M.; POGIBIN, A.; OLIVEIRA, R.; ROMERO, T. Física em contextos: pessoal, social e histórico , v.1, 1ª ed. - São Paulo: FTD, 2010.
PNLD 2012: Física , Brasília: MEC, 2011.
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FUKE, L. F.; YAMAMOTO, K. Física para o Ensino Médio , v.1, 1ª ed. - São Paulo: Saraiva, 2010.
BONJORNO, J. R.; RAMOS, C. M. Física: história & cotidiano , v. 1, 2ª ed. - São Paulo: FTD, 2005.
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