Classificação dos incidentes críticos observados pelos estagiários em seus estágios
Sunny Maria Alves Moreira, Anna Maria Pessoa de Carvalho
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XVIII
- Ano
- 2002
- Data
- 06/06/2002
- Linha de pesquisa
- Ensino Aprendizagem
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
## CLASSIFICAÇÃO DOS INCIDENTES CRÍTICOS OBSERVADOS PELOS ESTAGIÁRIOS EM SEUS ESTÁGIOS ♦
Sunny Maria Alves Moreira a [sunnym@ig.com.br] Anna Maria Pessoa de Carvalho b b [ampmpdcarv@usp.br]
a Instituto de Matemática e Estatística da USP b Faculdade de Educação da USP
## JUSTIFICATIVA E REFERENCIAL TEÓRICO
Este trabalho se justififica a partir da necessidade de que se inclua nos cursos de formação profissional uma forte compmponente de reflexão antes da ação, mas sobre a ação. Pois refletindo a partir de situações práticas reais, o futuro profissional se sentirá capaz de enfrentar situações novas e diferentes, com m as quais vai se deparar na vida real, segundo Schön (1983) e Alarcão (1996).
Desta maneira o futuro profissional estaria aprendendo a construir o conhecimento, e não apenas a aplicar técnicas ou conhecimentos específicos, os quais mumuitas vezes se tornam inúteis frente a determinadas situações novas nunca antes estudadas.
Estas situações novas estamos denominando de Incidentes Críticos, são ações ou fatos, novos e inesperados ocorridos durante uma aula, que pedem m uma resposta imediata do professor. Para estas situações não existem m regras específicas que ajudem m o professor a tomar as decisões corretas.
Na sala de aula podemos observar, que os incidentes críticos ocorrem m em m momentos de indisciplina. E entendendo a indisciplina como um m evento escolar que sinaliza, que algo, na sala de aula, não está ocorrendo de acordo com m as expectativas dos envolvidos, sejam m eles alunos ou professores, como Aquino (1998) definiu. Ou como Camacho (2001) entendeu a indisciplina, como expressão do inconformismo e resistência, como forma de ousadia que faz parte de um m processo educativo baseado na construção do conhecimento, no qual emergem falas, rebeldia, inquietação e buscas de respostas por parte dos alunos e dos professores. Daí a impmportância de se refletir sobre a indisciplina nos cursos de formação de professores, como meio do próprio professor ser capaz de diagnosticar sua aula.
Aquino (1998) caracteriza a relação profefessor-aluno como uma das premissas pedagógicas fundamentais ao trabalho do professor em m sala de aula. Para Aquino (1998), o
aluno deve ser visto pelo professor como parceiro, e assim , tambmbém m responsável pelo sucesso escolar. Considerando que sejam m preservados a distinção entre os papéis de aluno e professor.
A dificuldade nas relações interpessoais, seja ela envolvendo vários interlocutores diferentes como alunos, pais, professores, funcionários, supervisores e diretores, é citada por Mendes (2001) como situação problemática percebida e destacada por professores que atuam na área de educação em m Física.
Com m isto pudemos relacionar a presença ou a ausência de relações interpessoais com m a indisciplina na sala de aula.
## CONTEXTUALIZAÇÃO DA PESQUISA
Este trabalho teve como ponto de partida a proposta do curso de Metodologia do Ensino de Física I, um m curso de formação de futuros professores, ministrado na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo. No decorrer deste curso, os 40 alunos matriculados, deveriam m realizar um m mínimo de 60 horas de estágio obrigatório em m escolas, acompmpanhando as aulas de Física do Ensino Médio.
Foi proposto aos 40 alunos de Metodologia que nas aulas observadas anotassem m e refletissem m sobre os incidentes críticos em m seus Diários de Campmpo. Assim m é chamado o conjunto de anotações onde o estagiário deve relatar as observações vistas na sala de aula. O estagiário deverá realizar uma reflexão sobre a prática do professor observado baseado no que aprendeu nas aulas de Metodologia.
## OS DADOS
Realizada a leitura dos Diários de Campmpo dos 40 estagiários e a transcrição dos 100 Incidentes Críticos encontrados, procuramos o que havia em m comumum m nos Incidentes Críticos. Propusemos classificá-los em m duas categorias principais:
- · Momento da aula ou Atitude que Motivaram m o incidente;
- · Atitude do Professor após o incidente;
Realizada esta classificação inicial, que consistia na descrição dos vários Momentos ou Atitudes, antes ou depois dos Incidentes Críticos, que foforam m observados pelos estagiários, percebemos a necessidade de reagruparmos estas subcategorias.
Assim m sendo reagrupamos as descrições do Momento da Aula ou Atitude que Motivaram o Incidente em m Momento que não está relacionado diretamente com m a aula; Momento referente a Avaliação; Momento em m que não havia relação interpessoal e Momento em m que havia relação interpessoal.
Da mesma maneira reagrupamos as descrições da Atitude do Professor Depois do Incidente em m que o professor não participa diretamente da resolução do problema; uma Atitude mais diretiva ou o professor tem m uma Atitude mais branda, menos diretiva.
Com m estes novos agrupamentos conseguimos observar a influência das relações interpessoais nos momentos de indisciplina.
## VALIDAÇÃO DA CLASSIFICAÇÃO
Por ser nova esta classificação por nós proposta, ela passou por um m processo de validação. Uma comissão formada de 4 pessoas (juizes) compmposta de integrantes do LaPEF (Laboratório de Pesquisa em m Ensino de Física) analisou os Incidentes Críticos utilizando nossa classificação. Após esta sessão, a partir r das sugestões dadas, nós a reelaboramos obtendo o formato atual.
## O INSTRUMENTO:
Tabela 1: Momento da Aula ou Atitude que Motivaram m o Incidente:
## DEFINIÇÃO DE CADA SUBCATEGORIA
## Tabela 1: Momento da aula ou atitude que motivaram o incidente
## Início da aula
Quando o incidente ocorre nos momentos iniciais da aula, durante a entrada de alunos, durante a chamada ou quando o incidente esta relacionado a um m fato ocorrido na aula anterior, sem m influência direta do professor atual.
## Fator de ordem externa a aula
Esta subcategoria engloba os incidentes decorrentes de fatos provocados por indivíduos que não estão participando da aula. Como alunos de outra turma que interrompmpem a aula pedindo para falar com m algum m aluno da classe.
## Durante a avaliação
Quando o incidente ocorre no momento em que os alunos que estão sendo avaliados de forma escrita.
## Devolução de avaliação corrigida para os alunos
Neste caso é no momento em m que o professor está fazendo o retorno da avaliação é que acontece o incidente, seja por reclamação do aluno discordando da nota, ou discordando da correção do professor.
## Agendamento de avaliação
- O incidente ocorre quando o professor deseja marcar a data de uma avaliação.
## Enquanto o professor está na lousa expondo a matéria, explicando deveres ou uma atividade, ou ainda, corrigindo exercícios
Todas estas atividades tem m em m comumum m o fato do professor estar na lousa no momento do incidente. O professor neste momento não interage com m os alunos, o discorre sobre o conteúdo enquanto o aluno tem m por obrigação escutá-lo.
## Enquanto os alunos resolviam exercícios individualmente
Neste momento da aula os alunos resolvem m exercícios de maneira individual, ou seja, sem m interação com m outros colegas, sem m haver troca de experiências.
## Enquanto o professor esclarecia dúvidas de parte da sala
Neste caso o professor está interagindo pelo menos, com m parte da sala.
## Durante uma aula em que os alunos trabalhavam em grupo
Para este tipo de aula é necessária a interação aluno-aluno, ocorrendo troca de experiências.
Tabela 2:Atitude do Professor Depois do Incidente
## DEFINIÇÃO DE CADA SUBCATEGORIA
## Tabela 2: Atitude do Professor Depois do Incidente:
## Ignorou a situação ou fugiu do problema
- O professor não faz nada depois do incidente, fingindo que nada aconteceu. Assim m o professor não participa da resolução do problema.
## Solicitou ajuda da coordenação do colégio
O professor exige a retirada do aluno da sala encaminhando-o para a Coordenação.
## Repreendeu o(s) aluno(s)
O professor chama a atenção dos alunos de maneira severa, sem m ouvir o aluno.
## Usou a avaliação como forma de punição
Neste caso o professor ameaça o aluno com m a avaliação, dizendo por exempmplo que a prova estará difícil, ou caso o aluno não faça o dever, receberá um m ponto negativo.
## Aplicou ou ameaçou o(s) aluno(s) com punição
O professor, neste caso, puni o aluno com m tarefas extras, ou expulsa o aluno da sala.
## 'Negociou" com o(s) aluno(s)
Esta atitude consiste no fato do professor barganhar vantagens com m os alunos, para conseguir que estes cumpmpram m com m o seu dever.
## Conversou com o(s) aluno(s) se explicando
Acontece quando o professor conversa com m os alunos, se explicando e procurando ouvir o aluno.
## Propôs o problema para a classe e aceita a idéia do aluno
Com m esta atitude o professor além m de conversar com m o aluno e ouvi-lo, procura em conjunto com m este resolver o problema, aceitando sua idéia.
## A atitude não foi descrita
Quando a atitude do professor não foi descrita pelo estagiário em m seu Diário de Campmpo.
## CLASSIFICAÇÃO DE ALGUNS EPISÓDIOS
- 1. Série: 2 ° ano do ensino médio
## Descrição:
O professor interrompmpe a explicação na lousa e pergunta se o pessoal do futebol gostaria de descer para o recreio antes do previsto. Com m essa atitude, a conversa que era generalizada, diminuiu bastante e ficou restrita a um m grupo reduzido de alunos.
## Momento da aula :
Enquanto o professor está na lousa expondo a matéria, explicando deveres ou uma atividade, ou ainda, corrigindo exercícios (6)
## Não existe relação interpessoal
Atitude do Professor :
Repreendeu o(s) aluno(s) (3) Ação mais diretiva
- 2. Série: 2 ° ano do ensino médio
## Descrição:
Nesta aula a professora pediu aos alunos que resolvessem m 15 exercícios sobre notação científica em m grupo, alegando que estes eram m necessários para o entendimento da próxima ma téria, que era dilatação. Os alunos protestaram m dizendo que a quantidade de exercícios era excessiva, portanto não iriam m resolvê-los. A profefessora então resolveu que aqueles exercícios seriam m para nota, e deveriam m ser feitos individualmente.
Momento da aula :
Durante uma aula em m que os alunos trabalhavam m em m grupo (9)
Existe relação interpessoal
Atitude do Professor : Usou a avaliação como forma de punição (4) Ação mais diretiva
- 3. Série: 7 ° ano do ensino fundamental
## Descrição:
Enquanto o professor estava dando aula um m aluno de outra classe abriu a porta da sala e chamou uma menina. Quando o professor viu, perguntou: "\_Não se pede mais licença? " E o aluno respondeu: "\_Aqui não tem m essas não. Então o professor disse que ele não falaria com ninguém m ali. O aluno saiu, porém m voltou em m seguida chutando a porta e ameaçando o professor. O professor procurou a direção e o aluno foi advertido verbalmente.
Momento da aula:
Fator de ordem m externa a aula (2)
## Não está relacionado diretamente a aula
Atitude do Professor:
Solicitou ajuda da coordenação do colégio (2)
O prof. não participa diretamente
- 4. Série: 3 ° ano do ensino médio
## Descrição:
Na terceira aula que o professor ministrou na sala, surgiu uma discussão com m os alunos, estes questionavam m o fato das aulas serem m fundamentalmente expositivas. Diante desta situação o professor conversou com m os alunos argumentando que infelizmente a maioria das aulas deveriam m ser expositivas, mas que no planejamento tambmbém m estavam m previstas outras atividades.
Momento da aula :
Enquanto o professor está na lousa expondo a matéria, explicando deveres ou uma atividade, ou ainda, corrigindo exercícios (6)
## Não existe relação interpessoal
Atitude do Professor :
Propôs o problema para a classe e aceita a idéia do aluno (8)
Ação mais branda menos diretiva
- 5. Série: 2 ° ano do ensino médio
## Descrição:
Um m aluno que tinha conversado durante toda a avaliação, perguntou ao professor em tom m de ameaça quem m fazia parte do "grupinho" de bagunceiros ao qual ele estava se referindo. O professor respondeu que aquele aluno era um m dos bagunceiros. O aluno bastante irritado chamou o professor de "bosta". O professor mandou que o aluno se retirasse da sala, mas o aluno disse ao professor que fosse chamar a coordenadora pois ele não sairia. O professor falou que quem m resolve os problemas da sala é ele, pois tinha autoridade para isto, podendo até registrar um m desacato. Dizendo isto o professor saiu para chamar a coordenadora, que retirou o aluno da sala para conversar.
Momento da aula:
Durante a avaliação (3)
Avaliação
Atitude do Professor:
Solicitou ajuda da coordenação do colégio (2)
O prof. não participa diretamente
## LEVANTAMENTO QUANTITATIVO
## Levantamento Quantitativo
## CONSIDERAÇÕES FINAIS
Analisando o Levantamento Quantitativo podemos perceber, como mostra a coluna em m destaque, que em m 46% dos incidentes críticos relatados, não existe relação interpessoal no momento em m que este ocorre. E como resposta a este incidente temos que a atitude do professor mais freqüente, como mostra a linha em m destaque, é uma ação mais diretiva, em 53% dos casos.
Outro ponto de destaque que podemos notar é o desinteresse e a ausência do professor, demonstrado através da falta de participação direta deste, depois do incidente, ou seja, em m sua resolução, em m 29% dos casos.
Quando existe relação interpessoal observamos a ocorrência de poucos incidentes, 14% dos casos, e foi interessante notar que apesar de existir relação interpessoal, ainda sim , a resposta do professor foi uma atitude mais diretiva em m 11 casos.
Com m este trabalho procurou-se desenvolver um m método de classificação, que melhorase o desenvolvimento dos estágios obrigatórios, dos alunos do último ano de Licenciatura em Física. Estágio este, que por mumuitos alunos é visto como uma tarefa obrigatória e desprovida de sentido prático. Este método de classificação procurou responder os anseios de uma turma no sentido de quantificar, analisar e discutir as diferentes respostas obtidas por eles em estágios realizados em m situações adversas. Principalmente sobre o que havia em m comumum nestas situações.
## BIBLIOGRAFIA
ALARCÃO, Isabel.. Reflexão Crítica Sobre o Pensamento de D. Schön e os Programas de Formação de Professores. In Revista da Faculdade de Educação, São Paulo, V. 22 n ° 2 jul./dez. , 1996
AQUINO, Julio G.. A indisciplina e a escola atual. In Revista da Faculdade de Educação, São Paulo, V. 24 n ° 2 jul/dez, 1998
CAMACHO, Luiza M. Y.. As sutilezas das faces da violência nas práticas escolares de adolescentes. In Educação e Pesquisa Revista da Faculdade de Educação da USP jan/jun. 2001.
SCHÖN, Donald A.. The reflective practitioner. How profissionals think in action. New York: Basic Books, 1983
MENDES, Inês .. O Desenvolvimento do Conhecimento Profissional de Professores de Física e de Ciências Biológicas. Belo Horizonte. UFMG/FAE, 2001
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