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CIÊNCIA, MÍDIA E EDUCAÇÃO: POSSÍVEIS CONFLUÊNCIAS NO ENSINO DE FÍSICA

Emerson Ferreira Gomes, Luís Paulo De Carvalho Piassi

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXI
Ano
2015
Data
29/01/2015
Linha de pesquisa
Ciência, Cultura E Arte
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## CIÊNCIA, MÍDIA E EDUCAÇÃO: POSSÍVEIS CONFLUÊNCIAS NO ENSINO DE FÍSICA

## Emerson Ferreira Gomes 1 , Luís Paulo de Carvalho Piassi 2

1 Universidade de São Paulo/Programa de Pós-Graduação Interunidades em Ensino de Ciências/emersonfg@usp.br

## Resumo

Múltiplas representações da ciência são veiculadas nos diversos meios de comunicação, incluindo as mídias de comunicação de massa impressas e videográficas (cinema, televisão, jornais, internet, quadrinhos, videogames), a produção de divulgação científica nos seus diferentes formatos (livros, revistas, documentários, exposições), os materiais de divulgação empresarial e institucional (propagandas, folhetos, websites), todas elas concorrendo de frente com os professores e com os materiais didáticos produzidos para a educação formal. Considerando o interesse do jovem em relação à atratividade da TV, da Internet, da propaganda, e assim por diante, de que forma pode a escola mostrar-se capaz de desafiar os jovens frente às suas próprias preocupações e expectativas culturais? Esta pesquisa analisa a relação entre ciência e mídia, especificamente sobre a representação da ciência em produtos da cultura da mídia. O objeto de estudo são produtos cultura da cultura pop como seriados de TV, canções do Rock e obras literárias. Para esta análise utilizaremos o referencial de Van Djick que afirma que existe uma negociação entre ciência e mídia, na divulgação e recepção da ciência.Verificamos que esses produtos época produzem um discurso sobre a natureza da ciência e seus contextos socioculturais.

Palavras-chave : Ciência e Mídia; Séries de TV; Rock; Literatura; ArteCiência

## Introdução

A ciência, como atividade cultural humana, é geralmente considerada como seara própria de especialistas. No entanto, o debate público da ciência - que incorpora cientistas e não cientistas - perpassa todos os âmbitos da vida social, não apenas através dos resultados das pesquisas convertidos em bens, serviços e regulamentos, mas através do processo de comunicação social que instaura múltiplas representações sobre a ciência e seu papel social, econômico, cultural e político. Esse processo ocorre desde a infância através da televisão, das publicações infantis e dos materiais didáticos. Ocorre que, a partir das transformações sociotécnicas ocorridas após a segunda metade do século XX e levadas ao limite nos tempos atuais, o saber científico não chega ao estudante apenas através da escola. Ao contrário, pouco a pouco, o principal veículo de acesso aos saberes científicos foi se deslocando da esfera escolar para a esfera midiática. Um estudante do início do século XX tinha acesso aos saberes da ciência primordialmente através dos bancos escolares. Outras esferas de sua vida social, tais como a família e a religião raramente veiculavam saberes oriundos do conhecimento científico. Ao contrário, muitas vezes contrapunham-se a ele. Hoje, ao mesmo tempo em que essa contraposição é menor ou menos eficiente1, essas esferas, assim como a escola, também perdem em favor da mídia o espaço que possuíam na formação dos jovens.

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26 a 30 de janeiro de 2015

Múltiplas representações da ciência são veiculadas nos diversos meios de comunicação, incluindo as mídias de comunicação de massa impressas e videográficas (cinema, televisão, jornais, internet, quadrinhos, videogames), a produção de divulgação científica nos seus diferentes formatos (livros, revistas, documentários, exposições), os materiais de divulgação empresarial e institucional (propagandas, folhetos, websites), todas elas concorrendo de frente com os professores e com os materiais didáticos produzidos para a educação formal. Considerando o interesse do jovem em relação à atratividade da TV, da Internet, da propaganda, e assim por diante, de que forma pode a escola mostrar-se capaz de desafiar os jovens frente às suas próprias preocupações e expectativas culturais?

## Cultura primeira e cultura elaborada

A investigação da relação entre mídias e escola não é nova. Aliás, conforme aponta Gonnet (2004), já desde o século XIX experiências escolares de incorporação das mídias ao ensino já vêm sendo propostas. Mais antiga ainda é, segundo o autor, a preocupação de que as mídias sejam uma ameaça à autêntica cultura: parte do debate entre Platão e Sócrates girava em torno dos prejuízos trazidos pela palavra escrita em relação à profundidade da cultura oral. Com isso, fica estabelecido desde logo um conflito que perpassa vários períodos, conflito esse fundado no receio de que as mídias possam trazer mais prejuízo do que benefício no que se refere à transmissão do legado cultural da humanidade. São variados os estudos, muitos deles empíricos como apontado em Mazzarella (2009), sobre a relação entre mídia e a educação. As posições são igualmente variadas, não cabendo nesse trabalho um levantamento detalhado de tais vertentes. O que desejamos abordar são os possíveis mecanismos que a escola pode adotar para lidar com o fato de que hoje, não apenas o principal foco de interesse, mas também a principal fonte de informação para o jovem se situa fora de seus limites.

Esse foi um aspecto trazido por Snyders (1988), que lançou bases para uma investigação dos saberes escolares como cultura e da cultura como fonte de satisfação, de realização por parte do jovem. Há, segundo o autor (SNYDERS, 1988, p. 23), uma cultura primeira, constituída fora da escola, espontaneamente e sem esforço, pela vivência cotidiana e pelas inclinações e interesses pessoais. Os elementos culturais presentes no ambiente social formam um sistema complexo, repleto de nuances e de fragmentos provenientes de diversas fontes. A televisão, o trabalho, os meios de comunicação, os ambientes que os jovens frequentam, as relações familiares tudo isso contribui na formação dessa matriz. São os elementos dessa cultura primeira que fornecem o que Snyders chama de 'alegrias simples' (SNYDERS, 1988, p. 24), que desempenham o papel de 'tréguas', momentos de prazeres descompromissados e, por isso mesmo, efêmeros, não permitindo alcançar a profundidade e a perenidade das 'alegrias ambiciosas', ligadas ao que o autor denomina cultura elaborada (SNYDERS, 1988, p. 50). O que Snyders diz é algo que percebemos intuitivamente na sala de aula: parece haver dois mundos de cultura completamente distintos. Um deles é aquele dos jovens alunos, com a música, a moda das roupas, das gírias e costumes, das formas de conquista e namoro, das festas e de tudo o que remete ao que poderíamos associar ao prazer de viver. O outro é o mundo da cultura letrada, das grandes obras e realizações da arte e da ciência, das grandes conquistas sociais e históricas, em tese aquilo que a escola estaria proporcionando a esses jovens. E aqui se abre um enorme fosso. Do ponto de vista do (estereótipo de) aluno, toda aquela matéria é uma chatice sem sentido, que não diz respeito às coisas importantes do seu mundo. Do ponto de vista do

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(estereótipo de) professor, os valores dos jovens são superficiais e prejudiciais à formação humana. Há a visão de que estes elementos da cultura dos jovens são produto de uma indústria cultural de massas, tendo pouco de expressão cultural legítima e autêntica, por estar a serviço dos interesses e da lógica da produção capitalista. O sentido do conhecimento é preservado para o aluno na medida em que seja capaz de aproveitar seus elementos e interesses culturais e vislumbrar no conhecimento científico instrumentos capazes de dar respostas às suas inquietações. Snyders, em sua obra 'A Alegria na Escola', afirma que o espaço escolar é um ambiente onde a 'cultura primeira' trazida pelo estudante - sendo esta decorrente de sua 'experiência direta da vida' ou a partir da recepção dos produtos da cultura de massa (SNYDERS, 1988, p. 30) - deve ser incorporada ao processo educacional, no sentido que traz a satisfação ao educando (SNYDERS, 1988, p. 36). Entretanto, Snyders reafirma a presença da 'cultura elaborada', que segundo Carvalho (1999) visa 'abrir o mundo', que é dirigida a todos, que pode ser verificada nas grandes obras de arte, no conhecimento científico e escolar (p. 164).

Conforme nos aponta Snyders, ao refletirmos sobre a possibilidade de integrar a cultura primeira do estudante - evidenciada pelo seu senso comum e suas concepções derivadas da cultura de massa - com a cultura elaborada - que permite ampliar a visão de mundo do estudante, representada pela arte, ciência e filosofia encontramos no rock, um meio de intermediar a cultura enraizada na subjetividade do estudante com o conhecimento científico.

## Uma outra ótica para a cultura midiática

O que Snyders (1988, p. 233) busca é evitar a escola que não diz nada aos alunos, que foge dos temas controversos ou ainda que relativize, deixando cada um com sua verdade, trabalhando apenas nos meios-termos, na zona de consenso. Os temas do mundo têm que ser trazidos para a sala de aula, têm que ser debatidos e problematizados e isso só se faz através dos elementos culturais que os alunos trazem para o contexto escolar

Van Dijck (2003, p. 182) vai um passo adiante e vê a ciência apresentada na mídia como integrante da própria construção social da ciência. Nessa perspectiva a vinculação entre cultura primeira e elaborada adquire uma natureza diversa e, ao mesmo tempo que torna mais difícil delimitar suas esferas, é dado reconhecer que a ciência, vista como saber coletivo, tem condicionantes tais que não a tornam um processo independente do mundo cultural e que as próprias questões trazidas no seio da cultura da mídia acabam sendo, de alguma forma, integradas ao projeto social coletivo da ciência. Enxergar a constituição da ciência em uma arena de negociação social, como propõe Van Dijck (2003, p. 183) pode trazer sentido às discussões sobre processos e produtos da ciência em sala de aula. Isso porque uma tal abordagem traz uma perspectiva do conhecimento científico como um processo dinâmico e condicionado não apenas por uma comunidade científica isolada, mas pelas relações presentes em todo o tecido social do contexto onde esse conhecimento se produz.

Essa afirmação de Van Djick entra em consonância com a tese que desenvolveremos neste texto: a potencialidade de educação em ciências que um produto cultural, presente na mídia, apresenta. O que nos traz a hipótese de utilizarmos o termo 'cultura da mídia' ao invés de cultura de massa, para a análise desses produtos. Essa expressão, para Douglas Kellner (2001, p. 52), 'tem a vantagem de designar tanto a natureza quanto a forma das produções da indústria

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cultural' e os modos de 'distribuição'. Portanto ao analisarmos essa relação social entre ciência e mídia, é importante evidenciar a instância e o contexto de produção desses produtos culturais.

## A presença da ciência na cultura da mídia

Diversos produtos midiáticos permitem estabelecer um articular a hipótese da ciência como cultura e que estabeleça pontes entre a cultura primeira e a cultura elaborada no contexto escolar. De desenhos animados a clipes de conjuntos de rock, diversos exemplos que aparecem na cultura da mídia permitem essa conexão e serão abordados a seguir. Comecemos com o exemplo do seriado Os Simpsons, que é produzido pela rede de televisão estadunidense Fox , desde 1989. O físico Paul Halpern em sua obra 'Os Simpsons e a Ciência' defende que o seriado apresenta questões que permitem refletir sobre a presença da ciência na sociedade. No que concerne às mesmas questões de espaço e tempo levantadas anteriormente. Em diversos episódios a teoria da relatividade está presente e salienta que Albert Einstein é o 'herói-cientista' da personagem Lisa, que se fantasia do físico alemão, no episódio 'A Árvore dos Horrores XVI', que foi ao ar em 6 de novembro de 2005 (HALPERN, 2008, p. 80).

Podemos verificar que nesses desenhos animados não apenas a presença dos fenômenos científicos são destacados, mas também enfatizam a caracterização do cientista. No caso dessa série de animação, o cientista da cidade de Springfield, John Frink, representa alguns estereótipos do cientista, como um personagem desastrado, despreocupado com a aparência física e genial. Além disso, a série inclui a participação de diversas personalidades relacionadas à ciência como o físico e cosmólogo Stephen Hawking, o paleontólogo Stephen Jay Gold, o químico Dudley Herschbach e o astronauta Edwin Aldrin. Vale destacar também destacar que a personagem Lisa Simpson possui denotações que poderiam ser identificadas num cientista sendo em alguns momentos ponderada, analítica, imaginativa e racional. Essa personagem ainda remete a diversas características, que podemos atribuir ao pensamento de Snyders sobre a cultura elaborada, pois é uma personagem que possui um pensamento crítico nas questões relacionadas à cultura da mídia, à política, ciência, arte e sociedade. Além disso, essa personagem permite uma identificação com o telespectador, especialmente com o adolescente. Para Halpern (2008, p. 16), o seriado explora essa proximidade entre a ciência e o jovem, de modo que 'a geração mais jovem pudesse ser persuadida' a 'seguir passos' dos cientistas que aparecem na série, além disso alguns os habitantes adultos de Springfield possuem 'indiferença ou hostilidade em relação à ciência' o torna esse direcionamento da ciência ao público em idade escolar mais evidente.

A presença de cientistas não é um fenômeno recente na indústria cultural, mas na última década, diversos filmes e séries de televisão vêm dando destaque tanto aos cientistas quanto à investigação científica. Vejamos dois recentes seriados estadunidenses: 'The Big Bang Theory' e 'Fringe'.

Em 'The Big Bang Theory', exibido originalmente desde 2007 pela rede CBS e atualmente no Brasil pelos canais Warner Channel e SBT, é uma comédia que retrata o cotidiano de dois físicos - Leonard, físico experimental e Sheldon, físico experimental - com os seus amigos - a bela vizinha garçonete e aspirante à atriz Penny e os cientistas Raji e Howard, respectivamente astrofísico e engenheiro. Realizada no formato de sitcom, em que os episódios são gravados com plateia, o seriado possui como tema principal a relação desses jovens cientistas com a

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sociedade. Esses cientistas são estereotipados como nerds nos episódios do seriado.

Nerds, conforme descrição de Chagas (2011, p. 5) se caracterizam pela aptidão em ciências exatas, pela predileção cultural por produtos da cultura pop como histórias em quadrinhos, cinema e videogames. Além disso possuem dificuldade de socializar-se com outras pessoas e demonstram 'opinão sólida e organizada com relação aos assuntos que dominam. Essa definição pode ser plenamente associada aos protagonistas do seriado, sendo que a interação sociocultural dos personagens é representada no tímido romance entre Penny e Leonard e nos diálogos recheados de retórica e sarcasmo entre os protagonistas sobre os temas da cultura pop e, principalmente, sobre a ciência (YIN; YUN, 2012, p. 1221).

Um fenômeno que observamos é a preocupação na precisão que esse tipo de produto cultural tem com a correção científica do seu conteúdo, pois sendo que essa temática tem a consultoria do físico David Saltzberg que contextualiza o roteiro do episódio com algum tema científico contemporâneo, seja nos diálogos ou na direção de arte do episódio (BEAHM, 2012, p. 199). Por conta disso, diversos temas contemporâneos da ciência, especialmente da física e da astronomia, aparecem nos episódios. Além disso, assim como 'Os Simpsons', diversos cientistas têm participado dos episódios.

Já o seriado de ficção científica 'Fringe' utiliza conhecimentos conemteporâneos na ciência e associa a temas relacionados às denominadas pseudociências. Este seriado apresenta a história de um grupo de investigação do FBI que utiliza o auxílio do cientista Waler Bishop. O cientista é apresentado como um personagem exótico e genial, que utiliza não apenas o conhecimento científico ortodoxo e formal, utilizando de métodos considerados marginais pela comunidade científica - 'fringe science', que dá nome ao seriado. Os temas científicos pelo seriado são interdisciplinares - englobando diversas áreas como física, genética, biologia, medicina, química, entre outras áreas - sendo que diversos estudos de ciência contemporânea, são incorporados ao seriado. Um dos temas que aparecem com frequência nos episódios de 'Fringe' é a possibilidade da existência de universos paralelos. Esse tema, muito comum na ficção científica, pode ter contrapartida científica desde a geometria não euclidiana do século XIX, assim como na interpretação quântica dos muitos mundos e em estudos contemporâneos de cosmologia (TEGMARK, 2011. p.55).

Outro exemplo recente que apareceu nas mídias é o romance policial 'Anjos e Demônios', publicado por Dan Brown em 2003 e adaptado para o cinema por Ron Howard em 2009. Tal obra menciona acelerador de partículas LHC, localizado na Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear (CERN) na Suiça, inaugurado em 2008. Essa obra apresenta o acelerador de partículas antes mesmo de sua inauguração. Vejamos um excerto da obra:

Quando Brownell finalmente se acalmou, explicou que um acelerador de partículas é um grande tubo circular dentro do qual partículas subatômicas eram aceleradas. Dentro do túnel, ímãs são ativados e desativados em rápida sucessão para "empurrar" as partículas adiante até que alcancem velocidades. As partículas totalmente aceleradas circulam pelo tubo a quase 300 mil quilômetros por segundo.

- - Mas é quase a velocidade da luz - exclamou um dos professores.
- - É isso aí - disse Brownell.

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E continuou a falar, explicando que, ao acelerar duas partículas em direções opostas à volta do tubo e depois fazê-las colidir, os cientistas podem desintegrar as partículas nas partes em que são constituídas e assim ter uma noção a respeito dos componentes fundamentais da natureza.

- - Os aceleradores de partículas - declarou Brownell - são cruciais para o futuro da ciência. A colisão de partículas é a chave para se compreender os blocos de que é formado o universo (BROWN, 2005, p.42)

Analisando o discurso dos personagens, identificamos que mesmo não tendo como objetivo final uma obra didática, o autor justifica a necessidade e o uso de aceleradores de partículas de forma contextualizada com as intenções de ensino. Neste caso, o papel do professor ao mediar esse produto cultural em sala de aula seria fundamental para aprofundar nos temas relacionados ao modelo padrão de partículas elementares a que o personagem se refere na narrativa. É válido notar ainda que esse tema, não é abordado com profundidade na maioria dos livros didáticos (SIQUEIRA; PIETROCOLA, 2005, p.9) o que justifica ainda mais o uso desses produtos midiáticos em sala de aula.

Além de apresentar as tecnologias, representar o papel do cientista e sua instância de produção, alguns produtos decorrentes da cultura da mídia destinados aos jovens, reiteram uma visão contemplativa e sócio-histórica da ciência, podemos encontrar isso em canções de rock, tanto nas letras, quanto na sonoridade.

Quando procuramos estabelecer o rock como uma manifestação cultural presente na cultura primeira no estudante, não nos referimos a hipótese rasa de que 'todo estudante é fã de rock'. Partimos de um princípio de que o rock é um fenômeno cultural que é não é rejeitado pelos estudantes, repercutindo conforme afirma Friedlander (2010, pág. 5) a 'cultura jovem e sua relação com a sociedade'. Por conta desse aspecto, acreditamos que o rock possui uma imagem positiva perante os jovens estudantes que o permite como agente tranquilizador, ao terem a 'noção de que músicos de rock estão excitados' quanto aos conceitos que aprenderão, defendido pelo astrônomo e educador Andrew Fraknoi (FRAKNOI, 2007, p.144).

No caso desta pesquisa, podemos citar um dos principais veículos de promoção das canções do rock: o vídeo-clipe. O vídeo da canção 'Next Year' do grupo Foo Fighters, lançado em 2000, retrata algumas missões espaciais da NASA (especialmente as missões Apollo 11 e Apollo 14) e a letra relata uma viagem espacial pelo narrador da canção. O narrador assume a posição de contemplador do nosso planeta, 'observando o vento circular através de todo o mundo' (GROHL; MENDEL; HAWKINS, 1999).

- O vídeo apresenta o contexto histórico das missões espaciais, inicia sua exibição com a decolagem da nave espacial, com imagens do público presenciando a decolagem da nave, com imagens de arquivo histórico. Em seguida, apresenta os integrantes do conjunto em situação de imponderabilidade no interior da nave - que demonstra na produção do vídeo foram utilizados aviões que simulam a situação de microgravidade - e atingindo o solo lunar. O cotidiano dos astronautas é retratado de forma saudosista, sendo que os personagens contemplam o espaço, o planeta Terra e a Lua com interpretações que reiteram situações melancolia e humor, no interior da nave, e de exaltação à valores coletivos como a pátria e ao próprio planeta Terra, ao atingirem o solo lunar. Ao retornarem ao planeta Terra, o vídeo exibe a recepção eufórica do público aos astronautas, ao mesmo tempo em que associa a jornada dos

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heróis da narrativa, aos conflitos armados decorrentes da guerra fria, como a Guerra do Vietnam, através de imagens históricas.

No caso deste produto cultural é possível o uso em sala de aula de questões que vão além dos conceitos em sala de aula, mas de questões relativas ao contexto sócio-histórico ao se produzir a ciência, levando em consideração suas questões sociais e políticas, o que determina a relação entre a ciência e o militarismo. Esse tema inclusive pode ser encontrado numa outra canção de rock, 'Tendo a Lua', dos Paralamas do Sucesso:

O céu de Ícaro tem mais poesia que o de Galileu

E lendo teus bilhetes, eu penso no que fiz

Querendo ver o mais distante sem saber voar

Desprezando as asas que você me deu

Tendo a lua aquela gravidade aonde o homem flutua

Merecia a visita não de militares,

Mas de bailarinos

E de você e eu (VIANNA, 1991).

Esta canção privilegia questões inerentes à natureza da ciência, sua epistemologia e sua relação sociopolítica com a sociedade. O discurso desta canção entra em consonância com o vídeo do Foo Fighters, principalmente na quando o autor da canção afirma que a Lua, 'merecia a visita, não de militares, mas de bailarinos' e do casal, associando a exploração espacial como estratégia de cunho militar, e não de cunho científico, o que de fato, aconteceu no período da guerra fria, conforme aponta Levine (1994, p. 177). Além disso, a expressão 'o céu de Ícaro tem mais poesia do que o céu de Galileu' identifica uma tensão entre os temas comumente associados à razão (ciência, militares) e às questões relacionadas à emoção ou ao imaginário (arte, amor, mitologia). Esse tipo de debate pode ser levado no contexto de sala de aula, de modo que possa trazer à educação básica questões éticas na ciência e que desmitifiquem o papel do cientista. Nesse quesito, ao contestar essa imagem do cientista herói e infalível, o estudante sente-se mais próximo desses temas, o que permite trazer a satisfação cultural ao educando.

## Considerações Finais

Diversos outros produtos culturais poderiam ser complementados como exemplos, que não caberiam neste artigo, cada mídia com sua representação particular da ciência. Ressaltamos que esses produtos midiáticos não devem ser levados apenas com o intuito de corrigir questões conceituais, mas de contemplar a função cultural e social da ciência.

E, coerentemente com tudo o que dissemos, não estamos pensando que produtos da cultura da mídia são meros artifícios que possam fazer o aluno se apropriar melhor deste ou daquele saber. Pensamos a mídia como um modo cultural de pensar o mundo que se articula de forma indissociável com a atividade e com pensar científico e suas repercussões socioculturais. E que se os produtos da cultura pop propiciam a apropriação de um determinado conteúdo é justamente porque este lhe é próprio, porque este está latente na obra como produto cultural de uma sociedade onde a ciência e a tecnologia desempenham papéis fundamentais.

## Referências Bibliográficas

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