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O conto de literatura na sala de aula e no ensino de história da física: a visão do professor em formação

João Eduardo Ramos, Emerson Ferreira Gomes, Luís Paulo Piassi

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXI
Ano
2015
Data
29/01/2015
Linha de pesquisa
Ciência, Cultura E Arte
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## O CONTO LITERÁRIO NA SALA DE AULA E NO ENSINO DE HISTÓRIA DA FÍSICA: A VISÃO DO PROFESSOR EM FORMAÇÃO

## João Eduardo Ramos 1 , Emerson Ferreira Gomes , Luís Paulo Piassi 2 3

1

USP/UNISO, joaoeframos@gmail.com 2 USP/UNISO, emersonfg@usp.br 3 EACH-USP, lppiassi@usp.br

## Resumo

A presente pesquisa tem como objetivo refletir sobre a relação entre física, cultura e história, e seu uso em sala de aula. Que contribuições a literatura pode oferecer como contextualização de elementos da história da ciência? O aluno em formação observa esta contribuição? Ele reconhece a importância desta relação cultural? Qual a opinião do professor em formação sobre a utilização da relação entre física e arte em sala de aula? Com resultados, obtidos a partir de uma avaliação envolvendo a leitura do conto fantástico 'A Milésima Segunda Estória de Xerazade' do escritor norte americano Edgar Allan Poe, observamos que os professores conseguem observar a presença de elementos científicos no conto, no entanto, não o relacionem diretamente com o contexto de produção da obra. Em relação a utilização do conto no ensino, os estudantes propõem atividades pontuais de leitura na escola básica, desde que se mantenha as aulas tradicionais. Analisamos as respostas dos alunos com o auxílio da Análise do Discurso.

Palavras-chave : Leitura, Literatura, História da Física, Ensino Superior, Formação de professores

## Introdução

A ciência não está num patamar superior à sociedade, como se não pertencesse a esta. Ela é parte constituinte da sociedade e está imersa juntamente com diversos outros elementos como a política e a saúde. Dessa maneira ela pode tanto influenciar quanto ser influenciada por diferentes áreas desta sociedade. E é nesta zona de mútua influência que é possível observar, por exemplo, as relações entre Ciência e Arte, em suas diferentes representações seja no Teatro, na Literatura, na Música e entre outras. Por conta disso, diversos pesquisadores incorporam e defendem o uso de diferentes linguagens da arte como recurso didático no ensino de ciências: seja o cinema (ANDRADE, 2000), a literatura (MOREIRA, 2002; SILVA, 2006; PINTO NETO, 2004), a música (RIBAS e GUIMARÃES, 2004), ou o teatro (OLIVEIRA e ZANETIC, 2004).

Portanto, ao pensarmos em física e no seu ensino, podemos ir além e dialogar com o seu contexto histórico e cultural. Ou seja, entender a construção da ciência olhando a sua história, mas também dialogando com outros elementos desse contexto - como as produções artísticas que apresentam a ciência daquela época. Seguindo esta proposta temos identificado autores (KNIGHT, 2004; WILSON, 2009; BRAGA, GUERRA e REIS, 2013) que investigam essa relação cultural, a partir do substrato teórico da História da Ciência.

A presente pesquisa tem como objetivo refletir sobre a relação entre física, cultura e história e seu uso em sala de aula. Que contribuições a literatura pode oferecer como contextualização de elementos da história da ciência? O aluno em

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26 a 30 de janeiro de 2015

formação observa esta contribuição? Ele reconhece a importância desta relação cultural? Qual a opinião do professor em formação sobre a utilização deste tipo de atividade em sala de aula?

Para responder estas questões realizamos uma atividade com alunos de graduação em licenciatura em física durante a disciplina História e Evolução dos Conceitos da Física. Esta atividade contou com a leitura, e posterior trabalho, do conto, A milésima-segunda estória de Xerazade do escritor Edgar Allan Poe, publicado em 1845, que narra como teria sido a 1002ª noite de Xerazade junto ao Sultão. Nessa noite, a história que ela conta sobre a última navegação do marinheiro Simbá, é cheia de descobertas tecnológicas e científicas que irão causar um desconforto para o Sultão, devido ao choque de realidades, uma vez que as descobertas científicas, no contexto do Sultão, não passam de acontecimentos impossíveis e mentirosos.

Escolhemos o conto como gênero a ser utilizado pelo fato de se tratar de gênero de leitura rápida, que se mostra como uma ótima ferramenta a ser trabalhada em sala de aula oferecendo aos alunos uma breve vivência literária (HAMILTON e KRATZKE, 1990).

- O conto de Poe pertence a um gênero literário chamado de literatura fantástica. Segundo Todorov (2004), considerando o contorno, - o estranho (real) e o maravilhoso (imaginário) - o ponto principal do fantástico, é a característica de produzir no leitor implícito a hesitação entre um mundo real e outro sobrenatural. Já Rabkin, ao também estudar o fantástico, considera uma iluminação a mudança drástica de perspectiva que o fantástico proporciona, uma vez que, durante a leitura, o novo contexto reconfigura a semântica da palavra, mostrando facetas que não eram percebidas. Esta função do fantástico é educacional em sua raiz: 'ela leva da escuridão à luz, cria na mente uma reversão diametral e abre mundos novos e fantásticos.' (RABKIN, 1977, p. 25).

Dada as suas características o fantástico aparece como um desconstrutor das cadeias de causa e efeito - nas quais o meio se rebela contra o fim e a circularidade do tempo é privilegiada, a mostrar para as pessoas o espantoso absurdo da existência que vivemos - ele pode influenciar nas formas de pensar um determinado assunto.

A metodologia para a realização da pesquisa pode ser dividida em quatro momentos. Inicialmente foi realizado um levantamento sobre o estado da arte relacionado a pesquisas abordando o uso tanto da história da física quanto de sua relação com a cultura em atividades didáticas. Buscamos investigar, dialogando com o contexto de produção da obra e a narrativa do conto em si, sobre o que trata a história, quais elementos científicos estão presentes, como estes se relacionam com o contexto da época, entre outras. Com este material, elaboramos a aplicação em sala de aula. Por fim, após a coleta dos materiais de sala de aula, analisamos as respostas dos alunos utilizando como base elementos da análise de discurso. O presente trabalho apresenta apenas os resultados preliminares de sala de aula.

## Sobre a atividade em sala de aula e a metodologia de análise

A atividade foi realizada com alunos de licenciatura em física, durante a disciplina História e Evolução dos Conceitos da Física, ministrada para os

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estudantes do segundo e do terceiro ano do curso. Haviam cinco alunos matriculados e todos realizaram a atividade.

A disciplina possuía uma ementa no qual o percurso histórico é contemplado de forma cronológica. A aplicação deste conto se situou num momento em que estava sendo apresentada a Física e suas relações com o período da primeira Revolução Industrial, no final do século XVIII e início do XIX. O século XIX deveria assistir a grandes desenvolvimentos em todos os ramos da ciência. Além do mais, a ciência passa a apresentar um aspecto mais público e com consequências práticas à sociedade. É nesta época que vamos encontrar a invenção da locomotiva (1804) e do barco a vapor (1807), do telégrafo (1835), por Samuel Morse, do telefone (1876), da lâmpada elétrica (1879), entre outros.

- O perfil dos estudantes, identificados anonimamente, a partir de nomes fictícios, e com autorização dentro dos padrões da ética acadêmica, é:

Tabela 01: Perfil dos estudantes participantes da pesquisa .

A leitura do conto foi realizada junto aos alunos e em voz alta. Ela foi realizada duas vezes, em duas aulas distintas, para garantir que todos os alunos participassem da leitura. Em seguida foram distribuídas as cinco questões para serem respondidas individualmente e entregues posteriormente. Possibilitando aos alunos realizar a atividade em casa e consultar o conto o quanto fosse necessário. As questões foram:

- 1) De que forma o conto relaciona questões de ciência com alquimia, magia e religião? Esses pontos são importantes para refletir sobre a história da ciência?;
- 2) O conto contextualiza com a ciência e a situação histórica de Edgar Allan Poe de que forma? Cite alguns exemplos do conto;

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- 3) Quais áreas das ciências aparecem nas histórias contadas por Xerazade. De que forma elas se articulam com o momento histórico em que foi escrito o conto;
- 4) As notas de rodapé são necessárias ao conto? Justifique;
- 5) Pensando no ensino de Ciências, especialmente no ensino de Física, qual o potencial dessa aplicação em sala de aula? E de contos em geral?

De maneira geral, as questões tratam da ciência presente na história e se o aluno de física consegue observar estas e outras relações, como a possibilidade de reflexão da história da ciência. Além das questões relativas ao texto e sua relação com a história e a ciência, questionamos os alunos sobre a sua visão em relação à utilização deste tipo de atividade no ensino básico.

Após a realização da atividade, analisamos os textos entregues com o auxílio de elementos da Análise do Discurso. Conforme afirmação de Maingueneau (2008, pág. 153), a Análise de Discurso sugere uma prática interdisciplinar que integra a 'natureza da linguagem e da comunicação humana' com a sua 'dimensão cognitiva', inscrita em atividades sociais. No sentido social do discurso podemos também estabelecer as condições em que ele foi produzido, ao que Pêcheux (1997, p.63) questiona: 'O que quer dizer esse texto?'; 'Que significação contém esse texto?'; 'Em que o sentido desse texto difere do outro?'. Além das condições de produção e da dimensão social do texto, a Análise de Discurso possibilita investigar o aspecto ideológico do texto, o que nos leva a Bakhtin que verifica no discurso um significado ideológico além do texto (BAKHTIN; VOLOCHÍNOV, 2006, p. 31).

Na área de Ensino de Ciências podemos verificar trabalhos que utilizam a Análise do Discurso para identificar os gêneros de discurso presentes nos livros didáticos (BRAGA e MORTIMER, 2003; NASCIMENTO e MARTINS, 2009) e os trabalhos de Maria José P. M. de Almeida que identificam as condições de produção textual nas aulas de leitura em ciências (SILVA; ALMEIDA, 1998) e (ALMEIDA; SILVA; MACHADO, 2001). A Análise de Discurso se configura como um referencial que permite identificar os aspectos externos ao texto, no sentido ideológico, social, intertextual e interdisciplinar.

## Resultados e discussão

Todos os alunos, uns com descrições mais detalhadas do que outros, conseguiram observar a presença de conceitos científicos no conto, o que não é uma surpresa dado o contexto em que a atividade foi realizada, uma aula sobre história da física. Além do mais, o conto de Poe torna bastante clara a presença destes conceitos por meio das notas de rodapé, como é reconhecido pelos alunos: 'considero de um modo geral que as anotações de rodapé acabam por ser um recurso importante e facilitador para uma boa compreensão do conto' (Gustavo) ; 'mediante a existência delas é que podemos perceber a riqueza de informações que Xerazade detinha nos seus contos' (Bruna) ; 'São necessárias, porque servem de apoio para concretizar as citações contidas no conto' (Roberto) ; 'necessárias e importantes porque desta forma podemos situar a narrativa utilizada pelo autor, isto é, saber do que se trata' ( Carlos ).

Pelas respostas notamos que sem as notas de rodapé não seria possível identificar os fenômenos descritos. Isto fica claro a partir das afirmações de que as notas são um importante recurso facilitador para uma boa compreensão do conto e das descrições presentes na história. Um aspecto que nos chamou a atenção foi a

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proposta do aluno Roberto ao afirmar que as notas servem de apoio para concretizar as citações do conto. Esta noção de concretizar traz a ideia de que a descrição presente na nota de rodapé torna real algo que está sendo descrito.

Além de identificar a presença de conceitos científicos, os alunos apontam a importância do conto como forma de estudo da história da ciência uma vez que o conto representaria a desmitificação da ciência em relação aos mitos antigos. 'Um ponto importante na reflexão da história da ciência, uma vez que atualmente, podemos desmitificar muitas associações errôneas, que antes eram muito vigentes e aceitas pela falta de conhecimentos ou de informações.' (Gustavo) ; 'Sendo importante, pois muitas coisas eram explicadas através da alquimia utilizando eventos, mateiras (sic) , substâncias naturais.' (Sueli) ; 'Sim acredito que sim porque a ciência na linha tempo e por eras esta alicerceada por controles religiosos, crenças de magia alquimia, para justificar fenômenos naturais como gravitação, astronomia, mecânica, etc...' (Carlos) . Faz-se presente no discurso dos alunos a necessidade de mostrar o processo de evolução científica e que a ciência atual seria a verdadeira ciência. É importante lembrar que as descrições presentes no conto, são descrições de fenômenos de meados do século XIX, mas com uma linguagem natural, de quem não conhece as tecnologias do presente. Neste sentido, as descrições não estão erradas, ou mistificadas, estão apenas em outra roupagem. O que haveria de místico em um submarino? Neste sentido, Poe critica a compreensão pública da ciência que não vê os progressos, ao mesmo tempo em que ele critica esses progressos.

Quanto à utilização do conto em sala de aula, no ensino de física, os licenciandos não foram contrários a sua utilização, apontando que este pode possibilitar o diálogo com alunos que não gostam da área de exatas. Ao mesmo tempo, é possível observar que os estudantes ainda se prendem a um modelo tradicional de ensino de física. Para Carlos, 'Vejo de forma positiva e eficiente porque temos a oportunidade de colocar temas importantes da ciencia (sic) de uma forma que agrada a audiencia (sic) , mas devemos abordar de forma pontual, isto é, para contextualizar a matéria a ser abordada como um pré-trabalho e em seguida a teoria convencional.'.

Nesta resposta do aluno, há uma preocupação com o estudante, de levar algo para a aula que agrade. Mas, que seria algo pontual. Ao que indica que a preocupação do aluno é a de transmitir o conteúdo convencional, seja ele agradável ou não. Da forma que a resposta está elaborada fica clara a relação de que a teoria convencional, na visão do aluno, não agrada ao estudante escolar em contraposição ao conto e a história da ciência. Não estamos questionando a validade de uma aula tradicional, no entanto, acreditamos que estes elementos deveriam se inserir não apenas de maneira pontual.

Esta contraposição com uma aula tradicional também aparece na resposta de Gustavo, 'percebemos que a aplicação de contos como uma das estratégias de ensino se torna um recurso ou mesmo uma técnica muito atraente, que deve buscar não só fazer com que o estudante pense a respeito da imensidão de conhecimentos científicos que o cerca, como também busca quebrar em alguns momentos a rotina da aula tradicional . (...) Por isso, acredito sim que a Física pode se utilizar de elementos da Literatura e vice-versa, com o objetivo de uma função educacional, onde são criadas analogias que podem ajudar a explicar os conceitos físicos e que procurem estimular o aprender científico de nossos estudantes.' (grifo nosso).

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Para Gustavo, os contos são uma técnica muito atraente que pode quebrar em alguns momentos a rotina da aula tradicional, o que estimularia o aprender científico dos estudantes. O aluno neste caso defende a necessidade de se pensar um ensino de física que articule o conhecimento científico com outras áreas, convidando o estudante a refletir sobre a imensidão do conhecimento científico.

Há tanto para Ricardo quanto para Bruna, uma preocupação com os alunos que não gostam de física, ou os que não vão trabalhar com ela. Segundo Bruna, o conto é um, 'ótimo instrumento para disseminação da física, (...), uma vez que atraí a atenção de todos os alunos, inclusive os que não gostam tanto das áreas de exatas.' ; Já para Ricardo, 'O potencial do ensino de física em sala de aula deve ser voltado primeiramente para conscientizar mesmo aqueles alunos que não vão usar os conhecimentos desta ciência em suas profissões, a estudá-la, pois ela está presente no dia-a-dia de qualquer cidadão.' .

Para estes alunos, a ponte entre a física e a literatura é uma forma de mostrar que o conhecimento não se limita a apenas uma área, como feito também no relato de Gustavo, mas para dialogar com os estudantes que não gostam de cálculo. No relato de Bruna, há um ponto interessante que é a proposta de utilizar o conto para atrair a atenção do aluno, ou seja, levar uma atividade que não deixe o aluno disperso e faça com que ele dê atenção ao professor.

Nos relatos desta última questão, fica evidente a preocupação de mostrar a ciência presente em outras áreas e de tentar se aproximar do aluno, de aumentar o interesse dele e atrair a sua atenção. Embora tenham pouco contato com a sala de aula, os licenciandos já apresentam uma noção da necessidade de repensar algumas práticas didáticas do ensino de física, de forma a aproximá-la dos alunos que não gostam de física.

Ainda no relato desta última questão, vemos que não são todos os alunos que apontam para uma visão mais ampla do conhecimento científico. Isto se faz presente no relato de Gustavo quando afirma que 'o estudante pense a respeito da imensidão de conhecimentos científicos que o cerca' . No entanto, não parece haver uma reflexão sobre caráter cultural da ciência, dessa forma o simples fato de ser uma possibilidade didática atraente acaba se sobrepondo a uma discussão desta dimensão cultural da ciência.

## Conclusão

O conto nos permitiu observar que em uma disciplina como História e Evolução da Física é importante o estudo de obras artisticas e culturais que dialoguem com a ciência e sua história, e que possam ser trabalhadas em atividades didáticas na educação básica. São momentos como este que o professor em formação pode refletir sobre sua prática no sentido de dialogar com outros elementos além do tradicional.

A partir dos resultados obtidos, vemos que os alunos tem consciência da necessidade deste olhar diferente para a ciência e o seu ensino. No entanto se faz necessário um maior contato com estes materiais e discussões sobre este caráter cultural da física e reflexões de como realizar estas atividades em sala de aula. Possibilitar um contato maior com estes elementos pode transformar essa ideia de aula tradicional vista pelos alunos. Pois, embora se interessem e reconheçam a importância, o que garante que este tipo de atividade chega a sala de aula? Será que o professor se arrisca? Há espaço para o professor tentar algo diferente?

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Pensando na literatura e seu diálogo com a história da ciência, vemos que a literatura pode contribuir como uma forma de conhecer melhor o que outras pessoas pensavam em determinados momentos históricos. Mais do que a linguagem técnica científica, a literatura se aproveita de uma linguagem diferente para apresentar o mundo. No caso do Poe, isto fica claro quando ele dá características orgânicas e animal as descobertas tecnológicas de sua época. Esta transformação de máquina em natureza se torna estranha na descrição do conto e termina colaborando para a caracterização do fantástico.

Desta maneira, o fantástico, em relação a história da ciência, se mostra uma ferramenta bastante interessante uma vez que, no caso de Poe, nos mostra que a ciência e a tecnologia podem ser inverossímeis em certos contextos. Além do mais, o texto fantástico pode realizar um efeito de estranhamento (ANDREIS, 2009, p. 23) no leitor, já que o fantástico atua como um (des)construtor de cadeias lógicas, mostrando assim uma outra forma de mirar, e 'ad-mirar', como defende Paulo Freire, o mundo.

Certamente quando Poe escreveu seus contos ele não pretendia ensinar ciências. Este intertexto surge a partir do momento em que com o olhar de cientista e educador, olhamos para a obra e vemos suas possibilidades didáticas. Possibilidades de dialogar com outro contexto científico, com diferentes descrições da ciência - completamente diferente das presentes nos livros didáticos -, com críticas à ciência, entre outras. Além de tentar construir um ensino de física que não seja pautado apenas na aplicação de equações prontas e resolução de exercícios (ZANETIC, 2005, p. 21).

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