EDUCAÇÃO AMBIENTAL NO ENSINO DE FÍSICA POR MEIO DE EXPRESSÕES ARTÍSTICAS
Fabiana Alves Dos Santos, Fernanda Da Rocha Carvalho
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXI
- Ano
- 2015
- Data
- 29/01/2015
- Linha de pesquisa
- Ciência, Cultura E Arte
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## EDUCAÇÃO AMBIENTAL NO ENSINO DE FÍSICA POR MEIO DE EXPRESSÕES ARTÍSTICAS
## Fabiana Alves dos Santos¹, Fernanda da Rocha Carvalho²
¹UFABC- Universidade Federal do ABC /Programa Ensino, História e Filosofia das Ciências e Matemática, fabiana\_ifspfisica@hotmail.com
²UFABC- Universidade Federal do ABC /Programa Ensino, História e Filosofia das Ciências e Matemática, fernandarochac@yahoo.com.br
## Resumo
Atualmente vem se tornando grande a preocupação com os aspectos da construção do conhecimento científico a partir de uma perspectiva sociocultural, pois esta pode proporcionar o desenvolvimento de uma postura crítica e autônoma no aluno. Além disso, temas contemporâneos, como as questões ambientais, vêm se tornando frequentes na educação básica por se tratar de um assunto cujo conhecimento auxilia o aluno a compreender seu papel social e os impactos de suas ações no meio em que vivem (BRASIL 2002). Para que haja o desenvolvimento de um 'novo espírito científico' deve surgir um diálogo entre duas culturas, sendo elas a física e a humanidade, permitido que múltiplas linguagens sejam consideradas, experimentadas e vivenciadas (FAGUNDES, 2011).
Com base nessas reflexões, esse trabalho apresenta um paralelo entre a ciência e as linguagens artísticas com o objetivo de proporcionar diferentes possibilidades para inserir discussões sobre questões ambientais nas aulas de Física. A utilização de expressões artísticas torna possível que os estudantes estabeleçam diferentes relações com a ciência e isso poderá possibilitar diferentes significados em seu aprendizado científico. As linguagens artísticas propostas nesse trabalho são música, imagens, filmes e literatura, dentre as quais a literatura foi trabalhada com uma turma do segundo ano de ensino médio. Dos resultados, foi possível identificar quais os principais assuntos de interesse dos estudantes e suas interpretações sobre o tema. Ao utilizar essas informações para a elaboração das aulas futuras é permitir que o aluno participe da construção do seu conhecimento já que toda leitura ou interpretação articula-se com imaginário de quem o interpreta.
Palavras-chave : Ensino de Física, Complexidade, Ciências e Artes
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## Introdução
Segundo os Parâmetros Curriculares Nacionais (BRASIL, 2002) o conhecimento científico pode proporcionar ao estudante uma postura crítica e autônoma contribuindo para que ele desenvolva uma 'cultura científica'. Segundo Fagundes (2011), para que haja a possibilidade de formar um 'novo espírito científico' deve surgir um diálogo entre 'duas culturas', sendo elas a física e a humanidade. Para tanto é necessário que múltiplas linguagens sejam consideradas, experimentadas e vivenciadas. Para um 'novo espírito científico', na concepção de Bachelard (1996), torna-se essencial a experiência e reflexão sobre os fenômenos estudados.
A cultura e o conhecimento científico tornam-se fundamentais para as observações e diagnósticos de fenômenos que ocorrem na natureza e na sociedade (BRASIL, 2002). As questões que permeiam a vida contemporânea, a exemplo do estudo relacionado ao meio ambiente, passaram a ser relevantes na educação básica, sendo algumas delas indicadas nos documentos oficiais que balizam o ensino (BRASIL, 2002). Assim, as questões socioambientais vêm ganhando espaço por se tratar de um tema amplamente veiculado na mídia. De forma geral, a abordagem adotada nesses meios de comunicação são pautadas em uma visão determinista e catastrófica, o que pode conduzir a uma discussão pouco crítica. Diante disso, cabe ao docente o desafio de promover reflexões capazes de articular a visão da ciência com outras esferas do conhecimento (social, política, econômica, cultural etc.), promovendo uma formação científica pautada na Educação Ambiental Crítica, Complexa e Reflexiva (CARAMELLO, 2012). A educação científica deve proporcionar situações de ensino nas quais o aluno seja estimulado a refletir de forma crítica sobre a ciência e seu papel na sociedade em que vive.
Com base nessas reflexões, percebe-se que é fundamental que a escola tome para si a responsabilidade de estabelecer e identificar as relações existentes entre cultura científica e humana, religando olhares de diferentes saberes e esferas de conhecimentos, possibilitando assim uma educação significativa e que contribua de fato para a constituição de um cidadão comprometido com seu mundo e história (FREIRE, 1987).
## Física e expressões artísticas para uma abordagem socioambiental
As diversas expressões artísticas apenas apresentarão significados se forem antes interpretadas, cada qual em seu próprio sentido. Cada indivíduo poderá apresentar diferentes interpretações da mesma música que ouviu, da mesma obra que leu ou da imagem que observou. Isso porque, segundo Orlandi (2010), nenhuma leitura ou interpretação de mundo é transparente ou neutra, ela articula-se com a construção histórica e o imaginário de quem a interpreta. Nesse sentido ver a ciência como arte inclui a percepção, interpretação e compreensão do indivíduo como parte integrante da construção do conhecimento. Isso não significa igualar esses conhecimentos, mas sim buscar conectar diferentes tradições históricas (CROCHICK, 2013) o que poderá possibilitar diferentes significados ao conhecimento científico.
Na maioria das vezes, os conteúdos de ciências são trabalhados como um conhecimento pronto e acabado e seus significados se expressam independentes dos indivíduos que os interpretam. Os alunos muitas vezes são vistos apenas como:
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'[...] um fotógrafo, fora de campo'. Onde '[...] As observações eram os reflexos das coisas reais, e toda subjetividade poderia ser eliminada pela concordância das observações e a verificação das experiências (MORIN, 1991 p. 114-115).
Ao adotar a interpretação e subjetividade na construção do conhecimento científico reconhece-se que a aprendizagem significativa se dá por meio da construção do conhecimento como parte fundamental de processo de ensino.
## Metodologia
A partir das reflexões apresentadas, este trabalho busca apresentar algumas propostas para a inserção da temática ambiental nas aulas de Física utilizando expressões artísticas como forma de diálogo entre a ciência e a humanidade, considerando a interpretação, compreensão e subjetividade dos alunos como parte integrante na construção do seu próprio conhecimento.
Tais propostas fundamentam-se nos pressupostos de Problematização Inicial (DELIZOICOV & ANGOTTI, 2002), os quais definem que o trabalho docente no ambiente escolar está atrelado à dinâmica de apresentar questões e/ou situações reais em que os alunos vivenciam e conhecem, para que possa motivar discussões e diagnosticar seu conhecimento prévio. Essas discussões iniciais não devem fornecer explicações prontas ao problema, mas desenvolver meios e situações para explorar os questionamentos e interpretações dos alunos, buscando entender suas concepções sobre um determinado assunto, para no futuro iniciar a construção de um novo conhecimento.
## Algumas propostas para a sala de aula
As expressões artísticas utilizadas para a elaboração da proposta apresentada nesse trabalho são música, imagens, filmes e literatura (ficção científica). O objetivo principal é trabalhar com a subjetividade dos alunos, tornando as interpretações não como gesto passivo, mas ativo, interpretativo e único já que a percepção de cada sujeito é antagônica. Cabe ressaltar que este trabalho apresenta apenas algumas propostas de expressões artísticas, pois o foco está na relação que se deve estabelecer com essas linguagens e o ensino de Física, dando assim a liberdade para que outras linguagens artísticas sejam consideradas. Além disso, não há interpretações sobre as expressões utilizadas, pois interpretar e obter significados é algo subjetivo de cada individuo, a percepção e interpretação dessas obras são complementares cada vez que são re-percebidas. Tratar a ciência como arte propõe atividades construtivas e integrantes da atividade científica (CROCHICK, 2013).
Música No quadro 1 é apresenta uma proposta de música que trata das relações entre o homem e a natureza. A composição na linguagem musical é escrita em uma linguagem que possibilita sua reprodução ou reescrita sem que seu sentido seja perdido. Desse modo essa linguagem se assemelha ao trabalho científico já que este também pode utilizar de diferentes símbolos e notações sem que tenha seu sentido modificado (CROCHICK, 2013).
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## Quadro 1 - Música
A vida e a natureza sempre à mercê da poluição / se invertem as estações do ano / faz calor no inverno e frio no verão / os peixes morrendo nos rios / estão se extinguindo espécies animais / e tudo que se planta, colhe / o tempo retribui o mal que a gente faz
Onde a chuva caía quase todo dia / já não chove nada / o sol abrasador / rachando o leito dos rios secos / sem um pingo d'água. / quanto ao futuro inseguro / será assim de Norte a Sul / a Terra nua semelhante à Lua
O que será desse planeta azul? / O que será desse planeta azul? / o rio que desce as encostas já quase sem vida / parece que chora um triste lamento das águas / ao ver devastada, a fauna e a flora / é tempo de pensar no verde / regar a semente que ainda não nasceu / deixar em paz a Amazônia, preservar a vida / estar de bem com Deus.
Chitãozinho e Xóroro - Planeta Azul
Imagens, literatura e filmes Essas linguagens incentivam o uso da abstração e subjetividade dos alunos. Tais capacidades foram fundamentais a alguns cientistas para formularem leis físicas. Um exemplo é Albert Einstein que utilizou da imaginação da abstração para elaborar a teoria da relatividade antes de descrevê-la matematicamente. O mesmo pode-se dizer de Johannes Kepler ao estabelecer as leis dos movimentos planetários e Galileu Galilei para descrever a Lei da Gravitação Universal, entre outros. Nesse contexto podemos perceber a importância da abstração e sensibilidade para o desenvolvimento do pensamento científico.
Quadro 2 Imagens
## O homem e o Aquecimento Global
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## Quadro 3 Filmes
Esses documentários buscam retratar quais os impactos de nossas ações no meio ambiente. Apresentam ainda como os interesses econômicos e políticos podem contribuir para a degradação do eco sistema e com isso pode influenciar negativamente na via dos seres que nele habitam.
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Uma verdade inconveniente
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A história das coisas
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## Quadro 4 Literatura
O livro 'O estado do medo' de Michael Crichton refere-se a uma ficção que apresenta discussões sobre o aquecimento global entre grupos ativistas e céticos. Apesar de ser uma história fictícia, o autor escreveu o livro baseado em uma pesquisa que realizou sobre o assunto e procura alertar o leitor dos riscos de uma ciência politizada.
Com a utilização dessas expressões espera-se compreender as concepções dos estudantes acerca da temática ambiental, considerando nesse processo a interpretação e compreensão de cada indivíduo. Além disso, a abstração e a subjetividade tornam-se partes essenciais na construção do conhecimento científico determinado pela leitura que cada um realiza. Retirar o observador de cena é deixar obscura parte da interação que necessariamente há entre o sujeito e o objeto, entre o cientista e o meio (MORIN, 1991).
## Alguns resultados e análises
Dentre as propostas apresentadas a literatura foi trabalhada com uma turma do segundo ano de ensino médio nas aulas de Física. Para isso utilizou-se um trecho do livro 'Estado de medo' (CRICHTON, M. 2005. p. 97/105) o qual diz respeito a uma entrevista onde dois cientistas (cético e ativista) expressam opiniões contrárias sobre as mudanças climáticas e discutem sobre as evidências do aquecimento global.
Após a leitura do texto, foi proposta uma roda de conversa para que os alunos expressassem suas opiniões e compreensões sobre o que haviam acabado de ler. Com essa atividade foi possível identificar quais os assuntos que mais despertaram o interesse dos alunos, quais suas dúvidas e sobre quais assuntos eles gostariam de obter mais conhecimento. O quadro 5 , apresenta de forma sintética as expressões dos alunos sobre o texto.
Quadro 5 Assuntos que mais despertaram o interesse dos alunos
## O que mais chamou a atenção na reportagem
- · As opiniões contrárias dos dois cientistas sobre o aquecimento global
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- · As mudanças na temperatura terrestre durante os séculos
- · A intervenção humana na natureza com poluições dos transportes e fábricas
## As relações entre a leitura e o cotidiano dos alunos
- · Mudanças climáticas intensas
- · Falta d'água enfrentada nesses últimos dias
- · Poluição de carros, ônibus, fábricas etc.
## Assuntos que gostariam de melhor compreenderem
- · Entender porque os dois cientistas possuem opiniões tão diferentes sobre o mesmo assunto
- · Se a aquecimento global está causando a falta de água nos últimos dias
- · Se a poluição pode afetar o clima
Com base nessa análise preliminar é possível identificar quais os principais assuntos de interesse dos alunos, as interpretações e relações estabelecidas com o tema. A resposta de cada estudante expressa sua subjetividade, essas problematizações iniciais possibilitam conhecer as interpretações dos alunos para que se inicie a construção de um novo conhecimento. Utilizar dessas informações para a elaboração das aulas futuras é, de certo modo, permitir que o aluno participe da construção do seu conhecimento já que toda leitura ou interpretação articula-se com o imaginário e a construção história de quem o interpreta (ORLANDI, 2010).
## Considerações finais
Alguns autores expressam a importância de proporcionar a construção do conhecimento científico a partir de uma perspectiva sociocultural, a qual pode auxiliar no desenvolvimento de uma 'cultura científica'. Para isso existe a necessidade de uma reforma no ensino atual, buscando um diálogo entre a Física e a humanidade, evitando o conhecimento fragmentado e compartimentado. Portanto, torna-se necessário que as relações que se estabelece com o conhecimento científico sejam repensadas, de modo que o aluno possa desenvolver aptidões para estabelecer conexões entre os diferentes saberes.
A utilização de expressões artísticas no ensino de Física possibilita que diferentes tradições históricas sejam conectadas, além de permitir que a subjetividade do aluno seja inclusa como parte integrante do processo de aprendizagem. Buscar propostas que permitam que o estudante expresse suas percepções é permitir que ele participe ativamente na construção do seu próprio conhecimento, já que toda interpretação articula-se com o imaginário e a construção histórica de quem a interpreta.
## Referências
BACHELARD, G. A formação do espírito científico . Rio de Janeiro: Contraponto, 1996
BRASIL. MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO. SECRETARIA DE EDUCAÇÃO MÉDIA E TECNOLÓGICA. PCNS+ ENSINO MÉDIO : ORIENTAÇÕES EDUCACIONAIS COMPLEMENTARES AOS PARÂMETROS CURRICULARES NACIONAIS. BRASÍLIA: MEC, 2002.
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CARAMELLO, G. Aspectos da complexidade: contribuições da Física para a compreensão do tema ambiental . São Paulo - SP. 246 p. Tese (Doutorado) Instituto de Física e Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo, 2012.
CRICHTON, M. ESTADO DE MEDO . p.97/105. Rio de Janeiro: Rocco, 2005
CROCHICK, L. Educação e ciência como arte: aventuras docentes em busca de uma experiência estética do espaço e tempo físicos . Capítulo 3, p.95-116. Tese de Doutorado/USP, 2013.
DELIZOICOV, D.; ANGOTTI, J. A.; PERNAMBUCO, M. M. Ensino de Ciências: Fundamentos e Métodos . São Paulo: Cortez, 2002.
FAGUNDES, M. B.; PAPALARDO, S.P.T.; ZANOTELLO, M. Percepção e representação do espaço: possíveis abordagens no ensino de física. Anais do Encontro Nacional de pesquisa em Educação em Ciências , Campinas-SP, 2011
FREIRE, P. Pedagogia do Oprimido . 17 ed. Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1987
MORIN. E . O método , vol.1. A natureza da natureza . Publicações EuropaAmérica, 1991
\_\_\_\_\_\_\_\_. Introdução ao pensamento complexo . 4. ed. Porto Alegre: Sulina, 2011
ORLANDI, E. Análise de Discurso: Princípios e Procedimentos . 9ª Ed. Campinas: Pontes, 2010
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Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.