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ESTABELECENDO O DIÁLOGO ENTRE AS DUAS CULTURAS: IMAGINAÇÃO E CRIATIVIDADE ALIADAS AO ENSINO DE FÍSICA

Letícia Maria De Oliveira

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXI
Ano
2015
Data
29/01/2015
Linha de pesquisa
Ciência, Cultura E Arte
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## ESTABELECENDO O DIÁLOGO ENTRE AS DUAS CULTURAS: IMAGINAÇÃO E CRIATIVIDADE ALIADAS AO ENSINO DE FÍSICA

## Letícia Maria de Oliveira

Universidade Federal do Vale do São Francisco, leticia.maria@univasf.edu.br

## Resumo

Um dos principais problemas vivenciados pelo ensino da física é a aversão dos alunos pela matemática excessiva que é usada e, muitas vezes, considerada pelos professores tradicionais como a única forma de ensinar física. Definições advindas dos estudantes, nas quais falam da física como 'um monte de fórmulas que não servem para nada' mostram como é equivocada a maneira com que a física tem sido apresentada, tanto no ensino fundamental e médio, como em alguns cursos do ensino superior. Outro problema, há muito identificado, é o distanciamento e o isolamento da física e sua falta de diálogo com as demais ciências e também com outras áreas, aparentemente tão distantes e essencialmente tão próximas, como as artes, a história e a filosofia. O ensino da física, bem como sua divulgação, quando aliado à imaginação, à criatividades, à arte e à literatura torna-se mais atrativo e dinâmico. Também as artes, seja a música, a pintura ou a arte das palavras, quando dialogam com as ciências, promovem bons e enriquecedores frutos. Nesse sentido, o presente trabalho buscou a inovação do ensino da física fazendo uso de uma literatura diferenciada e proporcionando aos alunos, formas criativas de transferirem para o papel, a história e os conceitos da física.

Palavras-chave : criatividade, literatura, poesia, imaginação

## Introdução

Expressão originária do verbo poiéo , (fabricar, executar, confeccionar), a poíesis , do que se origina a palavra poesia, traduz-se por fabricação, confecção, produção. Todavia, trata-se de um 'produzir que dá forma, de um fabricar que engendra, de uma criação que organiza, ordena e instaura uma realidade nova, um ser'. Criação, nesse caso, não é pensada no sentido hebraico de fazer algo a partir do nada, mas no sentido grego de gerar e produzir, dando forma a partir de uma matéria preexistente e, ao mesmo tempo, prenhe de potencialidades. (SOUZA, 2007).

Se tomarmos a concepção grega de que não existe um criatio ex nihil , então consideramos que a criação poética é sempre uma recriação sobre a natureza, a qual tem como momento inicial uma espécie de abertura do espírito diante da infinidade que se revela na natureza. Em sua Filosofia da História, Hegel descreve esta abertura com termos que remetem ao thauma , ao espanto e à admiração. (GONÇALVES, 2004). Aristóteles também dizia que a filosofia surge com o espanto, e como a física é irmã da filosofia, e por muito tempo foi chamada de filosofia da natureza, então, também a física surge com o espanto, com a admiração, com a curiosidade e o reconhecimento da beleza intrínseca dos fenômenos da natureza.

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26 a 30 de janeiro de 2015

O poeta Novalis já definia o mundo como uma imaginação percebida pelos sentidos e afirmava que a imaginação foi a primeira a ter vindo ao mundo e pode ser concebida como a força de sua conformação, imanente à natureza, que se impõe à matéria para lhe dar um sentido. (SOUZA, 2010)

Se pensarmos que a explicação poética da natureza parte não somente da percepção puramente sensível dos fenômenos naturais, mas da percepção imaginativa, que faz da natureza o meio de inspiração para sua própria atividade subjetiva e artística (GONÇALVES, 2007), então podemos compreender o caráter poético da física, pois hoje bem sabemos que se a física dependesse apenas da percepção sensível e se jamais tivesse feito uso da percepção imaginativa, grandiosas e surpreendentes teorias não teriam sido elaboradas e belas descobertas ainda estariam escondidas.

Mas ciência e poesia parecem tão antagônicas que se torna estranho falar dos paralelos que existem entre elas. Contudo, pertencem à mesma busca imaginativa humana, embora ligadas a domínios diferentes de conhecimento. A visão poética cresce da intuição criativa, da experiência humana singular e do conhecimento do poeta. As aproximações entre ciência e poesia revelam-se, no entanto, muito ricas, se olhadas dentro de um mesmo sentimento do mundo. A criatividade e a imaginação são o húmus comum de que se nutrem. (MOREIRA, 2010).

- E dentre as ciências, infelizmente fragmentadas em diversas áreas e diferentes nomes, a física é talvez a que mais traz consigo uma grande irmandade com a poesia, seja na poesia do mistério da natureza ou na poesia da busca pela compreensão desse mistério, ou na poesia da angústia por saber que o mistério nunca será plenamente desvendado. Também se irmanam na criatividade, na imaginação e na contemplação. Nos tempos atuais, em que a tecnologia impregna profundamente nossa cultura e domina nosso cotidiano com seus benefícios e mazelas, a poesia poderia parecer um anacronismo, mas aproximá-la da física, já que ambas são feitas de percepções e representações da natureza, constitui uma inovação.

Entretanto, é bastante raro encontrarmos os que concordam com a existência de algum tipo de semelhança entre a física e a poesia. À maioria, isso soa tolamente impossível e contraditório: não se pode conciliar o subjetivismo poético e a lógica racional da linguagem matemática.

Não obstante, mesmo que a maioria se oponha a aceitar, o fato é que a ciência também advém da percepção imaginativa. Sobre os métodos científicos criados, testados e comprovados, sabemos que eles tornam a pesquisa válida e que, de maneira muito resumida, esses métodos científicos são formados de uma etapa de observações, à qual segue uma etapa de elaboração da hipótese, para com isso se traçar uma rota que permita comprovar essa hipótese. Do que esse método esquece é que ao observar, o cientista, assim como um artista, é envolvido de forma subjetiva pelo fenômeno que deseja compreender, transformando-o em muita mais que uma mera observação técnica e objetiva: tornando-o uma singela, única e emocionante contemplação. Foi o reconhecimento da beleza da natureza, que deu à ciência a motivação que a criou e que ainda a alimenta.

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Música, notas, cores, ondas, luzes são elementos com os quais se faz a arte e com os quais a física é constituída. Deveria haver um intenso diálogo entre essas duas áreas, ou entre essas duas culturas. (SNOW, 1997). Deveria ser óbvio compreender que as belas notas musicais são ondas que se propagam comprimindo o ar e que a tinta escorrendo no quadro pela ação da gravidade forma a bela espádua da donzela. Deveria ser simples enxergamos a beleza do todo na combinação das partes e a harmonia das partes, refletida no todo. Sutil é a percepção. É delicado como se percebe a natureza, suas forças e suas interações, suas energias e transformações; suas grandezas, divididas em universos fascinantemente grandes e inacreditavelmente pequenos.

Lamenta-se hoje e muito se sente o prejuízo do distanciamento entre as duas culturas. Em 1959, Snow proferiu uma marcante e histórica palestra sobre essa lamentável e incompreensível separação entre as ciências naturais e as humanidades. (SNOW, 1997). Pena, contudo, que somente para poucos, para muitos poucos, essa cisão é incompreensível. Para a grande maioria, ela é óbvia, facilmente compreensível e simplesmente natural.

A grande busca da ciência é a beleza da natureza. O que quer o cientista, verdadeiramente, é compreender e expressar a sutileza, o pequenino detalhe, a cor, o som das estrelas e suas pulsações. Não difere muito do que busca um poeta ao compor seus versos ou de um pintor ao fazer de suas cores, de seus contornos e de suas profundidades, a expressão do que o comove. As duas culturas se enlevam em suas buscas, fixam-se em suas contemplações, provam de suas catarses!

A história da ciência não é, nem nunca foi ou será um movimento linear, em que se caminha progressivamente para a compreensão dos fenômenos e total domínio da natureza. Aliás, talvez um dos grandes equívocos da física e o que possivelmente lhe tenha custado a perda do humanismo, foi deturpar seu grande objetivo motivador, que era o de desvendar os mistérios da natureza e passar a buscar, frenética e cegamente, a transformação, a manipulação e a adaptação da natureza, de acordo com as vontades e interesses humanos. Perde a física quando menospreza a contemplação. Foi no comodismo propiciado pela transformação da natureza, que a ciência perdeu sua irmandade com a arte e com a filosofia, subjugando a contemplação. O desejo de dominar a natureza foi determinante no processo de cisão homem - natureza.

O século XVIII, denominado de século das luzes, foi um período de odes à razão, sendo esta o guia, o símbolo da lucidez humana e a ferramenta de compreensão e de transformação da natureza. Nesse momento, o conhecimento se fragmenta. A ciência se veste de soberania e se autoconsidera autossuficiente. Não precisa mais da arte e da filosofia, e não mais se usa dizer filosofia natural.

Um dos prejuízos gerados pela forte ruptura entre as duas culturas reflete de forma notória no ensino da física. Hoje, essa disciplina é comumente vista pelos estudantes e pelo público de uma forma geral, como sem grandes significados, resumindo-se em fórmulas e contas que nada expressam, ou como 'coisa de maluco'. Essa forma com que os alunos veem a física é consequência de um longo período de uma metodologia de ensino tradicional, no qual fatores como criatividade, curiosidade e imaginção são completamente ignoradas e a frieza com que a física é

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exposta não revela sua beleza. Muito se perdeu com as cisões do conhecimento. É preciso, pois, estabelecer o diálogo entre as duas culturas, entre as ciências e as humanidades, já que só temos a ganhar aproximando as duas. (ZANETIC, 2006.

Foi buscando estabelecer esse diálogo, fazendo da criatividade uma grande aliada do ensino e, dessa forma, humanizando a física que, neste presente trabalho, atividades criativas e imaginativas foram propostas aos alunos do curso de Licenciatura em Ciências da Natureza, da Universidade Federal do Vale do São Francisco. O intuito dessas atividades realizadas com os referidos alunos era fazer com que modificassem sua forma de pensar a física e que passassem a reconhecer sua beleza.

## Descrição do trabalho desenvolvido

Esse trabalho não se baseia e não foi guiado por nenhuma metodologia específica. Ele foi orientado por uma mistura entre alternativas de ensino e literaturas de divulgação científica, buscando fazer com que os alunos, além de compreenderem os conceitos da física, também a reconhecesse como um assunto instigante, curioso e, por vezes, belamente estranho. Não foram aplicados questionários e nem se estabeleceu um parâmetro de medição de aprendizagem, apenas se buscou abordar os conceitos da física de uma forma atrativa por meio da utilização de uma bibliografia diferente, de textos não tradicionais e de algumas obras de Salvador Dali, as quais dialogam com a física moderna.

Não se recorreu às metodologias estabelecidas de ensino, tampouco se classificou essa estratégia de ensinar como construtivista ou humanista, porque classificar o ensino significa prendê-lo, moldá-lo, e isso vai contra qualquer propósito de inovação. Segundo Feyerabend (2007), para quem métodos uniformes são fraudulentos, o ensino deve se basear na curiosidade e não em exigências, e os professores deveriam estimular essa curiosidade, sem a necessidade de se recorrer a qualquer método consagrado. Pode-se assim dizer que esse trabalho coloca-se contra o método, e segue uma pedagogia anarquista.

Sendo a física uma ciência tão bela, uma forma tão metafórica e, por vezes, tão sutil de representar a natureza, não pode ser vista apenas na sua linguagem matemática que, para muitos, é fria e incompreensível.

Nos cursos de licenciatura em Ciências da Natureza são comuns alunos que mostram muita afinidade com os conceitos das ciências, mas nenhuma afinidade com a matemática. Contudo, não se pode excluir de compreender a física, ou de conhecer sua beleza, os que não conseguem decifrar os códigos matemáticos. A física pode ser expressa em palavras: pode ser contada com emoção; compartilhada de forma generosa e, assim, encantar.

Nesse desejo do professor de mostrar a beleza da física, textos literários ou não literários, mas que deles se aproximam pela forma com que falam das leis e dos mistérios da natureza, precisam ser apresentados aos alunos. Autores como Antônio Gedeão, Marcos Lucchesi, Murilo Mendes e Joaquim Cardozo são apenas alguns

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dos escritores, de cujos poemas se extraem conceitos de física. Já autores como Robert Gilmore e Russell Stannard contam histórias falando de física e falam de física contando histórias. Há também os que em seus livros descrevem os fenômenos da natureza de uma forma tão literária que conseguem transformar em fascinante, uma leitura que, num primeiro momento, seria maçante. Albert Einstein e Richard Feynman são exemplos desse tipo de cientista e autor: que faz da explicação do conceito, uma cativante leitura.

Foi com o apoio desses, e de outros autores, que se buscou mudar as concepções, já estabelecidas pelos alunos, e sendo essas bastante negativas e geradoras de uma grande aversão à física.

Na disciplina de Evolução dos Conceitos de Física I, a qual aborda a evolução da física do movimento, desde Aristóteles, passando por Filoponus, Avempace, Buridan e chegando à Isaac Newton, foi apresentado aos alunos o 'Poema para Galileo', de Antônio Gedeão e cada uma das estrofes foi discutida histórica e conceitualmente. A intenção ao se propor a leitura desse poema era promover uma discussão, além do formato didático tradicional, sobre a história e as contribuições de Galileu na compreensão do movimento.

A combinação dialógica entre a física e a literatura também se deu nas atividades escritas, em que foi solicitado aos alunos que fizessem um texto subjetivo, não dissertativo, em que falassem das contribuições de Kepler e de Copérnico. Para a realização dessa atividade avaliativa, foi sugerido que lessem o artigo 'Entrevista com Kepler', de Alexandre Medeiros.

Com relação à disciplina de Física Moderna, esta é bastante rica em possibilidades de inovação, pois essencialmente está repleta de representações metafóricas e do exercício da imaginação. Pelo caráter abstrato e imagético dos assuntos foi lhes frequentemente apresentados textos, pinturas e poemas que faziam alusão ao comportamento dos átomos, ao estranhamento de um tempo dilatado e às incertezas de uma natureza misteriosa. Poemas como 'História de um Átomo (Eternidade da matéria)', de Rodolfo Teófilo, e trechos do poema 'Rerum natura' de Lucrécio foram usados para se reconhecer neles os conceitos e discutir a física além do texto formal. Também algumas obras de Salvador Dali foram mostradas em sala para que os alunos fossem absorvidos pelo caráter imagético da física atômica. Nessa disciplina em especial, a inovação se faz necessária, pois os conteúdos são muito diversos dos comumente vistos pelos estudantes.

Juntamente com o conteúdo dos livros didáticos, os alunos foram apresentados à Teoria da Relatividade Restrita por meio do livro 'O tempo e o espaço do tio Albert', de Russell Stannard. Embora se trate de um livro juvenil, pode muito contribuir quando os alunos tem seu primeiro contato com o assunto e, principalmente, quando esses alunos são futuros professores de ciências do ensino fundamental. Nesse mesmo sentido, da ludicidade e inovação, também foram feitas leituras orientadas, em sala de aula de alguns capítulos do livro 'Alice no país do quantum', de Robert Gilmore.

Uma das atividades avaliativas realizadas na disciplina de Física Moderna consistiu na elaboração de um texto literário sobre a fissão e a fusão nuclear. Esse

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texto poderia ser um conto, uma crônica, uma poesia, ou outras formas imaginativas de escrever sobre os conceitos compreendidos.

Como anteriormente dito, esse trabalho não foi conduzido por nenhuma metodologia especifica. No que consistiu esse trabalho, foi apenas numa tentativa de inovação do ensino da física para o curso de licenciatura em Ciências da Natureza, mesclando alternativas de ensino com estratégias de divulgação científica. Usou-se a lógica do vale tudo com o propósito de despertar nos alunos, o prazer em conhecer a física.

## Resultados

Na atividade em que deviam escrever um texto não dissertativo sobre as contribuições de Kepler e Copérnico, muitos alunos envolveram-se com esses dois personagens e se dispuseram a criar. Um pouco mais de cinquenta por cento da sala, seguiu o formato tradicional e produziu um texto dissertativo sem formalismo e padronizações. Dentre os que se prontificaram a criar, como esperado, a maioria foi induzida pela entrevista do texto sugerido e também fizeram entrevistas ou diálogos, nos quais se observou conversas sinceras e quase reais com os dois grandes personagens, o que pode ser percebido na forma com que alguns estudantes se expressaram acerca da realização desse trabalho avaliativo, conforme se vê nas falas abaixo expostas.

Aluno 1: Ontem, p assei o dia todo com Kepler. Conversei com ele como se ele estivesse do meu lado.

Aluno 2: É bom estudar física dessa forma. Parece que ela fica mais simples. Agora, consegui entender as leis de Kepler.

Na abordagem feita em sala de aula utilizando o 'Poema para Galileo' de Antônio Gedeão, apresentando-lhes inclusive a figura do autor, um professor de ciências e poeta português, a reação dos alunos foi bastante positiva, embora mais focada na história que nos conceitos físicos ali presentes. Obviamente, a reação foi bastante confusa, inicialmente, pois a leitura de um poema em uma aula de física, ainda lhes parece muito estranha.

Já na disciplina de Física Moderna, cujo conteúdo por si só já soa estranhamente aos alunos, o uso de leituras diferenciadas, como os poemas supracitados e o livro 'Alice no país do quantum', de Robert Gilmore e 'O tempo e o espaço do tio Albert', de Russell Stannard foi importante para fazer com que os alunos incorporassem o sentido das quebras de paradigmas promovidas pela relatividade e pela física quântica. Em muitos momentos, os alunos se mostravam chocados e até mesmo incrédulos diante dos novos conceitos que lhes eram apresentados. Nesse sentido, os momentos de leitura em sala de aula de trechos do livro de Robert Gilmore faziam com que mergulhassem no universo do átomo como quando se mergulha numa fascinante ficção.

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Na atividade avaliativa em que deveriam compor um texto literário abordando os conceitos de fissão e fusão nuclear, aproximadamente metade da sala fez um uso bastante satisfatório dos conceitos, e também da criatividade. Foram produzidas histórias de ficção, quadrinhos, cordéis e até mesmo diálogos entre estrelas. Abaixo, seguem as falas de algumas alunas as quais, embora expostas de maneira informal, foram ditas espontaneamente, não condicionadas às avalições ou aos questionários estruturados, do que se infere um bom grau de sinceridade.

Aluno 3: A gente vem de um ensino tradicional e, por isso, é difícil abstrair e usar a imaginação. Mas temos que estar abertos a mudanças. Pude exercitar minha criatividade e comecei a gostar de física.

Aluno 4: Essa física é muito maluca. Estou me sentindo como a Alice conversando com elétrons. É primeira vez na minha vida que estou achando a física legal.

Aluno 5: Eu gostei muito de inventar uma história sobre fusão. Foi melhor para entender o assunto, porque a gente tinha que primeiro entender para depois, criar.

Embora não tenha sido seguida nenhuma estratégia ou metodologia estabelecida e padronizada, revela-se nesse desapego aos parâmetros, uma busca prática e verdadeira da inovação do ensino. É fato que os alunos não se tornaram profundos conhecedores da física atômica ou nuclear, ou mesmo das leis de Kepler, mas também é fato que a física e seus conceitos tornaram-se mais próximos dos alunos e uma nova e harmoniosa relação se estabeleceu.

## Conclusões

- O que pode ser interpretado, não necessariamente concluído, dessas atividades realizadas para os alunos, com os alunos e pelos alunos foi que elas promoveram mudanças em suas formas de conceber a física e lhes fez nascer uma simpatia para com ela. Mas ainda se trata de uma forma singela e ainda bastante tímida de inovação.

Pôde-se inferir uma boa mudança na relação dos alunos com a física porque em relatos orais e espontâneas diziam que não mais achavam a física tão chata e distante, e que estavam gostando de conhecer a física dessa maneira. Ademais, a reação positiva dos alunos à exposição de um assunto, é claramente percebida pelo professor, quando esses passam a participar mais das aulas e se mostram intrigados e mais motivados a conhecerem sobre o que lhes está sendo apresentado.

Outro ponto importante, que precisa ser considerado, é que essas atividades foram realizadas em disciplinas do curso de licenciatura em Ciências da Natureza e por essa razão, dois aspectos devem ser destacados. Um deles é que nesse curso de graduação, as disciplinas de física tem um foco histórico-conceitual, o que permite a realização de atividades dessa natureza, em que se faz uso de textos

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literários e de outras leituras não tradicionais. Outro ponto a ser destacado, é que fazendo uso de metodologias de ensino e de avaliação diferenciadas, com alunos de um curso de licenciatura, pode-se mostrar a eles, de forma prática, que inovações no ensino são possíveis e quando bem conduzidas por professores e alunos, promove um ensino e uma aprendizagem prazerosos.

## Referências

SOUZA, JOVELINA MARIA RAMOS As origens da noção de poíe-sis, Hypnos , ano 13 / nº 19, p. 85-96, 2007.

SOUZA, Maria Cristina dos Santos. A Naturphilosophie como concepção de mundo do romantismo alemão. AISTHE , nº5, 2010.

FEYERABEND, Paul. Contra o método ; tradução Cezar Augusto Mortari. São Paulo: Editora UNESP, 2007.

GILMORE, Robert. Alice no país do quantum: a física ao alcance de todos ; tradução André Penido; revisão técnica Ildeu de castro Moreira. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

GONÇALVES, Márcia C. F. Poesia como Arte Originária de Interpretação da Natureza - um ensaio introdutório à filosofia da arte de Hegel, Revista de filosofia SEAF , Rio de Janeiro, v. Ano IV, n. 4, p. 38-56, 2004.

MEDEIROS, Alexandre. Entrevista com Kepler: do seu Nascimento à Descoberta das duas Primeiras Leis, Física na escola , v.3, n.2, 2002.

MOREIRA, Ildeu de Castro. Poesia na sala de ciências? Física na Escola , v. 3, n. 1, 2002.

SNOW, Charles Percy. As duas culturas ; tradução de Geraldo Gerson de Souza e Renato Rezende. São Paulo: Edusp, 1997.

STANNARD, Russel. O tempo e o espaço do tio Albert ; tradução de Ricardo Gouveia. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

ZANETIC, Física e literatura: construindo uma ponte entre duas culturas, História, Ciência, Saúde - Manguinhos , v. 13 (suplemento), p. 55-70, outubro 2006.

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Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.