LICENCIANDOS EM FÍSICA E A HISTÓRIA E FILOSOFIA DA CIÊNCIA ENQUANTO ABORDAGEM DIDÁTICO-PEDAGÓGICA
Winston Gomes Schmiedecke, Kleber Tadeu Neto
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXI
- Ano
- 2015
- Data
- 29/01/2015
- Linha de pesquisa
- História, Filosofia E Sociologia Da Física
- Tipo
- Comunicação
Abrir o PDF original ↗ Baixar referência .bib Ver todos do SNEF 2015
Texto completo
## LICENCIANDOS EM FÍSICA E A HISTÓRIA E FILOSOFIA DA CIÊNCIA ENQUANTO ABORDAGEM DIDÁTICO-PEDAGÓGICA
## Winston Gomes Schmiedecke 1 , Kleber Tadeu Neto 2
1 Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia de São Paulo / Departamento de Física / winston.fisica@gmail.com
2 Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia de São Paulo / Licenciando em Física / kleberneto@hotmail.com
## Resumo
Nas últimas duas décadas, a História e Filosofia da Ciência (HFC) parece ter se consolidado enquanto recurso didático-pedagógico a ser utilizado nas aulas de ciências, fato corroborado pelo espaço de discussão conquistado nos diversos eventos científicos da área de Ensino de Ciências e, também, legitimado pelas prescrições de seu uso na Escola Básica pelos principais documentos oficiais norteadores do ensino no Brasil. No caso particular do Ensino de Física, há diversos trabalhos acadêmicos salientando os benefícios do uso desse tipo de abordagem em ações destinadas à discussão dos elementos que caracterizam o ' modus operandi' da ciência, permitindo, por exemplo, distingui-la de outras manifestações e formas de conhecimento - a chamada Natureza da Ciência. Todavia, esse aparente consenso ainda apresenta certa fragilidade quando confrontado com as opiniões dos responsáveis pela efetiva adoção da HFC como estratégia balizadora da elaboração e da execução das ações didáticas que darão suporte às suas aulas: os professores de Física em formação, seja esta inicial ou continuada. Este trabalho busca caracterizar o valor didático efetivamente atribuído à HFC por um significativo contingente de licenciandos em Física de duas instituições públicas que atuam na cidade de São Paulo, cotejando-a com outros recursos disponíveis, inclusive, em termos do quanto tais sujeitos se sentem preparados para deles dispor em sua prática docente. Os resultados obtidos relativizam o pré-suposto consenso acerca da importância da HFC enquanto abordagem didática, além de reforçarem a premente necessidade de se oferecer disciplinas instrumentalizadoras acerca dessa problemática nos cursos de formação de professores de Física.
Palavras-chave: estratégias didático-pedagógicas, História e Filosofia da Ciência, licenciandos em Física
## Introdução
Em se tratando de Ensino de Ciências, poucas são as aproximações e os recursos que gozam de consenso junto à comunidade acadêmica acerca do real valor que possuem enquanto estratégias didático-pedagógicas.
Nesse seleto grupo, cabe destaque à importância geralmente atribuída à História da Ciência, invariavelmente sustentada pela alusão à sua capacidade de propor e dar legitimidade às discussões problematizando aspectos relacionados à chamada Natureza da Ciência (NdC), evidenciando suas interrelações com outros campos do conhecimento. Nas palavras de Vilas Boas et al.,
a história da ciência deve ser parte de qualquer tentativa de compreensão filosófica ou sociológica acerca da ciência. Em suma, entender a ciência sua dinâmica, seu desenvolvimento - é uma atividade intelectual que exige a presença de uma história da ciência (VILAS BOAS ET AL., 2013, p. 290).
Ainda que o aludido consenso mereça ser apreciado com maior profundidade - fato que foge ao escopo deste trabalho -, há evidentes reflexos
\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_
26 a 30 de janeiro de 2015
dessa realidade na escrita dos principais documentos determinantes dos rumos a serem tomados pelo ensino no Brasil.
Por exemplo, as Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Médio (DCNEM), ao legislarem acerca do papel das unidades escolares na definição de suas propostas curriculares, em seu artigo 13, determinam serem instâncias imprescindíveis nessa tarefa:
I - as dimensões do trabalho, da ciência, da tecnologia e da cultura como eixo integrador entre os conhecimentos de distintas naturezas, contextualizando-os em sua dimensão histórica e em relação ao contexto social contemporâneo; II - o trabalho como princípio educativo, para a compreensão do processo histórico de produção científica e tecnológica, desenvolvida e apropriada socialmente para a transformação das condições naturais da vida e a ampliação das capacidades, das potencialidades e dos sentidos humanos (BRASIL, 2012, p. 4, grifos nossos).
O teor dessas determinações sugere a natural interlocução da ciência a ser desenvolvida nas salas de aula da Escola Básica com o cotidiano dos alunos, evidenciando as particularidades do trabalho dos docentes em Ciências - com objetivos e enfoques em muito distantes daquela ciência praticada pelos cientistas -, capaz de oferecer uma mais que desejável dimensão cultural aos seus conteúdos teóricos. Nesse sentido, as Orientações Curriculares para o Ensino Médio (OCEM) destacam que
os conteúdos ensinados na escola constituem um novo saber, deslocado de sua origem. Um tratamento didático apropriado é a utilização da história e da ÞlosoÞa da ciência para contextualizar o problema, sua origem e as tentativas de solução que levaram à proposição de modelos teóricos, a Þm de que o aluno tenha noção de que houve um caminho percorrido para se chegar a esse saber (BRASIL, 2006, p. 50, grifo nosso).
Reforçando essa necessidade, mas especificamente referindo-se ao Ensino da Física, a parte III dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) para o Ensino Médio - declaradamente comprometida com a explicitação das habilidades básicas e das competências específicas que se espera sejam desenvolvidas pelos alunos cursando esse corpo de conhecimentos em nível médio -, afirma ser 'essencial que o conhecimento físico seja explicitado como um processo histórico, objeto de contínua transformação e associado às outras formas de expressão e produção humanas' (BRASIL, 1999, p. 22, grifo nosso).
Elevando o nível de detalhamento desse documento, para permitir aos profissionais ligados ao ensino da Física uma melhor compreensão dos parâmetros nele veiculados, as Orientações Educacionais Complementares aos Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Médio (PCN+) enfatizam a importância de se oferecer aos alunos efetivas condições para que possam 'compreender a construção do conhecimento físico como um processo histórico, em estreita relação com as condições sociais, políticas e econômicas de uma determinada época' (BRASIL, 2002, p.14, grifo nosso).
Em meio a argumentos tão incisivos, os cursos de licenciatura em Física das universidades brasileiras são praticamente unânimes em inserir em suas grades curriculares disciplinas destinadas ao trabalho com a História da Ciência, em geral agregada à Filosofia da Ciência, ainda que não sejam raros aqueles que decidam por seu oferecimento em caráter optativo.
\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_
Como resultado, seria natural esperar que a História e Filosofia da Ciência (HFC) fosse reconhecida pelos professores de Física em formação como um importante recurso didático, um precioso aliado para a composição de suas futuras aulas na Escola Básica. De maneira equivalente, esperar-se-ia desses licenciandos um bom nível de preparação para efetivamente se apropriarem da HFC enquanto ferramenta didático-pedagógica.
Porém, como evidenciam os resultados da pesquisa realizada por Martins (2007), não há uma natural correlação entre o valor didático atribuído pelos licenciados à HFC e a consciência que os mesmos possuem acerca de sua capacidade de utilizá-la em suas ações docentes. Nesse trabalho, profissionais da educação em ciência (licenciandos, professores da rede pública e alunos de pósgraduação) do Estado do Rio Grande do Norte foram inquiridos, de forma objetiva, acerca da importância da inserção de elementos de HFC nas aulas do Ensino Médio. Dos 82 sujeitos compondo o universo amostral daquela pesquisa, 81 deles (98,8%) responderam afirmativamente, ou seja, algo muito próximo da totalidade.
Em contrapartida, como o próprio título daquele trabalho sugere, enormes são as dificuldades e obstáculos opondo-se à efetivação da HFC nas aulas do Ensino Médio, visto que cerca de 40% dos respondentes daquela pesquisa sequer tentaram efetivar tal aproximação em suas ações docentes e, daqueles que tentaram, somente a metade conseguiu expressar de forma sistematizada detalhes da intervenção realizada, fato indicativo da necessidade de revisão do processo de formação desses profissionais, motivando-nos a implementar uma tentativa de caracterização atualizada dessa realidade para, então, promovermos uma releitura e a análise dos fatos a ela subjacentes.
## Descrição do trabalho desenvolvido
Passados mais de sete anos da publicação de trabalho mencionado, a experiência de quem trabalha com a HFC em cursos de formação de professores parece sugerir que pouco ou nada tenha mudado sobre os delineamentos daquele quadro pouco otimista, independentemente da região do país e da instituição universitária considerada.
Sob essa premissa, mas procurando oferecer parâmetros adicionais a serem cotejados, aplicamos um breve questionário a alunos de cursos de licenciatura em Física de duas instituições públicas situadas na cidade de São Paulo - a Universidade de São Paulo (USP) e o Instituto Federal de São Paulo (IFSP).
Com um total de quatro questões, as respostas a serem dadas às duas primeiras eram baseadas na escala Likert, ao passo que as outras duas solicitavam a marcação direta de possibilidades com as quais os respondentes mais bem se indentificassem acerca dos que lhes era inquirido.
Sem declarar de antemão aos respondentes a principal intenção da pesquisa, as questões que o compunham tinham as seguintes características:
- 1) Visando identificar o efetivo valor didático atribuído a alguns recursos didático-pedagógicos habitualmente disponíveis [Experimentação, Abordagem CTS (Ciência, Tecnologia e Sociedade), Resolução de Problemas, Abordagem Interdisciplinar, História e Filosofia da Ciência (HFC), Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC), Contextualização ('Física do Cotidiano'), Aproximação Arte e Ciência e Visitas a Museus de
\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_
Ciência], solicitava ao respondente a marcação de números de 1 a 4 para cada um deles, sendo que 1 e 2 indicariam valores baixos e, 3 e 4, valores elevados;
- 2) Buscando reconhecer o quanto o respondente sentia-se preparado para, de fato, utilizar aqueles mesmos recursos em suas aulas de Física na Escola Básica, solicitava-lhe a marcação de números de 1 a 4 para cada um deles, sendo que 1 e 2 indicariam baixo preparo e, 3 e 4, elevado preparo;
- 3) Somente a partir desse momento, no verso da folha entregue, declarou-se ser a pesquisa relacionada à HFC, solicitando aos respondentes que na questão 1 sinalizaram positivamente para o valor didático da HFC para marcarem, dentre as nove justificativas oferecidas, aquelas que eles verdadeiramente considerassem relevantes; e
- 4) Pedia aos respondentes da questão 2 que declararam não se sentirem preparados para utilizar a HFC em suas ações didáticas na Escola Básica para marcarem, dentre as nove razões oferecidas, aquelas que efetivamente fossem ao encontro de suas necessidades.
Realizada a aplicação desse questionário, tabulamos as respostas obtidas e, visando simplificar a compreensão dos totais encontrados, procuramos organizá-las nos quadros apresentados na próxima seção.
## Apresentação e análise dos resultados obtidos
Com o objetivo de facilitar nossa análise, o quadro 01 apresenta a seguir os valores percentuais das respostas oferecidas pelos licenciandos para a questão 1, organizando-as em ordem decrescente. No caso, tais percentuais referem-se ao contingente de sujeitos que atribuíram muita ou muitíssima importância aos recursos didáticos que lhes foram oferecidos em relação ao total de sujeitos participantes da pesquisa. Reforçando o fato de 59 sujeitos terem respondido ao questionário, e considerando os propósitos originais desta pesquisa, destacamos, em negrito e itálico, as quantidades relacionadas à HFC.
Quadro 01: Valor didático atribuído a cada estratégia apresentada aos respondentes, em termos percentuais e em ordem decrescente, a cada estratégia didática para a composição de aulas de Física em nível de Escola Básica.
Seguindo a mesma lógica, o quadro 02 esboça os resultados referentes ao quanto os licenciandos consideram-se preparados para a utilização dos recursos didáticos oferecidos. Assim sendo, os percentuais apresentados indicam ao total de
\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_
sujeitos que se declararam pouco ou pouquíssimo preparados quanto à utilização da HFC em suas ações docentes, relativamente ao total de participantes da pesquisa.
Quadro 02: Nível pessoal de preparação dos licenciandos, em termos percentuais e ordem decrescente, em relação a cada estratégia didática apresentada para a composição de aulas de Física em nível de Escola Básica.
Inserimos duas outras questões destinadas minimamente a situar os participantes acerca do nosso objeto de pesquisa, na tentativa de antecipar e, em especial, avaliar os méritos e as dificuldades mais comumente atribuídas ao trabalho com a História da Ciência no Ensino de Física segundo alguns dos principais trabalhos avaliando as tentativas de aproximação essas suas áreas (MARTINS, 2007; FORATO, 2009).
De forma equivalente ao efetuado com as questões 1 e 2, totalizamos e organizamos as respostas oferecidas pelos licenciandos, construindo os quadros 03 e 04, apresentados a seguir:
Quadro 03: Em ordem decrescente, e em termos percentuais, aspectos identificados pelos licenciandos dentre os oferecidos como facilitadores da utilização da História da Ciência enquanto recurso didático nas aulas de Física em nível de Escola Básica.
\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_
Quadro 04: Em ordem decrescente, e em termos percentuais, fatores identificados pelos licenciandos, dentre os oferecidos, como obstáculo para a utilização da História da Ciência enquanto recurso didático nas aulas de Física em nível de Escola Básica.
Considerando as nove possibilidades de recursos oferecidos aos licenciandos, os resultados do quadro 01 chamam à atenção para o fato de a HFC ocupar somente a 5ª colocação - e, ainda assim, empatada com a Abordagem Interdisciplinar -, com pouco mais de 70% dos pesquisados destacando seu efetivo valor didático. Esse resultado - que merece ser corroborado a partir da aplicação do questionário a um número maior de sujeitos contemplando, inclusive, outras Instituições de Ensino Superior -, sinaliza para a fragilidade de pesquisas que tomam como ponto de partida perguntas objetivamente inquirindo a validade, ou não, do recurso didático investigado.
Um exemplo dessa realidade é Martins (2007), um trabalho de reconhecido valor na área de Ensino de Ciências por seu pioneirismo, citado com grande frequência desde sua publicação devido aos indicativos que oferece acerca dos méritos e das dificuldades relacionados às tentativas de apropriação da HFC pelos professores de ciências em suas aulas no Ensino Médio, ainda que o conjunto de sujeitos que participaram daquela pesquisa não tenha sido composto exclusivamente por licenciandos em Física. O próprio Martins destaca não ter sido necessária a discussão em separado das respostas de cada grupo, justificada pela acomodação das respostas oferecidas pelos alunos de pós-graduação e, também, do curso de extensão, na categorização efetuada para as respostas dadas pelos licenciandos (MARTINS, 2007, p. 118).
Cabe aqui um destaque: contrariamente a Martins (2007), em nosso questionário não inquirimos os licenciandos a respeito de terem, ou não, entrado em contato com a HFC nas disciplinas que já haviam cursado, por se tratar de alunos
\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_
realizando disciplinas de estágio dos últimos semestres do curso. Mesmo assim, tomamos como razoável considerar que muitos deles já tenham, de fato, participado de aulas abarcando essa temática ao longo do curso de graduação.
Prosseguindo na análise dos dados tabulados, o quadro 02 só faz confirmar a suspeita de que algo precisa ser modificado nos currículos das licenciaturas em Física comprometidos com a apresentação e a instrumentalização dos futuros professores acerca da História da Ciência, pois menos de 40% deles declarou-se apta à utilização da História da Ciência em suas aulas, evidenciando a dimensão abissal da distância apartando teoria e prática nesse campo de estudos.
Aqui ainda há um agravante, não evidenciado diretamente pelos números tabulados, mas notório a partir de uma leitura mais específica dos questionários: dos respondentes que não identificam na História da Ciência expressiva importância enquanto recurso didático, uma parcela de mais de 95% deles declarou-se sem preparo para com ela trabalhar, sinalizando para uma relação de dependência entre a maneira como se dá a formação dos licenciados e a empatia por eles desenvolvida com as possibilidades de abordagens que lhes são disponibilizadas. Fato semelhante parece ocorrer com as demais estratégias didático-pedagógicas acerca das quais os respondentes se declaram menos preparados para utilizá-las, das quais merecem especial destaque as TIC - recurso que só recentemente passou a ser explorado de forma sistemática no meio acadêmico -, e a aproximação Arte e Ciência, que requer, tal qual a História da Ciência, a compilação de informações advindas de diversas áreas do conhecimento, pouco sistematizadas nos materiais didáticos mais notoriamente acessíveis aos professores.
Por fim, os números dos quadros 03 e 04 só fazem reforçar o mérito e as reconhecidas dificuldades interpondo-se à aproximação entre a História da Ciência e o Ensino de Física, exaustivamente explorados e destacados nos mais diversos trabalhos envolvendo essa temática, indo ao encontro, por exemplo, das principais conclusões e sínteses tecidas com rigor e precisão por Martins (2007).
## Considerações finais
Tomando como referência os resultados da aplicação do questionário apresentado neste trabalho, reforçamos nossa crença na indução promovida mesmo que sem qualquer intencionalidade - junto aos sujeitos de pesquisa, no sentido de direcionar suas respostas para uma indicação positiva ao que lhes foi perguntado. Por exemplo, no momento em que Martins (2007) opta por iniciar seu estudo empírico declarando de antemão o mote do trabalho (a HFC), as questões 'Você se interessa pelo tema?' e 'Você acha importante que elementos da HFC estejam presentes no ensino médio?' dificilmente receberiam uma devolutiva negativa, realidade corroborada pelo fato de somente um dos entrevistados ter, efetivamente, respondido 'não' a essas questões, ainda que menos de 50% deles indicou já ter tomado algum contato formal com estudos envolvendo a HFC (MARTINS, 2007, p. 118 e 119).
Constatar que a HFC nem de longe se configura em uma estratégia didáticopedagógica ocupando espaço privilegiado dentre a preferência dos professores em formação reforça a necessidade de se propor outras formas de utilizá-la (em particular, a História da Ciência) nas aulas de Física da Escola Básica. Por exemplo, pode-se associá-la aos demais recursos disponíveis, com valores didáticos mais
\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_
bem estabelecidos junto ao imaginário dos licenciandos, caso da Experimentação, da Abordagem CTS(A) e da Resolução de Problemas.
No campo dos obstáculos e contingências a serem enfrentadas no processo de efetivação da História da Ciência enquanto estratégia didático-pedagógica, o recorrente destaque efetuado pelos licenciandos para o quanto ressentem a falta de livros didáticos contemplando exemplos 'prontos' nesse sentido apresenta-se como um indicativo de que os cursos de formação de professores de Física deveriam investir de maneira mais incisiva no oferecimento de disciplinas focando a instrumentalização dos licenciandos (oficinas de projeto, estágio supervisionado etc.), pois um bom trabalho em nível teórico - com os conceitos, vertentes e aspectos historiográficos - pode até conscientizar tais sujeitos acerca da importância da História da Ciência nas explicações sobre a Física enquanto ciência, mas não assegura sua inclusão nas ações cotidianas dos futuros docentes.
Nesse sentido, conforme indicam algumas pesquisas etnográficas realizadas no contexto do Ensino de Física (Massoni, 2010; Massoni e Moreira, 2012), a análise da 'cultura da sala de aula' apresenta-se como um caminho adicional a ser trilhado com o intuito de tornar a HFC uma efetiva estratégia didática, visando à compreensão mais estreita da dinâmica das atividades que caracterizam e delineiam o espaço final de execução das ações docentes, em consonância, inclusive, com o que sugerem/prescrevem os principais documentos oficiais que norteiam o ensino de ciências no país.
## Referências
BRASIL. Parâmetros curriculares nacionais para o ensino médio: Parte III ciências da natureza, matemática e suas tecnologias. Brasília, DF: MEC/SEF, 1999.
BRASIL. PCN+ Ensino Médio: orientações educacionais complementares aos Parâmetros Curriculares Nacionais - ciências da natureza, matemática e suas tecnologias. Brasília: MEC/SEB, 2002.
BRASIL. Orientações curriculares para o ensino médio (Ciências da natureza, matemática e suas tecnologias). Brasília: MEC/SEB, 2006. V. 2, 135 p.
BRASIL. Diretrizes curriculares nacionais para o ensino médio. Brasília: Diário Oficial da União, 2012.
FORATO, T. C. M. A natureza da ciência como saber escolar: um estudo de caso a partir da história da luz. Tese de Doutorado. São Paulo: FE-USP, 2009. 2 vols.
MARTINS, A. F. P. História e filosofia da ciência no ensino: há muitas pedras nesse caminho. Caderno Brasileiro de Ensino de Física , v. 24, n. 1, p. 112-131, 2007.
MASSONI, N. T. A epistemologia contemporânea e suas contribuições em diferentes níveis de ensino de física: a questão da mudança epistemológica. Tese de Doutorado. Porto Alegre: IF-UFRGS, 2010.
MASSONI, N. T.; MOREIRA, M. A. Ensino de física em uma escola pública: um estudo de caso etnográfico com um viés epistemológico. Investigações em Ensino de Ciências , v. 17, n. 1, p. 147-181, 2012.
VILAS BOAS, A.; SILVA, M. R.; PASSOS, M. M.; ARRUDA, S. M. História da ciência e natureza da ciência: debates e consensos. Caderno Brasileiro de Ensino de Física , v. 30, n. 2, p. 287-322, 2013.
\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_
Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.