COMUNIDADE DE PRÁTICA DE ENSINO DE FÍSICA - COPEF: POTENCIALIDADES PARA FORMAÇÃO DOCENTE
Jancarlos Lapa, Dielson Hohenfeld, Fernando Lordelo, Paulo Aquino, Gilglécia Mendes
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXI
- Ano
- 2015
- Data
- 29/01/2015
- Linha de pesquisa
- Alfabetização Científica E Tecnológica E Abordagem Cts No Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## COMUNIDADE DE PRÁTICA DE ENSINO DE FÍSICA - COPEF: POTENCIALIDADES PARA FORMAÇÃO DOCENTE
Jancarlos Lapa 1 , Dielson Hohenfeld , Paulo Aquino 2 3 Fernando Lordelo 4 , Gilglécia Mendes 5
- 1 IFBA, campus Salvador/Departamento de Física/ jancarloslapa@gmail.com
## Resumo
Este trabalho se propõe a relatar as atividades desenvolvidas no âmbito de uma comunidade de prática formada por professores e estudantes de um curso de licenciatura em Física, juntamente com docentes e alunos da educação básica a partir da discussão e do compartilhamento de materiais de estudo, de experiências didáticas bem como de interesses comuns, no intuito de aprimorar e aprofundar a relação entre o ensino e a pesquisa no ensino de Física. Para isso o projeto prevê encontros presenciais entre os membros participantes, bem como através de um ambiente virtual próprio. Espera-se a criação de um de acervo distribuído por meio de compartilhamento na rede composto por textos, livros, tutoriais, filmes, links, áudio, imagens, com licenças livres, bem como o intercâmbio de vivências e ideias que favoreçam o ensino e a aprendizagem em Física. Até o momento os resultados do projeto apontam para o potencial de produção colaborativo a favor da melhoria da aprendizagem em Física e da formação inicial e continuada do professor de Física.
Palavras-chave : Comunidade de Prática, Ensino de Física, Formação de Professor.
## Introdução
Algumas das atuais políticas educacionais a exemplo do PIBID e do PARFOR, tem atribuído grande ênfase ao tema formação de professores, já que estes ocupam papel de destaque na construção de uma educação de qualidade. Todavia, o exercício da profissão docente na contemporaneidade tem sugerido a construção de novas competências que habilitem o professor a lidar com as novas demandas, tais como: a mudança de paradigmas científicos que interferem diretamente no cotidiano da sala de aula; a inclusão escolar de discentes com necessidades educacionais especiais; o multiculturalismo; bem como o uso das tecnologias da informação e comunicação nos processos de ensino e aprendizagem ROBILOTTA, 1998; DELIZOICOV, ANGOTTI e PERNAMBUCO, 2002; PERRENOUD et al, 2002; GALVÃO FILHO, 2002; LABURÚ, ARRUDA e NARDI, 2003; FIOLHAIS e TRINDADE, 2003, VEIT e ARAUJO, 2005;). Neste sentido, é fundamental que as instituições formadoras de professores repensem suas bases conceituais e práticas, sendo capazes de propor metodologias formativas que sistematizem o campo teórico e prático, na perspectiva de formar professores mais críticos, reflexivos e criativos.
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26 a 30 de janeiro de 2015
No caso das Licenciaturas em Física, a carência de professores na área para atuar na Educação Básica e especialmente na educação profissional é um estigma acadêmico (GARCIA e HIGA, 2012; SBF, 2012; SBF 2005; GARCIA, 1995) . A pequena demanda para ingresso no curso e a alta evasão são problemas que geram um distanciamento entre o ensino dessa Ciência e a formação de cidadãos críticos em relação ao papel desempenhado pela Ciência e a Tecnologia na sociedade e a necessidade de fortalecimento de uma comunidade científica nacional autônoma.
No ensino de Física, a formação docente responde por um déficit gigantesco, seja do ponto de vista quantitativo e qualitativo, haja vista que estado da Bahia, dos 152.648 professores que atuam na Educação Básica, apenas 2.562 professores possuem formação na área de Física (INEP, 2009). Não por acaso, o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia, Campus Salvador, apostou na criação de um curso de Licenciatura em Física, na perspectiva de contribuir a demanda regional de docentes nessa área.
Entre outras estratégias do curso e procurando interligar os diálogos necessários para formação, inicial e continuada, do docente em Física do IFBA, as redes de colaboração representam uma possibilidade metodológica para o trabalho formativo dos licenciandos em Física e na capacitação dos docentes em serviço. Segundo Hermann (2005) essa rede é definida como um sistema organizacional capaz de reunir indivíduos e instituições em torno de objetivos e temáticas comuns.
Esse trabalho relata os primeiros resultados de uma rede colaborativa em implantação, formada por docentes formadores, licenciandos em Física, professores e estudantes da educação básica no intuito de fomentar a formação docente a partir de uma comunidade de prática de ensino Física.
O processo de formação de um professor de Física, desde o início do primeiro ano, até sua formatura é um caminho bastante complexo. Além disso, esse trajeto por si só, nem sempre implica na formação docente competente. Formar um professor com conhecimentos teóricos e práticos necessários ao bom exercício da profissão requer muito mais do que o simples contato com as disciplinas do currículo básico do curso de licenciatura em Física. Ensinar, envolve práxis pedagógica, que leve em consideração não só a aplicação do conhecimento mas uma constante reflexão sobre sua pratica, dentro de uma visão crítica sobre o ato de ensinar. Tratase, portanto, não apenas de uma ação técnica, mas uma ação reflexiva, humanística com compromisso social sobre os educandos, respeitando suas características sociais, culturais, religiosas, seus sonhos e esperanças.
## A formação do professor de Física
A trajetória de um professor é entendida aqui como um processo que se inicia na formação inicial, mas se estende por toda a vida, ao longo de carreira docente. Segundo Gatti (1992), a profissionalização de professores deve ocorrer num continuum , desde o período de formação inicial até a continuada. Isso implica em um profissional capaz de atuar nas esferas do ensino e da pesquisa dentro de sua própria pratica. Tal perspectiva que tem sido reconhecida na literatura como um fator importante do desenvolvimento profissional docente (MOREIRA, 1988; 2009; VILLANI et al., 2009).
Segundo McIntyre (2005), a aproximação da pesquisa e da prática depende
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de dois aspectos: do conhecimento produzido pela pesquisa articulado com as realidades das salas de aula e da aproximação dos saberes docentes com a generalidade das pesquisas. Estes movimentos são mais poderosos e empoderadores se professores e pesquisadores estiverem reunidos em grupos colaborativos, nos quais todos atuem como pares, em relações horizontalizadas.
Isso implica na construção de projetos de investigação situados nas salas de aula dos professores e construídos em consonância com seus interesses e suas preocupações. Tal realidade nos remete uma pergunta básica: como aproximar pesquisadores e professores?
Um bom caminho seria olhar para as potencialidades oferecidas pelas comunidades de prática definida por Wenger (1998) como grupos de pessoas que compartilham uma preocupação, um objetivo ou uma paixão por alguma ação que fazem e aprendem, através de uma interação constante com os membros dessa comunidade.
Comunidades desenvolvem suas práticas através de uma variedade de atividades, tais como: resolução de problemas, solicitação/troca de informações, compartilhamento de experiências, reutilização de recursos, coordenação e sinergia, desenvolvimento de discussões, documentações de projetos, visitas, mapeamento de conhecimento, identificação de lacunas.
Segundo Wenger (1998) em comunidades de práticas, a negociação de significados é um processo complexo que leva tempo, pois o que define a comunidade de prática em uma dimensão temporal é a questão do compromisso e engajamento mútuo, a fim de que todos os membros compartilharem uma aprendizagem compartilhada e significativa.
A participação representa a ação de tomar parte em alguma ação a partir da relação com outras pessoas. Portanto a participação é tanto pessoal quanto social e é concebida como um processo completo que combina as ações de fazer, falar, pensar, sentir e pertencer.
Nesse sentido, a aprendizagem não se processa em um contexto no qual simplesmente as pessoas devem aprender alguma coisa, mas sim estarem engajadas na prática. Assim, faz parte da aprendizagem este processo de engajamento, participação e desenvolvimento da prática. Neste contexto,
'[...] práticas são histórias de engajamento, negociação e desenvolvimento de repertórios compartilhados, então, aprendizagem na prática inclui seguir o processo da comunidade envolvida. Mas, é preciso tomar cuidado para não dizer que qualquer coisa que se faça é aprendizagem. A aprendizagem significativa abrange dimensões da prática como: envolvimento e formas mútuas de engajamento; entendimento; desenvolvimento de repertórios compartilhados, estilos e discursos. Isso é o que modifica nossa habilidade de engajamento na prática, de entendimento sobre o porquê fazemos parte dessa prática. Esse tipo de aprendizagem não é meramente um processo mental, mas tem a ver com o desenvolvimento de nossas práticas e de nossa habilidade para a negociação de significados. Assim, criamos maneiras de participação na prática no processo de contribuição para fazer dessa prática o que ela é'. (WENGER, 1998 p.94)
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## Implementando uma comunidade de prática de ensino de física
Passemos a descrever a implementação de uma Comunidade de Prática de Ensino de Física ora denominada de COPEF, envolvendo professores e graduandos da licenciatura em Física, juntamente com docentes e estudantes da educação básica. A proposta está delineada em quatro etapas a saber:
- a) Seleção dos participantes
- b) Seminário de abertura do projeto;
- c) Visitas às escolas da educação básica;
- d) Seminário de socialização;
Neste trabalho descrevemos os dois primeiros momentos do projeto, sendo que as visitas nas escolas da educação básica ainda encontram-se em andamento e, portanto, apresentamos, aqui, apenas o Seminário de Abertura do projeto.
## A seleção dos participantes
A participação dos membros da COPEF está divida em dois grandes grupos: os professores e estudantes da licenciatura em Física do IFBA; e os professores e estudantes das escolas básica;
A primeira parte do grupo foi definida a partir da divulgação do projeto e do convite junto aos professores e estudantes da licenciatura em Física, os quais se manifestaram de maneira voluntária a participarem da proposta. Nesse sentido, participam da COPEF seis professores do IFBA, dos quais dois são coordenadores do projeto. Entre os licenciandos, integram o grupo, nove estudantes, dois quais oito participam do PIBID e outro do PIBIC.
O segundo grupo de membros da COPEF compreende 71 indivíduos da educação básica de escolas da rede estadual do interior da Bahia, dentre os quais 11 professores e 60 estudantes. A escolha desses participantes foi feita através de convite enviado a Secretaria de Educação do Estado da Bahia, por meio do Instituto Anísio Teixeira, que providenciou uma lista de escolas com o perfil desejado para o projeto. Nesse sentido deu-se preferência as escolas do ensino médio com baixo IDEB. Essas instituições são de regiões distintas do interior da Bahia, das quais cinco são do sertão, uma do sul e outra do sudoeste baiano. Após o envio do convite a essas instituições, foi feita a escolha dos professores de Física e seus respectivos estudantes dentro do limite de participantes previstos pelo projeto.
## O seminário de abertura
Esta etapa foi marcada pelo encontro inicial entre os membros do IFBA e os professores da educação básica. Onze professores vindos do interior do estado da Bahia, participaram de um conjunto de atividades promovidas pelos participantes da licenciatura em Física do IFBA, integrantes da COPEF, durante uma semana, totalizando 40 horas distribuídas entre oficinas e palestras. A programação contemplou as atividades descritas no quadro 01:
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Quadro 01: Atividades do seminário de abertura
- O objetivo das palestras foi discutir alguns elementos, que consideramos importantes para formação do professor de Física. O grupo de palestrantes convidados foi composto de pesquisadores de instituições de ensino superior com expertise nos temas propostos. Dentre assuntos trabalhados se destacaram a necessidade de debates a respeito dos saberes necessários para o docente em Física tomando por base as perspectivas atuais dentro da pesquisa em Ensino de Física. Além disso foram debatidas experiências de pesquisadores que investigam os resultados da iniciação científica na educação básica como forma de incremento a formação básica no ensino de Ciências.
Não menos importantes foram apresentados os relatos das atividades dos Programas Institucionais de Bolsas de Iniciação à Docência -PIBID, dos subprojetos de Física no âmbito da Universidade Federal da Bahia e do Instituto Federal de Ciência e Tecnologia da Bahia. Na oportunidade licenciandos, professores e coordenadores institucionais dos programas debateram sobre esse tema.
- O ciclo de palestras foi finalizado com a apresentação dos resultados das Olimpíadas Brasileiras de Física - OBF - no estado da Bahia. O relato foi feito pelos os coordenadores regionais do evento, os quais expuseram os principais resultados baianos na OBF nos últimos anos.
A cada dia de atividade, e após as palestras, foram realizadas oficinas com sugestões didáticas para o ensino de Física. As oficinas tiveram o objetivo de instrumentalizar os professores e licenciandos de Física participantes do PIBID em suas atividades realizadas nas escolas.
Na primeira das oficinas foram apresentadas sequências didáticas que utilizavam a plataforma Arduíno como ferramenta de aquisição de dados por computador na demonstração de princípios físicos. Os participantes puderam manipular a plataforma e conhecer parte de sua potencialidade.
- A oficina de interdisciplinaridade se configurou como um momento de compartilhamento de experiências que articulavam a Física com outras áreas do conhecimento. Além dos relatos foram discutidos os fundamentos teóricos sobre essa temática acompanhado do encaminhamento de atividades a serem realizadas nas escolas com esse caráter.
Na oficina seguinte foi trabalhada a utilização de atividades de Astronomia aplicadas na educação básica. O material utilizado na oficina foi resultado de uma tese de doutorado que propunha o conjunto de sugestões com essa temática.
- O uso de materiais de fácil aquisição no laboratório de Física, foi uma das oficinas com maior número de participantes, quase 70 % do total. Foram relatadas atividades realizadas pelos professores do departamento de Física IFBA, onde foi
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possível compartilhar sugestões didáticas de fácil realização, dada a natureza da proposta.
A última oficina, descrita na figura 01, versou sobre a utilização das tecnologias da informação e comunicação - TIC - nas aulas de Física, em especial as simulações computacionais. Além disso, foram discutidos os fundamentos teóricos que sustentam a complementaridade entre os laboratórios convencionais e os chamados laboratórios virtuais que utilizam o suporte das TIC.
Figura 01: Oficina com as TICs
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Ao final da programação semanal do Seminário de Abertura do projeto foi feita a avaliação das atividades com os membros participantes da primeira etapa. Na oportunidade foi lançado um espaço virtual através da plataforma moodle do IFBA, para servir de interlocução entre os participantes da COPEF.
Na organização do ambiente, ilustrada na figura 02, foi montado um sistema de compartilhamento de materiais sobre educação cientifica, em especial, sobre o ensino de Física que inclui fóruns de discussão, chats, correio eletrônico, sistemas de mensagens, banco de questões, banco de atividades experimentais, sequências didáticas, relatos de práticas de sala de aula, banco de textos, banco de questões, indicações de sites voltados para o ensino e compartilhamento de materiais de licença livre.
Figura 02: Ambiente Virtual da COPEF
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## Considerações Finais
Nesse primeiro encontro foi possível perceber a importância de um projeto dessa natureza tanto para o licenciando de Física como para os professores da Educação Básica. Para o bolsista de iniciação à docência a participação no Seminário de Abertura da COPEF ofereceu a oportunidade de conhecer, em parte, um pouco da realidade relatada pelos professores advindo das escolas do interior da Bahia.
Para o docente da educação básica a oportunidade de revisitar o espaço acadêmico representa um passo inicial para diminuição da lacuna entre o debate sobre a formação inicial do professor de Física em confronto com a prática profissional dentro de um contexto situado nos corredores escolar da educação básica. Essa vivência, portanto, pode potencializar a formação continuada desses professores a partir de um ambiente que coloque frente a frente atores acadêmicos com atores do espaço escolar.
Como dito, ao final deste projeto pretende-se implementar uma comunidade de prática de Ensino de Física. Embora esse seja apenas o relato do Seminário de Abertura, acreditamos que o resultado do projeto já apresenta elementos satisfatórios, dada a adesão proposta. As interações dos participantes no ambiente virtual, após a semana inicial estão sendo monitoradas no intuito de avaliarmos o compartilhamento e as práticas colaborativas dentro da COPEF. Além disso, as visitas às escolas já começaram e os dados sobre essas experiências serão divulgados em oportunidade futura.
## Referências
DELIZOICOV D; ANGOTTI J.A; PERNAMBUCO, M. Ensino de Ciências: fundamentos e métodos - Coleção Docência em Formação, Ed Cortez, São Paulo, 2002.
FIOLHAIS, C; TRINDADE, J. Física no Computador: o Computador como uma Ferramenta no Ensino e na Aprendizagem das Ciências Físicas. Revista Brasileira de Ensino de Física, São Paulo, v. 25, n.3, p 259 - 272 Set. 2003.
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