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ENSINANDO A ENSINAR FÍSICA NAS SÉRIES INICIAIS: MANUAIS DIDÁTICOS DESTINADOS A PROFESSORES

Tânia Maria F. Braga Garcia, Fernanda Esthenes Do Nascimento, Fernando Scomacao

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXI
Ano
2015
Data
29/01/2015
Linha de pesquisa
Alfabetização Científica E Tecnológica E Abordagem Cts No Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## ENSINANDO A ENSINAR FÍSICA NAS SÉRIES INICIAIS: MANUAIS DIDÁTICOS DESTINADOS A PROFESSORES

## Tânia Maria F. Braga Garcia , Fernanda Esthenes do Nascimento , 1 2 Fernando Scomacao 3

1 UFPR/PPGE/NPPD, taniabraga@pq.cnpq.br

2 UFPR/PPGE/NPPD, esthenes@yahoo.com.br

3 UFPR/Licenciatura em Física/NPPD, nando.scomacao@gmail.com

## Resumo

Relata resultados de investigação realizada no âmbito de um projeto mais amplo cujo objetivo é catalogar e analisar manuais de Didática e Metodologia do Ensino produzidos no Brasil com a finalidade de orientar os professores para ensinar os conteúdos específicos das diferentes disciplinas escolares. Neste caso, a pesquisa está voltada aos manuais produzidos para dar orientações aos professores quanto ao ensino de Ciências e particularmente quanto ao ensino da Física. Esses manuais foram e são concebidos como materiais que contribuem para a formação inicial e continuada de professores, ensinando a ensinar. Podem ser entendidos como elementos visíveis do código disciplinar das disciplinas relacionadas à Didática e à Metodologia do Ensino e contribuem para a compreensão de formas de ensinar e aprender difundidas na cultura escolar brasileira, em diferentes períodos históricos. Apresenta resultados quantitativos do acervo de manuais de Didática Geral, de Didática das Ciências e Didática da Física localizados e resultados de análise do conteúdo de manuais selecionados, quanto a aspectos específicos relativos a: objetivos para o ensino de conhecimentos físicos nas séries iniciais, conteúdos de Física indicados para o ensino e critérios de seleção desses conteúdos, estratégias de ensino sugeridas nas orientações para ensinar com destaque aos experimentos.

Palavras-chave : Manuais didáticos. Formação de professores. Física nas séries iniciais. Ensino de Física.

## Introdução

Para a pesquisa educacional, os livros ou manuais didáticos nem sempre foram considerados como objeto científico relevante. Segundo Choppin, negligenciado pelos historiadores e bibliófilos durante muito tempo 'os livros didáticos vêm suscitando um vivo interesse entre os pesquisadores de uns trinta anos para cá', o que evidencia a expansão e o fortalecimento de um campo de investigação. (2004, p.552).

De forma geral, na produção acadêmica de investigação sobre manuais escolares, os livros destinados aos alunos têm sido preferentemente tomados como objeto, seja no campo da pesquisa em História da Educação, seja no campo da investigação da Didática e das Práticas Escolares, constatação que também se aplica ao caso particular das Ciências. Ferreira e Selles (2004), ao examinar dezessete artigos produzidos a partir da década de 1980, onze dos quais referidos a Física, concluem sobre a existência de várias formas de abordagem desse objeto, mas apontam a concentração estudos em torno de questões relativas ao conteúdo dos livros para os alunos -erros conceituais, estruturação na forma de apresentação, assuntos/ temas específicos, comparação com ideias alternativas,

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26 a 30 de janeiro de 2015

espontâneas dos alunos, presença de analogias, uso do cotidiano, entre outros. Os livros destinados aos professores não aparecem como objeto privilegiado no campo de pesquisa em ensino de Ciências.

O estudo sistemático dos manuais usados em instituições de formação de professores, embora incipiente na Ibero-américa é um tema que vem ganhando espaço. No caso brasileiro, a pesquisa sobre esse tipo particular de manual tem sido restrita a estudos como os que se referem à leitura de professores e às coleções destinadas a professores (VIDAL, 2001; CARVALHO, 2001; MONARCHA, 1997). Também há estudos sobre os manuais destinados a professores em algumas disciplinas específicas, como a Didática da História (SCHMIDT, 2005) ou a Didática Geral (GARCIA, 2003), além de trabalhos que visam (re)construir a história dos manuais brasileiros, como o de Silva (2008) entre outros.

Para a realização desse tipo de estudo é necessário organizar acervos, o que vem exigindo esforços de grupos de investigação interessados nas relações entre a temática dos manuais didáticos e a formação de professores (BUFREM et al, 2006). Este é um dos objetivos do projeto, cujos resultados serão apresentados no que diz respeito à localização e catalogação de obras que ensinam a ensinar ci conhecimentos físicos. Nele, os manuais são entendidos como um 'elemento visível do código disciplinar', conceito de Cuesta Fernández (1998), abrindo-se possibilidades de estudar a construção da Didática Geral e das Didáticas Específicas como disciplinas escolares, suas formas de organização e suas características em determinados períodos.

## A pesquisa sobre manuais didáticos: lacunas e possibilidades

Para Choppin (2004, p. 551), o interesse em estudar os livros pode ser justificado pela 'onipresença - real ou bastante desejável - de livros didáticos pelo mundo e, portanto, o peso considerável que o setor escolar assume na economia editorial nesses dois últimos séculos'. Embora se possa dizer que houve um fortalecimento quantitativo e qualitativo desse campo, particularmente com relação aos estudos de natureza histórica sobre livros e edições. (Choppin, 2004), o estudo sistemático dos manuais usados em instituições de formação de professores ou a eles destinados corresponde ainda a uma lacuna nesse campo. Bufrem, Schmidt e Garcia (2006, p. 1) afirmam que 'os estudos sobre publicações didáticas têm sido realizados por pesquisadores e especialistas das várias áreas do conhecimento e têm privilegiado, especialmente, a análise dos manuais destinados a alunos' particularmente com relação aos manuais das Didáticas Específicas há poucos estudos desenvolvidos, o que justifica a investigação aqui apresentada.

Os manuais para a formação docente foram produzidos e comercializados a partir o século XIX, com a intenção de levar orientações aos professores - ou em outras palavras, para 'ensinar a ensinar'. Essas obras foram fundamentais em dados momentos uma vez que o ensino - do ler, escrever, contar - era inicialmente restrito a poucos, os livros eram caros e pouco difundidos, os professores não eram numerosos e tinham formação pouco específica. Assim, os manuais para professores conquistaram importante lugar na construção da cultura escolar, em especial nos momentos em que novas disciplinas passam a compor o currículo, ou em momentos que se exige uma atualização de conhecimentos pelos professores. (OSSENBACH; SOMOZA, 2001).

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No Brasil, um conjunto de manuais de Didática Geral vem sendo produzido e difundido. Nas obras das primieras décadas do século XX podem ser encontradas também orientações para o ensino das diversas disciplinas escolares. Eram destinadas fundamentalmente ao trabalho nas escolas normais, na formação de professores para atuar no ensino primário. Os autores preocupavam-se em apresentar uma parte geral, contendo princípios, regras e métodos para o trabalho nas aulas, e muitas vezes apresentavam uma segunda parte em que buscavam mostrar a aplicação de tais ideias gerais nas disciplinas específicas, incluindo-se as Ciências e a Física.

A partir das décadas de 1950, passam a predominar nos manuais de Didática Geral conhecimentos sobre finalidades educativas, métodos, planejamento do ensino, orientação e controle da aprendizagem, e gradualmente as orientações metodológicas específicas deixam de ser incluídas. Manuais específicos de cada campo de conhecimento correspondente às disciplinas curriculares passaram a ser mais numerosos - ainda que não com igual intensidade em todos os campos. Esse segundo grupo de manuais destina-se tanto a professores das séries iniciais como a professores de disciplinas específicas em outros níveis do ensino, apresentando-se como obras de Didática Específica, de Metodologia de Ensino e, outras vezes, com títulos em torno da idéia de 'Como ensinar...'. Levam aos professores fundamentos e critérios de seleção de conteúdos, proposição de métodos e estratégias mais adequadas, sugestão de recursos de ensino bem como outros elementos constitutivos do processo de didatização das ciências.

Seja para professores formados em nível médio ou em nível superior, os manuais pretendem ser instrumento de apoio à sua formação ou na sua ação, um recurso no qual podem ser encontradas orientações para ensinar conhecimentos físicos. O projeto no qual está inserida a pesquisa aqui relatada, vem constituindo uma base de dados que inclui um acervo físico de manuais e uma base virtual de catalogação de manuais destinados aos professores, com a intenção de contribuir para organizar fontes e possibilitar o desenvolvimento de pesquisas, seja no campo da Didática Geral, das Didáticas Específicas ou da História da Educação.

Assim, considerando-se as lacunas constatadas e apontadas as possibilidades de estudo desses manuais para compreender a constituição de conhecimentos no campo da Didática e da Metodologia de Ensino, apresentam-se a seguir alguns resultados obtidos.

## Procedimentos de pesquisa e resultados quantitativos: manuais que orientam o ensino de Física

No caso especifico das Metodologias de Ensino de Ciências e de Física, foram desenvolvidas atividades desde 2008, incluindo uma etapa inicial, bibliográfica, para identificação preliminar de obras com as características definidas para a constituição da base. Paralelamente, foi realizada também uma pesquisa em bibliotecas, em sebos e livrarias. A partir do levantamento inicial, as obras foram catalogadas e se procedeu à aquisição de títulos disponíveis em sebos e livrarias. Doações de acervos pessoais também foram recebidas.

Os manuais localizados foram agrupados em diferentes categorias, em função de suas características: 14 títulos de Didática Geral que tratam do ensino de Ciências e do Ensino de Física; 9 títulos de Didática e Metodologia do Ensino de

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Ciências; 2 títulos de Metodologia do Ensino de Ciências que possui enfoque específico na Física, devido à proximidade dos autores com a Física, pela sua formação; 1 título de Metodologia de ensino da Física.

O acervo do Projeto inclui, ainda, manuais produzidos em outros países que circularam no Brasil, encontrados em sebos ou doados ao Núcleo de Pesquisa, cujo objetivo é orientar os professores nas suas ações para ensinar Ciências e/ou Física. A organização do acervo, ação contínua dentro do Projeto e que não finaliza ou se esgota na lista de obras até agora localizadas, abre possibilidades para o desenvolvimento de estudos sobre as dimensões didáticas e epistemológicas do ensino de Ciências e, em particular, do Ensino de Física. Nos limites deste texto, serão apresentadas a seguir as análises de duas obras que incluem orientações aos professores das séries iniciais para ensinar conhecimentos físicos: 'Didáctica (nas Escolas Primárias)', de João Toledo, e 'Ciências no ensino fundamental: o conhecimento físico', de Anna Maria Pessoa de Carvalho e colaboradores. Produzidos em momentos distintos - o primeiro em 1930 e o segundo após a produção dos Parâmetros Curriculares Nacionais, na década de 1990 - evidenciam permanências e mudanças nas formas de compreender o ensino e a aprendizagem dos conhecimentos físicos.

## Orientações para ensinar Física nas séries iniciais: o que dizem os manuais sobre conteúdos e procedimentos de ensino

Considerando-se a distância existente entre a publicação dos dois manuais selecionados, não se poderia pensar em uma comparação a não ser para entender se e como algum elemento contido nas orientações aos professores permaneceu ao longo do século XX, e como foram entendidas por esses autores as questões relativas ao ensino de Física. Metodologicamente, optou-se por desenvolver uma análise de conteúdo (Franco, 2003). Após a primeira leitura das obras - que a autora define como uma 'leitura flutuante'-, foram estabelecidas as seguintes categorias, apoiadas em elementos constitutivos da Didática: objetivos para o Ensino de conhecimentos físicos nas séries iniciais, conteúdos de Física indicados para o ensino e critérios de seleção desses conteúdos, estratégias de ensino sugeridas nas orientações para ensinar.

## Manual I: 'Didáctica', de João Toledo.

O educador, nascido em 1879 e formado em 1900 na escola Complementar de Itapetininga foi nomeado para a Direção de um Grupo Escolar, em 1901, e transferido para outro em 1908. Em 1913 assumiu a cadeira de Psicologia Experimental, Pedagogia e Educação Cívica na Escola Normal de São Carlos. Foi também Inspetor Geral do Ensino em São Paulo. Escreveu artigos com objetivo de difundir métodos e processos de ensino e manuais destinados aos professores, entre os quais a obra 'Didáctica' (nas Escolas Primárias), publicada em 1930 pela Livraria Liberdade (São Paulo). A primeira edição, em janeiro, foi de 2600 exemplares e a segunda edição, revista pelo autor e publicada em agosto do mesmo ano, foi de 5000 exemplares, indicativo de algum grau de aceitação da obra. Nesse livro, João Toledo apresenta orientações para o ensino de Física nas séries iniciais.

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## Manual II: 'Ciências no ensino fundamental o conhecimento físico', de Anna Maria Pessoa de Carvalho e colaboradores.

Anna Maria Pessoa de Carvalho é reconhecida pela sua atuação na constituição do campo do Ensino de Física no Brasil, responsável pela formação de muitos pesquisadores e professores. É autora de livros e artigos sobre a formação de professores de Ciências. Quanto à obra 'Ciências no ensino fundamental: o conhecimento físico', é importante ressaltar que foi concebida contemporaneamente aos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), publicada pela primeira vez em 1998 e reimpressa em 2005. Todos os demais autores são mestres em Ensino de Ciências (Física) pela Universidade de São Paulo. Segundo os autores, o livro é apoiado em pesquisas realizadas 'para conhecer como ensinar Ciências para crianças de sete a dez anos (2005, p. 6)', e procura mostrar como ensinar nas séries iniciais do ensino fundamental para tornar o ensino prazeroso e útil, mas também compromissado com a realidade dos alunos. Ao destacar que 'uma parte significativa do programa de Ciências diz respeito ao conteúdo de Física', e que ensiná-lo 'é uma tarefa extremamente complexa', os autores esperam contribuir para que os alunos, em seu primeiro contato com a Física, aprendam a gostar da Ciência desde pequenos.

## Elementos didáticos presentes nas obras analisadas

Das 334 páginas que compõem a obra Didáctica (nas Escolas Primárias), de João Toledo, 57 são dedicadas a elementos gerais e, sem seguida, o autor se dedica ao que denomina 'Didática Especial'. Nessa seção, a primeira parte é dedicada às 'Noções Communs', nas quais estão incluídos os conhecimentos físicos: 'Todos os ramos da sciencia entram com seu contigente para a globalização desta parte do currículo primário, e de modo especial a zoologia, a botânica, a phisica, a chímica, a hygiene e a moral'. (TOLEDO, 1930, p. 61).

Para o autor, o conhecimento das coisas em si mesmas - dos fenômenos como puras manifestações das forças naturais -interessa menos que o conhecimento das relações de interdependência em que nos achamos com respeito a eles. O objetivo do ensino de Ciências é 'ensinar coisas em cujo contato as crianças se acham'; associar a vida da criança às condições de seu meio; interessa menos o conhecimento 'das coisas em si mesmas' do que a 'relação de interdependência em que nos achamos a respeito delas'. 'Os nomes dessas ciências não figuram nas lições, em toda primeira fase da iniciação escolar'. Só bem tarde, no 4º ano, agrupando coisas, fenômenos e fatos, é que se relacionará essas séries a denominações científicas especiais (p. 61)

Em capítulo denominado 'A marcha do aprendizado', Toledo indica os princípios que devem orientar o ensino e que podem ser articulados em uma 'fórmula - do conhecido para o desconhecido' (p. 211, grifos no original). Apresenta comentários sobre os assuntos que devem ser ensinados, entre eles as 'Noções Comuns', cujo centro é a Natureza, e onde insere o conhecimento físico cuja finalidade é 'preparar o indivíduo para as lutas inevitáveis da existência' (p. 344). A ênfase é dada à biologia e zoologia, mas o autor destaca o estudo dos fenômenos naturais em assuntos como o vento, chuva (barômetro), granizo, tromba d'água, evaporação, orvalho, geada, neve, gelo (termômetro), nuvens, arco-íris, relâmpago, raio.

A grande recomendação que o autor faz é quanto ao cuidado com a escolha dos assuntos pelo professor, que deve levar em conta o interesse dos alunos.

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Assim, as experiências com as coisas e com as palavras que designam as coisas devem ser previstas e consideradas pelos professores: não apenas observar, mas comparar - é da comparação que ocorre a generalização, que permite a aplicação na vida prática (p. 112). A ideia de globalização de conhecimentos e dos centros de interesse, apontadas por Toledo para o ensino da Física, permanecem presentes com diferentes abordagens ao longo do século XX, e voltam a ter força nas propostas da década de 1990. Ainda quanto aos procedimentos didáticos, o autor aponta que a função do método de ensino é a compreensão das leis gerais dos fenômenos. Para isso, o aluno deve percorrer as etapas do método indutivodedutivo; observação, comparação, abstração, generalização e dedução. 'É muitíssimo recomendado para a aquisição dos princípios gerais da Phisica'. (p. 50).

Diferentemente desse primeiro manual, de Didática Geral e de Metodologias Específicas, o segundo manual, publicado na década de 1990, é escrito por especialistas no Ensino de Ciências e no Ensino de Física, correspondendo a outro modelo de livro para professores que passou a ser produzido e difundido na segunda metade do século XX, ainda que com a mesma preocupação de orientar as práticas de professores generalistas que atuam nas séries iniciais de escolarização, expressando a configuração de uma Didática da Física. A escolha dos temas articula tanto a referência na vida dos alunos como a proposição dos programas e livros didáticos, levando em conta as definições curriculares existentes que estabeleceram critérios para a produção dos livros didáticos. Mas, para além dos conceitos, os autores associam procedimentos e atitudes que devem ser considerados na definição dos conteúdos a ensinar, formulação compatível com os modelos construtivistas de abordagem psicológica do processo de ensino e aprendizagem, que também estão presentes nos Parâmetros Curriculares Nacionais. Neste manual, os conceitos e temas da Física estão postos de forma mais clara e precisa, fato compreensível em função de todo desenvolvimento ocorrido no século XX, tanto na Física como Ciência, quanto na Física como disciplina escolar.

Para os autores, o aluno das primeiras séries, principalmente na área de Ciências, 'não aprende conteúdos estritamente disciplinares, 'científicos''. Por isso, deve-se buscar conteúdos dentro do mundo físico em que a criança vive e brinca, para construir os primeiros significados do mundo científico, permitindo que posteriormente adquiram novos conhecimentos de forma sistematizada, 'mais próxima dos conhecimentos científicos' (p. 12). Os professores das séries iniciais não precisam se preocupar com as sistematizações fora do alcance dos alunos (p. 13).

Do ponto de vista dos procedimentos e estratégias de ensino, no Manual I o autor organiza vários exemplos de lições, com o objetivo de mostrar aos professores como estruturar as aulas em cada centro de interesse - a Natureza é um dos centros para as noções comuns, entre as quais o estudo dos fenômenos físicos. As aulas são detalhadas seguindo os elementos do método indutivo-dedutivo defendido por ele. Essa proposta de detalhamento dos conteúdos em 'lições' foi causa de críticas ao autor, por educadores que consideravam que os 'modelos' não contribuíam para necessária renovação do ensino desejada pelos escolanovistas, de forma geral.

A apresentação de alguns modelos de organização do ensino também se encontra no Manual II, para mostrar aos professores como estruturar as aulas, seguindo as etapas constitutivas da proposta. Destaca-se a ideia de escola ativa e

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da importância da atividade dos alunos para a aprendizagem, presente nos dois manuais examinados, embora decorrentes de fundamentos diferenciados. A defesa da observação como primeira etapa para o ensino, presente ao início do século como parte do método indutivo-dedutivo, perde espaço para a ideia de problematização como ponto de partida para o trabalho de ensino, segundo os autores do Manual II. Neste caso, trata-se de perspectiva decorrente da compreensão do ensino como processo de construção do conhecimento, que deve ser sustentado nos conhecimentos prévios e propor desafios cognitivos, posições que ganharam força nas discussões no campo do ensino de Física nas últimas décadas.

Assim, no Manual II, a experimentação ganha espaço e sentido. A proposta dos autores inicia com a proposição de um problema pelo professor; desenvolve-se ação sobre os objetos para ver como reagem (experimentação); desenvolve-se ação sobre os objetos para obter o efeito desejado (solução do problema com o material); toma-se consciência de como foi produzido o efeito desejado (contam o que foi feito); elaboram-se explicações causais (responder: por quê?); registra-se o resultado, escrevendo ou desenhando; relaciona-se a atividade com o cotidiano. (p. 40).

## Considerações finais

Este trabalho possibilitou entender a Física como um conhecimento que é considerado necessário e útil ao desenvolvimento dos alunos desde os primeiros manuais de Didática do século XX localizados na pesquisa. Permitiu também compreender como as ideias gerais do ensino, tratadas na Didática Geral, influenciam a presença de determinados conteúdos e métodos nas Didáticas Específicas, neste caso as Ciências e a Física. Foi possível verificar como permanecem presentes hoje, ainda que com características específicas, elementos da escola ativa ou moderna, que colocam o aluno como centro do ensino, bem como a preocupação em situar os conhecimentos em relação aos interesses e à vida dos alunos.

A observação, valorizada como parte inicial dos procedimentos de ensino no inicio do século XX é decorrente da concepção de que os fenômenos naturais devem ser seguidos em seu curso, em suas etapas sucessivas, buscando suas 'causas determinantes, a marcha e a realização final' (TOLEDO, 1930, p.47). Ao longo do século, as transformações nas concepções conduzem à compreensão de que a ação sobre a observação inicial deve gerar questões a serem analisadas pelas crianças. Assim, a problematização passa a ser o ponto e partida para o ensino, exigindo a ação do aluno sobre o fenômeno a ser estudado, o que se realiza pela experimentação. Essa foi uma mudança substancial que os manuais analisados evidenciam.

Finalizando, destaca-se a importância de tomar os manuais destinados a professores como objeto de investigação, pela potencialidade dos estudos para esclarecer elementos relacionados à formação de professores, expressas pelos autores desses materiais que se destinam a ensiná-los a ensinar. Por meio deles, pode-se compreender o valor atribuído aos conteúdos, bem como os movimentos em direção a determinadas concepções de ensino e de aprendizagem que se revelam nas sugestões de como ensinar, neste caso em particular as Ciências e a Física, como se procurou evidenciar nesta pesquisa.

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## Referências

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