DIÁLOGO ENTRE SABERES POPULARES E ESCOLARES: A CONSERVAÇÃO DA CARNE EM SANTA ROSA DE LIMA ANTES DA ELETRICIDADE
Elizandro Maurício Brick, Francisco Fernandes Soares Neto, Júnior Alberton Nome, Karine A. Neckel, Diana Kulkamp
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXI
- Ano
- 2015
- Data
- 29/01/2015
- Linha de pesquisa
- Formação De Professores E Prática Docente
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## DIÁLOGO ENTRE SABERES POPULARES E ESCOLARES: A CONSERVAÇÃO DA CARNE EM SANTA ROSA DE LIMA ANTES DA ELETRICIDADE
Elizandro Maurício Brick , Francisco Fernandes Soares Neto , Júnior Alberton , 1 2 3 Karine A. Neckel , Diana Kulkamp . 4 5
1 UFSC/Departamento de Metodologia de Ensino/PPGECT, elizandromb@gmail.com
2
UFSC/PPGECT, ticofisica@gmail.com
3 UFSC/EduCampo, junioralberton@hotmail.com
4 UFSC/EduCampo, karine\_srl@hotmail.com
5 UFSC/EducCampo, Dianasrl2009@hotmail.com
## Resumo
O presente trabalho traz resultados de uma investigação preliminar, qualitativa, sobre saberes populares no contexto de Santa Rosa de Lima - SC com vistas a identificar transformações na cultura local, principalmente às relacionadas à conservação de alimentos, desde a chegada da rede elétrica, a menos de cinqüenta anos atrás. Deste modo o trabalho contextualiza a relevância do local nas situações investigadas qualitativamente e traz uma análise preliminar da técnica de conservação de carne utilizada no referido contexto a partir do conceito de evaporação. Foi evidenciada a centralidade dos conceitos de osmose e evaporação e identificado que quanto mais embasada essa compreensão conceitual, maior a possibilidade de mobilizar esses conceitos como instrumentos de análise da situação significativa em questão. Por fim, sinaliza-se a importância da organização do Curso de Licenciatura em Educação do Campo da UFSC para esse tipo de proposta, a partir do regime de alternância, que propiciou uma maior aproximação com a realidade estudada e a própria realização deste trabalho.
Palavras-chave : saberes populares, conservação de alimentos, evaporação.
## Introdução
Cada vez mais se tem reconhecido no âmbito da educação escolar, e em específico da educação em ciências, que romper com a dissociação entre conhecimento científico e cidadania está relacionado à necessidade de promover o diálogo entre os saberes populares e científicos (VENQUIARUTO; DALLAGO; DEL PINO, 2014). O que significa assumir o diálogo não apenas como princípio pedagógico, mas também como balizador das distintas dimensões epistemológicas e axiológicas envolvidas em situações concretas.
Diálogo assim tomado remete à perspectiva intercultural, inscrita no respeito às diferenças culturais de distintos grupos sociais, permitindo a criação de modelos analíticos e de atuação que afetem todas as dimensões do processo educativo, que esteja comprometido em promover a igualdade de oportunidades e a superação de qualquer tipo de preconceito (AGUADO, 2003).
Assim, o conceito de educação pode ser ampliado e assumido como um processo comunicativo, diferente de uma mera transferência de saberes sistematizados, estabelecido em um contraponto entre interlocutores, na busca de uma significação conjunta de significados (FREIRE, 2006).
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Em sintonia com essa discussão a Educação do Campo tem trazido como princípio propiciar essa relação com a realidade local e em propiciar o diálogo entre os saberes locais e "universais" (BRICK et. al. 2014). Souza (2011) destaca que junto com a luta, como princípio fundamental da Educação do Campo relacionado, também figuram como princípio a prática coletiva e a interdisciplinaridade na geração de conhecimento a ser validado pela própria prática social na transformação da realidade (SOUZA, 2011, p. 97). A Educação do Campo está vinculada a práticas pedagógicas que "(...) não começa na escola, mas na sociedade, e volta para a sociedade. Sendo a escola um espaço fundamental na relação entre o saber produzido nas diferentes práticas sociais e o conhecimento científico" (FRIGOTTO, 2011, p. 36).
Tendo em vista essa necessidade de promover esse diálogo entre saberes populares e das ciências da natureza, o presente trabalho se constitui como um relatório de uma pesquisa preliminar no âmbito do curso de Licenciatura em Educação do Campo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) que visou melhor compreender uma situação relevante socialmente para o contexto local de Santa Rosa de Lima - SC, bem como propiciar um diálogo preliminar entre a cultura local e a conceitos físicos demandados. A situação foco de estudo se constitui nas mudanças culturais, especificamente na conservação de alimentos, relacionadas à chegada da rede elétrica no município de Santa Rosa de Lima e especificamente no papel da evaporação na compreensão da principal técnica de conservação de carne no referido contexto antes da chegada da eletricidade.
## Descrição de como se deu da investigação
O presente trabalho se constitui como resultado da investigação de um grupo de trabalho, dentre nove ao todo, que foi formado na disciplina de "Fundamentos da Ciência da Natureza e Matemática III", componente curricular obrigatória do segundo ano do curso de Licenciatura em Educação do Campo da UFSC. Segundo descrevem e analisam Hanff, Ceolin e Brick (2013) o referido curso é estruturado pedagogicamente no regime de alternância, que consiste em períodos de aulas e demais atividades na universidades, tempo universidade (TU), alternados por períodos, tempos comunidades (TC), em que o curso se volta para atividades de pesquisa empírica nas comunidades do campo, em geral naquelas de onde os licenciandos são oriundos. Esse processo de alternância tem em vista fomentar a articulação entre teoria e prática e o fortalecimento das relações dos licenciandos com a realidade local e os diferentes componentes curriculares do curso tem como eixos articuladores produtos finais a cada ano do curso, sendo eles respectivamente: 1) um diagnóstico da comunidade/município; 2) um diagnóstico da relação entre a comunidade local e da escola; 3) o estágio docencia nos anos finais do Ensino Fundamental; e 4) o estágio docência nos Ensino Médio a partir de um projeto comunitário.
No referido componente curricular, parte do segundo ano do curso, o objetivo foi promover a apropriação da conceituração específica da Física de forma coerente com os princípios do curso. A forma de buscar a concretização desses objetivos se deu a partir de um processo de investigação preliminar sobre a realidade local tomando como temática geral "a produção, distribuição e consumo da energia elétrica no campo", de forma a não dicotomizar e nem reduzir a dimensão social à natural, mas sim identificar e investigar aspectos da realidade natural que teriam relevância social em uma determinada localidade.
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Nesse sentido o foco de cada trabalho, a situação analisada, teria de estar subordinado: à relevância social da subtemáticas escolhida pelo grupo de trabalho; a relação desta com a temática geral; e a produção de uma análise da situação do ponto de vista das ciências da natureza. Nesse sentido a escolha da subtemática era livre, tendo sido sugeridos os seguintes exemplares:
- · PCHs e impactos sócio-ambientais em Santa Rosa de Lima;
- · Mudanças culturais com a chegada da eletricidade em Santa Rosa de Lima, São Bonifácio, Anitápolis ou Orleans;
- · Diagnóstico dos usos (e não usos) contemporâneos da eletricidade em Santa Rosa de Lima, São Bonifácio, Anitápolis ou Orleans.
A partir dos condicionantes explicitados a investigação preliminar no contexto local se deu de forma predominantemente qualitativa, sendo os principais investigadores nativos do contexto analisado, o que propiciou o uso da "autoobservação" (GUTIÉRREZ; DELGADO, 1998) no âmbito da identificação da relevância social do foco escolhido de analise. Cerny (2009) esclarece que:
"na auto-observação, o pesquisador aprende a ser um observador da sua própria cultura, pois ele é um nativo desta cultura. O termo "nativo" utilizado significa aquele que faz parte do sistema a ser analisado na pesquisa" (CERNY, 2009, p. 111, 112)
Nesse sentido foram realizadas entrevistas informais com representantes da comunidade local, bem como busca de literatura sobre o local, que poderiam contribuir com a compreensão da relevância da subtemática escolhida para o referido contexto. A operacionalização da investigação ocorreu articulada com o regime de alternância em que as entrevistas e registros imagéticos sobre o contexto local ocorreram predominantemente no tempo comunidade (TC) e as pesquisas bibliográficas e estudo dos conceitos científicos envolvidos na situação analisadas ocorreram predominantemente durante o tempo universidade (TU).
## Resultados preliminares
## O contexto local
A investigação relatada ocorreu no estado de Santa Catarina, a 120 km da capital Florianópolis, no município de Santa Rosa de Lima que foi fundado em 10 de maio de 1962. Sua colonização iniciou-se na passagem do século XIX para o XX. Depois de 1920, cerca de 75% das famílias residentes eram de etnia alemã. Os 25% restantes eram compostas pelas etnias italiana e açoriana (DALMAGRO, 2012).
Atualmente, cabe destacar que 74,9% da população de um total de 2064 habitantes (IBGE, 2010) residem no meio rural, destes, 552 propriedades são da agricultura familiar. As atividades econômicas giram em torno da agricultura, da pecuária, do extrativismo de madeira, de pequenas indústrias e agroindústrias, do agroturismo e de outras atividades com menor participação.
Algumas famílias tinham engenhos movidos a rodas d'água e a iluminação era basicamente feita com lamparinas a querosene e lampiões a gás (DALMAGRO, 2012). Havia alguns aparelhos eletrônicos, porém:
Além de raros, os aparelhos só funcionavam a pilha, já que não havia energia elétrica. Eram quatro ou seis pilhas de acordo com o modelo de aparelho, e que representavam um gasto considerável para as famílias com menores condições [financeiras]. (DALMAGRO, 2012, p. 180)
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Ao falar que "não havia energia elétrica" o autor se refere à ausência de rede elétrica instalada, o que segundo o mesmo autor veio a ocorrer por volta de 1967 em diversos pontos do município (DALMAGRO, 2012). Com a eletricidade, além de surgirem novas fontes de entretenimento/informação (computador, telefone...) que alteram o cotidiano e a cultura local também houve transformações no que diz respeito à culinária: tanto no que diz respeito ao preparo, quanto à conservação dos alimentos consumidos na região. Dessa forma, foi sobre esse último aspecto em específico que se concentrou a investigação aqui relatada.
## Algumas mudanças nas práticas sociais locais com a chegada da eletricidade
Vários dos moradores do município, os quais entrevistamos, relataram que seus pais e, principalmente, seus avós, na época antes da chegada da energia elétrica, era muito comum o uso de técnicas que permitiam a conservação de alimentos que hoje em dia, com o aumento do uso de eletrodomésticos principalmente os refrigeradores - é cada vez menos conhecido na região.
A partir das conversas, se constatou que a carne de porco era conservada, por exemplo, em meio à banha ou salgava-se e secava-se ao Sol. As galinhas eram abatidas apenas no dia em que eram consumidas, logo não havia sobras para conservar. Os grãos eram guardados em latas e em caixas de madeiras bem vedadas . Do milho era feito a farinha-de-milho, utilizada para fazer o pão-de-milho, este assado no forno a lenha. A mandioca era utilizada para fazer o polvilho, ingrediente principal das roscas, bolinhos etc., também assados no forno a lenha. Da cana-de-açúcar o melado e açúcar eram obtidos num processo que dependiam dos engenhos de tração animal, pouco encontrados nos dias de hoje.
Um dos pratos de origem alemã, considerados tradicionais e característicos do município, o Gemüse, era preparado costumeiramente aos domingos, dia de frequentar a igreja. O prato é composto pela couve-manteiga, a batatinha inglesa e por defumados de porco. Por se tratar de um prato demorado para se fazer, a couve-manteiga e a batata eram cozidas logo de manhã cedo. Após o cozimento, amassavam-se os dois, formando uma espécie de massa. Depois se acrescentava os defumados de porco. Ainda na panela, enrolava-se em uma coberta de pena para retardar a dissipação de calor. Iam à missa e, quando voltavam, a comida ainda estava quente.
Todo esse processo era encaminhado, segundo os relatos dos moradores, pois a distância entre suas casas e a igreja era grande e, como não havia automóvel naquela época, ou seja, meio de locomoção rápida, levava-se bastante tempo para ir e voltar. Assavam-se pães, roscas e bolos em fornos aquecidos á lenha.
Com a chegada da eletricidade a carne passou a ser conservada em refrigeradores. Eletrodomésticos permitiram assar pães, bolos e roscas sem a necessidade de utilizar fornos à lenha, porém algumas famílias não os abandoaram totalmente. Os grãos agora são armazenados principalmente nas embalagens vazias de refrigerantes. O Gemüse ainda é preparado da mesma forma, porém, como agora existem automóveis para deslocar-se para a igreja aos domingos, por exemplo, não se tem mais a necessidade de fazer aquele mesmo processo de envolver a panela na coberta. Nota-se que estes dois últimos não sofreram mudanças ligadas diretamente à chegada da eletricidade, no entanto, a própria existência das embalagens de refrigerante, e do próprio refrigerante pode ser relacionada também a existência de refrigeradores.
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Atualmente, as 580 residências do município contam com inúmeros equipamentos elétricos e eletrônicos: computadores, televisão, micro-ondas, fornoelétrico, assadeira, ventiladores, aparelhos de ar condicionado, telefone, cafeteiras Entretanto, os equipamentos mais popularizados, presente em praticamente todas as residências, são a televisão e a geladeira (IBGE, 2010). Com isso, de forma indireta ou direta, a disponibilidade da energia elétrica tem uma influência profunda nas mudanças do cotidiano das pessoas que vivem e viveram em Santa Rosa de Lima. A seguir trataremos especificamente da conservação da carne, principal fonte de proteína da população local, antes da chegada da eletricidade.
## Analisando a técnica popular de conservação da carne
A partir de um olhar que assume a Física como 'óculos', podemos destacar duas principais técnicas de conservação de carne usuais em Santa Rosa de Lima, antes da chegada dos refrigeradores: (a) conservação da carne, principalmente de porco, por meio do mergulho em banha, contidas em latas metálicas para proteger a carne. Em seguida, era salgada e frita (ou cozida), do ambiente externo; (b) técnica de secagem da carne, que será nosso objeto de discussão.
Nesse ultimo caso, primeiramente, o animal era abatido e dividido em pedaços, que não poderiam ser nem muito finos, pois a carne poderia ficar dura, e nem muito grosso, pois poderia não secar o suficiente (MATEUS; FANTINI; NICÁCIO, 2012); depois estes pedaços eram salgados e colocados ao sol ou mesmo à sombra durante o dia e, durante a noite, eram pendurados sobre o fogão à lenha de onde recebia energia por meio de calor.. Este processo da carne seca levava alguns dias para ficar pronto, mas o "fumeiro" - espaço acima do fogão à lenha onde as carnes ficavam - também servia de espaço para guardá-las até a hora do consumo.
As perguntes que surgiram como foco de análise, nos levaram a pensar: o que faz com que essa técnica de conservação de carne funcione? Quais são as variáveis envolvidas na secagem da carne?
Ao se aprofundar nessas questões, descobrimos que os animais possuem grande quantidade de água em seus organismos, alguns mais outros menos. A própria decomposição dos seres vivos está relacionada com a disponibilidade de água nos mesmos, que possibilita a proliferação de larvas, bactérias e fungos, responsáveis por esse processo.
Analisando tal fato, percebe-se que quando essa água é eliminada, esses seres vivos não conseguem sobreviver bem, e nem se proliferar. Deste modo, a carne desidratada (ou carne seca) permanece conservada por um tempo maior do que a carne fresca, pois a sua deteriorização se torna mais lenta. Sendo assim, uma compreensão mais profunda desse processo pode ser obtida, quando nos aprofundarmos em dois conceitos centrais que, nesse caso, precisam ser mobilizados articuladamente: osmose e evaporação.
- O primeiro está relacionado com a equilibração da concentração de substâncias (água e sal) separadas por uma membrana semipermeável, e na prática com a necessidade de se colocar sal (cloreto de sódio), permitindo que boa parte da água contida na carne saia do seu interior para a sua superfície. No caso da carne, essa membrana semipermeável é a membrana celular, que permite a passagem da água da parte interna da carne (meio menos concentrado) para a parte externa da
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carne, cheia de sal (meio mais concentrado)." (MATEUS; FANTINI; NICÁCIO, 2012, p. 10). E qual é o papel da evaporação nesse processo?
Informações obtidas sobre as variáveis que permitem a desidratação da carne a partir das interações com sujeitos da nossa investigação vão ao encontro do que sinalizam estudos sobre conservação de carne, segundo os quais "(...) a secagem deve ser efetuada cuidadosa e uniformemente. Os melhores resultados são obtidos em condições de clima seco com muito vento (...)" (BERKEL et. al. 2005 apud PEREIRA; LOPES, 2009).
Ou seja, além de salgar a carne é preciso propiciar a exposição ao calor e ao vento para que a água que se deslocou do interior da carne, mais especificamente de suas células para a sua superfície, possa evaporar fazendo com que a concentração de água-sal aumente. "Assim, mais água vem do interior da carne para baixar a concentração da parte externa. Esse processo de osmose e evaporação se repete até que a umidade da carne esteja em equilíbrio com a umidade da atmosfera, o que pode levar vários dias." (MATEUS; FANTINI; NICÁCIO, 2012, p. 10, sic .).
## O papel da evaporação na secagem da carne
Ao expor a carne ao sol e ao vento, seu líquido é eliminado para a atmosfera por um processo que chamamos de evaporação. Como se dá esse processo? De acordo com vários livros didáticos consultados a evaporação, ao contrário da ebulição, acontece em qualquer temperatura, mas quanto maior for a temperatura, mais rápido se dará a evaporação. Nesses mesmos materiais há a caracterização de que os processos de vaporização, independentes de serem lentos (evaporação) ou abruptos (ebulição), possuem relação com o aumento da energia interna de uma determinada substância enquanto a diminuição dessa energia interna estaria associada à condensação.
Falar em processo de evaporação como um tipo de vaporização lenta sem adentrarmos numa compreensão microscópica da matéria pode deixar margens para conflitos com conceitos de ebulição. Feynmann (2008), situando a evaporação como um exemplo de processo atômico-molecular, traz a seguinte interpretação fenomenológica para o processo de evaporação:
"(...) as moléculas de água estão sempre dançando. De tempos em tempos, uma molécula na superfície é atingida mais fortemente que o usual e acaba se desprendendo da superfície. (...) podemos imaginar que uma ou outra molécula próxima a superfície acabou de ser atingida e esteja voando para fora da superfície. Então, molécula por molécula, a água desaparece - ela avapora." (FEYNMANN, 2008, p. 1-5.).
Acima autor está se referindo especificamente ao processo de evaporação na superfície entre um meio aquoso e o ar atmosférico (composto quase que inteiramente de nitrogênio, oxigênio e vapor de água) o que, pelo menos as partes que citamos, também se aplica ao nosso caso se não deixarmos de levar em conta o modelo de explicação microscópico e as interações das moléculas da água da carne com meio (com a carne e com o ar).
Do mesmo modo, embora possa ter moléculas de água com alta energia cinética, estaremos olhando apenas aquelas que estão na superfície e podendo escapar para o ambiente. Dessa maneira, se comporta, em parte, como moléculas da superfície de um líquido, o que torna desnecessária a diferenciação feita por Celestino (2010, p. 9) entre evaporação e secagem, quando caracteriza a última
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como se refererindo à remoção de líquido de um material sólido, enquanto a evaporação se refere à remoção em uma solução líquida. Até porque no caso da carne, se olharmos num nível microscópico, não temos nem "um material" apenas sólido, nem apenas líquido, mas a coexistência de ambos.
Dessa forma, parafraseando GREF (2011, p. 61), podemos dizer que uma vez que de um líquido de um corpo escapam aquelas moléculas cuja energia cinética é maior, suficiente para romper as interações que as prendiam, o corpo sofre um resfriamento durante o processo de evaporação. Entretanto algumas moléculas do vapor, sejam oriundas do corpo em questão ou anteriormente compondo a umidade do ar, devido ao seu movimento desordenado, acabam por se chocar com a superfície do corpo e retornam a ele, pois interagem novamente com o potencial atrativo das demais moléculas.
Isso significa que, juntamente com o processo de evaporação do líquido, está ocorrendo o processo inverso, o de condensação de seus vapores. Dessa forma, também é importante para o processo de secagem da carne, considerar a concentração de vapor de água no ar (a umidade do ar), para que a taxa de evaporação seja superior a de condensação o vento, e o ar seco acabam sendo fatores importantes, conforme já sinalizavam os moradores que dominavam a técnica de secagem da carne em Santa Rosa de Lima, a partir dos relatos coletados.
A importância da exposição da carne ao Sol pode ser compreendida não apenas pela tradição da técnica da carne, mas também pela influência do aumento da temperatura, devido a irradiação dos raios solares incidirem sobre a carne, no processo de evaporação. Isso por que
A evaporação ocorre a qualquer temperatura, mas a velocidade de evaporação do liquido aumenta com a elevação da temperatura. Isso é explicado pelo fato de elevação da temperatura aumenta a energia cinética média das moléculas do líquido, propiciando a um maior número de moléculas energia suficiente para romper a interação entre elas (GREF, 2011, p. 62).
Resumidamente, o processo de salga da carne fresca, por meio do fenômeno que chamamos de osmose, faz com que a água presente no interior da carne passe para a sua superfície. Assim, a exposição da carne salgada ao sol, e ao vento, propicia que a aceleração do processo de evaporação, que por sua vez muda a concentração de água-sal da carne, acelerando o processo de osmose. Dessa forma a carne desidratada se torna inadequada à existência de micro-organismos, responsáveis pela sua decomposição, de forma que possa ser consumida, sem outros procedimentos conservativos, dentro de um prazo maior do que a carne fresca.
## Considerações finais
Com as discussões e resultados apresentados preliminarmente temos um indicativo de que a situação em questão (a conservação da carne antes e depois da eletricidade) tem relevância pela influência nas mudanças culturais do contexto de Santa Rosa de Lima. Por outro lado, isso nos indica a necessidade de um maior aprofundamento no que diz respeito aos diferentes modelos explicativos que podemos obter para o processo de conservação por meio secagem da carne, inclusive se valendo de conceitos específicos de outras disciplinas como a Biologia e Química, o que propiciaria um entendimento mais global do fenômeno em questão.
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No que concerne à Física, foi possível identificar que o conceito de evaporação, da forma como apresentados em alguns livros didáticos do ensino médio, se mostram, de certo modo, insuficientes para propiciar a compreensão da situação estudada, isso porque não trazem uma interpretação microscópica da temperatura e da evaporação, o que poderia remeter a uma interpretação estatística da temperatura.
Foi possível, ao longo do processo de investigação preliminar, perceber a possibilidade de considerar efetivamente os saberes locais, não apenas como algo a ser superado pelo conhecimento escolar, mas como possibilidade no diálogo entre saberes, mobilizando ambos para analisar situações concretas que tenham relevância social local. Ou seja, compreendemos que esta se mostra uma possível forma de identificar e trabalhar conceitos específicos de Física, no âmbito de uma componente curricular que tem como objetivo promover o aprendizado de conceituação específica à futuros professores de Ciências da Natureza, a partir de um processo investigativo na comunidade local a partir da estruturação em regime de alternância do Curso de Licenciatura em Educação do Campo.
Embora a referida componente curricular tenha como foco propiciar a aprendizagem de conceituação específica da Física, compreendemos que essa abordagem investigativa propicia ao licenciando e ao docente do ensino superior aprendizagens tácitas com relação ao próprio sentido de se ensinar-aprender a ciência viva: a mobilização de conceituação para interpretações de situações concretas. Também pode-se enfatizar que nessa perspectiva busca-se propiciar aos licenciandos vicências dos princípios da Educação do Campo, tais como a não dicotomização entre teoria e prática e a relação entre o local e "universal" tendo como ponto de partida e de chegada a realidade local, servindo como exemplares a serem transpostos didaticamente pelos licenciandos para as suas práticas nos estágios de docência.
Cabe sinalizar que abordagens como esta implicam na não passividade dos sujeitos da investigação em relação à realidade que os mediatiza e em relação às teorias e sistemas de crença (que também os mediatiza): sejam as teorias acadêmicas que mesmo consideradas oficiais e até universais, precisa passar pela legitimação/apropriação popular para que possam ser incorporadas como cultura nesses contextos; ou mesmo as "teorias tradicionais não oficializada" mas legitimadas e veiculadas pelos saberes populares. Nesse sentido os cursos de Licenciatura em Educação do Campo, devido sua organização em regime alternância, podem propiciar essa busca pela articulação entre parte dos saberes populares locais e parte do conhecimento sistematizado diante do enfrentamento de situações contraditórias concretas específicas.
A educação do campo se constitui como um importante desafio prático para as universidades, em todas as áreas do conhecimento que abrangem e para as quais demandam cursos de licenciatura. Pode-se dizer que coloca desafios especificamente para a área de Ensino de Física a partir das demandas de formação de professores de Ciências da Natureza e Matemática para o ensino Fundamental e Médio a partir de princípios epistemologicamente críticos, que incitam a mobilização e articulação dos resultados de pesquisa na área de Ensino de Física (de forma particular) e Ensino de Ciências (de forma mais geral) no sentido de contribuir com
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um determinado projeto de sociedade: mais justo e igualitário.. Dessa forma, além de um desafio, se constitui em mais uma oportunidade de refletirmos sobre a finalidade da própria área de Ensino de Ciências respeito o ensino de conceitos de nossa área em função de diferentes realidades, em grande parte distante das trazidas em livros didáticos ou abordagens tradicionais de ensino.
## Referências
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Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.