LEVANTAMENTO DOS ELEMENTOS A SEREM CONSIDERADOS NO ENSINO DE FÍSICA PARA SURDOS
Camila Gasparin, Drª Sonia Maria Silva Correa De Souza Cruz, M.Sc. Janine Soares De Oliveira
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXI
- Ano
- 2015
- Data
- 29/01/2015
- Linha de pesquisa
- Materiais, Métodos E Estratégias De Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## LEVANTAMENTO DOS ELEMENTOS A SEREM CONSIDERADOS NO ENSINO DE FÍSICA PARA SURDOS
## Camila Gasparin, Drª Sônia Maria Silva Corrêa de Souza Cruz , M.Sc. Janine 2 Soares de Oliveira³
- 1 Universidade Federal de Santa Catarina/Departamento de Física / myluxa@gmail.com
## Resumo
O Ensino de Física para alunos surdos é nova área de pesquisa comparada a outras mais tradicionais. Dada importância de levantar a produção na área para que se possa definir o caminho que se delineia, o que tem sido feito e os desafios que se apresentam, foram elencados os artigos apresentados em três eventos na Área de Ensino de Ciências e Física, entre os anos 2007 e 2013, período no qual houve três edições de cada evento. Buscando e analisando os trabalhos de conclusão de curso e dissertações que originaram os artigos apresentados, dois foram escolhidos para análise aprofundada. Considerando o direito de todos de acesso ao conhecimento, atendimento de suas especificidades e necessidades especiais, direito de acompanhamento de intérprete em sala de aula e respeito à LIBRAS como primeira língua do aluno surdo, foram levantadas as metodologias de ensino presentes nestas pesquisas. Estas foram apresentadas considerando três modelos e quatro realidades escolares. Com isto objetiva-se configurar fonte de consulta de professores e intérpretes do ensino regular inclusivo e de professores de ensino superior, para que estas opções metodológicas passem a ser discutidas na formação de professores e sensibilizem os professores do ensino básico, podendo assim ser incluídas na práxis destes, melhorar a dinâmica com intérprete e o atendimento ao aluno surdo.
Palavras-chave : Surdos, Ensino de Física, Metodologia de Ensino, Formação de professores.
## Introdução
Na última década, o debate sobre inclusão educacional de pessoas com deficiência tem mostrado avanços, mas estes estão ainda muito distantes da prática cotidiana das escolas. A inserção da LIBRAS nos currículos das Licenciaturas objetiva sensibilizar os futuros professores em relação às práticas inclusivas e suas necessidades. Neste interim, buscamos levantar quais os elementos específicos devem ser considerados nas atividades didáticas no ensino de conceitos de Física para alunos surdos para servir de base à prática em sala de aula de professores em atuação e futuros professores da Educação Básica.
## Metodologia
Para elencar estes elementos, iniciamos a busca a partir artigos apresentados em três eventos de ensino de Ciências e Ensino de Física, ENPEC (Encontro Nacional de Pesquisa em Ensino de Ciências), EPEF (Encontro de Pesquisa em Ensino de Física) e SNEF (Simpósio Nacional de Ensino de Física), nas edições ocorridas entre os anos 2007 e 2013. A escolha do período se justifica por nele terem ocorrido três edições de cada evento, além de, em 2007, já haver
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26 a 30 de janeiro de 2015
dois anos do Decreto nº 5.626/05 que, entre outras determinações, regulamenta a inclusão da disciplina de LIBRAS nos currículos dos cursos de Licenciatura. A partir dos Anais de cada edição dos eventos, foram selecionados apenas os artigos relacionados ao ensino de Física para surdos. Em seguida, foram buscados os trabalhos, de conclusão de curso, dissertação e teses, que originaram os artigos apresentados. Esta busca se deu através dos currículos Lattes dos autores dos artigos, bancos de dados das bibliotecas universitárias e dos programas de Pósgraduação das instituições de Ensino Superior onde foram desenvolvidos. Considerando apenas aqueles aplicados em escolas, foi possível elencar as metodologias utilizadas e demais elementos importantes na dinâmica com estes alunos. A análise dos trabalhos foi documental, pois as fontes de obtenção dos mesmos são seguras e isto permite considera-los documentos. Estes foram analisados de forma completa, explorando seus contextos, e elencando todos os aspectos envolvidos na prática dos pesquisadores.
## Trabalhos Encontrados e Selecionados
Abaixo estão relacionados os artigos apresentados nos eventos e encontrados nos Anais destes, e os trabalhos que os originaram, sendo considerados apenas aqueles que tiveram aplicação em escolas. Nos Anais do ENPEC, EPEF e SNEF, entre os anos de 2007 e 2013, período no qual houve três edições de cada evento, foram apresentados os seguintes trabalhos relacionados ao ensino de Física para surdos:
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Os trabalhos e conclusão de curso e dissertações de mestrado destes autores, encontrados nas bases de dados supracitadas, seguem abaixo. Não foram encontradas teses de doutorado.
Foram selecionados para análise dos elementos trazidos quanto à prática nas escolas, as dissertações de Everton Botan (2012) e Jucivagno Cambuhy Silva (2013b), por serem dissertações, ou seja, trabalhos mais longos e mais bem elaborados, pelo trabalho de Botan ter sido realizado a partir de sua proposta de material didático inclusivo e pelo trabalho de Cambuhy Silva trazer o panorama do ensino de surdos em três realidades escolares distintas. Apesar do material didático da pesquisa de Everton Botan não ser aqui analisado, o diferencial para escolha é válido uma vez que o material permeou todas as atividades por ele desenvolvidas com alunos e intérpretes.
## Levantamento dos Elementos
Para levantar os elementos de forma consistente é necessário entender em qual contexto o trabalho dos pesquisadores foi realizado, e quais as características de cada dinâmica desenvolvida com os alunos e intérpretes, sendo aqui considerado inclusivo o ensino de alunos surdos realizado em sala de aula regular com o acompanhamento de intérprete de LIBRAS e cujas dinâmicas do processo ensinoaprendizagem respeitem esta como primeira língua do aluno surdo.
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A pesquisa de Botan (2012) foi realizada em Escola Estadual da região central de Sinpo-MT, única da cidade a atender alunos surdos em classes regulares. O atendimento destes alunos é de perspectiva bilíngue, proporcionando aos alunos o acompanhamento de intérprete com domínio em LIBRAS e português.
A pesquisa de Cambuhy Silva (2013) se deu em três escolas, no ano 2011: E1 - Escola regular de Ensino Médio da rede estadual de São Paulo, na cidade de Cajamar, com um aluno surdo e sem intérprete de LIBRAS; E2 - Escola regular municipal de Ensino Fundamental e Médio, na cidade de Pirituba - SP, com 38 alunos incluídos em 6 salas de ensino regular de Ensino Médio, acompanhados por 7 intérpretes de LIBRAS; E3 - Escola particular de Educação Bilíngue para surdos, com 80 alunos surdos e professores ensinando Física em LIBRAS. Nela a língua portuguesa é considerada segunda língua dos alunos e todos os conceitos devem ser ensinados primeiramente em LIBRAS.
Assim, das escolas nas quais as pesquisas foram realizadas, a escola E1 e a escola E3 da pesquisa de Cambuhy Silva não se encaixam no contexto da Educação Inclusiva, pois a primeira não traz acompanhamento de intérprete de LIBRAS para o aluno surdo, e a E3 é escola especial de surdos. Também, a dinâmica realizada por Botan em sua pesquisa não se configura educação inclusiva, pois os cinco encontros, de duas horas cada, no período vespertino, com os três alunos surdos do Ensino Médio da escola, foram realizados sem participação de alunos ouvintes. Mas é inclusivo o modelo de ensino da escola onde a pesquisa foi aplicada.
## Metodologias e Elementos Utilizados
No trabalho de Botan foram utilizadas as seguintes estratégias didáticas: Globo terrestre, para discussão do conceito de posição, distância percorrida e deslocamento, e para discussão do conceito de referencial, usando também sinais de Terra, ângulo, datilologia de coordenadas, longitude e latitude; Experimento da gota de água no óleo de soja para discutir o conceito de MU, e experimento do plano inclinado para discutir o conceito de aceleração e MRUV, sendo ambos, experimentos e conceitos, introduzidos pelo material didático através de perguntas abertas; Planilha eletrônica para organização dos dados obtidos no experimento (gota de água no óleo de soja) em duas colunas, Posição (cm), Tempo (s) e, posteriormente com uma terceira coluna, Velocidade Média (cm/s), e elaboração de gráfico. Também no segundo experimento, organização dos dados em duas colunas, Distância (m) e Tempo (s), e, posteriormente, com outras duas colunas, Velocidade (m/s) e Aceleração (m/s²) e elaboração de gráficos; Estudo dos gráficos dos experimentos realizados, retas e parábolas, relacionando com o tipo de movimento analisado no experimento; Discussão das fórmulas e cálculo de velocidade média, velocidade em um ponto do movimento e aceleração, através dos dados obtidos, retas e parábolas resultantes nos gráficos; Respostas a perguntas abertas e posterior elaboração de desenhos explicativos; Tópicos de HC no material didático sobre Aristóteles, primeiro, e Galileu, segundo, e seus conceitos de movimento; Teste em LIBRAS para levantar o entendimento dos alunos dos conceitos trabalhados, com auxílio de interprete; Negociação do sinal de 'gráfico', que na ocasião não foi encontrado em dicionários de LIBRAS.
Quanto aos elementos utilizados por Cambuhy Silva, como o pesquisador atuou apenas na escola E3, de ensino de surdos, apenas suas estratégias na
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atuação neste ambiente serão destacadas, e são: Alunos sempre instigados a explicarem conceitos para a turma; Utilização de imagens para explicação dos conceitos; Enunciados de problemas mesclando LIBRAS e português; Vídeos com legendas e repetidos três vezes, para entenderem, para o professor explicar em LIBRAS, e para tirar dúvidas, seguidos por proposta de atividade escrita; Ditado de Sinais, no qual o professor fazia os sinais referentes aos conceitos discutidos e os alunos deveriam escrever o correspondente em português; Para chamar a atenção dos alunos, quando muito dispersos, o pesquisador, em prática na escola, acendia e apagava a luz, usando um mecanismo visual para chamar a atenção dos alunos.
## Considerações Finais
A partir das dissertações analisadas pode-se inferir que são importantes aspectos para o ensino de Física a alunos surdos: O conhecimento deles em português, leitura e expressão escrita; A presença do intérprete acompanhando este aluno e possibilitando a comunicação entre ele e o professor, com posicionamento em sala de aula de forma a garantir o contato visual entre aluno-intérprete-professor e visualização completa do quadro; Domínio dos vocábulos científicos da LIBRAS pelos intérpretes, e elaboração de novos vocábulos com alunos surdos quando estes não existirem através da negociação de sinais; Uso de objetos concretos que possam ser vistos e tocados com atividades centradas na observação; Elementos visuais, como gráficos, para caracterizar os conceitos e como ponto de partida para entendimento das relações matemáticas; Apoio, como monitorias, aos alunos incluídos; incentivo à explicação dos conceitos pelos próprios alunos; Enunciados de atividades mesclando LIBRAS e português; Vídeos com legendas também nas duas línguas; trabalhos escritos em português; Ditado de sinais, sendo a reposta em português escrito; E demais dinâmicas visuais para atrair atenção dos alunos surdos. A atenção e combinação a estes aspectos aumentam em muito a dinâmica entre professor-aluno mesmo que através do intérprete, a cuja presença e atuação os professores devem estar atentos e serem sensíveis às necessidades específicas. Apesar do número diminuto de pesquisas na área, os aspectos da educação de surdos indicados pelas pesquisas de Botan e Cambuhy Silva combinados a outros a serem levantados nas pesquisas existentes, se inseridos na formação de professores em disciplinas de metodologia, prática de ensino e estágio dos currículos das licenciaturas em Física, resultariam em professores e profissionais mais sensíveis às necessidades do aluno e do intérprete em sala de aula, bem como ciente da importância de preparação de aula em conjunto com este, sendo importante fonte de pesquisa a ambos os fascículos do projeto 'Sinalizando a Física' desenvolvido por Botan et. al. na UFMT.
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