PARA ONDE VAMOS? UM RESGATE DA INICIATIVA DE ISAAC ASIMOV PELA UTILIZAÇÃO DO CONTO DE FICÇÃO CIENTÍFICA COMO FERRAMENTA NO ENSINO DE FÍSICA
Luis Fernando Gomes Fernandes, Alexsandro Pereira Lima, Alexandre Soares Melo
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXI
- Ano
- 2015
- Data
- 28/01/2015
- Linha de pesquisa
- Linguagem E Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## 'PARA ONDE VAMOS?': UM RESGATE DA INICIATIVA DE ISAAC ASIMOV PELA UTILIZAÇÃO DO CONTO DE FICÇÃO CIENTÍFICA COMO FERRAMENTA NO ENSINO DE FÍSICA
## Luís Fernando Gomes Fernandes 1 , Alexsandro Pereira Lima² Alexandre Soares Melo ³
1 UFERSA/luisfernandogf@gmail.com ²UFERSA/alexlima@ufersa.edu.br ³CEJA Paulo Freire
## Resumo:
A literatura de ficção científica (FC) tem sido objeto de estudo como ferramenta promissora no ensino de Física a mais de três décadas. Dentro deste amplo gênero literário, o conto de ficção científica ganha destaque quando se pensa em levar para a sala de aula o contato com algo que vá além das equações e definições matemáticas que, embora imprescindíveis para o formalismo do conhecimento científico, muitas vezes gera rejeição por parte dos alunos dificultando seu processo de aprendizagem. No ano de 1979 foi publicada uma coletânea de contos de ficção científica organizada pelo renomado escritor Isaac Asimov intitulada: 'Para onde Vamos?'. Esta obra se torna relevante na pesquisa de Ensino de Ciência e literatura de ficção científica devido à iniciativa do autor em escolher contos que além da qualidade, possuíssem ganchos pedagógicos que tornassem viável aprender Ciências a partir deles. Neste trabalho pretendemos ressaltar a obra e a ideia defendida pelo escritor realizando uma análise de um dos textos que a constituem. Partimos das proposições didáticas feitas por Asimov no livro, apresentando novas ideias de atividades mais próximas da realidade do ensino atual.
Palavras-chave : ficção científica; Asimov ; ensino de Física.
## INTRODUÇÃO:
A pesquisa em ensino de Física e Ciências propõe ideias, metodologias e projetos a fim de suprir das mais diversas maneiras esta necessidade fundamental de aprimoramento e modernização do ensinar. Um dos caminhos propostos é associar a ficção científica (FC) ao ensino de ciências (Piassi e Pietrocola, 2007; Zanetic 2006). A literatura de FC oferece uma mudança de ritmo e de postura no contexto da aula de Física por conduzir os estudantes a uma atitude mais reflexiva sobre a própria ciência. Durante a leitura de um conto, no caso do nosso trabalho,
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ele pode aceitar ou refutar determinada teoria científica. Um outro ponto positivo é o fato da literatura de FC apresentar-se como um importante reforço à prática de leitura dentro e fora do ambiente escolar.
Piassi e Pietrocola (2007) apresentam em seu artigo o conto de ficção científica como promissora ferramenta auxiliar no ensino de Ciências por apresentar uma narrativa curta com uma ideia central forte e bem definida. Normalmente não há grandes digressões e toda a ação caminha para a solução final que a ideia central encerra, muitas vezes com o efeito de surpresa e também frequentemente apresentando uma dimensão polêmica.
## DO AUTOR
Poucos autores, antes ou depois, dedicaram-se com tamanho afinco em fornecer instigantes reflexões ao avanço tecnológico da humanidade como o Russo radicado nos Estados Unidos Isaac Asimov. Para além de quinhentos livros, e revistas que escreveu ou editou, não só de ficção, mas sobre a própria ficção em diversos ensaios e artigos literários; e obras de referência e divulgação acadêmica nas áreas de Química e Astronomia.
Apelidado de 'O bom Doutor' devido ao afável contato que sempre manteve com seus fãs, e, ainda que acompanhado de irreverente ceticismo, por depositar renitente confiança na Ciência como estrela-guia norteando a trajetória da raça humana rumo ao florescimento de um futuro melhor. Tal é tema de sua obra máxima, a Trilogia da Fundação (Asimov 2009), onde o Conhecimento salva nossa espécie da derrocada por meio do estudo de uma disciplina que aglutinaria história, sociologia e matemática estatística, a Psico-história.
Isaac Asimov, dentre suas enumeras obras, publicou a coletânea ' Para onde vamos?' reunindo contos de vários autores para quais vislumbrou possibilidades reais de uma abordagem pedagógica no ensino de ciências. Ao final de cada conto Asimov apresenta comentários e sugestões de atividade que podem ser utilizadas ou servir de base para que o professor elabore suas próprias. Iniciativas tais como a do escritor devem inspirar professores e profissionais da
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educação para a importância do fortalecimento do saber científico aliado ao incentivo à leitura. Reflexões sobre o legado dos grandes nomes da FC podem nortear importantes contribuições em busca de uma sociedade que utilize e desenvolva de maneira correta e consciente a tecnologia cada vez mais presente em nosso cotidiano. Como forma de ressaltar o posicionamento pedagógico de Asimov, realizamos uma análise da obra como objeto de ensino-aprendizagem e como obra básica para qualquer atividade desenvolvida sobre o assunto.
## DA OBRA
Já na introdução de Para Onde Vamos? Asimov destaca sua visão quanto às possibilidades da FC como meio de fortificar o aprendizado em ciências, tendo esta importância particular na formação futura dos então aprendizes, podendo ser fator determinante na formação acadêmica e profissional destes.
De há muito considero a ficção científica como um instrumento em potencial, inspirador e útil, para o ensino. Para esta antologia, portanto, selecionei dezessete histórias que, penso eu, podem inspirar curiosidade e podem conduzir o estudante dentro dos esquemas de indagação de seu interesse particular, que mais o entusiasmem, que podem até mesmo determinar a futura diretriz da sua carreira.(ASIMOV, 1979, p.2)
Não há uma visão de obrigatoriedade de uma função educacional em uma história de ficção, o primeiro e talvez o único interesse de um autor é entreter, capturar a atenção, apaixonar o seu leitor. Não obstante a isto, e talvez muitas vezes como produto indireto do processo, a leitura abre espaço para o educador encontrar um caminho onde o conhecimento e a curiosidade científica se alimentam da própria imaginação do aluno. A ideia de Asimov esteve centrada em inspirar aqueles que são adeptos da leitura de ficção ou os que tiveram o contato com esta pela primeira vez ao ler seu livro a buscar um conhecimento além das linhas ali contidas. Tal ação parece brilhantemente tendenciosa ao ensino, pois ao professor, a despeito de qualquer outro objetivo alcançado, lhe resta um que não deve ser dispensado: o de inspirar seus alunos.
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Asimov deixa claro que não necessariamente uma história deve prezar a todo passo pela exatidão científica, seja pela intenção do próprio autor, seja pelo limite científico da época em que foi escrita. Há exemplos em que o autor, mesmo sem deixar de apreender a atenção de seus leitores, mantém-se firme quanto à exatidão dos conceitos científicos. Outros, pela necessidade de criar tensão tornando mais cativante o enredo, deixam de lado os conceitos científicos ou ultrapassam os limites que a ciência de sua época impõe. Em ambos os casos existe um gancho educacional.
O trabalho de encontrar, corrigir e discutir possíveis deslizes científicos, já em si, é uma forma de pesquisar e estudar ciência.
## O ESTUDO:
O presente trabalho foi desenvolvido com o intuito de exaltar a iniciativa do autor ao produzir um livro que ocupa sem dúvidas um lugar na prateleira de ficção científica, ao mesmo tempo em que oferece um valioso auxílio ao professor de Física. Para isso realizou-se um estudo sobre alguns dos contos do livro, tarefa mais uma vez facilitada pelo autor que se deu ao trabalho de elaborar ao final do livro um apêndice com os principais temas científicos tratados em cada conto. Escolheu-se analisar aqueles que possibilitassem a discussão sobre Astronomia e Física Moderna e Contemporânea, por serem estes assuntos com grande carência diante do que é abordado do currículo de Física dos Ensinos Médio.
O trabalho até aqui apresentado corresponde ao início de um estudo mais aprofundado sobre o conto como instrumento de ensino que pretende apresentar propostas de sua utilização apoiada nos textos de autores consagrados da história da FC. A conclusão de todas as etapas culminará no produto educacional necessário para a obtenção do título de mestre pelo programa de Mestrado Nacional Profissional em Ensino de Física.
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## CONTO SELECIONADO
Apresentamos neste trabalho o conto Noite (1935) de Don A. Stuart, na verdade um pseudônimo de John W. Campbell Jr. editor da revista Autstanding Science Fiction . A história narra um episódio de viagem no tempo vivido pelo piloto Bob que durante o teste de uma nave propelida pela antigravidade acaba acidentalmente viajado no tempo. Ele se depara com um Universo a bilhões de anos no futuro enfrentando um processo de morte térmica onde a entropia já está por atingir seu valor máximo e a vida humana a muito não mais existe. Diante do espanto e do desespero, Bob tem contato com a única forma de inteligência existente, as máquinas que ainda se mantém ativas. Enquanto aguarda o alinhamento correto do eixo magnético da Terra para que possa ser enviado de volta a seu tempo ele reflete sobre a vida no universo e a própria existência.
Os assuntos centrais abordados são a antigravidade e a viagem no tempo, temas corriqueiros em histórias de FC. Outro assunto que aparece como pano de fundo para o enredo e pode ser aproveitado são as teorias evolutivas do universo.
Asimov em seus comentários sobre o conto destaca:
'Stuart apresenta o quadro de um futuro distante, de muito depois que o Sol 'morreu'. A sua descrição dessa morte é a de um Sol frio, de um vermelho escassamente incandescente.'
'A apresentação de tal possibilidade era razoável na época em que a história foi publicada, ou seja, 1935. Desde então, entretanto, muito mais foi sendo aprendido a respeito da evolução das estrelas.' (Asimov, 1979, p. 57)
Buscamos então o gancho pedagógico deixado pelo autor e a partir deste listamos no quadro abaixo algumas possibilidades da utilização pedagógica do texto apoiado naquilo que Asimov já havia considerado ao realizar a obra, apenas buscando ações mais específicas para a realidade escolar atual.
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## ATIVIDADES PROPOSTAS
Listamos a seguir algumas sugestões de atividades propostas pelo próprio Asimov no livro para que em paralelo a estas possamos lançar mão de outras atividades mais próximas da realidade escolar atual.
'Procure informações sobre a evolução estelar e descubra o que provavelmente acontecerá ao Sol depois de atingir o seu estágio de gigante vermelho. Algumas estrelas passam pelo estágio de 'supernova' durante o curso de sua evolução? O que é uma supernova e é provável que o Sol venha em alguma época a se tomar uma delas?'
'Por que os astrônomos pensavam que o Universo não tinha mais do que dois bilhões de anos durante a década de 1930? Por que os geólogos, naquela época, insistiam em que a Terra tinha mais de dois bilhões de anos? Quando e por que os astrônomos mudaram de opinião e que idade atribuem eles ao Universo nos nossos dias?' (ASIMOV, 1979, p.58)
O início de qualquer atividade como essa pode partir de uma leitura coletiva e posterior recontagem do conto, para que o grupo de alunos possa ter a maior compreensão possível do texto. Após esta etapa os questionamentos propostos por Asimov devem ser apresentados como atividade para que os alunos desenvolvam sendo as respostas apresentadas na aula seguinte. No momento seguinte o professor deverá dividir a turma em grupos e propor as atividades (A) que estão aqui em número de quatro, que podem se repetir entre os grupos dependendo da quantidade de alunos na sala ou de alunos por grupo segundo a conveniência do professor.
## A1. Produzir um podcast com a interpretação do conto;
A2. Procurar exemplos de viagens no tempo em outras obras, filmes, livros, sérias, revistas em quadrinhos, verificando o que a ciência atual diz sobre estes eventos;
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A3. Apresentar na forma de seminário uma teoria moderna sobre a evolução do universo;
A4. Elaborar um banner na forma de um infográfico que represente as fases da evolução estelar.
A atividade A1 pode ser delegada a um grupo de estudantes que mais se identifique com artes e interpretação. Contar também com a participação de alunos que tenho bom domínio de informática tornará mais simples a tarefa de edição do arquivo de áudio a ser produzido. Existem softwares gratuitos como o Audacity que podem ser utilizados na realização desta tarefa.
As atividades restantes podem ser divididas entre os demais grupos tendo o professor como mediador. O professor de Física deve manter constante acompanhamento das turmas a fim de mediar o desenvolvimento das atividades pelas equipes.
A culminância do projeto se dará com a apresentação dos trabalhos das equipes para os demais alunos. As atividades A1 e A4 servirão como apoio para futuras aulas ou trabalhos desenvolvidos na escola deixando assim uma contribuição permanente para a escola. A partir das atividades A2 e A3 o professor deve mediar uma discussão sobre os temas abordados, permitindo o aprofundamento de ideias científicas e uma reflexão mais ampla do nosso lugar no cosmo.
## CONSIDERAÇÕES
Despertar a curiosidade, permitir que o aluno sonhe com aventuras aparentemente inalcançáveis, pode ser uma bela maneira de iniciar uma aula de Física. Apesar de citado em trabalhos relacionados ao assunto, o livro de Isaac Asimov ainda carece de maior atenção por parte da pesquisa em ensino de Física. Um resgate da obra poderia agregar uma importante peça na construção de uma cultura escolar onde a literatura e a ciência poderiam caminhar juntas.
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Segundo Silva (1998 apoud Zanetic, 2006, p. 6) 'todo professor, independente da disciplina que ensina, é professor de leitura'. Sendo a leitura uma atividade interdisciplinar, ela pode envolver diversas disciplinas. Ainda é forte no ambiente escolar o pensamento que incentivo e o desenvolvimento da leitura é papel apenas dos professores de Língua Portuguesa e áreas relacionadas. Contribuir para a formação de bons leitores traz consequências positivas a ação do professor de Física. Trazendo conteúdos muitas vezes distantes daquilo que comumente se aborda em sala para a vivência do aluno, alcançaríamos o objetivo de inspirar o gosto pelo saber científico e pela boa literatura, explicitado por Asimov.
## Referências
ASIMOV, I. Para Onde Vamos? . São Paulo: Hemus, 1979. 369p.
\_\_\_\_\_\_\_. Fundação; tradução Fábio Fernandes. São Paulo: Aleph. 239p.
\_\_\_\_\_\_\_. Fundação e o Império; tradução Fábio Fernandes. São Paulo:
Aleph. 244p.
\_\_\_\_\_\_\_. Segunda Fundação; tradução Fábio Fernandes. São Paulo: Aleph.
235p.
GOTLIB, N. B. A Teoria do Conto . São Paulo: Coletivo Sabotagem, 2004.
52p.
OSTERMANN, F.; MOREIRA, A. ATUALIZAÇÃO DO CURRÍCULO DE FÍSICA NA ESCOLA DE NÍVEL MÉDIOGLYPH<31>: UM ESTUDO DESSA PROBLEMÁTICA NA INICIAL DE PROFESSORES. Caderno Catarinense de Ensino de Física , 18, n. 2 , 135-151, 2001.
PIASSI, Luis P C; PETRICOLA, Maurício P O. De olho no futuro: ficção científica para debater questões sociopolíticas de ciência e tecnologia em sala de aula. In: Ciência & Ensino , vol. 1, número especial, novembro de 2007.
PIASSI, Luis P C; PETRICOLA, Maurício P O. Quem conta um conto aumenta um ponto também em Física: Contos de Ficção Científica na sala de aula. In: XVII Simpósio Nacional de Ensino de Física 2007.
SILVA, E. T. da S. Ciência, leitura e escola. In: Linguagens, leituras e ensino da ciência. Ed. Mercado de Letras, Campinas, 1998, págs. 121/130.
ZANETIC, João. Física e Arte: Uma Ponte Entre Duas Culturas. In: ProPosições, Vol. 17. No 1.49) jan/abr 2006.
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Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.